Amigos do Fingidor

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Linguagens compreendendo o visível e o invisível



João Bosco Botelho
         

As maneiras de articular as palavras, formando frases e ideias ficcionais são infinitas. Cada ser humano possui, como produto da interação genético‑social, a própria marca na linguagem utilizada. Apesar de a gramática ser finita, a língua gerada por ela é incomensurável.
O produto final das linguagens modula nas mentalidades os vetores para desvendar os componentes extrínsecos das relações socais (a natureza, o social e a história) e os intrínsecos (sócio-genéticos herdados na reprodução sexuada), ajustando tudo e todos para viver casa vez mais, mesmo que seja na linguagem ficcional, após a morte.  
O estudo das sociedades, em diferentes períodos, mostra o repetir coletivo, a partir da ordem vinda de um ponto perdido na escala ontogenética, atrás dos anseios fundamentais, ditados por uma categoria nominada nesse ensaio de memória-sócio‑genética (MSG). É traduzida na vida de relação na liberdade para buscar, mais e mais, o conforto físico e emocional, aqui compreendido como a liberdade de falar, explorar e, sobretudo, a sede e a fome saciadas, o abrigo do calor e do frio, nunca resolvidos para a maior parte da humanidade.
Todos fogem da dor e procuram o prazer! A polaridade entre o conforto e o desconforto, sentidos no corpo, são as chaves acionadoras da MSG. Todas as relações interpessoais e com a natureza, com ou sem ajuda da técnica, que resultem prazerosas, são acatadas, sem esforço, pela maioria. Sempre que a ordem social insiste em limitá‑las, ocorre resistência. A rebeldia contra o sexo limitado e reconstruções metafóricas, em todas as variáveis, o alimento escasso e a incrível sedução pelas drogas proibidas são partes importantes do mesmo universo.
A constância transmitida aos descendentes dos pontos comuns das memórias sócio‑genéticas pessoais, forma a memória sócio‑genética coletiva (MSGC), possivelmente oriunda nas transformações do cérebro primitivo.
As mensagens escritas ou orais, estruturadas na ambiguidade realidade-ficção ou, sob certas leituras, do sagrado‑profano, trazendo a esperança (não é necessária a certeza, basta o leve indicativo da possibilidade) de amenizar a dor e o sofrimento, são sempre bem aceitas e festejadas pela MSGC. Nenhum poder ordenador amparado pela força explícita conseguiu conter, mesmo por meio da repressão de todos os matizes, a expressão clara da MSGC, oriunda dos tempos arcaicos, ativada pelo choque das ideias na busca do prazer.
A busca pela liberdade sempre é semelhante ao ocorrido, na Albânia, entre os anos 1960 e 1980, após vinte anos de ditadura sanguinária, do ensandecido comunista Enver Hoxha, incluindo o banimento religioso, milhares de brutais assassinatos sumários e fechamento de igrejas e sinagogas. A revolta popular para encerrar a loucura comunista reuniu milhares de católicos albaneses e celebraram com missa pública a morte do ditador.
Em Cuba, não tem sido diferente da Albânia. A ditadura familiar dos irmãos Castro continua perseguindo as diversidades das linguagens, a grande vítima da intolerância. Os discordantes são perseguidos pela implacável caça ao dissidente. Não perseguem, promovem mais assassinatos, porque não podem! Como os albaneses, acharão o caminho da liberdade.

Fracassaram todos os modelos políticos para remodelar o mundo suprimindo as lembranças das MSGs com os anseios das fugas da dor porque as linguagens se adaptaram a esse querer coletivo: desvendar o visível e o invisível para aumentar o conforto e afastar a dor.