Amigos do Fingidor

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Representações da Amazônia na relação de Carvajal: devaneio e mistificação 7/8

Zemaria Pinto

 

O mito redivivo. O mito das Amazonas remonta a Heródoto, no século VI a.C.:

 

Nas margens do Thermodon, perto do mar Negro, viviam tribos de mulheres guerreiras, as Amazonas, que tinham invadido uma grande parte do Oriente Próximo, apoderando-se de Éfeso, Esmirna, Pafos e outras cidades. (MAGASICH-AIROLA e DE BEER, p. 155)

 

Virgílio, na Eneida, coloca Pentesileia, a rainha das Amazonas, lutando ao lado dos troianos. Um dos doze trabalhos de Hércules foi tomar o cinto de Hipólita, rainha das Amazonas. Alexandre Magno as visita no Thermodon. Marco Polo, no século XIII da nossa era, dá testemunho do reino de Resmacoron, fronteira com a Índia, onde havia uma ilha habitada exclusivamente por mulheres e outra por homens. Colombo anota em seus Diários notícias sobre a existência de ilhas similares na América – que, então, ele pensava ser a Ásia. Na segunda viagem à América, a frota de Colombo chega a ser atacada por uma “nuvem de flechas” lançadas por “um grupo de mulheres”, nas Antilhas. Antonio Pigafetta, cronista da expedição de Magalhães, também escreve sobre uma ilha só de mulheres. Gonzalo de Oviedo, na sua Historia General y Natural de las Indias, menciona a existência, nas terras do Novo Mundo, de regiões onde as mulheres “são senhores absolutos (...) e praticam armas (...) como essa rainha chamada Orocomay.” De Colombo para cá, nenhum narrativa sobre as amazonas é tão extraordinária quanto a de Carvajal – pois ele, somente ele, as viu (MAGASICH-AIROLA e DE BEER, p. 157-170).   

Mas as amazonas, o eldorado e o país da canela são apenas alguns dos mitos transladados para o continente americano: o Paraíso Terrestre era um dos objetivos de Colombo, que acreditou estar muito próximo a ele; os índios da América foram tomados pelas tribos perdidas de Israel; a Fonte da Juventude foi em vão procurada; ilhas fabulosas e seres fantásticos também povoaram a imaginação de viajantes e cronistas. Para aqueles aventureiros, todas as fantasias poderiam se tornar realidade no Novo Mundo. Adaptando-se a classificação de Vico relativa às três idades pelas quais passou a humanidade, inferimos que os europeus já estavam na idade dos homens, mas não se desvencilhavam da memória maravilhosa das aventuras vividas na idade dos heróis – para tanto, precisavam encontrar um lugar onde ainda se vivia na idade dos deuses (VICO, p. 24).

Continuemos nossa viagem.

Na noite do dia 25 junho, as embarcações ancoraram “já fora de qualquer povoação, em um carvalhal, que havia em uma grande planície, perto do rio” (p. 65). Nesse pouso, resolveu o Capitão interrogar o “índio trombeteiro”, capturado durante a refrega com as amazonas, “porque já o entendia por um vocabulário que havia feito”. Em menos de 24 horas, portanto – sem dormir e, talvez, sem se alimentar, verdadeiramente extenuado –, o intrépido Capitão Orellana ainda tivera forças – e tempo! – para aprender novo idioma.

Após explicar que aquelas mulheres residiam no interior, “a umas sete jornadas da costa”, e por ser o senhor daquelas terras súdito delas, por isso “tinham vindo guardar a costa” (p. 65-66), o índio foi submetido a um interrogatório, onde se sobressai um estilo enxuto e conciso, divergente do Carvajal um tanto prolixo e às vezes confuso com o qual nos acostumamos ao longo da narrativa. Infelizmente, o texto é muito extenso – duas páginas – para ser citado na íntegra. A formação discursiva adotada pelo dominicano consiste num empilhamento de frases, seguindo um padrão muito parecido com o que hoje identificaríamos como um interrogatório policial: “Perguntou o Capitão (...) Respondeu o índio (....)” ou “Perguntou o Capitão (...) Disse o índio (...) Disse mais (...)” (p. 66-67). Como resultado, temos um autêntico inventário dos elementos constitutivos do mito das amazonas. Enumeremo-los, na ordem em que aparecem no texto:

 

1 – aquelas mulheres não são casadas;

2 – vivem no interior, longe da costa;

3 – pelos nomes, o informante sabia de setenta aldeias só de mulheres, e os contou diante de todos;

4 – essas aldeias são de pedra e têm portas;

5 – de uma aldeia a outra há caminhos cercados de um e outro lado e de distância em distância, com guardas, para que ninguém entre sem pagar direitos;

6 – elas engravidam e parem;

7 – elas coabitam com índios, de tempos em tempos;

8 – quando lhes vem o desejo, promovem uma guerra e trazem os homens que lhes agradam;

9 – quando emprenham, mandam-nos de volta às suas terras;

10 – se nascer um menino, o matam e o mandam ao pai;

11 – se é menina, a criam com grande solenidade e a educam nas coisas da guerra;

12 – entre todas as mulheres, há uma que domina e tem todas as demais debaixo da sua mão e jurisdição, a qual se chama Conhori;

13 – há em suas aldeias imensa riqueza de ouro e prata;

14 – as senhoras principais possuem um serviço todo de ouro ou prata, enquanto as plebeias se servem em vasilhas de pau ou de barro;

15 – na capital ou principal cidade, onde reside a senhora Conhori, há cinco casas muito grandes, que são adoratórios e casas dedicadas ao sol, chamadas caranaí;

16 – essas casas são assoalhadas no solo à meia altura e os tetos são forrados de pinturas de diversas cores;

17 – nessas casas, elas têm ídolos de ouro e prata em figura de mulheres, e muitos objetos de ouro e prata para o serviço do sol;

18 – elas andam vestidas de finíssima roupa de lã, porque há nessa terra muitas ovelhas do Peru;

19 – seu trajar é formado por umas mantas apertadas dos seios para baixo, o busto descoberto, e uma espécie de manto, atado na frente por cordões;

20 – usam os cabelos soltos até o chão, e na cabeça, coroas de ouro, da largura de dois dedos;

21– usam como animais de carga uma espécie de camelo e outros animais não identificados, do tamanho de um cavalo, com a pata fendida;

22 – há nos seus domínios duas lagoas de água salgada, de onde tiram sal;

23 – ao pôr do sol, os machos de passagem devem sair da cidade;

24 – as províncias limítrofes lhes são sujeitadas e pagam-lhes tributos;

25 – as nações com as quais fazem guerra – e que lhes garantem a continuidade – são homens altos de corpo e muito brancos;

26 – tudo o que foi referido pelo informante ele viu muitas vezes, como homem vassalo, que ia e vinha diariamente. (p. 66-67)[1]

 

Eximimo-nos de comentar ponto a ponto, por ser ocioso tal detalhamento. Vamos ao que salta aos olhos. As súditas de Conhori dividem-se em setenta aldeias, formadas de casas de pedra, assoalhadas e forradas, onde há muita riqueza de ouro e de prata, metais usados inclusive para a baixela. Todos esses detalhes são índices de civilização. Vestem-se de “finíssima lã”, em modelos muito sensuais – também índices de civilidade, um e outro –, com os cabelos soltos até o chão, sob uma espessa coroa de ouro. Comparando com o que vimos anteriormente, seu figurino de guerra adapta-se em conformidade com a situação: “andam nuas em pelo”, e trazem o cabelo muito comprido “entrançado e enrolado na cabeça”. Outro índice de civilidade, sem o qual um europeu não poderia imaginar poder viver: o sal, que brota de maravilhosas e improváveis lagoas. Finalmente, como poderiam aquelas mulheres tão nobres e formosas procriar com os selvagens acobreados que habitavam as margens do rio de Orellana? O devaneio de Carvajal trata de arranjar-lhes parceiros “altos de corpo e muito brancos”. Mas Carvajal não tirou essas personagens do nada: na segunda parada, quando se construiu o segundo bergantim, ele anotara:

 

Nesse ínterim vieram ver o Capitão quatro índios, tendo de altura um palmo a mais que o mais alto cristão. Eram muito brancos, de cabelos bastos que lhes chegavam até a cintura, com roupa e joias de ouro, e trazendo muita comida. (p. 33)

 

Para o leitor atento, ali se atava mais um fio da trama.

Carvajal, com displicência, parecia não muito entusiasmado com o depoimento do súdito de Conhori:

 

Tudo o que esse índio disse, já nos haviam contado a umas seis léguas de Quito, porque ali falam muito nessas mulheres, e para vê-las vêm muitos índios 1.400 léguas rio abaixo. Assim nos diziam lá em cima os índios, que quem tivesse de descer à terra dessas mulheres tinha de ir rapaz e voltar velho. (p. 67-68)

 

Sergio Buarque de Holanda cita Francisco de Xerez – autor de Verdadera Relación de la Conquista del Perú, impressa em 1534, oito anos antes da aventura liderada por Orellana – que “menciona expressamente as ‘casas do sol’ existentes em toda aquela província”. Algumas dessas casas eram de pedra, chapeadas “não só de prata como de ouro”. Xerez também comenta o farto uso de penas de papagaios como adorno. Holanda completa:

 

Dos caminhos diz também Xerez que eram cercados de taipa dos dois lados e em alguns lugares havia a casa do guarda, encarregado de arrecadar a portagem.[2] Nenhum viajante pode entrar nem sair por outro caminho, levando carga, senão por aquele onde haja guarda, e isso sob pena de morte. Os serviços de prata e ouro seriam frequentes entre a gente principal. (HOLANDA, p. 34)

 

Como autor de um bom enredo, Carvajal usa as histórias ouvidas para dar credibilidade à sua história: o que o índio contava já era sabido de todos; logo, não havia porque duvidar do que ele relata – era apenas uma forma de consolidar, numa única, todas as histórias anteriores. Em outras palavras: o “índio trombeteiro” nem precisava ter falado, para que a história, que o antecede, existisse exatamente como Carvajal a conta.

 

 



[1] Trata-se de um resumo do texto, onde se procurou manter a estrutura frasal e o vocabulário usados pelo autor.

[2] Pedágio.


quinta-feira, 8 de junho de 2023

A poesia é necessária?

 

Nha Codê

Ovídio Martins (1928-1999)

 

(A Osvaldo Alcântara)

 

 

Tiraram o lume dos teus olhos

e fizeram braseiro

para aquecer a noite fria;

noite de qualquer dia.

Roubaram o teu riso

e encheram de gargalhadas

de luz e de música

as suas reuniões frustradas.

Da tua pele fizeram tambor

para nos ajuntar no terreiro!

Dondê nha Codê?

Não

não mataram o meu filho

que eu sei que o meu filho não morre.

 

(Se choro

são saudades de nha Codê...)

Nha Codê vive

na evocação de um mundo distante

no riso e no choro das ervas rasteiras

na solidão dos campos

nas pândegas de marinheiros

na vida que nasce e morre

em cada dia que passa!...

 

...E em mim

essa saudade de nha Codê!

 

 

terça-feira, 6 de junho de 2023

Resiliência tem limites

Pedro Lucas Lindoso

 

Era madrugada. Solicitamos um Uber para irmos para o Aeroporto Eduardo Gomes. O rapaz que nos atendeu foi bastante atencioso. Ajudou-nos com as malas. Abriu a porta do carro e cumprimentou-nos com educação e respeito. Notei de início que ele tinha um olhar extremamente triste e cansado. Fiquei preocupado. Estaria ele em condições de dirigir? 

Na parte de cima do painel havia carrinhos de brinquedo e o retrato de um garotinho. Perguntei-lhe se o menino era seu filho. Ele acenou afirmativamente e disse que na época ele tinha dois anos e meio. E disse tristemente que o Papai do Céu o havia levado.

Sempre achei que pais jamais deveriam enterrar seus filhos. É antinatural. Percebe-se que deve ser uma dor imensa. Como superar um evento tão doloroso? O rapaz disse que desde então não conseguia dormir. Por isso trabalhava à noite. A dor da perda do filho era insuportável.

Como exigir ou falar sobre resiliência com uma pessoa assim?  Em sentido figurado, resiliência é a capacidade que algumas pessoas têm de se recobrar ou mesmo se adaptar e superar facilmente um evento trágico ou danoso, às mudanças drásticas ou ainda uma grande má sorte.

A resiliência é vista por psicólogos como um estímulo a ser dado aos indivíduos para superar obstáculos que surgem vida afora. Por meio da inteligência emocional, os indivíduos devem agir de maneira ponderada em situações de estresse e mudanças, buscando sempre a adaptação. Como aquele rapaz poderia se adaptar a perda de seu único filhinho?

O rapaz ponderou que um passageiro havia lhe falado sobre resiliência. Explicou-lhe que a água pode ser esquentada até ferver e depois volta ao estado natural novamente. A água pode ficar congelada, virar gelo e voltar ao normal. Mas a água não é humana. A água não é gente. A água é coisa. “Eu não sou uma coisa. Eu sou humano”. Desabafou o rapaz.

É senso comum que a pessoa resiliente é capaz de se adaptar e crescer quando colocada frente a uma crise. Ou seja, consegue se equilibrar emocionalmente para achar caminhos, soluções para as adversidades e, com elas, tornar-se mais forte.

Não nos foi possível opinar ou sugerir algo que pudesse ajudar o rapaz a se equilibrar emocionalmente. Algo que o ajudasse a se tornar mais forte e superar a perda do filhinho.

Pensei nos meus filhos e nas minhas netinhas. Estão todos proibidos de partirem antes de mim. Como disse o rapaz, não sou água para voltar ao normal assim facilmente. Resiliência tem limites.

 

domingo, 4 de junho de 2023

Manaus, amor e memória DCXXI


Entrada do Roadway, com Alfândega ao fundo.

 

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Representações da Amazônia na relação de Carvajal: devaneio e mistificação 6/8

 Zemaria Pinto

 

Amazonas amazonas. Carvajal prepara o encontro do seu leitor com as amazonas usando uma conhecida técnica narrativa de suspense: espalha as informações ao longo texto, desde o primeiro contato, com Aparia, já citado. No segundo contato, há nova citação, desta vez mais explícita quanto ao perigo que corriam:

 

Estavam os índios muito atentos, ouvindo o que o Capitão lhes dizia e lhe recomendaram que, se fôssemos ver as amazonas, que chama na sua língua coniupuiara, que quer dizer grandes senhoras, que víssemos o que fazíamos, porque éramos poucos e elas muitas, e que nos matariam. Que não parássemos em sua terra, porque eles ali nos dariam tudo de que tivéssemos mister. Disse-lhe o Capitão que não podia fazer outra coisa senão passar de largo, para dar notícia a quem o enviava, que era o seu rei e senhor. (p. 30)

 

Se no contato inicial havia promessa de riqueza, neste há a ameaça de morte, amenizada pela declaração de paz e de lealdade para com o rei. Mas essa lealdade não poderia prescindir de observá-las “para dar notícia”, pois era fato sem precedentes, e fugir dele não era do feitio do Capitão.

Na “aldeia de medíocre tamanho”, já referida, o Capitão toma conhecimento de mais detalhes sobre as amazonas, ao interrogar a respeito da praça dos adoradores do sol, onde havia “dois leões ferocíssimos”:

 

Perguntou o Capitão a um índio o que era aquilo e o que significava naquela praça, e o índio respondeu que eles são súditos e tributários das amazonas, e que não as forneciam senão de penas de papagaios e de guacamaios[1] para forrarem os tetos dos seus adoratórios. Que as povoações que eles tinham eram daquela maneira, conservando-o ali como lembrança e o adoravam como emblema de sua senhora, que é quem governa toda a terra das ditas mulheres. (p. 51-52)

 

As amazonas de Carvajal eram ricas, belicosas e muito bem organizadas socialmente, ao ponto de terem súditos e tributários, que faziam de seu emblema objeto de culto.

No dia 24 de junho de 1542 dá-se, afinal, o desejado – ainda que não admitido – encontro:

 

Íamos desta maneira caminhando e procurando um lugar aprazível para folgar e celebrar a festa do bem-aventurado São João Batista, precursor de Cristo, e foi servido Deus que, dobrando uma ponta que o rio fazia, víssemos alvejando muitas e grandes aldeias ribeirinhas. Aqui demos de chofre na boa terra e senhorio das amazonas. (p. 58)

 

Observe-se a organização militar imaginada por Carvajal: as amazonas já sabiam da chegada da expedição às suas terras; foram encontrá-los guerreiros homens preparados para a luta. Talvez pudesse o Capitão desviar-se do assédio incômodo, mas Carvajal mostra-o curioso:

 

Estavam estes povos já avisados e sabiam da nossa ida, e por isso nos vieram receber no caminho por água, mas não com boa intenção. Chegando perto, como o Capitão os quisesse trazer à paz, começando a falar-lhes e a chamá-los, riram-se eles e faziam burla de nós; aproximavam-se e diziam que andássemos, pois ali abaixo nos esperavam, para prender-nos a todos e levar-nos às amazonas. (p. 59)

  

O Capitão, “ofendido com a soberba dos índios”, ordena o ataque, dispersando os índios que “voltaram para a aldeia a dar notícia do que tinham visto”. Mesmo conhecendo o perigo, ordena o Capitão o saque a uma aldeia – no centro da qual se reunia “uma multidão” –, com uma finalidade, digamos, previsível: “para buscar comida”. Assim que chegaram em terra, foram devidamente recepcionados: “parecia que choviam flechas” (p.59).

Apesar da defesa de balhesteiros e arcabuzeiros, a superioridade numérica dos índios desta vez prevaleceu:

 

Foi isto causa de que nos fizeram tanto mal que antes que saltássemos em terra já tinham ferido a cinco dos nossos, dos quais eu fui um deles, levando uma flecha na ilharga, que me chegou ao vazio e se não fossem os hábitos, ali teria ficado. (p. 60)

 

O texto não é claro. Este primeiro ferimento, pelo que se depreende da leitura, não tirou o frade de combate. Talvez o tenha ferido de raspão, apenas, protegido pelo hábito, feito de um tecido muito espesso.

 

Travou-se aqui mui grande e perigosa batalha, porque os índios andavam misturados com os nossos espanhóis, que se defendiam tão corajosamente, que era uma coisa maravilhosa de ver-se. (p. 60)

 

Após “mais de uma hora” de combate, os índios pareciam redobrar o ânimo, mesmo tropeçando em seus próprios mortos. Vejamos o depoimento de Carvajal para explicar tanto ímpeto e selvageria, naquele parágrafo que é o mais importante de todo o texto, pela sua historicidade:

 

Quero que saibam qual o motivo de se defenderem os índios de tal maneira. Hão de saber que eles são súditos e tributários das amazonas, e conhecida a nossa vinda, foram pedir-lhes socorro e vieram dez ou doze. A estas nós as vimos, que andavam combatendo diante de todos os índios como capitãs, e lutavam tão corajosamente que os índios não ousavam mostrar as espáduas, e ao que fugia diante de nós, o matavam a pauladas. Eis a razão porque os índios tanto se defendiam. (p. 60)

 

Primeiro, deve-se atentar para o estilo de Carvajal, quando enfatiza o que já fora dito antes sobre súditos e tributários, bem como sua conhecida vinda, pelo que “foram pedir-lhes socorro”. Agora o ponto do devaneio, que, com o tempo transformou-se em mistificação: “e vieram dez ou doze”. Estas cinco palavras ecoam ainda hoje na memória coletiva da Amazônia: dez ou doze mulheres-guerreiras! Atuando “como capitãs”, os índios “não ousavam mostrar-lhes as espáduas”, e os que o faziam eram inapelavelmente mortos a pauladas. E Carvajal dá o seu testemunho para a eternidade incrédula: “a estas nós as vimos!”. Ainda que aquelas mulheres-guerreiras fossem de uma tribo só de mulheres, “dez ou doze” representam uma amostra, apenas – insignificante, aliás –, diante do arcabouço mental do mito, que tomava forma a partir daquele depoimento.

 

Estas mulheres são muito alvas e altas, com o cabelo muito comprido, entrançado e enrolado na cabeça. São muito membrudas e andam nuas em pelo, tapadas as suas vergonhas, com os seus arcos e flechas nas mãos, fazendo guerra como dez índios. (p. 60)

 

A descrição não bate com nenhum biótipo feminino da região; mas, alvas, altas e fortes, bem que poderiam ser europeias – o padrão de beleza com o qual Carvajal estava familiarizado. Se pensarmos nas Afrodites renascentistas, poderiam ser gregas. Guardemos a informação de que “andam nuas em pelo”, ainda que “tapadas as suas vergonhas”, porque vamos precisar dela adiante.

As dez ou doze mulheres-guerreiras deixaram os bergantins de tal forma que “pareciam porco-espinho”, de tanta flecha. Interessante é que ainda encontravam tempo para matar a pauladas os vassalos covardes. Uma nota de decepção é registrada ao final do encarniçado combate:

 

Foi Nosso Senhor servido dar força e coragem aos nossos companheiros, que mataram sete ou oito dessas amazonas, razão pela qual os índios afrouxaram e foram vencidos e desbaratados com farto dano de suas pessoas. (p. 61)

 

As duas a cinco coniupuiaras que sobreviveram e fugiram frustraram o Capitão, que desejava, certamente, capturá-las, para mostrá-las a El Rei. Entretanto, prenderam “um índio trombeteiro, de cerca de trinta anos de idade, que começou a contar ao Capitão muitas coisas do interior da terra.”[2] Para compensar o dano de não haver aprisionado uma autêntica amazona, “o Capitão o levou consigo” (p. 61).

 

Nesse ponto da viagem, na foz do rio que hoje chamamos de Nhamundá, um Carvajal angustiado calcula que diste “mil e quatrocentas léguas, antes mais do que menos”, desde o ponto em que deixaram Pizarro – “e não sabemos ainda o que falta daqui até o mar”.

Estafados, os espanhóis deixam-se “ir à garra”,[3] quando sofrem novo ataque de índios emboscados: “só a mim feriram, que me deram um flechaço num olho, que passou a flecha para o outro lado” (p. 62). Entre aqueles índios já não estavam as amazonas; tratava-se, aliás, como Carvajal deixa bem claro, de uma outra aldeia. Mas, como estavam relativamente próximos ao lugar do conflito anterior, podemos supor que eram súditos machos das coniupuiaras. É preciso enfatizar, entretanto, que, ao contrário do que reza o credo popular, Carvajal não foi ferido pelas amazonas. A propósito, analisemos esse ferimento, a partir das palavras do próprio narrador: “um flechaço no olho”, poderia ser mera hipérbole; um fragmento que o atingisse poderia levá-lo àquela expressão. O problema reside no trecho “que passou a flecha para o outro lado”. Aqui não temos como interpretar as palavras de Carvajal, a não ser literalmente: a flecha penetrou na órbita ocular de um dos olhos do cronista, atravessando sua caixa craniana, transpassando-a, até o ponto posterior à referida órbita. O estrago não seria apenas no olho! Claro que se trata de um outro milagre; sem dúvida, o mais sensacional de todos. Mas Carvajal é um homem de fé, e conhece suas limitações humanas, tanto que nem admite o maravilhoso do acontecimento, refletindo sobre ele com uma humildade dominicana:

 

Desta ferida perdi um olho e não estou sem fadiga e falta de dor, posto que Nosso Senhor, sem que o mereça, me quis conservar a vida para que me emende e o sirva melhor do que até aqui. (p.62)

 

 A narrativa segue com a mesma riqueza de detalhes de antes. Carvajal não volta, em nenhum momento, ao assunto do ferimento que lhe roubara um dos olhos.  

 



[1] Da família dos papagaios: “talvez araras ou jandaias” (p. 51, em nota do tradutor). 

[2] Carvajal se precipita ao dizer que o índio “começou a contar”, pois mais adiante afirma que o Capitão “já o entendia por um vocabulário que havia feito”.

[3] À deriva, ao sabor da correnteza; “de bubuia”, como se diz na região.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

A poesia é necessária?

 

Vós que ocupais a nossa terra

Manuela Margarido (1925-2007)

 

É preciso não perder

de vista as crianças que brincam:

a cobra preta passeia fardada

à porta das nossas casas.

Derrubam as arvores fruta-pão

para que passemos fome

e vigiam as estradas

receando a fuga do cacau.

A tragédia já a conhecemos:

a cubata incendiada,

o telhado de andala flamejando

e o cheiro do fumo misturando-se

ao cheiro do andu

e ao cheiro da morte.

Nós nos conhecemos e sabemos,

tomamos chá do gabão,

arrancamos a casca do cajueiro.

E vós, apenas desbotadas

mascaras do homem,

apenas esvaziados fantasmas do homem?

Vós que ocupais a nossa terra?

terça-feira, 30 de maio de 2023

Gosto não se discute


Pedro Lucas Lindoso

 

O que seria do azul se todos gostassem do amarelo. Os mineiros dizem que toda unanimidade é burra. Mas ninguém precisa se odiar por não ter os mesmos gostos.

Incrível, mas tem gente que precisa que você goste das mesmas coisas que elas. Um colega de trabalho se separou da esposa porque ela se tornou vegana. Nesse caso específico acho mesmo que a convivência pode ter se tornado insuportável. Mesmo porque ele é carnívoro e frequentador assíduo de churrascaria. Tem como prato favorito a tartarugada. Adora uma feijoada daquelas bem completas e tradicionais.

Por falar em feijoada, o grande inventor da feijoada society, com as carnes separadas e etc e tal, foi o eterno “rei da noite” carioca, Ricardo Amaral. Que confessou que não gosta de feijoada! A Feijoada do Amaral é um dos eventos mais disputados da capital carioca. Há mais de 40 anos, a festa anima famosos e influenciadores do Rio de Janeiro.

Dizem que religião, política e futebol não se discute. Mas se discute sim. E muito. E há brigas. Em tempos de grupos familiares de whatsapp então, a coisa pode ficar feia.

Conheço uma família em São Paulo que são descendentes de italianos. Todos torcem para o Palmeiras. Imagine a confusão quando uma das moças levou em casa um namorado corintiano. Quase o rapaz apanha e quase desistiu do namoro.  Precisou casar para entrar no grupo de whatsapp da família.

Tenho um cunhado que não gosta de festa junina. Em Brasília essas festas são muito populares.  A tradição surgiu com a inauguração da cidade. A Festa dos Estados em junho é um evento tradicional de Brasília. Há várias na cidade. Em escolas, clubes, casas particulares e buffets.

Na culinária as divergências podem criar constrangimentos. Tia Idalina convidou para sua cozinha a namorada de um sobrinho. A moça perguntou se ela iria por aquele “matinho” na comida. Tratava-se de coentro, cheiro verde e cebolinha. Idalina aconselhou o sobrinho a não casar com a moça! Achou que a garota sulista era preconceituosa com a culinária amazonense.

Conheci uma senhora de Parintins que não gosta de boi. Não é Caprichoso nem Garantido. Por motivos religiosos. Tudo bem. Devemos respeito a todos.

Tia Idalina é irascível. Brigou com uma sobrinha porque a garota confessou que não gosta de brócolis. Para Tia Idalina, gosto se discute.


domingo, 28 de maio de 2023

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Representações da Amazônia na relação de Carvajal: devaneio e mistificação 5/8

 Zemaria Pinto

 

Devaneios, relembranças. Os devaneios de Carvajal eram compartilhados com o Capitão. Tomemos o exemplo de uma conversa, no segundo contato pacífico, com líderes indígenas que queriam saber detalhes da origem dos expedicionários:

 

Respondeu-lhe o Capitão, repetindo as suas palavras, e lhe disse mais que éramos filhos do Sol e que íamos àquele rio, como já contara. Disto muito se admiraram os índios e mostraram muita alegria, tendo-nos por santos ou pessoas celestiais, porque eles adoram e têm por seu deus o Sol, que chamam Chise. (p.31)

 

Seria aquela mentira mera recordação de histórias ouvidas no Peru?

Mais adiante, ao saquearem uma aldeia “pequena e tão bem situada, que se diria um recreio de algum senhor de terra adentro”, em busca de “provisão de boca”, encontram uma estranha construção:

 

Havia nessa povoação uma casa de diversões, dentro da qual encontramos muita louça dos mais variados feitios: havia talhas e cântaros enormes, de mais de vinte e cinco arrobas, e outras vasilhas pequenas, como pratos, escudelas e candeeiros, tudo da melhor louça que se viu no mundo, porque a ela nem a de Málaga se iguala. É toda vidrada e esmaltada de todas as cores, tão vivas que espantam, apresentando, além disso, desenhos e figuras tão compassadas, que naturalmente eles trabalham e desenham como o romano.

Disseram-nos ali os índios que tudo o que havia naquela casa, feito de barro, se encontrava terra adentro feito de ouro e de prata, e que eles nos levariam lá, pois era perto. Encontramos nessa casa dois ídolos, tecidos de palha, de diversos modos: eram de estatura de gigantes e tinham metidas no moledo dos braços umas rodas, a modo de braceletes e outras nas panturrilhas, perto dos joelhos; as orelhas eram perfuradas e muito grandes, parecendo as dos índios de Cuzco, porém maiores. (p. 47)

 

Como se observa, Carvajal não economiza nas comparações: a louça “vidrada e esmaltada” é melhor que a de Málaga; os desenhos são tão bons quanto os dos romanos e os ídolos lembravam os que ele vira em Cuzco. Além disso, havia sempre a promessa de ouro e prata[1].

Em outra aldeia saqueada, “de medíocre tamanho”, logo depois da passagem pela foz do rio Negro, há uma nova referência à adoração do sol, mas o que chama a atenção é o quadro, “pintado e esculpido em relevo”, no meio de uma praça, representando elementos desconhecidos dos nativos, como “cidade murada”, “altíssimas torres” e, principalmente, “ferocíssimos leões”:

 

Havia lá uma praça muito grande e no meio da praça um grande pranchão de dez pés em quadro, pintado e esculpido em relevo, figurando uma cidade murada, com sua cerca e uma porta. Nessa porta havia duas altíssimas torres com as suas janelas, as torres com portas que se defrontavam, cada porta com duas colunas. Toda essa obra era sustentada sobre dois ferocíssimos leões que olhavam para trás, como acautelados um do outro, e a sustinham nos braços e nas garras. Havia no meio dessa praça um buraco por onde deitavam, como oferenda ao sol, a chicha, que é o vinho que eles bebem, sendo o Sol que eles adoram e têm como seu Deus. (p. 51)

 

Numa “povoação onde os índios não se defenderam”, repete-se o encontro de elementos estranhos à região:

 

Havia nessa aldeia um adoratório, dentro do qual estavam penduradas muitas divisas de armas de guerra e, por cima de todas, duas mitras muito bem feitas, como a dos bispos: eram tecidas não sabemos de que, pois não eram de lã e tinham muitas cores. (p. 58)

 

“Divisas de armas de guerra”, além de “duas mitras” afiguram-se como devaneio do bom frade, que parece nostálgico de um mundo que ficara para trás, e do qual ele se distancia cada vez mais. Essa falta parece levar Carvajal a identificar nos nativos, senão a si próprio, o mundo – ou parte dele – que lhe era caro. Por outro lado, pensando na consolidação da ideia que abraçara, essa identificação valoriza aquele mundo perdido, tornando o que era naturalmente desigual em igualdade, mesmo que forçada. Aproximando os dois mundos, ainda que em um nível mitológico – o que, talvez, para Carvajal, não fizesse diferença –, o eu se reinventa no outro:

 

Podem-se descobrir os outros em si mesmo, e perceber que não se é uma substância homogênea, e radicalmente diferente de tudo o que não é si mesmo; eu é um outro. Mas cada um dos outros é um eu também, sujeito como eu. (TODOROV, 2010, p. 3)

 

Esse questionamento deverá ficar mais claro, embora não inteiramente respondido, no encontro de Carvajal com as amazonas, um arquétipo que tem povoado o imaginário de diversos povos há mais de três mil anos.  

 



[1] A propósito destes minérios, não há notícia da existência de jazidas deles em toda a região do Amazonas, embora o Pará as tenha em abundância.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

A poesia é necessária?

 

Gênese

Sebastião Alba (1940-2000)

 

Foi assim

Todo o mar que eu via

se precipitou logo no meu coração

Que é de sal

 

E os peixes cristalizaram

com os olhos mortos

para as suas manhãs refractadas

 

Escutando bem

ouve-se como ao pé das estátuas

música de uma fanada melancolia.