Amigos do Fingidor

sábado, 17 de setembro de 2011

As três “faces” de Medeia

Uma das atrizes que vivem as diversas Medeias, em ensaio.
Jony Clay Borges*


Célebre personagem da mitologia e da tragédia gregas, Medeia ressurge em diferentes momentos históricos na peça teatral que estreia hoje, às 19h, no Teatro da Instalação, com entrada franca. Em “Nós, Medeia”, montagem independente dirigida por Ednelza Sahdo a partir de texto premiado do autor Zemaria Pinto, a conturbada figura feminina se desdobra em três planos: mitológico, medieval e contemporâneo. 

“Nós, Medeia” reflete nas mulheres da época medieval e da atualidade o intenso drama da personagem. Na mitologia e na tragédia clássica de Eurípedes, Medeia abandona a família e a pátria para ficar ao lado de Jasão, líder dos Argonautas. Após ser traída e abandonada pelo amante, ela lança sobre ele uma maldição e tira a vida dos próprios filhos para puni-lo. 

“Zemaria Pinto colocou o texto clássico num universo relacionado diretamente à mulher, representando as mulheres de todas as épocas. A Medeia mítica representa todas as figuras femininas. A Medeia medieval é baseada nas mulheres daquele período que sofriam com perseguições religiosas por serem consideradas bruxas, assim como a figura original. A Medeia contemporânea é a nossa mulher de hoje, porém mais fragilizada por conta do tempo”, resume Ednelza. A peça, segundo ela, expõe o caráter universal da personagem. “Zemaria viu que Medeia, surgida séculos atrás, continua humana. Mudou o tempo, mas as histórias continuam as mesmas”, diz. 

Montagem 

Capa do livro de Zemaria Pinto
com o texto da peça. Editora Valer, 2003.
Montar “Nós, Medeia” é um projeto de anos de Ednelza. “Sempre fui apaixonada pelo clássico, e quando conheci o texto de Zemaria mostrei a meus alunos do (Liceu de Artes e Ofícios) Claudio Santoro. Eu me apaixonei, e coloquei na cabeça que um dia o montaria”, recorda a diretora e atriz. A título de informação, “Nós, Medeia” foi ganhador do Concurso de Textos Teatrais Inéditos, promovido pela Secretaria de Estado de Cultura em 2002. 

A montagem – contemplada nos editais do Programa de Apoio às Artes e do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura – tem cenários de Gerson Albano e trilha sonora composta por Cleber Cruz e interpretada por Simone Ávila. No elenco estão 11 atores, entre eles Helena Almeida, Thaís Vasconcelos e Ariane Feitoza, como as respectivas Medeias mítica, medieval e contemporânea; Thiago Oliveira, como Jasão; e Adailson Veiga, como Creonte/Egeu. 

Ednelza conta que investiu na atuação do elenco, que inclui artistas novatos e veteranos. “Nosso trabalho foi muito mais voltado para a questão da interpretação. É algo pelo que batalho muito: que os atores estejam coesos, que levem bastante a sério, interpretando de maneira verdadeira”, conclui ela. 

Personagens têm temas musicais 

Cada uma das Medeias ganhou uma canção-tema, numa trilha sonora composta especialmente para a montagem de Ednelza Sahdo pelo músico Cleber Cruz. As composições temáticas serão interpretadas pela cantora Simone Ávila. 

“Tenho uma parceria com Ednelza de muito tempo e de muitas vertentes”, recorda Cruz, que já trabalhou com a diretora em espetáculos cênicos e folclóricos. “Dessa vez foi uma encomenda explícita, tive de mergulhar no texto e nas personagens. Minha preocupação era fazer um trabalho que fosse atual, sem ter a preocupação de ser de uma só vertente musical. Queria dar amplitude, mas sem perder o espírito do texto do Zemaria Pinto”, diz. 

Além da montagem de Ednelza, Cruz também assina a adaptação da trilha sonora de “O casamento da Sereia com o Mapinguari”, montagem do Companhia de Teatro Vitória-Régia. Repaginada, a trilha original ganhou canções com novos estilos, como o rap e o pagode.

Serviço
. Peça teatral “Nós, Medeia”
. Teatro da Instalação - Frei José dos Inocentes, Centro
. Hoje, às 19h
. Entrada franca
. Informações: 3234-4096
(*) Publicado no jornal A Crítica, de hoje, e no site do jornal.