Amigos do Fingidor

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Novo livro de Marta Cortezão: uma poética cartografia de silêncios e seus diálogos


Marta Cortezão lança meu silêncio lambe tua orelha.


Marta Cortezão está com o seu terceiro livro de poemas, meu silêncio lambe tua orelha (Editora Toma Aí Um Poema/PR) em pré-venda pelo site de financiamento coletivo Benfeitoria e pode ser acessado pelo endereço https://benfeitoria.com/projeto/lambe. A campanha vai até o próximo 1º de maio.

meu silêncio lambe tua orelha revela uma poética cartografia de silêncios que suscita infindos diálogos entre as inúmeras vozes que se desviam, mas que, ao mesmo tempo, se encontram no corpo nu, flexível e dinâmico da linguagem.  Diálogos que fogem à lógica e transcendem sua corporalidade semântica bem como a essência das coisas e seus ruidosos silêncios, mas que não se esgotam, pedem mais e mais interação. Do ponto de vista literário, o livro traz uma abordagem poético-contemporânea sobre a escrita de autoria feminina e seu devir criativo, mas não somente.



A escritora Vania Clares (SP), que assina a orelha do livro, opina que meu silêncio lambe tua orelha “nitidamente nos remete ao universo feminino numa dimensão diversificada e vasta. A poeta parte das citações de outras escritoras e embrenha-se com maestria em cada palavra para escrever o poema, não só acatando o sentido na sua interpretação, mas criando um corpo que complementa as premissas. (...) Muito mais que isso, a elasticidade dos silêncios devora o corpo desde as entranhas até a alma, quando escancara a sua compreensão de mundo, vivência esta que exercita freneticamente.” 

Uma amostra da poesia de Marta Cortezão:

 

Eu não nasci rodeada de livros, e sim rodeada de palavras.

{Conceição Evaristo}

 

geossintaxe

 

com passos indecisos

percorro as sentenças

da língua que me devora

 

reviro os escaninhos

dos verbos obtusos

cuja geometria

adensa os advérbios

que florescem das pedras

 

meus sapatos sujos de pausas

deixam todas as pegadas

órfãs de sintaxe-delírio

 

onde guardei a palavra exata

com gosto de chuva? 

 

onde minha língua

se entrelaçará na tua

para cópula ardente

de neologismos?

 

quando o sexo verbal

gozará metonímias

em teu corpo metáfora

afro afrodisíaco

Afrodite de palavras?

 

A poeta, escritora e professora Lucila Bonina, ao ler o poema “geossintaxe” que compõe o terceiro poemário de Marta Cortezão, afirma o seguinte: “‘geossintaxe’ é um poema sussurrado por voz afrodisíaca: interroga, induzindo a resposta; oculta, sugerindo onde encontrar; provoca a memória silenciada a vislumbrar um futuro sonoro. Cai na alma como escudo e inspiração. É assim que me toca o poema de Marta. A força que emerge da voz poética feminina que sabe de si e de outras, da língua e do mundo, da luta e do amor.”

Nas palavras de Marta Cortezão, o livro surge “de um silêncio ancestral, social, histórico e político (...). É um compêndio de sonhos repleto de um silêncio eloquente que pede revoada, exige o movimento, o grito, a voz, o canto, a alma, o corpo com todos os seus sentidos, a dança, a liberdade para conjugar o verbo existir em toda sua amplitude, essência e intensidade (...), porque a linguagem que se (re)move em “distraído silêncio” é pássaro indomável, flana livre, foge e se desata mundo afora em busca do “fero desejo de pássaros” a esticar infinitos.” A proposta da autora é de que o livro possa ampliar o diálogo com outros olhos leitores, dedilhando outras silentes notas que, por sua vez, romperão a barragem de outros desconhecidos silêncios, “deixando seu rastro / azul de céu / no mar das coisas / inomináveis”, porque a poesia é correnteza de águas fluindo linguagens.

Os silêncios são o adubo para escrita da autora e ganham, dentro de sua textura volátil e paradoxal, liquidez e profundidade linguístico-poéticas. Para Cortezão, há silêncios que gritam, outros que sugerem, outros que cantam, outros que libertam, outros que aprisionam... Há tanta vida nos silêncios que se solidificam em nós, também nas memórias não vividas que herdamos pela linguagem... Há uma solidão sonora, fria muitas vezes, que brota das pedras, do vento, das águas, de lugares impensáveis para não dizer, mas sempre dizendo do inominável... É preciso afinar os sentidos! Há sempre tanto para essa condição real e humana de sermos tão pouco ou nada no mundo! Eis aqui o que há: silêncios, aqueles no quais nos converteremos quando tudo chegar a ser nada.

 

Sobre a autora

Marta Cortezão (@martacortezaopoeta) nasceu em Tefé, no Amazonas. É escritora e poeta. Possui publicações em antologias nacionais e internacionais. Livros de poesia publicados: Banzeiro manso (Porto de Lenha Editora, 2017), Amazonidades: gesta das águas (Penalux, 2021), Zine Aljavas para Cupido (2022). meu silêncio lambe tua orelha (TAUP, 2023) é seu terceiro livro de poesia. Colunista da Revista Literária Voo Livre. É idealizadora das Tertúlias Virtuais (Prêmio APPERJ/2021) e do blog Feminário Conexões (https://feminarioconexoes.blogspot.com/).

 

Serviço

meu silêncio lambe tua orelha (poesia, 87 p.; editora Toma Aí Um Poema/TAUP). R$ 40,00.

Pré-venda: https://benfeitoria.com/projeto/lambe

  

domingo, 16 de abril de 2023

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Terra em transe: a história como metáfora 2/3

 Zemaria Pinto

 

O filme – um resumo. O filme tem início no palácio de Vieira, governador de Alecrim. Uma crise política está instaurada. O presidente Fernandez pede a renúncia de Vieira. Paulo Martins, assessor deste, defende a resistência armada. Vieira, demagogo até consigo mesmo, derrama-se em frases de efeito, como “o sangue das massas é sagrado” (p. 288). Por fim, dita a Sara uma carta-renúncia, que é um primor de clichê, concluindo:

 

Entrego meu caminho a Deus e espero que Deus, mais uma vez, abençoe Eldorado com a sua graça divina, lançando nos corações humanos o amor que tudo une (p. 288).

 

Paulo fecha essa cena, gritando, em tom debochado: “Está vendo, Sara, quem era o nosso líder? O nosso grande líder?” A cena seguinte mostra Paulo e Sara dentro de um automóvel. Paulo, ao volante, continua falando da fraqueza de Vieira, e a defender a resistência armada, com a qual Sara não concorda, argumentando lucidamente que “não precisamos de heróis”. Paulo responde de uma maneira inusitada: “Precisamos resistir, resistir! E eu preciso cantar!... Eu preciso cantar!...” Essa fala de Paulo, deixa entrever sua angústia entre a necessidade da luta política e a necessidade da arte – ele ao meio, dilacerado. Nesse momento, eles passam sem parar por uma barreira policial; os policiais os perseguem, atirando. Paulo é ferido. A partir deste ponto, estamos entregues ao delírio de Paulo. Ainda ao volante, ele declama:

 

Não é mais possível esta festa de medalhas,

este feliz aparato de glórias,

esta esperança dourada nos planaltos!

Não é mais possível esta festa de bandeiras

com Guerra e Cristo na mesma posição!

Assim não é possível,

a ingenuidade da fé, a impotência da fé... (p. 289-290)

 

A cena seguinte é emblemática: Paulo, andando com dificuldade pelas dunas, com uma metralhadora nas mãos. Na tela, excertos de um poema de Mário Faustino. Em off, a voz de Paulo, sempre em tom declamatório:

 

Estou morrendo agora, nesta hora.

Estou morrendo neste tempo

Estou correndo meu sangue e minhas lágrimas. (p. 290)

 

Pontuado por fragmentos de poemas de Paulo Martins, tem início o flashback que se estende até o final da película. Paulo começa a repassar sua vida, sem precisar desde quando, lembrando-se de Dom Porfírio Diaz, seu ex-mentor, desfilando em carro aberto, com um crucifixo e uma bandeira negra, numa associação eloquente com o fascismo. Na sequência, a representação mítica do início de tudo: empunhando a bandeira negra, Diaz chega do mar, com um padre e um “conquistador português”, interpretado por um conhecido participante de desfiles carnavalescos, Clovis Bornay, vestido como se fora entrar em uma passarela de fevereiro ou março. Eles são recebidos por um nativo também vestido de forma espalhafatosa.  Deliberadamente, o filme brinca com esses níveis de representação. A “primeira missa”, como ficou conhecida essa cena, é uma farsa deliberada, como a afirmar que a história de Eldorado cabe num desfile de escola de samba.

A próxima lembrança mostra o rompimento entre Paulo e Diaz, logo após a eleição deste para o senado. Paulo está cansado de seguir Diaz, e parece querer retornar à poesia. Uma personagem, Sílvia, poderia ser o pivô da decisão, pois ficamos sem saber com qual dos dois ela se relaciona. Talvez, com ambos.

A cena seguinte mostra a nova vida de Paulo Martins, em Alecrim, na redação do jornal Aurora Livre. O nome do jornal, aliás, merece uma reflexão: em tempos de censura, um jornal com esse título, um tanto romântico, é uma clara ironia. É o primeiro encontro entre Paulo e Sara. Aqui, temos algo curioso, que funciona como um libelo antinaturalista: a entrada de Sara é mostrada duas vezes, em planos separados e distintos, como a enfatizar a importância daquele acontecimento. Sara mostra a Paulo fotografias de crianças em estado de penúria, fala em crianças sem escolas, hospitais repletos, donativos insuficientes; diz que é preciso fazer alguma coisa, ao que Paulo contrapõe: “Precisamos de um líder político, isto sim...” (p. 293) O passo seguinte é contatar Dom Felipe Vieira, o candidato a ser articulado pelos dois. Nesse encontro, regado a vinho, começa também a intimidade entre Paulo e Sara.

É importante observar que Paulo e Sara não são paladinos a serviço de um sonho de justiça social. Estão, sim, ligados a uma entidade jamais nominada no filme, historicamente identificada com o Partido Comunista Brasileiro – o “Partidão”. Trabalhando nos bastidores da ilegalidade, o PCB apoiava líderes populistas, como um estágio necessário para chegar ao poder por moto próprio. Por outro lado, a relação entre Paulo e Sara metaforiza a crise vivida pela esquerda brasileira, dividida entre a luta armada e a resistência pacífica.

A sequência de cenas mostra flagrantes da campanha de Vieira, até que Paulo nos informa, em off, que Vieira vencera as eleições; entretanto, Paulo se pergunta “como responderia o governador eleito às promessas do candidato?” (p. 295). A resposta vem logo em seguida: uma concentração de camponeses revoltados, pois estão tentando tomar-lhes as terras, que ocupam há mais de 20 anos. Felício, o líder, falando com Vieira, ameaça resistir:

 

A gente acredita no sinhô, mas se a Justiça decidir que a gente deve deixar as terra, a gente morre mas num deixa não! (p. 296)

 

Paulo tenta intervir, pedindo “respeito” ao governador. Os dois discutem, Paulo agride Felício, derruba-o no chão. O povo se agita, mas é contido pela força policial. A voz de Felício ecoa: “Doutor Paulo, o sinhô era meu amigo!” (p. 296). Na cena seguinte, na casa de Paulo, ele discursa para Sara, bêbado, analisando o comportamento do “povo”, a partir da figura de Felício:

 

E eu fui lá, bati num pobre camponês porque ele me ameaçou... (...) Mas ele era tão covarde e tão servil! E eu queria provar que ele era covarde e servil... A fraqueza... gente fraca... sempre... gente fraca e com medo... (p. 297)

 

A próxima cena é simbólica: os camponeses rezam ao som de tiros, até que a câmera mostra o cadáver de Felício. Marinho, assessor de Vieira por indicação de Paulo, grita em alto e bom som que “o assassino trabalha pro governo!” (p. 297) Instalada a crise, Vieira descarta a prisão do Coronel Moreira, tido como o mandante do crime: questões políticas o impedem. A discussão com Paulo é violenta. Vieira rejeita romper os compromissos com quem financiou sua campanha, alegando que as bases, as massas, sabiam desses compromissos. Paulo, sempre grandiloquente, questiona Vieira: “E eu? E Sara? E os estudantes? Conseguimos o apoio das massas para quê?” (p. 298) Vieira ordena a repressão policial, para conter a revolta popular.

A cena seguinte mostra um Paulo expressionista, na sua dor caricata: “Pois eu recuso a certeza, a lógica, o equilíbrio...” (p. 300) Sara é seu oposto: racional, equilibrada. Com o olhar fixo na câmera, comunicando-se diretamente com a plateia, quase sussurrando, em nova empreitada antinaturalista, ela faz um discurso feminista numa época em que esse conceito ainda não era moda:

 

Eu queria me casar ter filhos, como qualquer outra mulher! Eu fui lançada no coração do meu tempo, eu levantei nas praças meu primeiro cartaz, eles vieram, fizeram fogo, amigos morreram e me prenderam e me deixaram muitos dias numa cela imunda com ratos mortos, e me deram choques elétricos, me seviciaram e me libertaram com as marcas (...) E se foram a casa, os filhos, o amor... as ambições normais de uma mulher normal... (p. 300)  

 

Na mesma sequência, mas num outro plano, respondendo ao convite de Paulo para que deixem tudo aquilo para trás, conclui que “a política e a poesia são demais para um só homem” (p. 300). Paulo responde com um poema; Sara replica com outro. Paulo conclui: “A poesia não tem sentido... Palavras... As palavras são inúteis...” (p. 301)

As cenas que se seguem é de um Paulo Martins perdido de si mesmo, vagando por Eldorado, a capital, participando de orgias patrocinadas pelo empresário nacionalista Julio Fuentes, e reencontrando Sílvia, que está casada com Álvaro, assessor de Fuentes: “Apenas a carne me ardia e nela eu me encontrava.” (p. 301)

Sara, acompanhada de Aldo e Marinho, da equipe de Vieira, visitam Paulo em sua casa. Ele está na companhia de Sílvia e a apresenta como sua amante. Sara, em nome de Vieira, pede que ele volte, para dar continuidade ao trabalho. Propõe também que Paulo, usando a imprensa de Fuentes, ataque Diaz, para enfraquecê-lo junto à Explint, a multinacional que o apoia. A proposta significa uma traição a Diaz, de quem Paulo fora íntimo, conhece-o como ninguém, e com quem rompeu por questões ideológicas.


Cenas de Terra em transe.


Mas Vieira ainda é a sua última esperança política, a esperança de uma mudança em benefício do povo. É preciso ligá-lo ao poder econômico de Fuentes, para anular Diaz e a Explint. Paulo, então, procura Fuentes e tenta convencê-lo de atacar Diaz, argumentando que seria uma forma de derrotar a multinacional imperialista, que é quem realmente manda em Eldorado: mantém o presidente Fernandez no poder e pode trocá-lo a qualquer momento – por Diaz, por exemplo. Fuentes concorda com o ataque a Diaz, dando plena liberdade a Paulo, que, em off, a voz do delírio, admite que ia começar “uma aventura política” cujas consequências não conseguia imaginar. Nesse momento, há um corte para a “realidade”: Paulo, ferido, arrastando-se nas dunas, e a voz em off, declarando:

 

Só de uma coisa eu sabia, Sara: eu ia por amor a você; embora eu estivesse longe eu lhe amava mais do que o próprio ódio que eu sentia por Eldorado. E destruir Diaz, Sara, era estar livre e voltar para você... Voltar para as promessas de Vieira, acreditar no seu amor à pátria. (p. 308)

 

Essa fala é outra chave do texto. Paulo é um poeta anacrônico, com a cabeça no século XIX, um romântico. Sua revolução é, antes de mais nada, por amor... Em uma elipse, entra no ar o programa de televisão produzido por Paulo Martins: Biografia de um aventureiro. O programa começa mostrando imagens variadas, de Diaz, quase sempre ridículas, caricatas. Em off, a voz de Paulo Martins, estridente e sensacionalista – sem o tom trágico-teatral da personagem, com o qual convivemos até ali –, mostra a trajetória de Diaz de líder estudantil a traidor de todas as causas que abraça, sempre em favor de quem assume o poder; fala também de sua relação com a Explint, desde negócios escusos, por ele intermediado, até o apoio às suas sucessivas eleições. Mostrando o poder de manipulação do veículo, sobre uma cena em que Diaz sorri ostensivamente, a voz em off diz: “...Eis quem é a imagem da virtude e da democracia; eis quem é o pai da pátria...”[1]  Outra elipse mostra Paulo Martins arrependido, tomado pelo remorso, na casa de Porfírio Diaz, que tem uma pistola na mão. Diaz faz um discurso contra a traição de Paulo; os dois discutem:

 

Diaz: Estamos podres pelos crimes que cometemos...

Paulo: Que você cometeu!

Diaz: Lavei as mãos no sangue, mas, no entanto, fui humano!

Paulo: O sangue dos estudantes, dos camponeses, dos operários!

Diaz: O sangue dos vermes! Lavamos nossa alma, purificamos o mundo!

Paulo: As nossas riquezas, as nossas carnes, as vidas, tudo. Vocês venderam tudo! As nossas esperanças, o nosso coração, o nosso amor, tudo! Vocês venderam tudo! (p. 310)

 

Diaz chega a encostar a pistola na cabeça de Paulo. Este, sempre de maneira teatral, esquiva-se atrás de imensas colunas. Os dois se encontram, lutam, rolam escada abaixo. Paulo espanca Diaz e deixa-o no chão, soluçando.

A cena que se segue, sob a legenda “Encontro de um líder com o povo” (p. 311), mostra uma festa promovida por Vieira, na área externa de seu palácio. O povo dança ao som do samba, carnavalizando o “protoshowmício”. O padre Gil,[2] aliado de Vieira, e um senador fazem apologias ao colonialismo e oferecem seu apoio ao governador de Alecrim. Vieira mal pode andar no meio da multidão eufórica. À parte, Sara incrimina Paulo como responsável por aquela desordem: “Você jogou Vieira no abismo...” (p. 312) O paralelo com acontecimentos então recentes na história do Brasil era claro: o comício da Central do Brasil, a 13 de março de 1964, estopim para o golpe militar que se consumaria 19 dias depois. Sara insta Jerônimo, líder sindical, a falar, o que seria impossível naquela balbúrdia. Aldo dispara a metralhadora para cima. Jerônimo fala olhando diretamente para a câmera, para nós. Seu discurso é pífio. Paulo tapa-lhe a boca com a mão, falando também para a câmera:

 

Estão vendo o que é o povo? Um imbecil, um analfabeto, um despolitizado! Já pensaram Jerônimo no poder? (p. 313)

 

Um homem do povo, maltrapilho, pede a palavra e desqualifica Jerônimo, afirmando que “o povo sou eu que tenho sete filhos e não tenho onde morar!” (p. 313) Ele é execrado pela multidão, aos gritos de “Extremista! Extremista!” (p. 313) Um segurança esmurra-o no ventre, passa uma corda em torno do seu pescoço e mete o cano de um revólver em sua boca. A morte do homem encerra a festa. Aldo e um estudante repetem várias vezes, a um Paulo Martins transtornado, como um refrão: “A irresponsabilidade política! Seu anarquismo! A irresponsabilidade política! Seu anarquismo!” (p. 314) Diante da inevitabilidade da intervenção federal, Vieira assume seu papel histórico, perante Paulo e Sara:

 

Eu recuei várias vezes, adiando problemas do presente para pensar no futuro. Mas se eu transfiro o presente para o futuro encontrarei apenas um futuro acumulado de maiores tragédias. Por isso temos a necessidade de começar a enfrentar agora os inimigos internos e externos de Eldorado! Unir as massas! Romper de vez! Deixar o vagão correr solto! (p. 314-315)

 

A sequência mostra Dom Porfírio Diaz tentando convencer Julio Fuentes a apoiá-lo em um golpe contra o presidente Fernandez, antes que Vieira ganhe as eleições e enterre de vez as pretensões de todos. A lógica de Diaz é que, uma vez Vieira no poder – o povo no poder! –, Fuentes será isolado. Para que o golpe dê certo, é preciso que a Explint participe, numa representação da união entre o capital multinacional e o empresariado nacionalista, cujo maior valor é Julio Fuentes. Álvaro, que a tudo assiste, conta a Paulo o encontro e o acordo. Na sua avaliação, a união das três forças – Explint, Diaz e Fuentes – representa o fim de Vieira. Álvaro diz que Paulo só tem dois caminhos: alia-se com a nova força ou parte para o exílio. “Telefone a Julio e venda a alma.” (p. 318) Mas Paulo está decidido: “Irei com Vieira até o fim.” (p. 318). Álvaro, angustiado com a traição de Fuentes, suicida-se.

Representando a campanha em curso, uma série de pequenas cenas mostra, alternadamente, Vieira, sempre no meio do povo, e Diaz, sozinho e com a bandeira negra e o crucifixo nas mãos. A simbologia é clara: o povo está com Vieira, que fala a sua linguagem; Diaz, falando sozinho, alicerça seu discurso em três pilares: Deus, Pátria e Família. A alusão à TFP – Tradição, Família e Propriedade, organização de extrema direita que apoiou a ditadura militar no Brasil – é transparente.

Neste ponto, voltamos ao início da trama, início do filme, no palácio de Vieira. De maneira concisa e rápida, os diálogos repetem-se, com pequenas variações, até a fala de Paulo, debochando de Vieira, que se recusou a resistir. Da mesma forma, repete-se a cena dentro do carro, a passagem pela barreira, os tiros. Em paralelo, toma forma a coroação de Dom Porfírio Diaz, pelo carnavalesco Conquistador Português e sua entourage, vestida a caráter, isto é, para um desfile de escola de samba. Trata-se, claro, de uma metáfora: Diaz torna-se ditador. Enquanto o ritual se desenrola, Paulo, ferido, sobe as escadas, dramaticamente, de costas, com a metralhadora em punho, recitando:

 

Ah, não é possível acreditar que tudo isso seja verdade!

Até quando suportaremos?

Até quando além da fé e da esperança suportaremos?

Até quando além da paciência e do amor suportaremos?

Até quando além da inconsciência? (p. 323-324)

 

No seu delírio, Paulo atira em Diaz. No mesmo instante – utilizando-se de cortes que superpõem uma cena a outra –, na rodovia, próximo à praia, um breve retorno à realidade:

 

Sara: O que prova a sua morte? O quê?

Paulo: O triunfo da Beleza e da Justiça! (p. 324)

 

Durante essa breve fala de Paulo, por não mais que alguns fotogramas, passam-se algumas cenas significativas, no local da coroação: aparecem pessoas do povo; Paulo levanta a coroa e deixa-a cair. Mas, logo em seguida, o Conquistador Português deposita a coroa na cabeça de Dom Porfírio Diaz, que discursa com uma ênfase enlouquecida:

 

Dominarei esta terra, botarei estas histéricas tradições em ordem! Pela força, pelo amor da força, pela harmonia universal dos infernos chegaremos a uma civilização. (p. 324)

 

Nas dunas, ao som de tiros, sirenes e bombardeios, Paulo empunha a metralhadora, aponta a arma para o infinito, e dobra os joelhos, lentamente.

 



[1] Essa fala não está no roteiro em livro. No DVD, a cena desenrola-se entre 1h 08min 19s e 1h 08 25s.

[2] Em nenhum momento do roteiro ou do filme o padre é nomeado; entretanto, nos letreiros finais, o nome da personagem aparece associado ao nome do ator Jofre Soares. Segundo Luiz Carlos Barreto, no documentário citado, isso aconteceu por imposição de um censor: se o padre não tivesse um nome, estaria representando toda a igreja católica – o que era, aliás, a intenção do roteirista-diretor.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

A poesia é necessária?

 

Arte poética

Jorge Luis Borges (1899-1986)

 

Mirar o rio, que é de tempo e água,

E recordar que o tempo é outro rio,

Saber que nos perdemos como o rio

E que passam os rostos como a água.

 

E sentir que a vigília é outro sonho

Que sonha não sonhar, sentir que a morte,

Que a nossa carne teme, é essa morte

De cada noite, que se chama sonho.

 

E ver no dia ou ver no ano um símbolo

Desses dias do homem, de seus anos,

E converter o ultraje desses anos

Em uma música, um rumor e um símbolo.

 

E ver na morte o sonho, e ver no ocaso

Um triste ouro, e assim é a poesia,

Que é imortal e pobre. A poesia

Retorna como a aurora e o ocaso.

 

Às vezes, pelas tardes, uma face

Nos observa do fundo de um espelho;

A arte deve ser como esse espelho

Que nos revela nossa própria face.

 

Contam que Ulisses, farto de prodígios,

Chorou de amor ao avistar sua Ítaca

Humilde e verde. A arte é essa Ítaca

De um eterno verdor, não de prodígios.

 

Também é como o rio interminável

Que passa e fica e que é cristal de um mesmo

Heráclito inconstante que é o mesmo

E é outro, como o rio interminável.

 

 (Trad. Rolando Roque da Silva)

 

terça-feira, 11 de abril de 2023

Feriados de abril

 Pedro Lucas Lindoso

 

Abril costuma ser um mês “curto”. Não só porque tem trinta dias. Temos pelo menos dois feriados importantes. A Paixão de Cristo e Tiradentes. Nas escolas católicas temos ainda a Pascoela. É feriado na segunda-feira após o domingo de Páscoa.

E logo que abril termina temos o primeiro de maio, um feriado mundial, exceto nos Estados Unidos que comemora o Dia do Trabalhador em setembro. 

Em bom português do Brasil, sexta-feira Santa é sempre um feriadão porque é sempre na sexta-feira. Eu, particularmente, não gosto de comemorar esse feriado passeando. Perdi dois amigos em desastre de carro nessa época. Vindo de uma família católica, na sexta-feira da Paixão não se podia fazer algazarra. Era dia de jejum e abstinência. Não se deveria nem mesmo falar alto.

Já o 21 de abril sempre foi muito festivo. Morei muitos anos em Brasília. Meus filhos são brasilienses. Somente um determinado ano não se comemorou efusivamente o aniversário da cidade. Quando da morte de Tancredo Neves. Primeiro presidente civil depois do período de ditadura militar. Houve uma comoção nacional.

Meus filhos eram pequenos. Resolvi levá-los para Minas Gerais para conhecer Ouro Preto. Estavam fazendo uma enorme confusão histórica com o 21 de abril. Misturando Juscelino Kubistchek, Tancredo Neves e Tiradentes. Todos mineiros. A Semana Santa havia sido a anterior. Jesus seria mineiro também? Não. Ele nasceu em Belém. Também não era paraense. Jesus nasceu em Belém da Judéia, muito longe do Brasil. 

Uma das coisas complicadas para ensinar história para as crianças é justamente a questão de datas. O tempo é uma abstração muitas vezes difícil para as crianças compreenderam. Jesus nasceu há dois milênios. A Conjuração Mineira foi um movimento emancipacionista que aconteceu em Minas Gerais no ano 1789, durante o Período Colonial brasileiro.

Tancredo Neves foi eleito presidente em 1985. No entanto, adoeceu gravemente em 14 de março do mesmo ano, véspera da posse. Em 21 de abril, morreu aos 75 anos.

Juscelino Kubistchek inaugurou Brasília também em 21 de abril. Em 1960, transferindo a capital do Rio de Janeiro para o Planalto Central.

Neste ano, o 21 de abril cai numa sexta-feira. Teremos um bom feriadão. E democrático. Quando cai em outro dia da semana, nem todos podem “emendar”. Aproveitem bem o feriadão. Aos que vão viajar de carro, todo cuidado é pouco. Tem chovido muito e as estradas estão perigosas.

 

domingo, 9 de abril de 2023

Manaus, amor e memória DCXIII

 

O Liceu chamou-se Escola Técnica Federal e hoje é IFAM.

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Terra em transe: a história como metáfora 1/3


Zemaria Pinto[1]

 

 

Transe é crise e é passagem. Terra em transe, o filme mais emblemático da frágil cinematografia nacional, é uma alegoria neobarroco-expressionista sobre acontecimentos contemporâneos – da América Latina, do terceiro mundo – na década de 1960. Pouco mais de 50 anos passados, palavras como “alegoria” e expressões como “terceiro mundo” parecem tão distantes no tempo quanto a ideia de juntar barroco e expressionismo sem o prefixo que lhes confere status de coetâneos. Pois Terra em transe é um filme excepcionalmente atual, na medida em que os conflitos existenciais do protagonista Paulo Martins são os mesmos vividos hoje (e, talvez, sempre) por intelectuais divididos entre um ideal anárquico-romântico-cristão, de servir ao povo e ao país, e a luta política de bastidores, onde a ética põe-se de quatro passivamente diante da sordidez dos interesses pessoais.

Aos 28 anos, Glauber Rocha[2] faz, em 1967, um filme que ele mesmo chamaria de repulsivo (ROCHA, 1981, p. 91, apud MACIEL, 2000, p. 58), não se referindo ao filme como objeto estético, mas ao seu conteúdo, que exteriorizava as angústias de um continente sob a tutela de ditadores ou de líderes populistas, cujo ódio à arte era materializado na censura inapelável. O próprio Glauber, justificando sua obra, diria que “Terra em transe não é um filme político; é um filme sobre política.”[3] O filme alegoriza a América Latina e a tensão permanente de golpe militar ou guerra civil que se abate sobre cada país do continente, mesmo os que, à época, viviam sob regimes “democráticos”. Essa tensão está presente até mesmo no uso da câmera de mão, acentuando o nervosismo narrativo do filme. Ao clima de terror permanente, Glauber Rocha contrapõe uma inusitada visão poética, exacerbada e grotesca, mas não inverossímil, porque a personagem Paulo Martins consome-se num inferno particular entre o desejo da poesia e a necessidade da ação política. Barroco nas antíteses, expressionista na realização antinaturalista e na postura da personagem central, Terra em transe utiliza-se de uma espécie de “carnavalização” cinematográfica, onde o aparente caos narrativo e o discurso rebuscado parecem tirados de um alucinado desfile de escola de samba.


Dialética da desesperança. O caráter didático de Terra em transe provocou polêmicas. Personagens esquematizadas, planas, previsíveis, compondo a alegoria de Alecrim, província de Eldorado, “país interior, atlântico”, resumo de uma república latino-americana. Eldorado é também a capital do país, onde são tomadas as grandes decisões e onde se ancora o poder financeiro. Poderia ser o Brasil, a Argentina ou a Bolívia – países sob o jugo de ditaduras. Mas poderia ser o Chile, o Uruguai ou o Peru, que viriam conhecê-las, ou reencontrá-las, na década seguinte, vivendo aquela época sob constante ameaça. A dialética glauberiana, sob o disfarce estético do filme, é clara: o povo precisa de líderes que o conduzam ao poder; mas, uma vez no poder, os líderes não precisam do povo. A síntese desse paradoxo é a desesperança. Um discurso fascista, acusava a esquerda; niilismo comunista, atacava a direita. Obra de modernidade indiscutível, pela sua inserção em temas tão atuais, que ainda hoje se mantêm vivos, o uso da alegoria – um recurso desprezado pelas vanguardas da primeira metade do século XX – é um anacronismo que não se dissocia do filme, desde a cena que marca o início do delírio de Paulo Martins: a “primeira missa”, representação mítica da chegada do conquistador estrangeiro, ao som de batuques ancestrais. Parece que a intenção é mesmo levar o filme para o terreno do desfile das escolas de samba, onde o termo alegoria tem um sentido bem pop.

Analisando o roteiro de Terra em transe, o primeiro ponto a ser tocado é com relação à primeira legenda, que aparece superposta a imagens aéreas do mar, de matas e montanhas, entre parênteses, tendo ao fundo um tema de candomblé: 

(ELDORADO, PAÍS INTERIOR, ATLÂNTICO) 

É a antítese deflagradora da fábula, uma vez que “interior” e “atlântico” são vocábulos que não se tocam; logo, Eldorado, uma alegoria da América do Sul, identificado com o Atlântico, só poderia representar Brasil, Uruguai, Argentina, Venezuela ou as Guianas. Mas não é isso que me causa desconforto, pois, para a trama, Atlântico ou Pacífico é questão que não tem influência decisiva. Em entrevista apensada ao DVD, o diretor de fotografia Luiz Carlos Barreto diz que a orientação de Glauber era de que nenhuma paisagem poderia identificar o lugar de filmagem, preservando-se o caráter simbólico de Eldorado[4] – é bem verdade que algumas placas de lojas aparecem escritas em bom português. Entretanto, a locução “país interior” parece-me ser uma das chaves para a compreensão do filme. Interior a quê? Interior em relação ao quê? Se é atlântico não pode ser interior. Logo, e considerando que o ponto de vista narrativo do filme é de Paulo Martins, Eldorado, país atlântico, é uma projeção daquela personagem, não apenas da sua memória, mas do seu desejo mais íntimo – pela poesia, pela ação política e até seu desejo por Sara, resumidos em três palavras: “fome do absoluto...” (ROCHA, 1985, p. 300).[5] O delírio de Paulo Martins, que pontua quase toda a ação do filme, é um contraponto entre esse desejo e o remorso pela traição a Diaz, seu “Deus da juventude” (p. 290), responsável indireto pela sua morte, e, por conseguinte, pelo seu delírio.

Tecnicamente, o enredo de Terra em transe começa em ultima res, passa por um longo flashback, até voltar ao ponto de partida. Ao flashback, somam-se duas cenas que não correspondem à “realidade”; antes, são frutos do delírio de Paulo Martins, que, ferido, agoniza: a cena da “primeira missa”, com um toque de reconstituição mítica do passado; e a cena da coroação de Dom Porfírio Diaz, que se passaria, se verdadeira, após a morte de Paulo. Logo, é um flashfoward, dentro do delírio da personagem, encerrando a trama numa totalidade fechada. 

Farei um resumo do filme, que poderá não parecer tão sintético quanto seria de se desejar. Essa escolha, entretanto, tem uma finalidade objetiva: demonstrar que o roteiro de Terra em Transe não tem nada de ininteligível, confuso, caótico ou desconexo, como boa parte da crítica – inclusive favorável – o classificou:

 

Terra em transe é a obra-prima da indisciplina narrativa, o clímax da antitécnica – é o caos, ou só um disparate. (VIANA, 1985, p. 25)

 

É um filme contra, feio, confuso, até mesmo mal articulado no seu roteiro, dissonante, carnavalesco em Alecrim e melodramático em Eldorado. (LEITE, 1985, p. 26)

 

Glauber Rocha dirige Terra em transe.



Este ensaio será postado em três partes, todas as sextas-feiras, até 21 de abril.



[1] Do livro A história como metáfora e outros ensaios amorosos. Manaus: Reggo/AAL, 2018. p. 101-117.

[2] Glauber Rocha nasceu a 14 de março de 1939, em Vitória da Conquista, na Bahia. Faleceu, aos 42 anos, no Rio de Janeiro, no dia 22 de agosto de 1981. Entre 1961 e 1980, realizou dez longas-metragens.

[3] No documentário Depois do transe, apenso ao DVD, o diretor de fotografia do filme, Luiz Carlos Barreto, cita essa frase de Glauber, como parte do “press book” do filme: entre 56min 02s e 56min 34s.

[4] Documentário Depois do transe: entre 37min 40s e 38min 23s.

[5] Com exceção daquelas assinaladas, todas as citações do roteiro de Terra em transe têm uma mesma fonte, mencionada nas Referências. Deste ponto em diante, citarei apenas as páginas onde as mesmas se encontram.

 

quinta-feira, 6 de abril de 2023

A poesia é necessária?

 

As rochas e as estrelas

Inácio Oliveira

 

Tenho observado longamente

as rochas e as estrelas

e só vejo duas saídas:

ou me desespero

ou agradeço.

Porque quando ela vier,

pois é certo que ela virá,

de que modo vou chegar ao portão

com mãos vazias.

As rochas e as estrelas serão as mesmas,

só o homem entre os elementos, perece.

Como seguirei se não for grato,

como ficar sem ser consumido

em desespero.

 

terça-feira, 4 de abril de 2023

Mente-se todo dia

Pedro Lucas Lindoso

 

No dia primeiro de abril comemora-se o dia da mentira, como todos sabem. Pensei que fosse somente aqui no Brasil. Mas não! Muitos países adotaram esse dia para brincar e celebrar a data. Há uma teoria de que o primeiro de abril surgiu na França. Lá os trotes são conhecidos como “plaisanteries”.

Eu me divirto muito nesse dia. Não deixo de curtir as “plaisanteries”, como dizem os franceses. No primeiro de abril é comum e até saudável passar pequenos trotes inocentes tais como: Olha uma barata aí! O pneu do teu carro está furado! Ganhamos na loteria. São pequenas mentiras palatáveis e servem para se comemorar a data.

O primeiro de abril no Brasil começou a ser difundido em uma revista chamada A Mentira. O periódico jocoso foi lançado em primeiro de abril de 1828, com a notícia do falecimento de dom Pedro, desmentida no dia seguinte.

Em tempos de fake news muitos mentirosos se comprazem diariamente em espalhar fatos mentirosos ou acabar com a reputação das pessoas espalhando inverdades pela internet.

Há a mentira branca, de conveniência e por educação. Encontrei em Brasília um amigo de infância. Estava velho, gordo e careca. Foi um cara boa pinta na juventude. Disse-lhe que estava a mesma coisa. Ele riu. Acho que exagerei. Nem era primeiro de abril.

Além das fake news, há mentiras praticadas por narcisistas sociopatas. Eles mentem sobre si e sobre circunstâncias para ludibriar os outros. Tirar vantagens. Ora se promovendo. Ora se fazendo de vítimas. São perigosos. A grande verdade é que todo mundo mente. E se mente muito. O quanto exatamente é um dado bastante variável. Mesmo aquelas pessoas que dizem não mentir falam uma lorota, com certa frequência. A maior mentira é dizer que não mente. E por que mentimos tanto? A resposta de especialistas é clara: para conviver melhor com os outros e com nós mesmos.       

Mentiras leves são aceitas até para se conviver bem em sociedade. Mesmo porque temos rituais de convivência. Não podemos, nem sempre, ofender ou magoar alguém em nome de uma verdade em algumas situações. Somos obrigados a agir com polidez, caso contrário, você pode ser tachado de insensível, mal educado e até grosseiro. Na verdade, há uma pressão interna para sermos cordiais. O fato é que mesmo não sendo o dia da mentira, todo mundo mente. Mente-se todo dia.

  

domingo, 2 de abril de 2023

Manaus, amor e memória DCXII


Faculdade de Direito do Amazonas.