Amigos do Fingidor

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A poesia é necessária?



Aspiração
Agostinho Neto

 
Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo, na Geórgia, no Amazonas
 
Ainda
o meu sonho de batuque em noites de luar
 
ainda os meus braços
ainda os meus olhos
ainda os meus gritos
 
Ainda o dorso vergastado
o coração abandonado
a alma entregue à fé
ainda a dúvida
 
E sobre os meus cantos
os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado
 
Ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco
 
Ainda a minha vida
oferecida à Vida
ainda o meu desejo
 
Ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu Querer
 
E nas sanzalas
nas casas
nos subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda
 
O meu Desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.