A estética da brutalidade na obra de Vinicius Braga
Márcia Antonelli
Um tapa só. Um soco só. Um vômito só. Bom demais. Gosto do
que me atinge. Do que me atordoa. Do que me provoca o vômito de vomitar.
O desconserto. A estética do brutalismo.
Uma pegada bem Rubem Fonsequiana. Mas é claro que Vinicius Braga tem sua
própria pegada. Seu próprio estilo. Catártico. Áspero. Sem rodeios ou
indiretas. É pow, ping, vrum, schlep, schlep. Balaço no peito do leitor. Nihilo
nihil fit! Eis o Orações Malditas.
Livro de estreia desse talentoso autor que nos apresenta em seu livro, oito
contos intensos, concisos, tensionais. Todos muito bem costurados. Trabalhados.
Explorados. Contos que te prendem. Que te enjaulam. Que te causam imbróglios.
Há qualquer coisa de desconforto, de dor, de desesperança ao lê-los. A
desnatureza de cada protagonista e suas ações humanas é o que há de mais vil e
encantador em cada história presente nessas Orações Malditas. Falo sério que gostei. “Sangue do meu sangue”,
“Orações Malditas” (que dá título ao livro) e “Trinta e oito” são meus
prediletos. Sem desmerecer, é claro, os demais, que também são
arrebatadores e que te atravessam como uma bala. É que prefiro sangue do que
vinagrete, saca? E Vinicius nos oferece isso. Derrama o aperitivo dos deuses no
altar. Envenena o pólen das borboletinhas do jardim. Estoura miolos de bebês
que vomitam sangue nos seios de suas mãezinhas. Calma, calminha, calmante? Eis
os ingredientes deste livro. Vinicius Braga, faz enfim, sua estreia com
essa prosa. Arromba com os pés as portas do obsoletismo caduco da prosa
literária de Manaus, sob a égide do caos, da agonia e da barbárie humana,
sujeitos vítimas do capitalismo selvagem e das novas formas de opressão.
Sugiro, portanto, que leiam Vinicius Braga, e façam logo suas orações de
redenção antes e depois da leitura desta obra.
(Márcia Antonelli é transcritora, autora de contos, novelas,
crônicas e resenhas. Atua na vida atuando.)
