Zemaria Pinto
As palavras nos conduzem a armadilhas
incontornáveis.
Quando fui convidado pela Gracinete
Felinto, coordenadora deste evento, para apresentar de público a segunda edição
de Sublingual: cac+os flutuantes, me surpreendi fazendo estranhos exercícios
de memória.
Eu me vi em Boa Vista rodeado de
amigos poetas em meados da última década do século passado.
Eliakin Rufino era nosso guia na
cidade que era dele. Thiago de Mello exercia um outro tipo de domínio: sua
figura de branco vestida pairava no ar, com um permanente sorriso entre ironia
e traça, navalha e veludo.
Anibal Beça chamava a atenção por seu
porte gigantesco. Era fascinante imaginar como diante de todo aquele volume brotasse
tanta delicadeza.
Terêza Tenório não perdia a
oportunidade de mostrar seus poemas mais recentes e contar histórias de seu
Pernambuco. Até de uma fantástica “perna cabeluda”. O riso fácil e escancarado,
Terêza me lembrava um impossível porquinho-da-índia.
E aquela menina, de traços tão
amazônidas, quem seria? Não me lembro de como foi a resposta, mas daquele
momento em diante ela não parou mais de falar.
Calaram-se os gigantes Thiago e
Aníbal. Calou-se a bela Terêza e o circunflexo incrustado em seu nome como uma
joia – apenas para torná-lo mais belo.
Mas a menina chamada Grace Cordeiro segue
falante, há mais de 30 anos. Uma senhora de seu ofício, aprendido nas melhores
fontes: os melhores autores.
Pois Grace tem uma qualidade que eu preciso
destacar: é uma leitora como poucas. Porque um poeta sem leitura não é poeta.
No máximo, domina a técnica de sobrepor linhas umas às outras. Às vezes, nem
isso. Quando a gente cita um poeta que ela não conhece, ela trata de municiar-se
de informações e corre atrás de aprender mais um pouco.
Registre-se ainda que Grace soube
esperar a sua poética amadurecer – outra virtude rara entre pessoas que dão
prioridade à luz quando deveriam almejar apenas ser invisíveis.
Foi dessa inquietação que nasceu seu
livro mais recente: Sem secretos dentes, uma homenagem ao poeta
piauiense-tropicalista Torquato Neto. Antes, A pedra, o rio e as borboletas
já ilustravam essa tese – e não apenas com poetas dos livros, mas das imagens,
como em “Daguerreótipos do Século da Solidão”. Por fim, em Sublingual, a
linguagem explode em exercícios de intertextos e metalinguagem, muitas vezes só
perceptíveis por sentidos adestrados para sentir.
Celebrar esta nova edição de Sublingual:
cac+os flutuantes é reencontrar aquela Boa Vista dos anos 1990 e ver
que a chama acesa por nomes como Thiago de Mello, Aníbal Beça e Terêza Tenório
continua vibrando na escrita de Grace Cordeiro. Que estes cactos/cacos
continuem a nos ferir e a nos curar com sua poesia feita de silêncios
amadurecidos e leituras profundas. A menina não parou de falar — e a voz da
mulher está mais cristalina e potente do que nunca, antecipando o passado em
construção.
Ou não?









