Pedro Lucas Lindoso
Tempo. Tempo. Tempo. O dia tem 24 horas. O ano 365 dias. No
hemisfério norte começou a primavera. No hemisfério sul, o outono. Mas isso (as estações do ano) só é referência
para quem mora nas zonas temperadas da terra.
Para nós, amazônidas, que vivemos na zona tropical, o que
importa é o regime das águas. Na época da cheia, o tempo fica mais chuvoso.
Fica “rainy” como se diz em Inglês. Aliás, há duas palavras para tempo no
idioma de Shakespeare. “Time” e “weather”.
Quando eu digo que o tempo está passando devagar por causa do
corona vírus, é o “time”. Quando eu digo que está chuvoso é o “weather’.
O homem consegue fazer previsão do “weather” para os próximos
dias. Mas o que vai acontecer daqui a três dias, somente a Deus pertence.
Na literatura dos povos que vivem em zona temperada são comuns
as referências às estações do ano. As estações servem para ativar a memória de
fatos importantes nas vidas das pessoas. “Vovô faleceu no inverno de 2013.”
“Casamos na primavera de 2005”. “Comecei a trabalhar no outono daquele ano.” “O
verão foi divertido.”
Para o nosso caboclo nada disso faz sentido. Mesmo porque
durante o ano pouca coisa muda na floresta.
Só nos rios. Na vazante o calor é mais intenso. As praias aparecem e se
retiram os animais das marombas.
Em Paris a primavera já se apresenta, apesar da quarentena.
Em Nova Iorque não está mais nevando. Mas o Central Park continua
assombrosamente vazio. Em Tóquio há cerejeiras em flor ignorando o vírus.
No interior do Amazonas os ribeirinhos estão estranhando
porque não há movimento de barcos de recreio, nem balsas, e muito menos as
lanchas expressas. Os barcos a jato que levam e trazem pessoas de Manaus para o
interior.
Os barcos que vendem mantimentos trouxeram a triste notícia
de que uma gripe forte, um tal de coronavírus, ameaça as populações e pode
matar.
Aconselha-se não entrar em contato com o pessoal das cidades
e vilas. Melhor ficar só com as coisas da floresta e evitar o pessoal da
cidade.
As gripes virais geralmente são mais perigosas para indígenas
e ribeirinhos. Espera-se que muitos possam sobreviver para contar o que houve
na terrível cheia de 2020.