Amigos do Fingidor

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A poesia é necessária?

 

A grande fala do índio guarani perdido na história e outras derrotas

Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025)

 

9 (fragmentos)


Este poema

tem seus descantes didáticos

suas horas de recreio

e uma aparente desordem

que não irrita o professor

mas, sim, ao fiscal de ensino.

Não posso

por exemplo, o tempo todo

ser meu próprio ladrilheiro

e colar letra por letra

– como o tijolo, o pedreiro.   

Poesia

não pode ser obra de carcereiro.

A menos que o guarda esteja

no limiar de suas portas

e nas argolas das horas

descubra

a inversa função da chave

que em vez de trancar, descerra

a imagem presa nas grades.

E este poema

como qualquer prisioneiro

deve ter direito ao sol

e à liberdade

– mesmo que condicional

 

deve poder se exilar num desgoverno

cometer seus desatinos pelas ruas e versos

que ao sistema da escrita aberta

cabe o modo poético e dialético

de converter o que era estrume

em flor oferta.