Amigos do Fingidor

domingo, 19 de dezembro de 2010

Roda gigante num parque de desilusões

Jorge Bandeira


O monólogo A dama da noite, dirigido por Paulo Altallegre, com Arnaldo Barreto, é uma narrativa teatral a partir do famoso conto do escritor Caio Fernando Abreu. Dama da Noite, originalmente, faz parte do livro de contos Os dragões não conhecem o paraíso, publicado em 1988. O conto repercute as tendências dos anos 80, incluindo a questão sexual naqueles momentos iniciais da propagação do vírus da AIDS.

A incompletude do amor é claro na encenação, onde as tentativas de busca ao prazer são sempre e interrompidas, numa vertente de solidão que conduz o personagem nos 50 minutos de espetáculo a questionar sua angustiante situação, interpelando o boy imaginário, causando momentos patéticos de sua situação, entre o desespero e a angústia. A atuação de Arnaldo Barreto começa em um ritmo claudicante, mas logo vai ganhando ares de conquista no espectador, pois sua atuação concentra momentos de humor e sarcasmo, e sua personagem vai se revestindo da fortaleza necessária a um texto de extremo zelo estilístico, de um mestre do conto, Caio Fernando Abreu.

É um monólogo da solidão, dos que são feitos vampiros que percorrem as noites em busca de corpos e que se banham de sangue contaminado. Uma das características da verve de Caio Abreu, inserindo seus personagens num universo de causas perdidas, que são ensaios e tentativas que sempre serão frustradas nesta busca pelo amor e pelo prazer. É feito um coito que não se completa, um tantra mental que faz o corpo desfalecer pela falta do contato real, de sensações muito particulares ao mundo do homoerotismo.

Caio Fernando Abreu é um escritor dos classificados como derrotados e perseguidos, mas que curiosamente tem uma grande aceitação nos mais heterogêneos leitores, fruto sem dúvida alguma de seu gênio como escritor que não se basta por um rótulo, é excelente literatura que fala por si mesma, não precisa de bandeiras que se levantem para sua defesa. Seu magnânimo estilo é a sua defesa.

Dama da Noite é um monólogo feito com apuro, com intuição estética, e é claro seu aparato homoerótico, onde a Dama posta em cena é na verdade uma drag, nesta abordagem como um performista que encena um personagem. Daí o simbólico da exclusão, de pessoa que ficou “fora da roda”, da vida normal, da normalidade, dos condicionantes sociais, de uma exclusão que se faz até na finalização do prazer, onde seu gozo é uma pálida sombra de uma satisfação sexual. É esse espaço de urbanidade onde vive a Dama da Noite que é revestido de um perigo assustador, a insegurança aos comportamentos ditos “desviantes” pela sociedade conservadora fazem da Dama uma vítima em potencial da AIDS, seria mesmo a própria Dama uma espécie de personificação da AIDS.

A opção do diretor Paulo Altallegre foi ter esta dicotomia no palco, ora fazendo de sua Dama uma companheira para o boy imaginário, ora fazendo a plateia ser seu interlocutor imediato. O Belo Indiferente, de Jean Cocteau, é uma referência que logo aparece, nesse tipo de monólogo onde o invisível boy é alçado ao patamar de coadjuvante que jamais aparece, sendo elemento de sonho e delírio da Dama.

A tensão de cena é permanente, recurso sensório conduzido por uma Iluminação em penumbra, que algumas das vezes deixa o semblante do ator refém dessa escuridão, lembrando que a personagem é caracterizada pela escuridão até pelo nome, Dama da Noite. É uma drag-vampira, que se anuncia logo de cara como ser do elemento crepuscular. Crepuscular que necessita copular, que precisa de sangue de homens, que tem ânsia de prazer.

O ambiente de cabaré e music-hall é típico dos anos 80, e as inserções musicais elencadas pela encenação percorrem estilos díspares, de uma banda como o Tom Tom Club, formado por integrantes do Talking Heads, passando pela passional e visceral canção de Jacques Brel Ne me quitte pas, na voz bela de Maysa e Maria Bethânia, estilos diversos, que criam as atmosferas necessárias nos momentos de comoção da personagem.

Uma personagem que está aprisionada a um tempo de reminiscências nostálgicas, é uma múmia que anda pela noite, que tem um boy, um garoto novo, que é tratado com ironia pela Dama, um menino bonito, mas que não gosta de ler, somente assiste televisão, joga videogames, navega na internet e tem comunidades no orkut. Usa, inclusive, as pulseiras do sexo que foram proibidas em muitas escolas. Esses achados de atualização do texto de Caio é um mérito da encenação, que insere elementos contemporâneos com muita propriedade, não descaracterizando a obra de Caio.

A triangulação Boy invísivel/Dama/Plateia foi a responsável pelo controle da audiência, um público que acompanhou com atenção a triste história da Dama da Noite, suas forças e fraquezas. Logo no hall do Teatro Amazonas o público é recebido pelos anunciantes da “Roda Gigante”, da esfera opaca da vida e da morte, e Caio Fernando Abreu nos brinda com uma das mais belas visões poéticas sobre a ceifadeira, a Morte que acometerá a todos. A Entrada com dois travestis e uma prostituta recepcionando o público preparam para uma volta na roda gigante da solidão, um figurino com cores vibrantes, e um ator com um “feeling” e “timing” adequados para conduzir o sentimento do público aos giros intermináveis dessa roda gigante da existência dos excluídos.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Chris Achilleos.

Livraria Valer – 20 anos de História

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A Livraria Valer comemorará seus 20 anos de história com mais uma promoção de livros. Como acontece todos os anos, realizará, a partir de sábado, dia 18 de dezembro, a partir das 8 horas, sua já tradicional promoção de aniversário. Todo o seu acervo, composto de mais de 15 mil livros, estará à venda, com descontos de até 90%. A PROMOÇÃO SE ESTENDERÁ pelos dias 18, 19, 20, 21 e 22 de dezembro.

Fruto de seu compromisso com o incentivo à leitura, a Livraria Valer pretende com a campanha oportunizar o acesso das pessoas ao livro. A promoção é, ao mesmo tempo, um presente para os clientes que terão oportunidade de comprar livros para presentear os amigos e familiares nas festas natalinas.

Os livros estarão à disposição de todos, com preços acessíveis. Alguns títulos importantes serão vendidos a preços simbólicos:

· “Fogo morto”, de José Lins do Rego, de R$ 39,00 por R$ 14,00;
· “O símbolo perdido”, de Dan Brown, de R$ 40,00 por R$ 16,00;
· “Uma breve história do mundo”, de Geoffrey Blainey, de R$ 40,00 por R$ 18,00;
· “O caçador de pipas”, de Khaled Hosseini, de R$ 27,00 por R$ 14,00;
· “Galvez, imperador do Acre”, de Márcio Souza, de R$ 37,90 por R$ 11,00;
· “Dois irmãos”, de Milton Hatoum, de R$ 47,00 por R$ 15,00;
· “Amanhecer”, de Stephenie Meyer, de R$ 49,90 por R$ 29,00;
· “Se eu fechar os olhos agora”, de Edney Silvestre, de R$ 34,90 por 9,90;
· “A cidade ilhada”, de Milton Hatoum, de R$ 31,00 por R$ 9,90.

Será uma boa oportunidade para adquirir as obras de autores regionais, que serão vendidas com desconto especiais:

· “As mil e uma noites”, de Márcio Souza, por R$ 5,00
· “Semibreves & exercícios de harmonia”, de Elson Farias, por R$ 5,00
· “A floresta vê o homem”, de Thiago de Mello, por R$ 5,00
· “Francisca – a utopia da liberdade”, de Sylvia Aranha, por R$ 5,00
· “Pássaro de cinza”, de Farias de Carvalho, por R$ 5,00
· “Reflexões de um sempre aprendiz”, de Edson Paiva, por R$ 5,00
· “A derrota do mito”, de Tenório Telles, por R$ 5,00
· “João Barbosa Rodrigues”, de Leyla Leong, por R$ 9,90
· “A engenharia do texto”, de Odenildo Sena, por R$ 9,90
· “O texto nu”, de Zemaria Pinto, por R$ 9,90
· “Poesia e poetas do Parnasianismo, Simbolismo...”, de Marcos Frederico, por R$ 9,90

Entre outros autores conhecidos do público que terão seus livros à venda: Thiago de Mello, Elson Farias, Luiz Bacellar, Aldisio Filgueiras, Neide Gondin, Tenório Telles, Márcio Souza, Zemaria Pinto, Jorge Tufic, Alencar e Silva, Wilson Nogueira, Renan Freitas Pinto, etc.

Para quem desejar adquirir obras de grandes autores da literatura universal, diversos títulos em inglês, da Editora PINGUIM BOOK, serão vendidos com preços abaixo de R$ 10,00:

· William Shakespeare;
· Charles Dickens;
· Jane Austen;
· Homero;
· Dante;
· Vitor Hugo;
· Flaubert;
· Cervantes.

As crianças receberão um presente de natal antecipado: todos os livros do departamento infantil terão descontos especiais. Os títulos da Coleção “Florescer da Leitura” estarão acessíveis aos leitores mirins – com preço de R$ 15,00 por apenas R$ 5,00:

· “O som das letras”, de Elson Farias;
· “Travessuras de urubus”, de Elson Farias;
· “Sonhos de Cuirão”, de Neuton Correia;
· “Formosa – a sementinha voadora”, de Wilson Nogueira;
· “As frutas do meu quintal”, de Ana Peixoto;
· “Os sapos do meu quintal”, de Ana Peixoto;

Dezenas de best-sellers e os últimos lançamentos do mercado editorial estarão em promoção com descontos de 50%:

· “Mentes brilhantes”, Augusto Cury
· “Quem pensa enriquece”, Geoffrey Blainey
· “A hospedeira”, Stephenie Meyer
· “1822”, Laurentino Gomes
· “Elite da tropa”, Luís Eduardo Soares
· “Depois da escuridão”, Sidney Sheldon
· “Queda de gigantes”, Ken Follett
· “1808”, de Laurentino Gomes

Ninguém vai alegar que não compra livro por causa do preço. E com a aproximação do natal é uma boa oportunidade para fazer do livro um presente inteligente. Serão cinco dias de festa para os amantes do livro. A promoção se encerra no dia 22 (quarta-feira), às 18 horas.

Livraria Valer –  Rua Ramos Ferreira, 1195 – Centro – Manaus – (092) 3633-6565

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A miragem elaborada – 15

Zemaria Pinto

O homem noturno, a busca da luz

II



Esse tecer infindo constitui-se milagre na proposição que o poeta faz em “À noite”:

                    Mas preservarei a flor.

                    Construirei muralhas,
                    e o tempo e o vento não a destruirão.
                    Quando as tempestades vierem,
                    me aproximarei e a defenderei,
                    para que possa devolvê-la ainda flor
                    à manha.

Não importam os ditadores, não interessa o tempo que lhes reserva o poder, o homem saberá preservar a si até que venha a manhã.

Este poema traduz toda a importância atribuída à noite na obra de Alcides Werk. A noite como caminho inevitável para a luz:

                    Meu coração não se erguerá contra ti,
                    porque és simples,
                    e não conheces o mal que fazes,
                    quando levas a luz.

No poema “À irmã sem amor”, o tema é retomado:

                    a antiga semente do amor
                    foi lançada no coração dos homens.
                    Ela é irmã da manhã


                    Germina no silêncio da noite,
                    mas ao amanhecer será árvore
                    e será fruto.

O amor, a fraternidade, a igualdade entre os homens. Mas o poeta não deixa de alertar contra qualquer possibilidade de radicalismos, avisando que

                    os sinais,
                    tu os conhecerás nos pássaros

No poema “Da espera”, ele renova o aviso:

                    Direi aos pássaros que esperem,
                    enquanto perdurar a ronda dos morcegos.

Esses três poemas constituem a reflexão do poeta sobre o momento político. Sem a dor estampada em “Da noite do rio” ou a quase-alegria de “Canção”:

                    Sou leve, não tenho nada
                    (nem mesmo o medo da morte).

Há a calma, a serenidade de quem sabe o que quer.

                    Há uma grande alegria na espera.

Ele diz em “À irmã sem amor”, para arrematar, na festa dos pássaros, que

                         o labor de tuas mãos limpas
                    será aceito
                    no grande banquete de amor que se prepara
                    para saudar a manhã.

Banquete que se renova a cada aurora na vida do homem amazônico. Como em “Facheação”, o dia clareando:

                    preciso remar ligeiro,
                    que o povo tá me esperando
                    com a peixada pro ajuri.

Ou em “Peixe-boi”, após o sucesso na pesca:

                    Voltar para casa
                    cheio de alegria
                    no romper do dia

A chegada do dia relacionada com a festa da volta para casa: o fim do exílio, a retomada da liberdade, o tempo novo que se anuncia. No poema “Êxodo”, o coroamento dessa ideia:

                    Quero voltar pro meu lago,
                    quero enganar a mentira,
                    assar um peixe na praia
                    e saudar o sol nascente,
                    fazer uns versos pro dia
                    mas nos teus braços, Jupira.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Arnaldo Garcez em exposição

Dia do médico: permanente luta contra a dor e a morte

João Bosco Botelho


A humanidade sempre conviveu com a certeza da doença e da morte. A inteligência humana conseguiu elaborar, no espaço sagrado, ideias para justificar a inexorabilidade da agonia do frio, da fome, da doença e da morte. A partir de uma fase, cujo início é impossível de precisar, predominou aquela que projetava a ambicionada felicidade na imaginável vida depois da morte. A epopeia edificada na busca dessa imortalidade representou um dos principais fatores para o aparecimento dos agentes da cura, da benzedeira ao médico, e a materialização da Medicina como especialidade social.

Curar é uma palavra mágica porque interliga o sagrado com o profano. O ato de curar traz na sua essência o poder ou a sensação de vencer o maior de todos os obstáculos da vida: a morte.

Este é o ponto básico da principal resistência humana: vencer a morte inevitável!

O fato está claro na mitologia grega. A data atual de comemoração do dia do médico — 18 de outubro — corresponde à época em que era celebrada a festa do filho de Apolo, Asclépio, o deus da Medicina grega. O estudo da representação social de Asclépio no panteão grego é capaz de identificar um ponto comum na relação entre os mundos sagrado e profano: a insubordinação humana à ordem divina quanto à mortalidade dos homens.

O poder da divindade, artisticamente construído, mantendo a primazia sobre a morte, foi revigorado pela gradativa consolidação do cristianismo como religião dominante. O calendário cristão manteve o dia 18 de outubro como o registro festivo para marcar o nascimento de Lucas, o evangelista médico.

A serpente de Asclépio se enrolou na cruz cristã e formou um dos mais belos sincretismos religiosos da história. A primeira, símbolo da imortalidade embaixo da terra, e a cruz como a representação do inatingível acima da terra, fecham o ciclo mítico pendular entre o desconhecido situado acima da cabeça e abaixo dos pés do homem.

Entretanto, quando o medo da morte nos alcança ou àqueles que nos são amados, e os recursos da Medicina são insuficientes para preservar-lhes a vida, como na Grécia antiga, em que os doentes suplicavam pelo milagre de Asclépio, o Ocidente cristianizado se volta à bondosa imagem de Jesus Cristo, capaz de curar muito além dos recursos médicos oferecidos.

Ainda estamos angustiantemente longe de compreender os mistérios da vida. Contudo, não é sem razão nem simples coincidência que os médicos comemoram, muitos sem saberem porquê, o dia 18 de outubro como marco da resistência à morte inevitável.

Ilustração: Jesus cura um doente, de autor desconhecido.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Brita Seifert.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Livraria Valer faz promoção anual

São 50 mil exemplares e 16 mil títulos, com descontos que variam de 50% a 90%.
O evento tradicional acontece de 18 a 22 de dezembro, das 8h às 18h.

Tramas de Penélope

A fragmentação das torres – 9

Marco Adolfs

Tio Otávio acima do Atlântico



O comandante acabou de nos avisar que estamos sobrevoando a ilha do Sal. Agora começo a pensar no futuro imediato, com otimismo. Haveria alguma coisa em mim de um cavaleiro que persegue o vento?, pensei, enquanto olhava a rota do avião pelo monitor da minha poltrona. Talvez um louco voador, domador de moinhos? Quem saberia dizer, senão eu próprio? Quando o avião decolou rumo a Portugal eu recitava baixinho aqueles versos, que diziam: “...navegar é preciso, viver não é preciso...”. Sempre me chateou muito o fato de que alguém pudesse reclamar da vida, ter preconceitos ou rancores. Quando explodiu o golpe militar de 64, após aquelas manifestações todas, mamãe ficara a favor e papai, contra. Havia reclamos por toda parte, perecendo que o amor entre todos estava partido e a alegria era triste. Eu não sabia muito bem o que significava tudo aquilo. Lembro apenas de alguns militares postados nas esquinas de algumas ruas e daquele barulho trôpego dos cascos dos cavalos passeando perto da Central do Brasil. Meu pai tinha nos levado, a mim e ao meu irmão, à Central do Brasil com o intuito de nos proporcionar a nossa primeira viagem de trem. Lembro também que pediu um filé com fritas delicioso, antes de embarcarmos com destino a Macaé. Seria apenas uma hora, mais ou menos de viagem, até Macaé. Ida e volta. Quando voltamos, o centro do Rio já não era mais o mesmo e aqueles cavalos pareciam feras arremetidas contra os passantes. Lembro de papai nos puxando pelo braço de forma violenta. “Vamos sair daqui para pegar o carro”. Havia muita gente correndo para tudo que era lado, era o que eu percebia. E aqueles cavalos bufando. Eu tentava não escorregar, sob os puxões que meu pai me dava. Via aqueles prédios da avenida como se estivessem a ponto de cair sobre mim. Foi quando então atingimos uma ruela e o barulho ensurdecedor foi amainando, que eu me senti aliviado de todo o medo. Enxuguei o suor do meu rosto, enquanto olhava para a cara enfezada que papai fazia, também vermelho de suor. “Milicos miseráveis!” Por um momento eu não entendi o que significava a palavra milico, com papai se referindo aos militares. “Pensam que vão ficar no poder!”

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O segredo do pagode chinês

Pedro Lindoso



Quando a vi no hall de entrada do Teatro Amazonas, não tive dúvidas. Era Antônia, a eterna Miss Borba. Estava entre turistas franceses, vindos para o Festival de Ópera. Antônia nasceu no dia 13 de junho, dia de Santo Antônio de Borba. O mesmo Santo Antônio de Lisboa, de Pádua e de todos os devotos brasileiros e portugueses. Assim, Antônia só poderia se chamar Antônia. Filha de uma cabocla de Borba, município amazonense às margens do Rio Madeira, e de um empresário descendente de libaneses. O pai de Antônia era casado e durante muitos anos iludiu sua mãe com promessas de desquitar-se para com ela se casar. Nunca cumpriu a promessa. Mas sempre deu para mãe e filha toda assistência financeira e afetiva. Aos doze anos, Antônia ficou órfã de mãe. O pai veio buscá-la. De beleza ímpar, desde cedo recebeu educação primorosa e portava-se como verdadeira princesa, como se transportada das Arábias para a Amazônia. O pai decidiu mandá-la para o Rio de Janeiro. Antônia foi interna no Colégio Bennet. Tradicional e centenário, o Bennet é das mais respeitadas instituições educacionais do Rio. Retornou a Manaus aos 18 anos completos. Fluente em inglês, francês e com curso técnico em secretariado, logo lhe foi oferecido um emprego no Palácio Rio Negro, sede do governo do Amazonas. No seu primeiro dia no Palácio, o assessor direto do governador estava às voltas com um projeto inusitado: apoiar o concurso de Miss Amazonas. O Estado do Amazonas deveria eleger a miss Brasil. E mais, o governador queria a participação de garotas do interior. Como Antônia havia nascido em Borba, de imediato foi escalada para representar o município. Foi assim que Antônia ficou conhecida como a eterna Miss Borba. Eleita Miss Amazonas, classificou-se em terceiro lugar no Miss Brasil. Viajou o país e o mundo. Naquela época, os concursos de miss eram prestigiados e concorridos. A miss era uma celebridade. E como tal, Antonia retorna a Manaus. Um baile acontecia no Palácio Rio Negro. Antônia vestia um conjunto em seda chinesa. Estava deslumbrante. Nos salões do Palácio, toda a sociedade manauara em noite de festa, gala e esplendor amazônico. A orquestra tocava The Platters – Only you, quando Roberto, o assessor do governador, recém-desquitado, tirou Antônia para dançar. O rapaz insistia: Preciso falar com você. Urgente. Vamos ao segundo andar do Palácio. Após subir as escadas, vá para o segundo salão à esquerda. Aguardo você lá. Ao entrar no salão, Antônia ficou fascinada por uma linda mobília em estilo oriental. Uma espécie de aparador com prateleiras entalhadas em estilo chinês. A bela mobília tinha simplesmente o formato de um interessante pagode chinês. Aliás, o móvel é chamado, apropriadamente, de pagode chinês. Compõem o conjunto duas cadeiras de balanço, também em estilo oriental. Antônia nunca me disse o que houve naquela noite entre ela e Roberto. Dileto amigo, Roberto faleceu num famoso desastre de avião, chegando à Paris, onde se casaria com Antônia. Voltemos ao hall do teatro. Naquela noite, o Festival Amazonas de Ópera apresentava “Samson et Dalila" de Camille Saint-Saens. O Festival homenageava a França, com seleção de óperas composta de peças francesas. O festival recebe muitos turistas europeus, especialmente franceses e alemães. Ver uma bela ópera e ainda conhecer a Amazônia é sempre um apelo irresistível. Mas a presença de Madame Antônia Carradot, anônima, no hall do Teatro Amazonas, era algo que precisava ser esclarecido. Porque não se comunicara comigo era um mistério. Fui a Paris providenciar o traslado das cinzas de Roberto. Uma tragédia. Dei-lhe todo o carinho, toda a atenção merecida. Sempre muito simpática comigo. Nunca entendi seu silêncio. Antônia recebeu todo o carinho e atenção possível naquele nefasto evento. E agora, retornando anonimamente a Manaus, eu tinha que falar com ela. Me aproximei, sutilmente. Ela me reconheceu e sorriu. Pediu encarecidamente que não contasse a ninguém que estava ali. Só queria um favor meu. Ir ao Palácio Rio Negro, rever o pagode chinês. Perguntou-me se conhecia alguém no governo que pudesse facilitar a visita. Disse-lhe que não precisava. O Palácio agora era um centro cultural aberto ao público. Poderia levá-la na manhã seguinte, antes de sua partida para o aeroporto, de volta à França. Perguntou-me se a intrigante mobília ainda estava no palácio. Disse-lhe que sim, não havendo motivo para não estar lá. Ela sorriu e argumentou que poderia estar numa residência qualquer de um bairro chique. Afinal, saques a bens públicos aconteceram em Manaus, em várias épocas. Aquele hall do teatro mesmo, dizem que havia esculturas e peças de mobília que não estão mais lá. Eu lhe garanti que o pagode chinês estava no Palácio. No dia seguinte, busquei Madame Antonia Carradot no hotel e fomos direto ao Palácio Rio Negro. Subiu lentamente as escadas. Foi direto à sala onde estava o pagode chinês. Perguntou se podia sentar em uma das cadeiras. Em princípio é proibido, estávamos num museu. Mas os anjos e demônios que guardam esse Palácio permitiriam que ela se sentasse. Estávamos sós. Antonia sentou-se na cadeira de balanço, olhou para o móvel, pensativa. Duas lágrimas fortes rolaram. Jamais esquecerei aquela cena. Não quis ver mais nada. Saímos do Palácio. Chovia como sempre chove na Amazônia. Antonia entrou no carro. Levei-a ao aeroporto. No caminho, contou-me que estava viúva do francês com quem se casara. Sua única filha era médica, formada pela Sorbonne. Tinha quatro netos. Parece que querem repovoar a França. Todos esses detalhes eram interessantes, mas ela não me contou e eu não tive coragem de perguntar que segredos, que juras de amor entre ela e Roberto, que mistérios teria aquele lindo móvel – o pagode chinês –, o que teria aquilo por testemunha? Antônia retornou discretamente para Paris, levando consigo esse segredo tropical, que, com certeza será debulhado muitas vezes, às margens do Senna. Au revoir, Antonia Carradot.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Nudez e performance em Regina José Galindo

Jorge Bandeira


O uso da Internet com propósitos elevados de pesquisa me possibilita falar dessa grande artista guatemalteca, nascida em 1974, que tem demonstrado de forma incontestável ser uma das mais atuantes artistas da arte da performance em nossos dias. Galindo já recebeu alguns prêmios em virtude de suas intervenções artísticas, entre os quais o Leão de Ouro na Bienal de Veneza de 2005. Nesta série de artigos irei me deter em seus trabalhos especificamente sobre o eixo “nudez em performance”, com as intervenções de Regina José Galindo em estado de nudez total e analisarei esses trabalhos à luz dos conceitos historicamente trabalhados pelos pesquisadores naturistas, seus vínculos com o corpo nu, as possibilidades de uma união entre arte e nudez, envolvendo considerações de diversas ordens – sociais, culturais, estéticas, históricas e filosóficas.

Impressiona a diversidade e quantidade de suas performances, e Regina Galindo também é poeta, de uma poesia econômica, direta e concisa. Suas obras possuem uma calculada precisão, e a artista deve fazer uso de um rigoroso roteiro analítico para que seus propósitos de performer alcancem da melhor maneira o público-alvo. Seu corpo nu é usado como um símbolo claro, onde a artista imprime doses de extrema coragem e naturalidade ao mostrar-se nua em público, nas situações mais inquietantes que um artista pode sofrer.

O poder dessas imagens naturais não deixa nenhum espectador incólume, no sentido de um dano sensorial, de seus sentidos, sobre a obra de Regina Galindo. Seu trabalho é insuportavelmente sincero, e nos abraça com todas as forças de um corpo em estado emergencial, que precisa nos dizer algo, caso contrário irá sucumbir neste mundo de “acomodações” e “anestesia” sobre as questões urgentes da vida em sociedade. Galindo é uma artista contemporânea, com preocupações de ordens mundiais, globais. Mesmo quando realiza sua performance no plano mais político de um tema, seus ecos poéticos se deslocam para vários países e situações. Seu trabalho, neste aspecto, é universal, e a linguagem de seu corpo nu é compreensível em qualquer lugar e situação.

Momento da performance “Recorte Por La Linea”, de Regina José Galindo, onde o renomado cirurgião venezuelano, Dr. Billy Spence, marcava o corpo nu da artista para uma “provável” intervenção, de forma a criar o “corpo perfeito”, segundo os padrões da estética corporal existentes nos dias de hoje.





Um artista performático encara todas as situações que são perpetradas ao seu corpo de forma natural. Até porque ele(a) tem o domínio da situação, e nisso há uma linha de registro de alerta para o inusitado, o que pode decorrer das situações especialmente nas ruas, nas praças públicas, nos lugares onde a performance mais se agiganta, nos centros urbanos, nas passarelas, pontes, enfim, onde a multidão, o povo, costuma percorrer livremente em seu cotidiano. Cabe, ao artista performático, criar uma situação de “perturbação” do ambiente, causar umaa atmosfera de “suspensão” desse cotidiano, e nisso Regina José Galindo é de uma capacidade e inventividade extraordinárias!


Regina José Galindo na performance Piel (pele). Neste trabalho de 2001 a artista depilou todos os pelos de seu corpo, inclusive as sobrancelhas (restaram apenas os cílios!), e em seguida caminhou completamente nua pelas ruas de Veneza.



Neste impactante trabalho temos a artista como andarilho, nua, somente vestida com sua pele, sem artifícios, demonstrando em sua andança naturista o desejo de continuar, indo e sonhando, alheia aos comentários em sua volta, aos olhares de desaprovação, de escárnio, de piedade, de gracejos e taxações de transeuntes que a têm como tresloucada, exibicionista e imoral. A artista encontra-se ao mesmo tempo forte e fraca, pois a situação inusitada a conduz firme até o fim de seu trajeto.

O ato inicial da performance foi raspar todos os cabelos do corpo, depilando-os completamente. Disso tudo resultou numa outra mulher, num outro ser humano (que em sua “pureza e estranheza” alguns vislumbraram como um extraterrestre que perdeu o seu OVNI e que caminhava pelo Planeta Terra em busca do improvável!).

O poder da imagem dessa nudez é indiscutível: o poder da pele que se descortina agora aos usuários das roupas e grifes. Quem seria mais estranho? Quem seria mais verdadeiro? Quem sofre mais imposições? São essas as chaves de inquietação que a brilhante artista carrega através de seus poderosos atos simbólicos, tudo através da performance.

Recorte Por La Linea, 2005. Venezuela.
Uma artista que se coloca nua, disponibilizando seu corpo integralmente para a reflexão dos padrões da estética corporal neste mundo de uma busca desenfreada pelo “belo”, custe o que custar. O cirurgião marca integralmente o corpo de Regina, é ele o que interfere nesse processo, no que está despencando, o que cai com o peso da idade, dos anos, da alimentação, um corpo nu, somente isso, e pronto para o abate nos hospitais onde as mulheres (e também os homens!) buscam essa “perfeição”, esse melhoramento substancial, nesse corpo que não pode ser mais, à luz dessa ótica, como perfeito, mesmo que seja uma criação divina.

Linhas e geometrias que lembram as tatuagens dos índios, prenúncios de retirada de gordura e sangue desse corpo a ser mutilado, retalhado. Eis a mensagem da artista, somos vítimas de uma condição que nos impõe regras de bem viver, o mundo das cirurgias plásticas, dos elementos rejuvenescedores, das dietas milagrosas, das academias intermináveis, somos esse corpo que não vive mais sem essas interferências.

A performance de Regina Galindo traz à tona essas questões, e ela sabe, como mulher, que o sofrimento feminino deve muito às apelações da moda e do consumo, onde um corpo é só mais um tipo de alegoria de um utópico devaneio, e de onde a felicidade agora é servida pelos meios de comunicação e pela guerra chamada de mercado de trabalho, onde ter um corpo “apresentável” é regra impiedosa.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Noel faz 100 anos

Zemaria Pinto

Noel Rosa (11/12/1910 – 04/05/1937).
Foto colorizada: autor desconhecido.

Noel, por Lucas Leibholz.

Da séria série Lapidares:

Noel Rosa pode ser ou não o mais psicólogo, o mais poético, o mais harmonioso, o mais romântico, o mais realista, o mais ritmado etc.; indiscutivelmente, ele é apenas o maior compositor brasileiro! (Paulo Mendes Campos)*

Noel, por ele mesmo.

De saúde frágil desde criança o queixo deformado e a face paralisada foram causados pelo mau uso do fórceps, quando nasceu , Noel compôs de forma insana: morto aos 26 anos, deixou mais de 250 composições.
Nestes tempos politica e ridiculamente corretos, Noel seria censurado. Vejam (e tentem cantar) Gago apaixonado, de 1930, quando o moleque tinha apenas 20 anos: 

Mu... mu... mulher
Em mim fi... fizeste um estrago
Eu de nervoso esto... tou fi... ficando gago
Não po... posso
Com a cru... cru... crueldade
Da saudade,
Que... que ma... mal... maldade
Vi... vivo sem afa... fa... fago

Tem pe... pena
Deste mo... mo... moribundo
Que... que já virou
Va... va... ga... gabundo
Só... só... só...
Por ter so... so... fri... frido
Tu... tu... tu... tu... tu... tu...
Tu tens um co... co... coração fingido!

O teu co... coração
Me entregaste
E de... po... pois de mim
To.. to... ma... maste
Tu... tua falsi... si... sidade
É pro... pro... profunda
Tu... tu... tu... tu... tu... tu... 
Tu vais fi... fi... ficar corcunda!

Gravado por Moreira da Silva, João Nogueira, João Bosco, o engraçadinho Evandro Mesquita e o chato Ivan Lins, entre outros, o Gago é uma oportunidade rara para o cantor improvisar a divisão rítmica da canção.

Para quem nunca ouviu falar de Noel, a melhor introdução é o CD da série Songbook, de 1991, produzido por Almir Chediak (acho que encontrável só em sebos), com 22 pérolas, interpretadas por Tom Jobim, Chico Buarque, Nelson Gonçalves, Leila Pinheiro, Caetano, Gil, Gal, Bethânia, Luiz Melodia, Macalé, Djavan, Rafael Rabello, Cassiano, Francis Hime, Carlos Lyra, J. Nogueira, J. Bosco, M. Moreira, N. Matogrosso, R. Menescal e E. Dusek.

E o livro, insuperável, Noel Rosa, uma biografia, de João Máximo e Carlos Didier.

(*) In: Noel Rosa, uma biografia.

Fantasy Art – Galeria

Ex Oriente Lux.
Zeljko Tonsic.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A miragem elaborada – 14

Zemaria Pinto

O homem noturno, a busca da luz


I


Uma característica marcante na poesia de Alcides Werk é a presença da noite. A noite protetora, envolvente, cúmplice do caboclo amazônico. A noite, caminho da antemanhã. A noite, precursora da luz.

No poema “Da noite do rio”, por exemplo, um canto angustiado, revelador de percalços históricos pelos quais passou o país, o poeta dimensiona o peso dos acontecimentos políticos tingindo de tons escuros seu universo:

                    nesta noite sem medida
                    eu todo banhado em sombras

O “homem noturno” não se opõe ao “homem diurno”. Aquele é este sem rumo

                    fugi de casa, fugi

A desesperança com o momento histórico atinge seu cume, o homem perde a concha de seus sonhos: a aurora, o símbolo mais vulgar e perfeito da mudança, parece inalcançável:

                    como se a aurora que busco
                    neste rio se afogou

Perdido o refúgio, perdido o sonho, o homem renova-se, a partir do rio – o símbolo mesmo da mudança, pois que nunca se repete. Mas o “rio noturno” é apenas a projeção da angústia do “homem noturno”: adormecido, cansado de viagens, arauto de mortes

                    que fazem parte do rio
                    e estão assim como estou

O homem ensombrecido, impotente pela impotência do rio, encontra-se ilhado: não há como lutar contra a noite que se abate sobre seu universo. Ele está só. E o maior castigo é não haver castigo.

                    por remissão de meus males,
                    deixar meu corpo vazio
                    guardando o castelo inútil
                    e partir buscando a aurora

A noite que envolve o poeta leva-o ao dia: no poema “Canção”, este repentino renascer da vontade indica claramente o novo caminho.

Não à solidão. Não ao isolamento. Não ao desespero

                    vou em busca do meu dia


                    para o labor necessário
                    de inaugurar horizontes

A poesia caminha para o convívio dos homens e renega a escuridão, o amargor, a desesperança. Relacionando algumas chaves dos poemas, percebemos isso claramente:

Da noite do rio                                                             

noite
sombras                                                                      
fugi de casa                                                                
branco (desta praia)                                                       
aurora (...) (se afogou)                                                   
acordar (o rio)                                                               
cansado                                                                         
morte                                                                        
mortos pescadores                                                         
nuvens                                                                      
chuva                                                                           
fome                                                                          
frio                                                                                
males                                                                      
corpo vazio                                                             
castelo inútil                                                               
face marcada                                                           
ventos

Canção


cantando
estrada
busca
dia
leve
não tenho nada
(...) nem o medo da morte
irmãos
ver
nova cidade
brotando (das ruínas)
lamentos inúteis
velhos cantos amargos
alegre
saudade
mãos limpas
labor
inaugurar horizontes

Primeiro – e, claro, considerando-se o contexto de cada poema – valores negativos (“Da noite do rio), depois, valores positivos (“Canção”). Os dois poemas, interrelacionados, caminham um em direção do outro

                    e partir buscando a aurora

                    vou em busca do meu dia

Da mesma forma, eles se rejeitam

                    Os meus lamentos inúteis
                    (os velhos cantos amargos),
                    esta noite os esqueci.

No fundo, eles se completam

                    Nesta noite sem medida
                    eu todo banhado em sombras


                    Vou em busca do meu dia,
                    vou juntar-me aos meus irmãos.

Essa busca inicia-se, na verdade, na opção assumida no poema “Do homem”. A aurora não é um fenômeno físico. Claramente, ela é um acontecimento forjado por mãos humanas. O homem através dos tempos, construindo seu caminho:

                    E toda lembrança
                    que trago comigo


                    é o Homem tecendo
                    o imenso milagre
                    da aurora que vem.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Anatomia: o desvendar do corpo

João Bosco Botelho



A história evidencia com fartos registros que o estudo do corpo humano, escondido pela pele, encontrou dificuldades nas estruturas de poderes das crenças e idéias religiosas, notadamente, nas do monoteísmo. A justificativa da resistência está contida no dogma do homem ter sido criado à imagem e semelhança de Deus.

Os teóricos do monoteísmo obrigaram-se a contornar dois empecilhos, aparentemente insolúveis, refletidos na realidade: a forte tradição politeísta anterior e a diversidade humana. Foi precisamente na fantástica superação desses dois problemas que a narrativa da criação se transformou no ponto culminante da epopeia teológica monoteísta.

O cristianismo introduziu algumas mudanças importantes na estrutura do espaço sagrado oriunda do judaísmo. Ao contrário dos israelitas, acrescentou certa oposição entre o físico e o espiritual (Mt 10,28). O ser humano, agora plenamente concebido como dual, isto é, corpo e espírito, deveria ser o instrumento para servir a Deus (2Cor 5,10 ).

Todavia, o Novo Testamento manteve do Antigo Testamento o mesmo sentido mítico em torno do sangue (Mt 16,17 e 1Cor 15,50). Igualmente como o sangue dos animais sacrificados por Moisés inaugurou a Antiga Aliança entre Deus e o povo eleito, a Nova e Eterna Aliança foi sacramentada por Jesus com o seu próprio sangue (1Cor 11,25 = Do mesmo modo, após a ceia, tomou o cálice dizendo: Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue; todas as vezes que dele beberdes, fazei o em memória de mim).

A palavra correspondente de anatomia em árabe — “ilm al tasrib” — é precedida pela raiz “saraha” que significa trinchar, cortar, separar. Como o islamismo entendeu a criação dependente e sequenciada (Sura 23,13 14 = Depois, transformamos o esperma em coágulo, e o coágulo em óvulo, e o óvulo em osso, e revestimos o osso com carne. E era mais uma criatura. Louvado seja Deus, o melhor dos criadores), a inevitável intervenção do exame, dilacerando a carne, foi seguidamente impedido pela convicção de que a integridade do corpo era indispensável à condução da boa morte.


Os médicos, cirurgiões, artistas e pintores, no Renascimento europeu, começaram um movimento conjunto para levantar o véu opaco que cobria os músculos e as vísceras. A harmonia dos limites interiores do corpo desvendado encantou a todos e fez vibrar também a caneta dos poetas e os pincéis dos artistas. A sensibilidade de Leonardo da Vinci (1452 1519) buscou a profundidade da forma e produziu desenhos dos ossos, das artérias e veias com soberba perfeição.

Ilustração: Leonardo da Vinci (1452-1519).

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

John Lennon 70/30

John Lennon, nascido a 9 de outubro de 1940.
Arte: Mark Muloski.
.

John Lennon, assassinado a 8 de dezembro de 1980.
Arte: Andy Warhol.

Fantasy Art – Galeria

Del Melchionda.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

domingo, 5 de dezembro de 2010

Arrebentando de vez com o arrebatamento: after 0:00AM

Jorge Bandeira

É preciso destruir tudo, até mesmo as ruínas
Allen Ginsberg


Coisas para depois da meia-noite, texto e direção teatral de Denni Sales é uma avulsão de sentimentos exacerbados, cenas de clímax ou anticlímax desvairados, são o arrancar de um carnegão e suas pústulas, cenas do subterrâneo que todos conhecem, mas que no Teatro nos conduzem ao seu cerne avantajado, ao beco de onde não podemos fugir.

A peça visceral começa ao som inquietante de “Silence”, da banda de trip hop Portishead, e a emblemática frase de um brasileiro, que abre o disco Third, o terceiro em onze anos desta banda fantástica. A frase em questão: “esteja alerta para a regra dos três, o que você dá retornará para você, essa lição você tem que aprender, você só ganha o que você merece”; nos insere nesse enigmático e labiríntico teatro em que seres dramáticos mergulharão ao longo da encenação teatral. De forma abrupta, assistimos a cenas que aparentemente se iniciam sem conexões umas com as outras, mas que no decorrer da trama percebemos a capacidade do dramaturgo (sim, um dramaturgo!) de encadear sua história de forma segura, sem atropelos num enredo recheado de uma visão áspera das circunstâncias da vida. Denni Sales é o autor de um outro texto, Feliz Aniversário, além de esquetes para os Sábados Detonados e para Os Obscenos.

Não é um niilismo, e sim um acerbo, existe aí uma sutil diferença que coloca COISAS na abrangência necessária do refletir a situação vexatória, que nos instiga a rever certos conceitos, mas que não estão ali para fazer a cabeça de nenhum espectador. A iluminação projetada por Márcio Braz é feita com penumbras ocasionais e luzes de strobo, margeando as emoções e sensações dos universos preferidos dos insanos e admoestados personagens centrais, Liz Boa (Ariane Feitoza) e Marcelo (Efraim Mourão). Também não é uma apologia do sofrimento humano dos excluídos, dos dejetos sociais. Trata-se de uma constatação da crueza da vida. Unicamente isso. Uma fissão aos espíritos apaziguados, que enxergam a vida apenas pelo lado mais prosaico da mesma, o das convenções reguladoras do Estado e da sociedade, e das amarras e falsidades dos convencionais dogmáticos, de todos os matizes e religiões.

A multimídia, e nela a colocação do teatro pós-dramático, nas cenas de sexo explícito no data show erótico, com o coito anal, vaginal, ejaculações e “boquetes” são projetados nas paredes e alcançam até mesmo os nossos corpos, e isso tudo é feito de uma forma bem calculada, o diretor tem a condução do espetáculo repleto de paixões infrenes.

Não há apaziguamentos aqui, e aos de falsa moral ou contaminados pelos fundamentalismos do religare religioso aconselho a assistirem de olhos e ouvidos fechados a este caudaloso inferno na Terra. Aos de liberdade no sangue e mente, é uma das raras oportunidades em Manaus de presenciar algo diferente e fora do comum, e de uma estética e linguagem dignas do ingresso pago. A trilha sonora incidental, a atualidade com o Portishead, o bate-estaca das Raves via incursão na música eletrônica, eis um Teatro do século XXI, apagando de vez a belle époque do século XIX deste lugar da Barra, mas de uma BARRA onde quem não estiver atento às vicissitudes desta sofrida vida, fode-se mesmo.

O recado é dado da forma mais direta, usando a linguagem seca dos personagens, condutores do caos, que não possuem nenhum resquício de romantismo ou visão exótica de suas vidas. São marginais embrutecidos pelo fedor do lixo que a sociedade e o Estado não recolhem das ruas. E deste lixo virá um ser disforme, mutatis mutandis, e criará sua maneira própria de agir, de transgredir.

Os lampejos e as faíscas, na simbologia da música e da iluminação, conduzem para as mudanças nos personagens, que padecem suas “mortes” e são capacitados para uma “nova vida”. A violência policial, um figurino realista, são objetivos cruciais perseguidos pelo autor/diretor, sem floreios, sem uma gota de academicismo, é algo da sarjeta mesmo, um hiper-realismo que não há cristão que não entenda, de um fôlego só, uma porrada na “boca do estômago”.

Denni Sales não fica na superfície, ele lacera as carnes de suas presas. Penetra, de forma inclemente, no mais ínfimo da condição humana. Penetra vigorosamente, mas estranhamente sua montagem nos reconforta pelo paradoxal. E nisso temos a literatura dramática minuciosamente trabalhada como poética da comiseração. Ocorre uma quebra do maniqueísmo nos níveis imagéticos e dos símbolos caros a uma tradição enraizada desde nosso batismo. Na Idade Média, Denni Sales seria queimado vivo, junto com seu elenco, não tenham dúvidas.

Neste elenco as atuações nos fazem arregalar os olhos. Ariane Feitoza (Liz Boa) é uma puta e tanto, puta atriz mesmo, e seu desempenho é cativante, e o brilho de seus olhos é fulgurante, em especial nos momentos de pura poesia de seus “bifes”, de sua comunicação direta com a plateia. Efraim Mourão é um sacana, seu Marcelo é feito com um cinismo avassalador, e as surpresas de COISAS têm neste seguro e talentoso ator sua linha mestra, nas emblemáticas cenas do ato inicial do velório e também no boquete hospitalar. É pau puro, meu velho, sangue e esperma que se mancomunam num turbilhão de ações canibalescas e sexuais de afronta máxima, um personagem obcecado pelo improvável e pelo dilaceramento de tudo e todos.

O encadeamento da trama flui natural, mesmo neste caminho tortuoso destes seres inclassificáveis, arautos do opróbrio, da abjeção extrema. Os planos e níveis do espaço cênico, o uso eficaz do piso superior do palco, as mudanças de cenários, há uma precisão e zelo com as mudanças de cena, fazendo que a ação torne-se dinâmica aos olhos do público. Ainda sobre o elenco, saliento a interpretação sem exageros de Paulo Altallegre, condutor de um pai religioso e tragado pelo desenlace surreal de uma vida marcada por dissimulações totais. Dimas Mendonça é o algoz que se torna vítima, e no final é ele o responsável pela Parusia, na linda cena final do Cristo Libertário. Brunier Bulcão, Vitor Kaleb e Fadia Rodrigues completam o competente elenco, que não se deixou intimidar pela escrita arrebatadora de sensações de Denni Sales. Aceitaram o desafio com a dignidade dos artistas sensíveis e generosos para com o Teatro.

Os serviços de limpeza dos garis, os boyzinhos nas suas festinhas barganhadas pelo poder econômico de seus papais, as drogas como permanências obrigatórias desse universo, a bebida, as cores, um Jesus Profano, a inversão dos valores banais, a linguagem fula, direta, popular, as personagens e suas perversões, a contaminação via crueza do texto, uma infinidade de cenas de forte impacto visual, palavras de profundidade e “profanidades”, penetração do soro no ânus do dilacerado peniano, o sangue menstrual escorrendo pela coxa-xoxota da puta Liz Boa, que ela esfrega na cara do filhinho de papai, o pastor que se decepciona com o enviado, que aos seus olhos agora deve ser o enVIADO, a Bíblia sendo rasgada pelo infeliz e incrédulo discípulo epistolar, pois este Jesus faz sua opção pelos excluídos socialmente, pelos dejetos, pela banda podre social, condição inadmissível para um dogmático fã do Antigo e Novo Testamento. A possibilidade de salvação desta bestial humanidade advirá pela bissexualidade, ou pela pansexualidade (que envolve tudo!).

Por isso, talvez, “Ave, Lúcifer” dos mutantes fecha este ciclo de Coisas para depois da meia-noite, uma notável viagem ao submundo que todos já conhecem, mas que sem a coragem teatral desses intérpretes, e com o controle das esferas dos recursos cênicos dirigido por Denni Sales, seria somente uma pálida alegoria das sarjetas. E aqui a sarjeta vira um luxo numa caixa preta. Depois dessa Meia-Noite a carruagem cerebral não se transforma em abóbora!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Jiansong Chen.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A miragem elaborada – 13

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço

XII


O levantamento completo do espaço poético amazônida de Alcides Werk encontra-se por inteiro no subtítulo “O homem e a terra”, de Trilha dágua.

O “Soneto aberto sobre a morte”, por exemplo, em Da noite do rio, recebeu a numeração VIII da sequência de sonetos. Embora naquele volume não houvesse subtítulos, era clara a intenção do autor de separar os poemas por unidade temática. Na primeira edição de Trilha dágua, por conseguinte, os subtítulos “O homem a a terra”, “A fala” e “Estudos” viriam concretizar essa intenção. Em “Estudos”, o autor localizou os poemas sob a forma de sonetos, com um conteúdo político, porém pessoal, particular. Ali, a atmosfera é densa, escura e um tanto amarga. O soneto VIII continha essa atmosfera, porém narrava em linguagem clara um fato externo, estranho ao caráter introspectivo dos demais composições ali enfeixadas.

Da mesma forma, os poemas “Das rosas”, “Dos juízes” e “Da espera” saíram da sequência original em Da noite do rio para compor o subtítulo “A fala”, onde o autor reúne poemas nos quais a experiência pessoal dá a tônica, porém sem a exigência formal de “Estudos”, prevalecendo, aliás, quase sempre, versos livres, além de uma atmosfera mais aberta, mais clara, menos tensa. Aqui, o espaço se contrai, se intimiza, se torna quase imperceptível. Mesmo quando a magnitude espacial se agiganta, como no poema “Noturno”, é para aumentar ainda mais a ideia de intimidade pessoal:

                    Um dia, nesta praia deserta,
                    de onde contemplo os meus ocasos
                    e somo por somar o tempo inútil

No espaço de “O homem e a terra”, portanto, o Homem – como fator externo à observação do mundo – ocupa a terra e compõe com ela o espaço de movimentação da poesia de Alcides Werk, dentro de um ciclo circular: o caminho percorrido vai da selva à selva, pelo rio, passando pela cidade.

Mas a cidade, sabemos, não é caminho: é destino. Logo, o retorno não se cumpre, reflete apenas a inquietação do homem diante do novo espaço que se lhe afigura incompreensível, inalcançável. Voltar? Sim,

seria bom, mas o cidadão é mais forte que o nativo, domina-o com sua linguagem de argumentos irrespondíveis, com sua sedução pela novidade, a novidade que atrai o homem mais que qualquer outro aspecto do ser, porque é o único que o acrescenta.

Essa consciência do não-retorno nos remete, novamente, a “Do tempo entre duas águas”, fecho o desfecho de “O homem e a terra”:

                    Então,
                    convocaremos a força benéfica
                    que desobstruirá os canais dos nossos sonhos,
                    e iluminará os nossos corações;


                    e nos ensinará os caminhos da urbe

                    e nos ensinará os caminhos da várzea

                    e nos ensinará os caminhos da terra firme

O poeta sonha com a aurora. Com a luz.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

AAL promove novos Diálogos Qualificados: “Santidade e Poesia”

.

Para mais informações, ligue 3234-0584.

Manaus, meu sonho – lançamento

Linguagens-culturas: doenças além do social – 2/2

João Bosco Botelho


As ideias oitocentistas incentivadas pela fisiologia experimental de Claude Bernard aprumaram a ciência na tarefa de explicar como funcionava o corpo, quase sempre o associando aos avanços da técnica. O pleno exagero do mecanismo coube às palavras do pensador La Mettrie (ANCORA, Clemente et al. Homem, In: ENCICLOPÉDIA EINAUDI. Anthropos-homem. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985. V. 5) , em 1748, que conduziu a mecanização das pessoas ao limite máximo: “...em todo o universo não há senão uma única substância diversamente modificada, portanto o homem é uma máquina”.

No século 20, com a industrialização impondo as linhas de montagem e a necessidade rápida de mão de obra, os corpos tornaram-se complementos das máquinas. O mecanicismo trouxe um impressionante conjunto metafórico às linguagens-culturas: o coração passou a ser a bomba; o pulmão, o fole; o rim, o filtro e, finalmente, o cérebro, o computador.

Os reflexos sobre as mudanças na formação do médico não tardariam. Em 1910, o Relatório Flexner sobre as cento e cinquenta faculdades de Medicina, existentes naquela época, nos Estados Unidos, seguido, dois anos depois, pelo segundo Relatório, que descrevia os cursos médicos da França, Inglaterra, Alemanha e Áustria, selaram o destino da nova metodologia do ensino da Medicina. As universidades admitiram o maior produtor de saúde: as relações científicas vindas dos laboratórios de pesquisa. O conjunto formador estava apoiado na certeza de que o uso de aparelhos, para intermediar a ação médica oficial seria responsável para a melhoria das condições de saúde das populações.

Talcott Parsons, em 1951, entendeu a Medicina de modo semelhante às crenças e às ideias religiosas, compreendendo as enfermidades como significantes de desvio social. A saúde só poderia ser alcançada sob a estreita supervisão do médico. Essa abordagem foi marcada pelo etnocentrismo americano do Norte, da década de cinquenta, e legitimou os Relatórios Flexner ao afirmar: “O paciente tem a obrigação de buscar ajuda técnica competente (fundamentalmente um médico) e cooperar no processo de recuperação”.

A compreensão de Parsons estabeleceu a premissa de que o homem não pode ajudar-se a si mesmo. O médico seria o mais importante elemento mediador para vencer a doença. Essa abordagem fortaleceu a Medicina-oficial e a morte hospitalar, fixando forte relação de dependência do paciente frente ao médico.

É evidente que o estudo de Parsons só poderia ser aplicado em alguns segmentos sociais, nos países industrializados, com grandes recursos disponíveis para pagar os serviços de saúde.

Do mesmo modo como a concepção da saúde atada exclusivamente ao social, a aplicação dessa Medicina-oficial mecanicista só é aplicável entre as populações ricas e sem efeito prático nos maiores segmentos dos países subdesenvolvidos, onde a exclusão social esmaga e impede o acesso aos hospitais. A imensa parcela populacional desassistida, tanto no Primeiro quanto no Terceiro Mundo, continua recorrendo aos curadores populares para resolver os problemas da saúde e da doença.

Apesar da clara evidência, a prática médica nos países do Terceiro Mundo, desde os anos sessenta, ficou impregnada pelas teorizações de Engels, Flexner e Parsons. Os trabalhos acadêmicos ora primam para qualificar a dor como fruto da injustiça social, ora oferecem a máquina como solução para prolongar a morte temida.

Apesar de a maior questão dos saberes médicos não estar resolvida  em qual dimensão da matéria viva a doença começa a substituir a forma preexistente para transformar o normal em doença? , os médicos oriundos da sedução marxista ou do tecnicismo exacerbado acreditaram, perigosamente, na infalibilidade da Medicina oficial e distanciaram-se do doente. As intolerâncias dos dois segmentos forçaram o abandono da milenar tradição médica que valoriza a relação médico-paciente, explícita nos escritos da ilha de Cós, como ponto de partida para alcançar a cura.

As ordens médicas da doutrina flexneriana e do socialismo desmoronado, como ventos polares, aderiram ferozmente na maior parte dos médicos, entre os anos 1960 e 1980. Se, por um lado, os Relatórios Flexner concorreram para consolidar o ensino da Medicina, nos Estados Unidos da América e nos países da Europa, e a publicação de Engels remeteu à crítica dos abusos do capitalismo, por outro, ambos podem ser responsáveis pelo descrédito com que a ciência lidou, a partir de então, com o conhecimento historicamente acumulado dos curadores populares.

A pior resultante da tecnocracia médica se refletiu no abuso dos medica-mentos e da hospitalização. O médico não precisaria conhecer o paciente, bastaria estabelecer o diagnóstico e prescrever o tratamento. Os testes laboratoriais seriam confiáveis para garantir que as doenças, e não os doentes, responderiam de acordo com o esperado.

Na contracorrente da intolerância que afastou o médico do doente, alguns centros de pesquisas sociais iniciaram estudos para entender como as pessoas se relacionavam com as doenças e práticas de curas fora dos muros das universidades. O trabalho desses críticos da exclusiva tecnocracia médica trouxe para as academias os conflitos resultantes das relações profissionais com os dois sistemas de saberes: o mítico e o cientifico.

Ao contrário das afirmações de Flexner e Parsons, o controle das doenças sempre esteve além do social (LE GOFF, Jacques; SOURNIA, Jean-Charles. Les maladies ont une histoire. Paris. L'Histoire-Seuil. 1984):

A doença não pertence somente à história superficial do progresso científico e tecnológico, mas à história profunda dos saberes e práticas ligados às estruturas sociais, às instituições, às representações, às mentalidades.

É insuficiente entender a doença apenas como uma consequência das agruras sociais. As evidências apontam para a doença como dependente do social e do genético para que os indivíduos possam fugir da dor-pessoal, transpor a dor-histórica e procurar o prazer. Cada pessoa possui incontáveis padrões específicos para identificar qualquer ameaça de dor. As respostas biológicas frente às sensações dolorosas foram acumuladas durante o processo de humanização, contidas nos circuitos específicos dos sistemas nervosos central e periférico e em cada segmento microscópico do corpo, todos moldados no genoma.

A herança genética é a responsável pela recombinação desses incontáveis padrões e garante a transmissão aos descendentes na reprodução sexuada ou na inseminação artificial.

Muitas dúvidas quanto à possibilidade de o social causar alterações genéticas, transmitidas à prole, desapareceram após os estudos das mutações genéticas e dos trabalhos do cientista Susumi Tonegawa, o Nobel de 1987, esclarecendo como se dá a variação na ordem dos aminoácidos dos anticorpos produzidos nos linfócitos B. O pesquisador demonstrou que, quando o linfócito B se desenvolve, segmentos do seu material genético são selecionados e misturados para formar novos genes, dando origem a milhões de sequências variadas de aminoácidos, capazes de efetuar com competência a defesa do corpo humano contra as agressões micro e macroscópica do exterior.

Como consequência imediata dessas pesquisas, é possível afirmar que pelo menos parte da estrutura genética do homem é móvel, competente de desenvolver, durante a vida, infinidade de combinações gênicas adaptadas às necessidades vividas. Com essa certeza, é possível articular o sólido elo entre a herança genética e a vida social.

A doença e a dor, por serem entidades abstratas e não existindo sozinhas em si mesmas, recebem nomes e classificações do homem, que as teme quando sente a possibilidade da dor fora de controle ou a proximidade da morte prematura. Como resposta constrói e reconstrói sistemas cognitivos dos saberes e símbolos míticos e empíricos, oriundos de tempos muito distantes, com poderes suficientes para mudar comportamentos com o objetivo de moldar a sociedade. Esses circuitos natos - as memórias-sócio-genéticas - localizadas no genoma respondem pelas correntes que ligam o ser ao social e à genética, impulsionando as pessoas contra as ameaças da dor e as aproximando de condições prazerosas.

Como a forma anatômica antecede qualquer manifestação do ser vivente, isto é, para que possa construir linguagens-culturas é indispensável existir um ou mais segmentos na forma do corpo, nas dimensões macro e microscópica, que sejam os responsáveis pela função. Esse elo, indispensável à vida, preserva a multiplicidade das sensações corpóreas objetivas e subjetivas, nas linguagens-culturas orais e escritas de todos os matizes e alcançam a libido, fome, sede, medo, amor, raiva, choro, sono e outras sensações corpóreas.

Considerando o ser como produto de longo processo da evolução, possui obrigatoriamente nas cadeias do ADN muitos segmentos de combinações que o religam de modo permanente ao passado recente e ao muito distante. Uma vez que o processo de mudança da forma e da função do corpo deu-se lentamente, adaptando a espécie humana à sobrevivência e forçando a fuga da dor, mantém no genoma as memórias-sócio-genéticas, adquiridas e armazenadas na ontogênese.

Sob essa perspectiva teórica, os símbolos e metamorfoses das linguagens-culturas que ligam as memorias-sócio-genéticas aos limites da cura são partes do conjunto biológico que dependem do social e do genético.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Earth Mother.
Nathie Block.