Amigos do Fingidor

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Coelho Neto e o Gótico Brasileiro

Ricardo Kaate Lima

 

          Quando falamos de literatura gótica, lembramos de autores como Edgar Allan Poe, Bram Stoker e Lord Byron, além de castelos, névoas e espíritos escondidos em ruínas medievais. Nosso imaginário se dirige para a Europa e para culturas distantes. Pensamos que a estética gótica é um estilo que em nada tem a ver com o Brasil, país de florestas tropicais, miscigenação e samba.

          Uma reflexão bem equivocada quando observamos toda a sangrenta história nacional e como ela pode ser aproveitada pela estética sombria. O grande Henrique Maximiano Coelho Neto (1864 – 1934), com sua maestria em escrever sobre tragédias, espíritos vagantes e fenômenos insólitos em pleno Brasil profundo do século XIX, confirma que nosso país não é avesso ao gótico. Tomemos como exemplo a coletânea de cinco novelas Treva (1906) para comprovar a competência do autor em trabalhar com a mescla entre cultura local e o insólito. Aqui vemos homens vivendo em extrema miséria nos grotões brasileiros, povoados por vítimas da ignorância e da superstição, escravos e escravas oprimidos por senhores cruéis, mulheres dominadas pelos seus maridos ciumentos e crianças vitimadas por forças incompreensíveis da natureza. Coelho Neto mistura o gótico e crítica social para descortinar nossas mazelas sociais e morais.

          É impossível falar de Coelho Neto sem mencionar seu estilo barroco e palavroso. O vocabulário é rico, frases complexas e bem elaboradas, descrições abundantes e narração construída com elegância. O autor foge da pobreza literária que alguns autores atuais teimam em seguir. Escrever é efetuar o artesanato das palavras e expandir-se no experimentalismo da língua. O português, idioma tão rico, está disponível para ser usado e testado. Por isso temos no autor uma mescla da escola realista e naturalista, com suas descrições ricas do cenário e da cultural local, e a estética gótica, em que vemos espíritos brotando em florestas, engenhos amaldiçoados, a loucura que acomete homens que vivem na solidão e o fanatismo religioso que exerce uma força sobre toda uma comunidade. Ler Treva é se ver jogado num mundo arcaico, onde o mal e a perversidade espreitam como um predador à procura da presa, e os mais fracos não têm para onde fugir.


Coelho Neto (1864-1934).


          Coelho Neto deveria ser mais lido, estudado e discutido como um dos gigantes da literatura nacional, ao lado de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Foi escritor de mais de cem livros, entusiasta do futebol e torcedor do Fluminense, agraciado com o título de Príncipe dos Prosadores Brasileiros em 1928, e indicado ao Nobel de literatura em 1933. Debruçar-se sobre a vasta obra do autor é lidar com um verdadeiro continente de contos, romances, novelas e peças de teatro. Uma pena que nosso Príncipe foi vítima de um covarde ataque da degenerada Geração de 1922, acusando-o de passadista. Mas o que é escrever de forma moderna? Os Meninos de 1922 reproduziam as vanguardas artísticas que ocorriam na Europa. Coelho Neto, por seu lado, desenvolveu um estilo único que deixaria Stephen King e George R.R. Martin com inveja. Machado de Assis já fazia literatura com fluxo de consciência muito antes de Marcel Proust, Lima Barreto ainda hoje não foi superado em sua literatura de crítica social e Augusto dos Anjos, em muitos dos seus poemas, encosta no horror cósmico que Lovecraft faria décadas depois. 

          Felizmente, essa é uma injustiça que está sendo reparada. Novas edições do mestre são lançadas, pesquisadores debruçam-se sobre o legado de Coelho Neto e ele retorna, aos poucos, a receber o reconhecimento devido. Em minhas mãos, por exemplo, tenho o exemplar de Treva, preparado pelo EDUSP, uma luxuosa edição de capa dura e vários estudos críticos. Em breve lerei Sertão, da editora O Grifo.

          A Vossa Alteza Literária, Henrique Maximiano Coelho Neto, todo reconhecimento merecido.

  

Curiosidades:

. Coelho Neto esteve em Manaus em agosto de 1899. Hospedou-se no Hotel Cassina; visitou a Beneficente Portuguesa; e fez concorrida conferência no Teatro Amazonas (https://roberiobraga.com.br/glossary/coelho-neto-em-manaus/);

. Autor de mais de uma centena de livros e fundador da Academia Brasileira de Letras, era um verdadeiro pop star, ao lado de Olavo Bilac, também Príncipe, mas dos poetas, e de Machado de Assis, que não precisava de títulos;

. Hoje, Coelho Neto é uma rua de Manaus, no bairro da Compensa, antiga rua 25 de Dezembro.

(ZmP)