Amigos do Fingidor

sábado, 16 de outubro de 2021

Basta! A tribo está cansada 1/4


Pedro Lucas Lindoso

  

Este trabalho é dedicado a todos os povos e tribos indígenas, seus descendentes e àqueles que lutam pela preservação de seus costumes e de sua existência.

 

 

Personagens

João Bosco, Cacique da tribo

Paulo André, fotógrafo

Máquina fotográfica – (voz feminina)

Professor Gonçalo, antropólogo e pesquisador

  

Sugestão de sonoplastia e som para a peça

De acordo com a publicação Sons que vêm da Amazônia – Jornal do Commercio de 8 de abril de 2021, com reportagem de Evaldo Ferreira, através do aplicativo The Roots, poderá ser escolhido kits com instrumentos indígenas.

Sugere-se a aquisição de dois kits. Um kit com charango, gambá de Maués, nanhabé-inajá e mawako fêmea. Outro kit com cuatro venezuelano, tambor de cuia, chuá-chuá e carriço.

As músicas a serem utilizadas podem ser adquiridas no site www.therootsvr.com.br

 

Época: presente.

Lugar da cena: comunidade indígena do interior do Amazonas.

Nota do autor:  Os posters para o cenário bem como fotografias da comunidade escolhida poderão ser comercializadas pela produção da peça. Entretanto, será necessário a autorização expressa da comunidade por meio de seu representante legal. Todos os direitos legais reservados à comunidade devem ser estritamente respeitados. Inclusive de participação em fotos que ilustrem folhetos, livros, camisetas, ou qualquer outro meio de divulgação.

  

PRIMEIRO ATO

 

Interior da oca. O cenário consiste em cinco posters fotográficos. No centro há duas banquetas. O cacique está sentando em uma delas. Está usando cocar. Nas mãos um tacape. Final de tarde.

O Cacique pensativo, observa a plateia. A cabeça se movimenta para um lado e outro.

(O fotógrafo entra e começa a tirar fotos. Dirige-se à plateia com a máquina e continua fotografando, por, no mínimo, três minutos.)

 

CACIQUE: (levanta-se e grita) Chega! Basta! A tribo está cansada.

FOTÓGRAFO: (para de fotografar e vai sentar-se na banqueta ao lado do cacique). Sim, senhor. Eu também já estou satisfeito por hoje.

CACIQUE: Não quero que você me veja como uma pessoa que não é civilizada. Eu estudei. Eu fui forçado a estudar. Eu estive na cidade. As pessoas pensam que eu só conheço a floresta e as matas.

FOTÓGRAFO: Eu sei disso. O senhor toma conta da comunidade com muito zelo e eficiência. Inclusive na parte financeira. Por falar nisso, os direitos sobre as fotos do meu último trabalho já foram depositados ontem. Estão na conta.

CACIQUE: Você é honesto. Gosto do seu trabalho. E gosto de conversar com você. Diferente de uns pesquisadores que vêm por aqui. Uns chatos.

FOTÓGRAFO: Como assim?

CACIQUE: Só querem falar do “sagrado”. Só querem falar de Deus. Só se interessam pelo que é mágico. Isso chateia. Enche o saco!

FOTÓGRAFO: O senhor tem razão. Parece que o conhecimento que os brancos querem ter da comunidade é sempre a partir de algum preceito religioso. Isso deve ser cansativo mesmo.

CACIQUE: Totalmente. Eu sempre achei que nós indígenas que tivemos oportunidade de estudar e conhecer a cultura dos brancos deveríamos propor uma nova discussão. Que possa levar a conceitos além desses que os antropólogos, sociólogos e outros ólogos propõem. Estamos fartos disso. E da conversa deles também. Eu agora dei para mentir para alguns deles.

FOTÓGRAFO: o senhor mente para os pesquisadores?

CACIQUE (rindo alto) Outro dia eu disse numa entrevista que as fotografias faziam cócegas na alma dos parentes. (Rindo) O cabra achou o máximo.

FOTÓGRAFO: O fato é que cada um tem seu modo de explicar as coisas. Chefe, a tarefa de seus amigos antropólogos é formular princípios explicativos da formação e desenvolvimento das diversas culturas. Eles vêm conversar porque precisam explicar, formular teses. Já eu, venho fotografar e ajudo vocês compartilhando os lucros do meu trabalho.

CACIQUE: Mas são muito cansativos e às vezes até inconvenientes. Depois vocês têm que entender que nosso conhecimento é feito e transmitido oralmente. O de vocês, principalmente dos antropólogos e sociólogos que vivem aqui perturbando a gente, é transmitido através da escrita. Assim, são duas formas diferentes de falar e compreender a realidade. Você não acha?

FOTÓGRAFO:  Acho que os dois modelos são sim diferentes, mas um não é melhor ou pior que o outro.

CACIQUE: Claro. Outro dia um professor veio me explicar o significado de epistemologia. Ensinou-me que é o estudo crítico dos princípios das diversas ciências. É a teoria do conhecimento. Aí eu disse: Pronto. Então nós temos a nossa epistemologia e vocês, os ditos brancos civilizados, têm a sua epistemologia. E fim de papo.

FOTÓGRAFO: O que o senhor acha disso? O senhor estudou com os brancos. Seu filho está na universidade dos brancos.

CACIQUE: Eu acho que nós precisamos conhecer os outros. Eu só posso conversar com você porque eu conheço o português. Eu só posso permitir que você tire as fotos porque eu conheço você. Conheço seu trabalho. Confio em você. Você tem sido honesto com o meu povo. Você tem nos ajudado. E sei que você também se ajuda. Já os antropólogos e sociólogos não nos ajudam em nada.

FOTÓGRAFO: Discordo chefe. Muitos estão comprometidos em lutar pela demarcação de terras. Em preservar seus direitos que são muitas vezes usurpados pelos brancos. Muitos têm um amor e uma dedicação incomensurável pela causa dos indígenas, a preservação de sua cultura. O senhor está sendo ingrato.

CACIQUE: Reconheço. Você tem razão. Mas os antropólogos e sociólogos tem que entender que os conceitos deles, não servem para falar de nossa cultura. Os conceitos de vocês, ditos conceitos “ocidentais”, não são nossos conceitos. Como eu lhe falei. Aprendi o que é a tal de epistemologia. E agora vou falar sempre isso. Nossa epistemologia é diferente da epistemologia de vocês.  

FOTÓGRAFO: O senhor tem medo de descaracterizar esse conhecimento? Essa epistemologia própria de vocês?

CACIQUE: Claro que tenho. E muito medo. A gente vai continuar mandando nossos filhos para a universidade. Mas é muito perigoso. Vamos ter indígenas médicos, engenheiros e advogados que podem começar a falar de nossos conhecimentos, da nossa epistemologia (gostei de aprender esse conceito), com base somente no que eles aprenderem na universidade. Eu acho isso temerário para nossa cultura.

FOTÓGRAFO: Pois é. Muitos acham que os indígenas são um povo que só vive em aldeias.

CACIQUE: Interessante. O que é ser civilizado? É ter carro, é ter casa bacana, é ter celular e computador. Parece que ser civilizado é aquele que tem as coisas. Eu tenho celular. Então eu não sou mais indígena. É isso?

FOTÓGRAFO: Para muitas pessoas, o indígena que está na cidade e que tem celular, carro e roupas da moda não é mais índio.

CACIQUE: Isso é um absurdo. Então o que é ser índio? A aparência pouco importa. (Retira o cocar). Se eu ficar sem o meu cocar de chefe eu deixo de ser o cacique aqui? O problema é que muitos não nos conhecem e não nos respeitam. Por isso eu apoio o teu trabalho. Você nos divulga de forma honesta. Eu gosto das suas fotos. Quando vamos ver as novas fotos e escolher?

FOTÓGRAFO: A conversa está muito boa. Vamos deixar para amanhã pela manhã?

CACIQUE: Claro. Eu vi que você trouxe um notebook novo. Vocês estão sempre com novas tecnologias. Nós também temos nossas invenções. O professor que me ensinou o conceito de epistemologia me disse que nós estamos aqui há uns 14 mil anos. Olha só. É muito tempo. Os portugueses chegaram aqui em 1500. Nós já estamos aqui há muito mais tempo.

FOTÓGRAFO: Desculpe chefe. Mas sem querer ofender. Qual é a tecnologia de vocês?

CACIQUE: Nossa tecnologia no ramo da alimentação, por exemplo. No ramo dos medicamentos. Muitos de vocês se apropriaram dessa tecnologia e nem nos avisaram. Nem nos deram direito e lucros inerentes a elas. Veja essa oca. O que você acha dessa construção? Minha casa não é bonita? Não está adequada ao nosso clima? Não é bacana? Você não dormiu bem aqui? Isso não é tecnologia?

FOTÓGRAFO: Claro. Sempre é agradável ficar aqui.

CACIQUE: Você viu como fazemos farinha? Viu nossos utensílios? Nossos vasos e nossa cerâmica? Isso não é tecnologia?

FOTÓGRAFO: Sem dúvida. O conhecimento de vocês é tão importante quanto os dos ditos civilizados. A previsão do tempo é uma coisa que me encanta. O senhor sabe sempre quando vai fazer friagem. Da última vez que estive aqui o senhor me disse que o período da vazante estava no fim. A constelação de Escorpião, que o senhor chama de surucucu, havia desaparecido no horizonte oeste.

CACIQUE: Pois é. As estrelas nos ajudam a identificar o ciclo das águas e também quando teremos a piracema. Podemos ver o céu e saber das chuvas e dos dias de sol. Para nós isso é muito importante.

FOTÓGRAFO: O pessoal dá muita importância para a previsão do tempo. O tempo é sempre notícia na televisão.

CACIQUE: Para nós também. Temos nossos rituais. Precisamos também fazer planejamento. Precisamos também saber a previsão do tempo. E também observamos os animais. O céu e os animais nos informam se vamos ter fartura de frutas, peixes e caça. Nos dizem quando vamos ter flores.

FOTÓGRAFO: Uma beleza. Vocês são privilegiados. Podem comer tudo que a natureza oferece.

CACIQUE: Não senhor. Aqui não se come de tudo não. Somos proibidos de comer nambu-galinha, uru, também chamado de puturu, e alguns peixes também não se come.

FOTÓGRAFO: Eu sei. Li que alguns povos não comem caititu, miriti e quati.

CACIQUE: Com razão. Precisamos ficar atentos ao que se come para evitar doenças como aquela que dá dor forte no corpo. Tem comida que pode deixar a pessoa doida. Outras comidas podem matar. São venenosas. Mas a gente conhece. Os antepassados nos ensinaram tudo.

FOTÓGRAFO: Isso é uma beleza. É um privilégio conversar com o senhor.

CACIQUE: E outra coisa que muito me preocupa. O clima anda descontrolado. Às vezes acontece tudo errado. Mas olha lá. (apontando o dedo para o horizonte) Veja que lindo arco-íris! É uma cobra colorida. Protege os rios e a floresta, sabia? Protege os rios e a floresta dos desmandos e dos abusos que vocês andam cometendo. Quando os rios e a floresta estiverem completamente sujos, a vida ameaçada e por um fio, guerreiros valentes descerão pelo arco-íris para salvar a terra.

FOTÓGRAFO: Que beleza. Essa foi demais. Acho que vou precisar descansar agora.

CACIQUE: Você cansou a tribo com muitas fotos. E me cansou com muita conversa. Até amanhã. A tribo e o cacique estão cansados.

(Fim do primeiro ato.)

Continua no próximo sábado...