Zemaria Pinto
Conferência de abertura para evento dedicado ao centenário da Semana de Arte Moderna, realizado na manhã do dia 09/08/2022, no auditório Rio Solimões, do Palácio Rio Negro.
Agradeço à organização pelo convite e pela confiança em mim depositada. Afinal, o tema Modernismo tem sido, na minha trajetória, motivo de polêmicas, e esta fala irá repercuti-las.
“Conhecereis a verdade e ela vos libertará”. Que me perdoe o
evangelista João, que não conhecia Hegel, mas isso é uma falácia. Só a dúvida
liberta! Como crítico, aprendi que minha opinião é sempre uma construção de
dúvidas, não de certezas. E se a verdade tem dois lados, devo duvidar de ambos
para construir minha síntese. Isto é dialética. E mais: se a verdade é uma
abstração, a única certeza é a dúvida. Viva a dúvida!
O verbo reverberar, usado no título da palestra, significa,
no contexto, repercutir, ecoar – o som. O barulho produzido pela Semana de Arte
Moderna, que aconteceu em São Paulo, em fevereiro de 1922, se fez ouvir por
muito tempo, no Brasil e no Amazonas. É sobre isso que iremos falar.
A
Independência e o Modernismo: ficções
2022 marca não apenas o centenário da Semana de Arte Moderna,
mas também o bicentenário da Independência. Duas ficções. Explico.
O Brasil não ficou independente em 1822, pelo simples fato de
que continuamos devendo vassalagem ao reino de Portugal, tendo inclusive de
ceder D. Pedro (que aqui era primeiro e em Portugal, apenas o quarto), deixando
o país à deriva. Independência mesmo foi a implantação da República, em 1889,
derrubando o segundo Pedro e instalando a primeira ditadura militar republicana
do país, quando as chamadas forças armadas, assim me parece, tomaram gosto pela
coisa, nos cem anos seguintes.
Quanto à Semana de Arte Moderna, foi um fracasso enquanto
festa, pautada por inúmeras vaias, até porque o Modernismo já não era novidade,
pois existia havia uns bons cinco anos. Mas, os paulistas souberam usar a
história para nos impor o seu modernismo, que precisava das paradoxais bênçãos
do arcebispo, de um lado, e do Partido Comunista, de outro. Na década de 1930, o
Partido Integralista (nazifascista) também entrava na bacanal – e me perdoem o
palavreado, mas direita, esquerda ou isentões, os modernistas eram todos sacerdotes
de Baco ou Dioniso, conforme veremos adiante.
O
Modernismo
Precisamos definir o que é o Modernismo: um conceito-mala,
onde são acomodados vários conceitos – incompatíveis entre si e até mesmo
antagônicos, excludentes. O ponto de convergência desses conceitos-movimentos é
a rejeição ao Academicismo, em favor de uma arte nova, experimental.
Impressionismo, Fauvismo, Primitivismo, Expressionismo,
Cubismo, Futurismo, Dadaísmo, Construtivismo, Surrealismo... A velha arte
acadêmica europeia chegara numa encruzilhada: o mais do mesmo ou o
desconhecido.
Lembrando Nietzsche, na formulação da evolução da arte pela
dualidade Dioniso X Apolo – alegria e embriaguez; equilíbrio e disciplina – os
modernistas do Velho Mundo optaram pelo bom Dioniso, que também atendia pelo antropônimo
latino Baco, e caíram na farra bárbara do que os nazistas classificariam mais
tarde como “arte degenerada”.
Na literatura, esse processo se dá em paralelo ao que
acontecia nas artes plásticas.
Aliás, por motivos óbvios, embora seja imprescindível fazer
referências às artes plásticas – tema de um debate, à tarde, com a professora
Luciane Páscoa e o professor-artista Otoni Mesquita –, vou-me ater nesta fala
ao Modernismo na Literatura.
Saindo do Realismo-Naturalismo e do Parnasianismo a que fora
confinada no último quartel do século 19 – a literatura no Brasil começa a
mudar com o Simbolismo de Cruz e Sousa, avançando pela ficção de Lima Barreto,
trazendo o protagonismo negro e pobre ao proscênio. Euclides da Cunha – que já
denunciara o genocídio de Canudos, no magnífico Os Sertões –, em breve
passagem pela Amazônia, escreve as mais contundentes páginas sobre a degradação
a que era submetido o trabalhador dos seringais. E no bojo dessa mudança, a
poesia expressionista de Augusto dos Anjos, a melhor tradução em língua
portuguesa da revolução iniciada por Baudelaire, em meados do século anterior –
e isso foi chamado de pré-Modernismo.
Viva
a vaia! O esquisito como paradigma
“Toda unanimidade é burra!”, diria Nelson Rodrigues 20 ou 30
anos depois, mas os modernistas descobriram isso na carne: para eles, a vaia
era termômetro de inovação.
Eu disse, há pouco, que o Modernismo já existia havia uns
bons cinco anos antes de 1922. Ignorando as histórias oficiais e oficiosas,
guardo comigo a certeza de que o movimento que se convencionou chamar de
Modernismo no Brasil começa mesmo em 1917 – em plena Primeira Guerra Mundial e
sob o choque da Revolução Bolchevique –, ainda que com vários acontecimentos
isolados, e sem muita conexão uns com os outros. Os fatos.
O lançamento do livro Juca Mulato, de Menotti del
Picchia, cujo nacionalismo exacerbado viria depois a se tornar em fascismo, dá
ao país um herói caipira, fora dos padrões afrancesados da época. É do mesmo
ano Há uma gota de sangue em cada poema, de um certo Mário Sobral,
pseudônimo de um tímido Mário de Andrade, que mereceu uma crítica consagradora
de Manuel Bandeira: “o livro é ruim. Mas de um ruim esquisito.” Naquele mesmo
ano, Bandeira lança seu primeiro livro, A cinza das horas,
predominantemente simbolista, mas de um simbolismo esquisito..., onde poemas
como “Cartas de meu avô”, “Poemeto irônico”, “Poemeto erótico” e “O anel de
vidro” parecem querer saltar em busca de outros livros futuros do autor. É de
1917, a gravação de Pelo telefone, o primeiro samba gravado (na verdade
era um maxixe), numa época em que sambista era sinônimo de marginal. De autoria
controversa, passou para a história como de Donga e Mauro de Almeida. 1917
registra ainda o início do movimento sufragista pelo voto feminino, o que só
viria a se concretizar, acreditem, 15 anos mais tarde, e, paradoxalmente, sob a
ditadura de Vargas.
Viva
a vaia! O Modernismo começou pelo Expressionismo
Mas, o acontecimento mais importante daquele ano não foi na literatura
e sim nas artes plásticas: a exposição de Anita Malfatti, que, após períodos de
estudos na Alemanha e nos Estados Unidos, voltara ao Brasil para botar fogo no
arraial, pintando sob a influência devastadora do Expressionismo. Monteiro
Lobato, nacionalista doente, com tendências ligeiramente à esquerda, não gostou
do que viu e publicou um texto violento e covarde intitulado “Paranoia ou
mistificação?”. Foi a consagração de Anita, e a verdadeira fundação do
Modernismo, unindo no mesmo bloco os Andrade Mário e Oswald, e um grupo significativo
de artistas e escritores, representantes de várias tendências estéticas e
ideológicas, que, cinco anos depois, dariam um cunho oficial ao Modernismo, com
a Semana de Arte Moderna.
Viva a vaia! O filho modernista mata
o pai parnasiano
É importante dizer que havia alguma coisa no ar, além dos
aviões de carreira, como diria o Barão de Itararé. O poema-ícone do Modernismo,
“Os sapos”, de Manuel Bandeira, que seria consagradoramente vaiado na Semana de
Arte Moderna, foi publicado no livro Carnaval, de 1919, onde o
Simbolismo já cedera lugar a algo ainda inominado, anunciado no poema de
abertura do livro, não por acaso, “Bacanal”:
Quero beber! cantar asneiras
no esto brutal das bebedeiras...
Em 1918, Monteiro Lobato, o antimodernista radical e covarde,
lança o moderníssimo Urupês. Em 1919, Lima Barreto publica Vida e
morte de M. J. Gonzaga de Sá. Em 1920, realiza-se a exposição de Victor Brecheret
onde se destaca uma “Cabeça de Cristo com trancinhas”, comprada por... Mário de
Andrade.
Em 1921, Mário de Andrade publica uma série de sete ensaios,
intitulada “Mestres do passado”, onde, com irônica reverência, prestem atenção
no paradoxo, desconstrói criticamente o mito do Parnasianismo. A vaia solitária
de Mário de Andrade ecoa até hoje na alma dos parnasianos, que são lidos, por
quem não entende de poesia, como equívocos estéticos, quando devem ser lidos
associados ao seu tempo, à sua época. Não se iludam: os parnasianos deixaram
poemas de altíssima extração. Vocês só terão o trabalho de descobri-los;
afinal, cem anos de menosprezo não se apagam com as minhas duvidosas palavras.
Finalmente, 1922: o ano da festa. E o que vem depois é
história, como a desavença, na década de 30, entre antas (fascistas) e
antropófagos (mezzo comunistas, mezzo carolas-católicos, tutto tropicalistas...)
– muito atual.
O
Modernismo construído a partir da Amazônia
Dois livros seminais do Modernismo nasceram a partir do
imaginário amazônico: Macunaíma (1928), do paulista Mário de Andrade, e Cobra
Norato (1931), do gaúcho Raul Bopp. Haveria muito o que falar sobre ambos,
mas vamos nos limitar a um breve registro, procurando despertar em quem não os
conhece a curiosidade de descobri-los.
Macunaíma, a personagem, foi colhida na obra de Koch Grümberg,
De Roraima ao Orinoco (1917), mas esse não é o único intertexto da obra,
não à toa classificada pelo autor como “rapsódia” – que, em música, é uma
miscelânea de composições ligadas a determinada cultura, momento ou lugar. O Macunaíma
de Mário de Andrade é uma alegoria caricatural do homem brasileiro,
especialmente de suas vilanias. Se fosse grego, Mário escreveria sobre as
safadezas de Zeus; italiano, Júpiter. Brasileiro, só lhe restava Macunaíma – ou
Poronominare ou mesmo o perverso Jurupari.
De passagem por Belém, onde morou por cerca de um ano, Raul
Bopp tomou contato com Poranduba Amazonense (1890), de João Barbosa
Rodrigues, bem como com Lendas em Nheengatu e Português (1926), de
Antônio Brandão de Amorim, livros até hoje indispensáveis para o conhecimento
da mitologia amazônica. Mas, foi em uma lenda que não estava em nenhum desses
livros, que Bopp se baseou, por via da literatura oral: a estória da Cobra
Honorato ou Cobra Norato, como o povo a simplificava.
Como fizera Mário de Andrade, Bopp reinventa a lenda: uma voz
lírica narradora (um “eu lírico”) estrangula Cobra Norato, enfia-se em sua pele
e sai “a correr mundo”, em busca da filha da Rainha Luzia. Se a voz lírica do
poema é o poeta, podemos inferir que se trata de uma representação da
apropriação da cultura local pelo homem branco brasileiro – um lance típico da
antropofagia modernista.
O
Amazonas absorve, processa e reverbera o Modernismo
O Amazonas não ficaria alheio ao que acontecia em São Paulo e
repercutia em outros estados brasileiros, como Rio Grande do Sul, Minas Gerais,
Bahia, Pernambuco e Pará. O processo foi lento, começando exatamente em 1922,
mas sem nenhum vínculo com a Semana de Arte Moderna, e se estendendo até 1935,
com a publicação do verdadeiro marco do Modernismo no Amazonas, o livro Ritmos
de inquieta alegria, da menina Violeta Branca, que passava para trás os
machões encastelados nas torres de marfim de uma arte retrógrada e sintonizava
a nossa literatura com o Modernismo. Mas, um passo de cada vez.
Psicanálise
no inferno ou o Amazonas também é modernista
No dia 7 de setembro de 1922, comemorando o centenário da tal
Independência, o Diário Oficial do Amazonas publicava um longo poema narrativo,
com 978 versos decassílabos e esquema rímico irregular, dividido em nove
capítulos, que mostram a jornada do cearense Militão, uma alegoria dos milhares
de nordestinos que foram recrutados para suprir a mão de obra nativa,
insuficiente para atender à demanda dos seringais. O autor, Octavio Sarmento,
que morreria quatro anos depois, só teria um livro publicado 81 anos depois de
sua morte: A Uiara & outros poemas (2007), organizado por este locutor que vos fala.
O porquê do esquecimento? A saga de um nordestino pobre, que
vivencia a experiência da morte cara a cara e depois enlouquece de paixão e de
desejo, não era, definitivamente, para os padrões da época, um tema nobre.
Embora, por vezes, exagerando nas cores, A Uiara é um poema sóbrio,
antecipador de toda a literatura que viria na sequência. Com toques da nascente
psicanálise, Sarmento mescla à paisagem – ora infernal, ora edênica – aspectos
diversos da mitologia amazônica, construindo uma alegoria do que fora, na
virada do século, a economia baseada no produto da seringueira. Não resisto ao
paralelo com Juca Mulato, o poema de Menotti Del Picchia que, em 1917,
retoma a temática regionalista, esquecida desde os românticos, e antecipa o
Modernismo, trazendo a vida do homem comum para a poesia.
Revolução
frustrada
Um autor que merece destaque no nosso incipiente modernismo –
mas, não pela sua poesia ou sua ficção – é Álvaro Maia. Seu ensaio Canção de
fé e esperança, de 1923, mistura política e poesia com raro equilíbrio.
Articulado em três níveis distintos – passado, 1823, emancipação, frustrada, do
Pará; presente, 1923, em plena agitação tenentista; e futuro, 2023 –, o jovem
político e poeta, inconformado com a depressão econômica que fazia definhar o
Amazonas, instigava os seus pares, pois só a eles cabia a construção do futuro.
Álvaro Maia prega a revolução e até mesmo o separatismo, ao pensar no Amazonas
do futuro, exatamente o momento que vivemos agora. Será?
A
Grécia nunca foi aqui
A Uiara é a fundação do Modernismo no Amazonas. Mas, isso fica entre a gente. A
crença geral é de que esse marco inicial é o insípido Poemas amazônicos (1927), de Pereira da Silva, uma
miscelânea romântico-parnasiano-simbolista, vazada, às vezes, em versos livres
e brancos, o que dá a falsa impressão de modernismo. Não se lhe nega qualidade
poética, mas falta-lhe uma conexão com a própria contemporaneidade: amazônicos,
seus poemas estão ligados a um panteísmo helênico, que soa falso e ingênuo,
quase desonesto. À época com 35 anos, poderia ser um aprendizado, mas, o poeta
desistiu das musas e foi ser deputado federal, onde, aliás, se deu muito bem:
para quem não sabe, Pereira da Silva é o pai da Zona Franca de Manaus – para o
bem e para o mal.
Um
modernista a ser estudado
Não podemos falar sobre Modernismo no Amazonas, sem nos
referirmos a Clóvis Barbosa, um modernista a ser resgatado, editor das revistas
Redempção, Equador e A selva. Todo mundo já ouviu falar,
mas ninguém viu. Eu elejo, proclamo e desafio: o paraibano Clóvis Barbosa é um
caso a ser investigado pelos pesquisadores da literatura amazonense. Aliás,
logo mais, à tarde uma mesa formada pelos escritores Márcio Souza e Aldisio
Filgueiras debaterá o trabalho de Barbosa. Entre os seus colaboradores, estavam
Álvaro Maia, Pereira da Silva, Violeta Branca, Nunes Pereira, Dalcídio Jurandir
e Abguar Bastos – e também Mário de Andrade, Jorge Amado, Tristão de Athayde e
Raul Bopp, entre muitos outros.
A
visita de Mário de Andrade ao Amazonas – e viva a vaia!
Em uma viagem de recreio que o workaholic Mário de
Andrade transforma em viagem de trabalho, ele passa três vezes por Manaus,
entre 5 de junho e 21 de julho de 1927: inicialmente, a caminho de Iquitos, no
Peru; depois, indo a Guajará-Mirim, então no Mato Grosso; finalmente, o
retorno, em direção a Belém, para daí seguir de volta a São Paulo.
Mário escreveu as memórias dessa viagem no livro O turista
aprendiz (1977, póstumo). Mas, essa viagem, ao contrário do que reza a
lenda, não tem nada a ver com Macunaíma: ele pesquisava o folclore
amazônico, especialmente a música. Em paralelo às farras incontáveis contam-se
diversos encontros com o paraense Raimundo Moraes, que aqui morava, e o já
citado Clóvis Barbosa. Em Humaitá, ele conhece Sérgio Olindense, o prefeito,
autor de Sinfonia Verde (1922), que causou boa impressão em
Mário.
No retorno a São Paulo, último dia em Manaus, Mário recebe a
visita, segundo um de seus biógrafos, de um “grupelho antimodernista, chefiado
por João Leda, da Academia Amazonense de Letras, que puxou um início de vaia”.[1]
Aquela vaia era a consagração amazônica de Mário de Andrade!
A
flor-mulher
Violeta Branca, aos 20 anos, publica, em 1935, Ritmos de
inquieta alegria, um livro libertário de uma jovem madura, lírico sem ser
sentimental, sensual sem ser vulgar. Violeta é um “luminoso poema de mocidade e
sol”, para defini-la com um verso de sua própria autoria. Trabalhando diversos
aspectos do imaginário amazônico, o espaço disponível é pequeno para dar a
dimensão da poesia dessa mulher, cuja voz só encontraria eco mais de 40 anos
depois, quando Astrid Cabral começa a publicar sua poesia. Tratem de lê-las.
Clube da
Madrugada: vida inteligente no entorno do Teatro Amazonas
O movimento que convencionamos chamar de Clube da Madrugada
jamais foi um movimento estético no sentido que o léxico dá a palavra, como
“padrão ou corrente de pensamento buscando a evolução de uma ou mais áreas do
conhecimento humano”. Antes, o Clube da Madrugada começou como um movimento no
sentido de “conjunto de ações visando, explicitamente, mudanças políticas e
sociais”.[2]
A partir desta acepção, afirmamos que o Clube da Madrugada começou como um
movimento político, que só muito depois enveredou pela trilha estética, mesmo
assim, de forma desorganizada, sem se constituir em uma trilha uniforme, mas se
multifacetando em vários caminhos. O que, aliás, foi enriquecedor, pois o Clube
nasce de uma contradição: sem perspectivas de futuro, aos jovens amazonenses –
na expressão cunhada pelo sábio Djalma Batista – só restava o “êxodo anual”, a
senha para buscar outras formas de vida fora do entorno do Teatro Amazonas. O
Clube da Madrugada amadurece durante cinco anos, até o ato formal, que de
formal não teve nada, da sua fundação, pelos que não aderiram ao êxodo, em 22
de novembro de 1954. Até nisso, nesses cinco anos de amadurecimento, eles
quiseram ser modernistas. Mas, não eram. Do ponto de vista estético, a
literatura do Clube está ligada à geração de 1945, formalista e antimodernista
– embora não assumam isso, porque era muito antipático ser antimodernista.
Aliás, o é até hoje. Registrem-se as mais notáveis exceções: olhando para o
Brasil, a obra de João Cabral de Melo Neto; no Amazonas, o livro Frauta de
Barro, de Luiz Bacellar, que tem traços modernistas marcantes.
Do ponto de vista estético, o Clube da Madrugada não tinha um
ideário definido. Na poesia, por exemplo, as vertentes se bifurcam –
inicialmente, existencial (Bacellar, Tufic e Antísthenes Pinto) e mística
(Farias de Carvalho); posteriormente; telúrica (Elson Farias, Bacellar e
Alcides Werk) e engajada (Alcides Werk, Alexandre Otto e Farias de
Carvalho).
Numa síntese meramente didática: o Clube era modernista na
ideologia e Geração de 45 na estética.
Ressalte-se que o jovem poeta Thiago de Mello, a rigor, não
era do Clube, embora fosse da geração fundadora do mesmo. Aderindo ao êxodo
anual, fora para o Rio de Janeiro no início dos anos 1940, com o intuito de
estudar medicina, e menos de uma década e meia depois já era considerado uma
das maiores vozes da poesia brasileira. Em conversas informais, entretanto,
Thiago afirmava-se membro do Clube, mesmo a distância.
Os
ceifadores precisam aprender a separar o joio do trigo
As três gerações que construíram a história do Clube da
Madrugada – com ênfase na literatura e nas artes plásticas – constituem um
fenômeno a ser explicado, partindo do princípio científico de que milagres são
apenas improbabilidades estatísticas. Mas, outras gerações vieram à luz, como
não poderia deixar de ser, inferiores numericamente, mas de qualidade estética
a ombrear com a linha de frente do Clube.
Temo, entretanto, pelo que tenho observado, que o filtro da
qualidade não esteja adequado. A novíssima geração de analistas e críticos, da
qual vocês, jovens, fazem parte, tem por obrigação regular esse filtro e
estudar a literatura que merece assim ser chamada. Cabe a metáfora do
evangelista Mateus: “no tempo da colheita, é preciso separar o joio do trigo”.
1972,
um ano para esquecer, mas que não me sai da lembrança
Eu fiz 15 anos em 1972. Meu primeiro ano no Científico, hoje
Ensino Médio, no Colégio Estadual. A ditadura militar completava 8 anos, de um
total de 21. Mas, ainda não sabíamos quando ela iria acabar. A oposição estava
destroçada. Um último foco de resistência, que vinha sendo preparado há tempos,
começava naquele ano na região do rio Araguaia. Seria feito em pedaços também.
Eu não tenho saudades dos meus 15 anos. Eu não tenho saudades de 1972.
Mas, 1972
marcou também o sesquicentenário da Independência e o cinquentenário da Semana
de Arte Moderna. Lembro de uma discussão bizantina sobre se era melhor usar tricinquentenário ou sesquicentenário. Ganhou a segunda. A ditadura
explorou a data, fez festa o ano inteiro e continuou, na calada da noite,
matando quem se opunha a ela. Acho que foi a partir daí que comecei a achar que
a Independência fora uma farsa.
Quanto ao cinquentenário da Semana de
Arte Moderna, foi motivo de festa também e de muito debate. A Semana continuava
rendendo frutos nas artes plásticas, no teatro, na música e até no cinema. A
década de 1960, mesmo sob censura criminosa, fora riquíssima em reverberações
da Semana, com o Teatro Oficina, ainda em atividade hoje sob a liderança de Zé
Celso, e o Tropicalismo, de Gil, Caetano, Gal e Tom Zé – todos oitentões ou
quase, e em atividade. Muitos artistas foram presos, torturados, exilados. E
produziam-se polêmicas, muitas polêmicas. Uma delas, hoje risível, discutia a
importância da obra de Oswald de Andrade, um “comunista pequeno-burguês”. A
verdade é que, qualquer que seja o juízo estético, a obra do controvertido
Oswald tem um valor histórico inestimável.
1972, em que pese a sombra da
ditadura, é um ano que não me sai da lembrança. Estamos agora mesmo falando da
Semana, que completou 100 anos. E precisamos fazer festas, muitas festas, para
o bicentenário da Independência não se transformar em uma armadilha para sequestrar
a democracia. Sim, uma ditadura é o sequestro da democracia, porque destruída a
democracia não será, jamais. A ditadura instaurada em 1964 matou centenas de
democratas, mas não matou a democracia. Hoje, mais forte que nunca, não será um
celerado qualquer que irá novamente sequestrá-la, cumprindo-se o vaticínio de
Chico Buarque, em canção de 1977, ao referir-se ao monstro apocalíptico da
antidemocracia: “um dia ele vai embora, maninha, pra nunca mais voltar.”[3]
Muito Obrigado!
[1]
TÉRCIO, Jason. Em busca da alma brasileira: biografia de Mário de
Andrade. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2019. p. 268.
[2]
Definições adaptadas do Dicionário Houaiss eletrônico da língua
portuguesa, versão 1.0, junho de 2009, Editora Objetiva.
[3] “Maninha”, gravada pela primeira vez por Miúcha, Tom Jobim e Chico Buarque, no LP Miúcha & Antonio Carlos Jobim, de 1977.