A grande fala
do índio guarani perdido na história e outras derrotas
Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025)
9
(fragmentos)
Este poema
tem seus descantes didáticos
suas horas de recreio
e uma aparente desordem
que não irrita o professor
mas, sim, ao fiscal de ensino.
Não posso
por exemplo, o tempo todo
ser meu próprio ladrilheiro
e colar letra por letra
– como o tijolo, o pedreiro.
Poesia
não pode ser obra de carcereiro.
A menos que o guarda esteja
no limiar de suas portas
e nas argolas das horas
descubra
a inversa função da chave
que em vez de trancar, descerra
a imagem presa nas grades.
E este poema
como qualquer prisioneiro
deve ter direito ao sol
e à liberdade
– mesmo que condicional
deve poder se exilar num desgoverno
cometer seus desatinos pelas ruas e
versos
que ao sistema da escrita aberta
cabe o modo poético e dialético
de converter o que era estrume
em flor oferta.