Pedro Lucas Lindoso
Um
homem subia o rio remando sua canoa. De repente, um bordejar. A sombra do
caboclo, refletida nas águas do rio, desaparece.
Inacreditavelmente,
uma enorme sucuri comeu a sombra do homem. Desse dia em diante o caboclo ficou
conhecido como o homem sem sombra. Essa história está contada no livro de meu
amigo Hélito de Souza – Guajará. Causos em prosa e verso.
Verdade
ou não, fiquei matutando como teria sido o acontecido. A canoa balançando como
quem dança uma toada de boi. E a sucuri atrás. E a sombra, que antes era
companhia inseparável do ribeirinho, projetada no rio, vira história de
pescador. Mas como seria para um homem da floresta viver sem sua sombra? Como acender
o fogo sem o auxílio da sombra? O
fósforo deve tremer. A fumaça possivelmente escreveria ruidosas figuras
mitológicas que apavoram os povos da floresta. E o vento, curioso, passaria a
sussurrar no ouvido do homem coisas surrealistas.
Estar
sem sombra modificaria totalmente o cotidiano do caboclo. Sem sombra, o tempo
parece tropeçar na rotina da floresta. O
sol sobe, desce, sobe de novo, como se estivesse perdido. Entre o Passado, o
Presente e o Perder-se-sombra. Ainda assim, o caboclo encontra maneiras de
contornar a falta da sombra. Aprende a
andar de cabeça erguida. Usa o peso da
carga nas costas para lembrar que o corpo ainda tem presença, mesmo sem a
sombra.
Pede
aos espíritos da floresta, à mãe d’água, aos botos. Ao curupira, às onças e até
aos macacos que lhe emprestem seus contornos de luz. Chega a noite e a falta da
sombra, que foi comida pela sucuri, é motivo para o caboclo meditar.
Cochichando para a lua, pergunta: Se eu não tiver sombra, serei sombra do que
fui? Ora, minha sombra pode ter ido, mas o meu jeito de caminhar ficou. Eu já
aprendi a ouvir os passos do chão e
sentir o chão sem a sombra.
E os
macacos riem da situação. O vento também sorri e aplaude com folhas. A sucuri,
quem sabe, mastiga a sombra discretamente no fundo do rio. O Curupira, guardião
da floresta, convoca os animais para uma reunião de emergência. O macaco prego avisa que vai fazer um show de
stand-up. E grita: Bem-vindo ao show O Homem Sem Sombra. Mas não dá certo. A
bicharada toda querendo tirar fotos. Montaram um grupo de whatsapp. “Amigos Antes, Depois e Sem Sombra”.
Todos
da floresta dão risada da situação. Os macacos batucam em troncos como se fosse
o Festival de Parintins. Enquanto isso, a sucuri lá no fundo do rio, continua
mastigando a sombra do caboclo. Em doses homeopáticas. Num antropofágico e total
silêncio.
O
caboclo, sem sombra, parece estar conformado com sua sina. E termina por se ver
um homem, mesmo sem sombra, mas um homem das águas, um homem de fogo, um homem
inteiro, um homem da floresta. Só que sem sua sombra.
E a
floresta, os bichos, o curupira e os botos, cúmplices da sucuri, lembram ao
caboclo que a vida continua. Mesmo sem sombra, com mais risadas, menos reflexos
e muita coragem de se adaptar às surpresas e revezes que só acontecem na nossa
fantástica, densa, pitoresca e perigosa floresta das chuvas.








