Amigos do Fingidor

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Lira da Madrugada – Alencar e Silva 9/15


Zemaria Pinto

 

Ficha biobibliográfica

 

Autor: Alencar e Silva

Nome completo: Joaquim de Alencar e Silva

Naturalidade: Fonte Boa – AM

Nascimento: 21 de setembro de 1930

Falecimento: 25 de setembro de 2011

 

Obra poética:

·       Painéis (1952)

·       Lunamarga (1965)

·       Território Noturno (1982)

·       Sob Vésper (1986)

·       Poesia reunida (1987)

·       Sob o sol de Deus (1992)

·       Ouro, incenso e mirra (1994)

·       Solo de outono (2000)

·       Crepuscularium (2006)

·       Sonetos reunidos (2011)


DESCE A NOITE NO VALE E AS SOMBRAS CANTAM

 

Desce a noite no vale e as sombras cantam

trescalantes canções de fim de dia.

Nada pode igualar-se à nostalgia

das luzes mortas que ainda se levantam

e andam na noite e à própria noite encantam

com marcados compassos de agonia,

enquanto a brisa vai ficando fria

e as sombras soltas pela noite cantam.

Fez-se noite no vale e agora é a hora

de recolher ao ninho o coração

entre as notas longínquas da canção

que em doces vozes o embalara outrora.

          Vão-se os últimos pássaros do outono.

          Fecha-se a noite. E já me apaga o sono.

 

Alencar e Silva é, dos poetas fundadores do Clube da Madrugada, aquele mais arraigado à tradição. Sua poesia sempre se pautou por uma sintaxe existencial, sem grandes voos formais inovadores, mas, por isso mesmo, mantendo unidade e coerência ao longo de uma produção que se estendeu por quase 60 anos. Mestre do verso decassílabo, Neto, como os amigos o chamam, tem como temas essenciais o banal cotidiano dos encontros e desencontros amorosos, o ofício do verso e o mistério que se encerra entre o ser e o não ser. Este tema – “o grande vendaval” a que ele alude em Sob Vésper (1986) – tem sido recorrente: “Tudo traz sob a pele a sua morte”, ele escrevia em Lunamarga (1965). Poesia simples e cativante, Alencar e Silva esculpiu, a cada livro, miniaturas em palavras de bronze, que testemunham, justificam e perpetuam a aventura humana sobre a terra.

O poema em análise faz parte de uma coletânea intitulada Solo de Outono (2000), onde o autor “comemora” seus 70 anos. São poemas que guardam as características gerais da obra do autor – melodia fluida para temas intimistas –, acrescidas de uma indizível tristeza, própria dos que, sabiamente, enfrentam o passar dos anos com a tranquilidade do inevitável, vivendo intensamente essa nova – e última – fase. Isto é o que pode pensar o leitor não familiarizado com a obra do poeta: a recorrência ao tema da morte, comum na obra do autor (como referido antes), é um véu tênue entre intenção e realização.

“Outono” e “noite” são, no poema de Alencar e Silva, símiles: palavras de sentido diverso que, no contexto do poema, adquirem um significado que as aproxima. O outono, como símbolo da velhice, antepondo-se à primavera, que simboliza a juventude; o verão, a estação solar, simboliza o esplendor da vida adulta. Se compararmos as estações com as fases da vida, resta ao inverno expressar a própria ausência de vida, pois é a estação do recolhimento. Assim, o outono ganha uma dimensão ainda mais complexa, pois é uma passagem entre a vida e a sua ausência.

Na comparação das fases do dia com a vida humana, a noite, com a sua escuridão, marca a proximidade da morte, opondo-se à claridade, expressão maior da existência: a manhã significando a infância e a tarde, a idade adulta. A madrugada, também escura, podemos intuir, seria o breve tempo da gravidez – o tempo do sono primordial, que prepara o corpo para a manhã que nasce. Outono e noite têm, portanto, uma raiz metafórica comum, efeito das comparações entre a vida humana e os ciclos da natureza: a rotação da terra sobre si mesma em 24 horas e sua órbita em torno do globo solar, por 365 dias, ambos divididos em quartos perfeitos – as quatro partes do dia e as quatro estações do ano.

Estabelecidos estes parâmetros, a leitura do poema deve fluir sem obstáculos, como a água de um rio que mana – sobre pedras, asperezas e peraus – mansa e cristalina. Vejamos os substantivos que se destacam nos versos iniciais: noite, vale, sombras, canções, dia. Como já sabemos o significado poético do primeiro e do último, cuidemos dos outros três. “Vale” é uma depressão situada à base de um monte ou entre duas elevações. Podemos imaginar o poeta descrevendo o que observa a partir de um ponto elevado, olhando “de cima”. O poeta ouve o coro das sombras, metáfora de suas lembranças. Observe a convergência entre “desce a noite” e “canções de fim de dia”, formando uma única imagem, plástica e sonora, mas nem por isso menos melancólica e dolorida.

Em seguida, o poeta descreve o acender-se de luzes no vale: são luzes mortas, sem brilho, que ainda assim encantam. Mas duas expressões marcam a sequência de versos: “nostalgia” e “compassos de agonia”. Aquele ritual fere fundo a alma do poeta, pela tristeza e sofrimento que se desprende das canções. A noite se aprofunda – “a brisa vai ficando fria” – e o coro das sombras se eleva pelo vale, até envolvê-lo por inteiro. As notas da canção vão ficando cada vez mais distantes, confundindo-se com uma inaudível canção da distante infância – “que em doces vozes o embalara outrora”. Este movimento circular, pontuado pelos compassos da canção, une os dois fios da vida do poeta: a do velho e a do menino.

É muito interessante a relação que Alencar e Silva estabelece entre “a hora de recolher ao ninho o coração” e a constatação de que “vão-se os últimos pássaros do outono”: o coração recolhido ao ninho não se vai embora como os outros pássaros, em busca do calor do verão; antes, entrega-se à noite que domina o vale, porque é chegada sua hora de retirar-se, para esperar, tranquilo, o inevitável inverno. E num verso sobre todos harmonioso ele arremata: “Fecha-se a noite. E já me apaga o sono.” E encerra-se o ciclo da vida com um simples e natural cerrar-se de olhos.  

Deixo uma última nota: a expressão “vale das sombras” substitui, no imaginário ocidental, o que os gregos chamavam de infernos – a região dos mortos, o reino de Hades, situado nas profundezas da terra. Ressalve-se que aqui não há nenhuma conotação de cunho religioso, não se separa inferno e paraíso – é apenas o lugar para onde todos, indistintamente, irão um dia.  O vale das sombras de Alencar e Silva, sem qualquer cunho místico, preserva, valoriza e embeleza essa geografia mítica, herdada de um tempo anterior à história. 

Desce a noite no vale e as sombras cantam
(Mauri Mrq e Alencar e Silva)


quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

A poesia é necessária?

 

Nox

Naldo Cinzas

 

Prólogo

Eis a noite...

surge em cantos

e morre aos prantos

no esplendor do dia!

Surge...

derruba castelos,

destrói muralhas,

mói pensamentos,

remove afetos,

onde esconde a mente doente

atos perversos e versos inconfessáveis.

Surge em forma vulgar em Nocte

e se embeleza de forma clássica

quando em páginas escuras

histórias e estórias são contadas

do Codex Carmina Nox:

 


terça-feira, 12 de dezembro de 2023

A cultura do cancelamento chega à UEA

A propósito de um Encontro de Literatura e os Novos Inquisidores 

Por Tenório Telles



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Acordos, pactos, COP’s e COP’s

Pedro Lucas Lindoso

 

Lembro-me bem da ECO 92. Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em junho de 1992. À época eu estava como procurador-geral do EMBRATUR – Instituto Brasileiro de Turismo. As verbas destinadas ao evento não foram poucas. Chamada também de Cúpula da Terra, a convenção reuniu chefes de Estado e representantes de dezenas de países e organismos internacionais. Houve também a participação direta da população.

A ECO 92 aconteceu justamente duas décadas depois da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, também chamada de Conferência de Estocolmo. Antes disso, ninguém falava sobre meio ambiente e sustentabilidade. Nos dias atuais o tema é recorrente. Os acordos, pactos e convenções são anuais e não saem da pauta dos governos de todo o planeta.

Nestes dias termina em Dubai mais uma reunião com os mesmos propósitos, A COP 28. Conferência das Partes da ONU, que reúne anualmente os países signatários da Convenção do Clima. O evento acontece desde 1995. O Brasil, aliás a cidade de Belém, já se prepara para sediar a COP 30, daqui a dois anos. Manaus deveria ter sido a escolhida. Foi uma injustiça com a cidade. A nossa rede hoteleira é melhor e o Estado do Amazonas prima bem mais pela sustentabilidade do que o Pará.

As conferências sobre o clima não param. Tia Idalina, com seu proverbial sarcasmo, disse que quando o mundo acabar, as pessoas estarão indo ou voltando de uma reunião sobre o efeito estufa, clima e emissão de gases.

Outra figura folclórica inesquecível deste cronista é dona Maria do Areal. Líder comunitária de uma invasão em Brasília nos anos oitenta. O Distrito Federal só teve representação política após a Constituição de 1988. Dona Maria era procurada e paparicada por todos os segmentos políticos e ideológicos. Todos pensavam nos votos do pessoal do Areal. A pobre senhora já estava cansada de tanta reunião.  Certo dia chegou uma equipe com técnicos e políticos, incluindo uma celebridade da área ambiental.

Dona Maria mandou recado: não iria participar da reunião e explicou sua recusa. Sic: “esse povo arreone, arreone, arreone. E não arresolve nada”.

As questões climáticas são urgentíssimas. É preciso resolver. A todo momento temos notícias de desastres naturais e mudanças climáticas drásticas afetando a tudo e a todos. Não foi por falta de acordos. Temos o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris, além das várias COP’s que pressionam os países para executarem planos de ação para reduzir as emissões de gás e do efeito estufa.

Parafraseando dona Maria do Areal: acordos, pactos, COP’s e COP’s e COP’s. E nada efetivamente se arresolve!


domingo, 10 de dezembro de 2023

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Lira da Madrugada – Farias de Carvalho 8/15


Zemaria Pinto

 

 

Ficha biobibliográfica

 

Autor: Farias de Carvalho

Nome completo: Carlos Farias Ouro de Carvalho

Naturalidade: Manaus – AM

Nascimento: 8 de setembro de 1930

Falecimento: 25 de junho de 1997

 

Obra poética:

·       Pássaro de cinza (1957)

·       Cartilha do bem amar com lições de bem sofrer (1965)

 


MEU CAVALO CHEGOU

 

Meu cavalo chegou (memória e nuvem),

a aurora derramada sobre a crina.

Meu cavalo chegou. Fome de tudo

estou também: engoliremos mundos.

 

Meu cavalo chegou. E, pressentidos,

os caminhos me espiam de suas rédeas.

Meu cavalo chegou. Há quanto tempo

gasto-me em pés e olhos nesta espera...

 

Meu cavalo chegou. Eu despertava

quando o vento falou-me de seus cascos

e a poeira garantiu-me sua presença.

 

Meu cavalo chegou. Cumprir-me-ei.

Tanta gente cansada nessas cruzes...

Meu cavalo chegou. Mortos, montai!...

 

 

MENSAGEM DO AMANHÃ

  

Essa aurora que vem será dos puros,

dos bem-aventurados loucos de hoje;

dos que trocaram o paletó de carne

pela túnica azul dos infinitos.

 

Essa aurora que vem será dos poetas,

esses feitores mágicos de mundos,

– galopadores das palavras vivas

que serão a estrutura do amanhã.

 

Essa aurora que vem, cairá das mãos

desses pálidos anjos que andam, à noite,

tatuando mensagens nos espaços...

 

Essa aurora que vem, magicamente

pulará da cartola de Carlitos

com a chave de amor do mundo novo!


A poesia de Farias de Carvalho goza de livre trânsito entre a crítica social e o misticismo. O que, a distância, aparenta ser um paradoxo, verifica-se, com a visada sem pressa, que é tão somente uma demonstração de demasiada humanidade: a inquietação política não anula os cuidados com a alma, assim como a entrega mística não se desgarra do banal cotidiano. Desse modo, a poesia de Farias de Carvalho oscila ora para o discursivo e, por vezes, datado, ora para um existencialismo que tem suas raízes mais fundas na escola simbolista. Nos poemas a seguir analisados prevalece a opção espiritual, porém, conforme procuraremos demonstrar, a visão social está contemplada, pois o “mundo novo”, uma ideia recorrente na poesia de Farias de Carvalho, é dos puros e dos justos, dos oprimidos e dos que não enveredaram pelos caminhos da opressão. Parece simplório – e é. Mas estamos aqui tratando de símbolos, de representações idealizadas, onde a chave para qualquer decifração é o amor ao próximo, por mais que isso pareça fora de moda.

O poema “Meu cavalo chegou” traz, numa linguagem cifrada, própria da boa poesia, a euforia de um espírito com a presença da pessoa que vai recebê-lo ou incorporá-lo, conforme os rituais das seitas afro-brasileiras. A essa pessoa se chama cavalo, pois o espírito ou entidade, vindo das pradarias do além, “cavalga-o”, num transe, dominando os seus movimentos. O poema nos passa toda a angústia da espera intemporal, imensurável pelos padrões humanos:

(...) Fome de tudo

estou também: engoliremos mundos.

(...) Há quanto tempo

gasto-me em pés e olhos nesta espera...

Ao fim da espera soma-se a esperança, em imagens de beleza rara:

a aurora derramada sobre a crina.

Para montar as imagens, o poeta faz a opção por descrever uma cavalgada literal: numa inversão completa dos signos, o cavalo, antes metáfora de um ser humano, assume sua aparência animal, determinada pelas palavras “crina” e “rédeas”. Estamos falando de um conceito de raríssimo emprego: a metáfora que se engendra a partir de si mesma. Metametáfora?

(...) E, pressentidos,

os caminhos me espiam de suas rédeas.

Observe o que é o domínio da linguagem poética: para dizer algo como “os caminhos se abrem diante de suas rédeas” – o que seria belo em si mesmo, dada a perspectiva inusitada –, visando afirmar que o cavalo, em disparada, tem várias opções a seguir, o poeta diz “os caminhos me espiam de suas rédeas”. O verbo espiar, tão amazonense e tão prosaico, assume, na arquitetura do poema – sem perder o sentido original, de olhar – um significado transcendente, metafísico. Trata-se de um exemplo soberbo da figura de linguagem hipálage, que consiste em “atribuir a um ser as qualidades de outro ser que se encontra próximo”.[1] As rédeas e os olhos não são dos caminhos, claro, mas de cavalo e cavaleiro.   

A sequência enfatiza a imagem do cavalo real, a partir da representação usual da poeira levantada, a que se contrapõe a insólita “o vento falou-me de seus cascos”, para dizer que o barulho da cavalgada podia ser ouvido ao longe.

O terceto final guarda uma nova surpresa: o eu lírico revela-se uma entidade superior, que tem um papel predefinido, um destino – “Cumprir-me-ei” –, diante de “tanta gente cansada nessas cruzes...”. O seu cavalo não é apenas um cavalo, mas todos os cavalos, ensejando que o movimento que se articula em seguimento seja interpretado como de retorno à vida: “Mortos, montai!”. Essa ideia é reforçada pela repetição sistemática da locução “meu cavalo chegou”, que ecoa como um refrão militar. Mas qual o significado possível dessa leitura? A resposta pode estar no poema “Mensagem do amanhã”.

Embora repetido com menos insistência, o refrão “essa aurora que vem” serve-se do símile “aurora” – chamo símile a uma metáfora desgastada, onde a comparação, sem precisar ser feita, está explícita – para designar o “mundo novo”. Se no poema anterior concluímos com uma visão apocalíptica, dos mortos tomando a terra, neste temos a manhã da redenção, onde apenas os puros, os loucos e os poetas herdarão a terra. Por muito menos, Platão deixou os poetas do lado de fora de sua República.

“Mensagem do amanhã” apresenta-nos a um mundo perigosamente idealizado, sem meios-termos, sem concessões à aurea mediocritas a que se referia o romano Horácio, que não conheceu o cristianismo. Vale ressaltar, entretanto, entre expressões de gosto duvidoso, como “paletó de carne” e “estrutura do amanhã”, a relação com o clown chapliniano, Carlitos – um autêntico mensageiro da paz –, alegoria do homem novo: puro de coração e espírito, um tanto louco, e envolto em permanente halo de poesia. Carlitos é o arauto dessa “chave de amor”, trazida pela manhã do mundo novo, que sucederá a noite apocalíptica, preconizada em “Meu cavalo chegou”.

Profetas se expressam por signos, como os poetas. O termo vate é empregado tanto a profetas quanto a poetas. Farias de Carvalho, consciente disso, exercita-se, sem maiores pudores, nas duas linhas. Sai-se muito bem como poeta. Quanto ao mundo novo, a “nova república”, parece cada vez mais distante do coração do homem.


Meu cavalo chegou - Mensagem do amanhã
(Mauri Mrq e Farias de Carvalho)


 




[1] GRAÇA, Antônio Paulo. Como funciona a poesia. Manaus: Valer, 1999. p. 46.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

A poesia é necessária?

 

El Dorado

Álvaro Smont

 

Um lugar distante...

Protegido pela floresta,

pela lenda,

pelo sonho.

 

Guardados pela natureza,

pelo imenso manto verde

que oculta as relíquias

gloriosas e desconhecidas.

 

Ruínas marcadas nos trópicos

revelam pistas adormecidas

de um tempo sem memória,

de uma natureza extinta.

 

Alimentados pela utopia,

desvirtuados de seus rumos,

nas buscas incansáveis

da civilização perdida.



terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Catarina e Van Gogh

 Pedro Lucas Lindoso

 

Minha neta Catarina é uma garotinha de um ano e meio. Muito esperta e muito querida. Anda por toda parte. Aliás, corre para lá e para cá! Mexe nisso e naquilo. É preciso ficar de olho nela.  E interage com a gente do jeito que só bebês inteligentes sabem fazer.

É super carinhosa e adora passear e ver o mundo! Então, sua dinda Flávia pensou que a pequena Catarina ficaria encantada com a exposição interativa de Van Gogh. Exposições interativas podem ser uma maneira maravilhosa de despertar o interesse pelas artes nas crianças. Seria ótimo ver Catarina nesta experiência!

Ao comprar os ingressos dinda Flávia foi informada que crianças menores de quatro anos não pagam. Então resolveu incluir os pais da garotinha no programa. Poderiam ainda levar a irmãzinha de Catarina. Isadora, uma bebezinha linda de quatro meses.

As exposições de arte podem ser uma oportunidade única para as crianças aprenderem sobre diferentes estilos e artistas renomados. Van Gogh é conhecido por suas cores vibrantes e pinceladas únicas, o que pode ser cativante para pessoas de todas as idades.

Catarina ficou extasiada. Isso pode ser um sinal de que ela tem uma afinidade especial pela arte. É possível encorajá-la a explorar ainda mais esse interesse em casa, lendo livros infantis sobre Van Gogh, brincando com tintas e pincéis ou até mesmo visitando outras exposições de arte.

É importante cultivar o interesse pelas artes desde cedo, pois isso pode ser uma fonte de inspiração, criatividade e expressão para a criança. Portanto, vamos continuar a apoiá-la em sua jornada artística. Os pais, incluindo os avós, temos que fornecer acesso a diferentes formas de arte na vida de Catarina e Isadora. Assim como das suas priminhas Maria Luísa e Maria Helena.

Na exposição dos impressionistas Catarina ficou feliz em interagir com as projeções nas paredes e no chão. Sua alegria era contagiante. Corria de um lado para o outro tentando colher os famosos girassóis de Van Gogh. Toda noite os pais de Catarina levam a garotinha até a varanda para ver a lua e as estrelas. Indescritível a reação da pequenina ao ver as estrelas impressionistas de Van Gogh no chão. Ao ver a lua exclamou: Lua, dinda! Lua! Ela associa a lua à noite. Ao ver a lua projetada gritava: a lua, a lua Noite! Noite!

Eu já prometi a mim mesmo. Quando Catarina for grandinha vou leva-la a Nova Iorque. Todos sabem que o Metropolitan Museum of Art tem uma das mais importantes coleções de arte impressionista e pós-impressionista do planeta. Catarina merece ir lá. Com certeza!



domingo, 3 de dezembro de 2023

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Lira da Madrugada – Jorge Tufic 7/15

Zemaria Pinto


Ficha biobibliográfica

 

Autor: Jorge Tufic

Nome completo: Jorge Tufic Alaúzo

Naturalidade: Sena Madureira – AC

Nascimento: 13 de agosto de 1930

Falecimento: 14 de fevereiro de 2018

 

Obra poética:

·       Varanda de pássaros (1956)

·       Chão sem mácula (1966)

·       Faturação do ócio (1975)

·       Os códigos abertos (1978)

·       Lâmina agreste (1978)

·       Cordelim de alfarrábios (1979)

·       Os mitos da criação e outros poemas (1980)

·       Sagapanema (1981)

·       Oficina de textos (1982)

·       O traço e o verso (1985)

·       Poesia reunida (1988)

·       Retrato de mãe (1995)

·       Boléka, a onça invisível do universo (1995)

·       A insônia dos grilos (1998)

·       Poema-coral das abelhas (1999)

·       Sinos de papel (1999)

·       Os quatro elementos (1996, com Francisco Carvalho, Luciano Maia e Virgílio Maia)

·       Quando as noites voavam (1999)

·       Sonetos de Jorge Tufic (2000)

·       Cordelim de alfarrábios II (2003)

·       Zéfiro com soneata barroca (2004)

·       O sétimo dia (2005)

·       Guardanapos pintados com vinho (2008)

 


POEMAS

     

                       I                                                        

Amo arrumar palavras. Porque sei

que há traças percorrendo

em rios os papéis.

 

Coisa difícil é dar. Difícil

como saber se damos quando damos

ou tiramos quando tiramos.

 

Mas as traças são cegas.

Cega a vontade de morrer

mais cega a de escrever.

 

Palavras são sangue, mesmo

as que gravadas sem propósito.

E ninguém mais do que as traças

sabe disso.

 

                      II

Ouvi um chamado distante,

sem voz. Em seguida a surpresa

de assistir à queda de um ovo

pintado com as cores do arco-íris.

 

– Algum anjo brincalhão

querendo tirar barrigada.

 

Depois outro ovo e mais outro,

tantos, de tantas cores,

que ao chegar em meu quarto

estava transfigurado. Decerto

não atendi ao chamado da  poesia...

 

                     III

O poeta vai pela rua.

Ninguém está vendo o poeta

porque o poeta é transparente.

 

O poeta atravessa a ponte

o poeta desfolha a rosa

o poeta contempla o mar.

 

Ninguém está vendo o poeta.

Mas duvido que ninguém sinta

a sua presença abstrata.    

 

A poesia de Jorge Tufic se caracteriza pela diversidade. O contemporâneo convive com a tradição e a experimentação, com as formas fixas, especialmente o soneto, na qual ele é mestre. Os três poemas aqui recortados dão a dimensão exata dessa tese: se a forma é moderna, o conteúdo se confunde com o próprio tempo, na escolha de temas que se resumem em um só: o labor poético no banal cotidiano, transfigurado pela poesia.

Os poemas são agrupados num crescendo: enquanto o primeiro trata do chão dia a dia, o segundo busca as alturas do sagrado, sem perder o humor, índice de civilidade e inteligência, ou melhor, índice de humanidade. Por fim, o terceiro poema olha de perto essa instituição pouco compreendida, o poeta, e sua relação com a poesia.

É curioso observar que esses poemas foram publicados no primeiro livro de Tufic, Varanda de pássaros, de 1956. Cinquenta anos depois, o tema é ainda recorrente em sua poesia, como se observa neste fragmento extraído de um poema do livro O sétimo dia, de 2005:

Poeta não se define: é um ser à parte.

De homem se veste, de animal caminha,

mas algo nele de anjo se avizinha

quando em fatias brancas se reparte.

A poesia, o poema, o poeta são temas caros a Jorge Tufic, não como busca de elaborações conceituais – ele que também se aventura pelo árido território da teoria –, mas como uma forma lúdica de compreender esses fenômenos que se complementam no fazer poético: a poesia está em toda parte e o poema é o registro da poesia do cotidiano, feito pelo poeta-operário.

Palavras versus traças. O poema seria a forma encontrada pelo poeta para salvar o papel da voracidade dos insetos? Observe que o texto se estrutura em colunas paralelas: uma, tratando do ato de escrever e seu significado; outra, falando do caráter destruidor da traça, metáfora das dificuldades que o poeta encontra para realizar seu trabalho. Separemos uma e outra.

1                                                                                      2

 

Amo arrumar palavras.                                                                  Porque sei

que há traças percorrendo

em rios os papéis.

 

Coisa difícil é dar. Difícil

como saber se damos quando damos

ou tiramos quando tiramos.

                        

Mas as traças são cegas.

Cega a vontade de morrer

mais cega a de escrever.

 

Palavras são sangue, mesmo

as que gravadas sem propósito.

E ninguém mais do que as traças

sabe disso.

 

A coluna 1 tem nexo, mantém-se de pé sozinha. A coluna 2, entretanto, subordina-se à primeira, nas suas três ocorrências. As traças existem porque existe a poesia, resumida na palavra “palavras”: “amo arrumar palavras”; “palavras são sangue”. Traduzindo: “amo escrever poesia”; “poesia é vida”. Mas as traças, na sua voracidade cega, destroem tudo que emana vida. É desse embate, dessa tensão permanente, alimentada pela vontade cega/voraz de escrever que nasce o poema.

O chamado da poesia. Esse é um recurso recorrente para explicar o talento poético: o poeta como um missionário, um apóstolo, um visionário, um místico a atender um “chamado” superior. Tema central do segundo poema, subjacente ao humor explícito, Tufic brinca a sério ao referir-se ao “chamado distante, sem voz”. A sequência, entretanto, é de puro nonsense: uma chuva de ovos multicoloridos, como se o autor do chamado sem voz estivesse insatisfeito com a poesia produzida. A palavra “transfigurado”, para denotar o estado do poeta, não é gratuita, pois tem conotação de transformação mística – neste caso, negativa, pois a “ovação” (seria essa a finalidade humorística da chuva de ovos?) deixou o poeta insatisfeito consigo mesmo.

Aqui temos, tal como no primeiro poema, explicitada a tensão que engendra o fazer poético: o poeta como traça de si mesmo, buscando não a destruição da poesia, mas a sua inalcançável completude.

O terceiro poema procura humanizar o poeta, sem tirar-lhe, entretanto, sua aura demiúrgica, a ponte que o liga ao sagrado, porquanto criador de mundos e criaturas. O poeta vai pela rua, mas ninguém o vê. Sua transparência é a invisibilidade de qualquer ser humano na multidão da metrópole: todos são iguais, ninguém se destaca na massa amorfa que caminha anônima pela cidade. Mas a presença do poeta é mais forte e haverá de ser sentida na multidão. Note que a construção do texto não quantifica as pessoas que sentem sua “presença abstrata”: “mas duvido que ninguém sinta”, pode ser lido como “duvido que alguém não sinta”. Isto é, pelo menos uma pessoa, naquela multidão, será tocada, não exatamente pela presença do poeta, mas pela presença da própria poesia – que está em todo lugar. E, num movimento circular (o círculo é um símbolo da perfeição, logo, da divindade), esse alguém pode ser o próprio poeta.


Poemas (Mauri Mrq e Jorge Tufic).