Amigos do Fingidor

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Cecília Meireles e o devaneio surrealista em Viagem

 Zemaria Pinto

 

Escrito a partir da exposição feita no programa Leituras Compartilhadas, produzido por Dílson Lages Monteiro, sobre o livro A espiral crítica, de Peron Rios.

 

Minha participação centra-se no ensaio “Cecília Meireles: confissão e impostura”, do livro A espiral crítica, do professor Peron Rios.[1] Minha proposta é fazer um contraponto ao ensaio citado, mas não de cunho crítico, divergente; muito pelo contrário: o ensaio de Peron Rios é instigante, muito vivo em termos de reflexão, e, o que é mais importante, muito bem fundamentado. Mas, considerando o aspecto pedagógico desta discussão, e conscientes, todos nós, de que a obra de arte – e a poesia, em particular – tem múltiplas possibilidades de leituras e mesmo múltiplos significados, farei uma leitura complementar do poema “Canção”, de Cecília Meireles (1901-1964), utilizando alguns fundamentos usados no ensaio em contraponto, buscando ampliar a polifonia crítica da obra da poeta.

O poema em tela está no livro Viagem, publicado em 1939, vencedor do prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras, no ano anterior. É o primeiro livro reconhecido pela autora, posto que cinco livros publicados entre 1919 e 1937 não foram reeditados e nem relacionados pela autora na primeira edição de sua Obra Poética, em 1958, dirigida por Afrânio Coutinho.[2] A publicação da Poesia Completa em dois volumes, festejando o centenário de nascimento da autora, organizada por Antonio Carlos Secchin, traz à luz não só esses textos esquecidos, mas outros cinco, datados do mesmo intervalo, jamais publicados antes.[3]

O primeiro ponto a discutir é a presença da música na poesia de Cecília Meireles. São muitos os poemas chamados “Canção” ou “Cantiga” – com ou sem adjetivo. Outros poemas evocam a música, como “Agitato”, “Berceuse”, “Noturno”, “Balada”, “Serenata”. Um de seus livros anteriores à Viagem chama-se Cânticos (1927). Outros títulos relacionados à música: Vaga Música (1942), Doze Noturnos de Holanda (1952), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956) e Oratório de Santa Maria Egipcíaca (1996, escrito em 1957).   

O livro Viagem é repleto de referências à música. Vejamos alguns títulos de poemas: “Música”, “Serenata” (dois títulos), “A última cantiga”, “Canção” (três títulos), “Cantiguinha”, “Guitarra”, “Valsa”, “Noturno” (dois títulos), “Cantiga” (três títulos) e “Cantar”.

Mas a música não está só nos títulos, ela está entranhada nos poemas, como podemos ver nestas amostras:

 

Pousa sobre esses espetáculos infatigáveis

uma sonora ou silenciosa canção:

flor do espírito, desinteressada e efêmera.

(“Epigrama n° 1”)

 

Toca essa música de seda, frouxa e trêmula,

 que apenas embala a noite e balança as estrelas noutro mar.

(“Anunciação”)

 

E aqui estou cantando.

 

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:

deixa seu ritmo por onde passa.

(“Discurso”)

 

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:

não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.

(“Aceitação”)

 

Que música embala a minha música que te embala?

(“Desamparo”)

 

Viagem foi publicado em Lisboa e é dedicado “A meus amigos portugueses”. Peron Rios lembra, no seu ensaio, que “as canções são uma herança da poesia portuguesa, mais precisamente das cantigas de amigo, nas quais as mulheres lamentavam clandestinamente suas perdas amorosas” (p. 214).

Está em Viagem o poema mais popular de Cecília Meireles: “Motivo”, sua poética pessoal, que é uma reafirmação da música em sua obra.   

 

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

 

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

– não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

– mais nada.

  

Na sequência, vamos ler o poema “Canção”, objeto da análise de Peron Rios, no ensaio “Cecília Meireles: confissão e impostura”, lembrando que, como o livro tem três poemas com o mesmo título, vamos nos referir a ele, considerando a sequência do livro, como “Canção I”.

 

Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

– depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar.

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.

 

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio...

 

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

 

Depois, tudo estará perfeito:

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas.

 

A classificação mais comum à poesia de Cecília Meireles tem sido um vago Neossimbolismo, inserido no Modernismo. A sua Poética, “Motivo”, é uma afirmação do domínio que o eu empírico tem sobre sua poesia: a poesia do instante tornado em canção – e até emudecer, ele assevera que “não sou alegre nem sou triste; (...) não sinto gozo nem tormento; (...) não sei se fico ou passo”. Se o poeta cabe nessa definição, concluímos pela racionalidade de sua criação. Isso é um patamar acima do Simbolismo, mesmo pespegado do prefixo “neo” – inclusive com relação à musicalidade: sua harmonia é dissonante. Peron Rios explica isso, referindo-se ao poema “Canção I”:

 

Nessa canção, apesar do metro fixar-se em oito unidades silábicas, o ritmo oscila, pois a cadência se alterna entre as várias sílabas do verso. Essa constância ondulatória, somada aos sons de maciez em todo o texto, não destoa do barco ao balanço do mar, ou do que ele, mar, significa. A música não contradiz a imagem. E nem o pensamento: afinal, a melancolia é essa calma aparente, como o azul do mar é ardiloso. A placidez da superfície esconde uma turbulência discreta, um mundo de criaturas por debaixo se rivalizando sem cessar. (p. 216)

 

Se a música é dissonante, o que dizer das imagens produzidas pelo poema? Abstraindo-se que a estrutura do poema é a soma de ritmo e melodia, mais imagens e ideias (“a dança do intelecto entre as palavras”, como pregava Pound), Peron Rios, referindo-se à “Canção I”, diz que “existe no poema uma afinidade subliminar entre o eu e o sonho” (p. 217). E, de fato, na “Canção III” há um paralelo intertextual com a primeira canção:

 

No desequilíbrio dos mares,

as proas giraram sozinhas...

(...)

Quando as ondas te carregaram,

meus olhos, entre águas e areias,

cegaram como os das estátuas,

a tudo quanto existe alheias.

 

Minhas mãos pararam sobre o ar

e endureceram junto ao vento,

e perderam a cor que tinham

e a lembrança do movimento.

 

O primeiro poema começa com o mar em desequilíbrio (“– depois, abri o mar com as mãos”), situação análoga à do terceiro poema. Por outra, os dois últimos versos do primeiro poema (“meus olhos secos como pedras / e as minhas duas mãos quebradas”) são detalhados nas estrofes três e quatro do terceiro poema, reproduzidas acima.

O devaneio é uma expressão do inconsciente. O poeta registra essa expressão, sem censuras, ensinam os manuais especializados. Mas, ao poeta é facultado construir seus devaneios, não fosse ele um fingidor – é disso que trata o poema “Motivo”. E o que temos na “Canção I”, complementada, em paralelo, na “Canção III” é uma sucessão de quadros surrealistas criados pelo eu lírico, que busca esquecer seus sonhos (de juventude, talvez), valendo-se da imagem de um navio que naufraga num desequilíbrio provocado pelas suas próprias mãos, metáfora de decisões equivocadas. O naufrágio não é, portanto, obra do acaso ou do destino, mas uma decisão consciente do eu lírico.

A hipérbole “chorarei quanto for preciso, / para fazer com que o mar cresça”, confirma que a decisão é sim consciente e que o devaneio é uma construção estética. O resultado dessa construção, entretanto, tem uma consequência trágica: apesar dos olhos secos de lágrimas (como pedras), as mãos (a metonímia perfeita para colocar o sonho no navio e o navio em cima do mar – e depois abrir o mar) as mãos, eu dizia, se quebram (como pedras) e deixam o eu lírico impotente, o que leva à hipérbole da segunda estrofe, na “Canção III”:

 

Eu te esperei todos os séculos,

sem desespero e sem desgosto,

e morri de infinitas mortes,

guardando sempre o mesmo rosto.

 

A espiral surrealista de Cecília nos remete, dialogicamente, a outro poema de Viagem, “Retrato”, em que os elementos “olhos” e “mãos” são os mesmos das duas canções antes referidas, para concluir:

 

– Em que espelho ficou perdida

a minha face?

 

O eu lírico posta-se diante de espelhos duplos que se multiplicam em outros espelhos, indefinidamente, mas onde ele não se identifica porque esse devaneio não lhe pertence: cabe ao leitor tentar se reconhecer.        

 

 

 

  



[1] RIOS, Peron. A espiral crítica. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2021. p. 213-220.

[2] MEIRELES, Cecília. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1972/1985.   

[3] MEIRELES, Cecília. Poesia Completa. Vol. I e II. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

A poesia é necessária?

 

História

Alexei Bueno

  

Não é minha esta casa, aí entrarei no entanto.

Quebrarei o portão, marcharei entre as flores,

Encherei meu pulmão com os estranhos odores

Do jardim adubado a sêmen, sangue e pranto.

 

Porei a porta abaixo, enfrentarei o espanto

Dos vultos me fitando; e apesar dos bolores

Envergarei sem medo os trajes de idas cores,

Nas suas mãos beberei, entoarei seu canto!

 

Com os corpos rolarei de milhões de mulheres

Sem corpo. Ei-los que já me saúdam e me aclamam,

Meus perdidos avós, desamparados seres.

 

Estendem-me suas mãos como a um filho que os salva.

Deles vim, mas é a mim que eles agora clamam

A vida, como a um pai, um sol sonhando na alva.

 

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Turismo de ilusão

Pedro Lucas Lindoso

 

Os homens tem uma capacidade extraordinária de inventar, criar e mentir. O nome do município de Presidente Figueiredo foi uma homenagem ao último presidente do Regime Militar. Entretanto, com o advento da Nova República, espalhou-se a versão de que Figueiredo seria Tenreiro Aranha, o homem que primeiro governou a Província do Amazonas. Ele se chamava João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha. Os milhares de turistas que visitam o local ainda recebem essa versão inverídica e, para muitos, mais palatável.

O calçamento do Largo São Sebastião é o mesmo do Rossio, em Lisboa. Que também foi feito na famosa calçada de Copacabana. Alguém quis enganar turistas com a versão de que seria uma alusão ao encontro das águas do Rio Negro como o Solimões. Parece que a ideia não vingou. Provavelmente, porque não explicaria o similar feito na calçada de Copacabana. Posterior ao nosso, por sinal.

Provavelmente, não existe nada mais fake do que a casa de Julieta, em Verona, na Itália. Assim como Shakespeare imaginou a tragédia de Hamlet na Dinamarca, resolveu imaginar e escrever o drama de Romeu e Julieta em Verona, na Itália.

O prédio escolhido para ser a casa de Julieta seria de fato, renascentista. Mas o famoso balcão foi colocado lá nos anos trinta do século passado. Na verdade, foi uma adaptação para uma das primeiras filmagens da famosa peça de Shakespeare. E atualmente, o icônico balcão atrai turistas do mundo inteiro, mesmo sendo um turismo fake.

Em Verona ainda se visita a tumba de Julieta, dentre outros locais alusivos a tão conhecida e festejada estória. Há uma estátua de Julieta, cujo seio é tocado por amantes e namorados para dar sorte. Shakespeare nunca esteve em Verona. Mas vale a pena ir lá. As pessoas precisam se iludir, imaginar e louvar o amor.

Viajando por aí, já escutei muitas estórias inverídicas ou fantasiosas contadas por guias de turismo ou entusiasmados habitantes do local. A vida é assim. Há fatos com milhares de versões. A imaginação dos homens é ilimitada.

O nosso principal atrativo turístico, o Teatro Amazonas, teria seus calçamentos encobertos por uma camada de borracha. Isso somente no final do século 19. Os trotes dos cavalos em carruagens não deveriam perturbar os espetáculos. Dizem que Caruso cantou por aqui. Outra lenda. Mas os turistas adoram ouvir isso. Quem viaja parece estar à procura de ilusões perdidas. E acaba encontrando outras. E divertindo-se. Aliás, muitas localidades turísticas são ilusões. Então estamos combinados. Viva o turismo de ilusão.

 

 

domingo, 11 de setembro de 2022

Manaus, amor e memória DLXXXIV


Avenida Eduardo Ribeiro, na década de 1960.
Ao fundo, o IEA, o Teatro Amazonas e a igreja de São Sebastião.

 

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Dez anos sem Luiz Bacellar

 

Luiz Bacellar (4/9/1928-9/9/2012), 
em foto de 1964, de autor desconhecido..


Noturno do Bairro dos Tócos

Luiz Bacellar

 

Há tanta angústia antiga em cada prédio!

Em cada pedra nua e gasta. E agora

em necessário pranto que demora

o amargo verso vem como remédio

 

pelos sonhos frustrados em cada hora

da ingaia infância. Madurando o tédio

nos becos turvos, porque exige e pede-o

inquieta solidão que assiste e mora

 

em cada tronco e raiz, calçada e muro:

Chora-Vintém, O-Pau-Não-Cessa. Impuro

se derrama um palor de lua morta

 

nas crinas tristes, no anguloso flanco:

memória e angústia fundem-se num branco

cavalo manco numa rua torta.




Para conhecer melhor o poeta, ou mesmo matar a saudade, clique aqui.
 

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

A poesia é necessária?

Puro lamento gallego por Federico García


Luiz Bacellar (1928-2012)

 

 

Ay, ben no mei dun trigal

enterraron meu poeta!

 

Ay, como vibras Granada

– vella guitarra de pedra

se a choiva te apresta as súas

tensas cordas de cristal!

 

Nun canteiro de papoilas

e bem no mei dun trigal!

 

Desesperadas guaiabas

e ele nem podia oubir

pois xa o seu sangre a ialba

labou no Guadalquivir!

 

Ay, ben no mei dun trigal

enterraron teu poeta!

 

Teo xemido calaria

blando gesto de súa mão...

Mas ay! ninguém probaria

gosto de sangre em teu pan!

 

Nun canteiro de papoilas

e bem no mei dun trigal!

 

Pol quanto tempo as papoilas

seu sangre repetirán?

E as brandas varas do trigo

no vento se curvarán?

 

Ay, ben no mei dun trigal

enterraron meu poeta!

 

E’ xunto a unha coba raza:

unha descarga. Mais nada.

A abella da morte vaza

quem morre de madrugada!

 

Nun canteiro de papoilas

e bem no mei dun trigal!

 

Só poderia cantal-o

pol-a boca dun bulcón

e unha igrexa de cinzas

sepultaría a canzón!

 

Ay, ben no mei dun trigal

enterraron meu poeta!

 

Quand’ i-a metralla calou

vei’ i-a navalla do frio...

Um horizonte de cachorros

ladrou na veira do rio!

 

Ay, ben no mei dun trigal

sepultaron meu poeta!

 

Ay, se um vento violento

envergando o piñeiral –

arranca as froles do trigo,

creba da fonte o cristal...

 

Nun canteiro de papoilas

e bem no mei dun trigal!

 

Ay, da papoila arrancada

no terror do furacón

– güela dilacerada

por sú propria canzón!

 

Ay, ben no mei dun trigal

enterraron teu poeta!

 

Ay, esse trigal – seu povo!

esse vento – a tiranía!

papoila do seu martírio!

fonte da sua canzón!

 

Nun canteiro de papoilas

e bem no mei dun trigal!

 

Quen’ steve, se o vento passa

somando a i-auga do rio

mentre as papoilas e o trigo,

um longo xemido oubiu...

 

Ay, Federico García

te plantaron num trigal!

 

Ay, quand’ i-eu morrer quisera

q foxe o meu funeral

num canteiro de papoilas

e bem no mei dun trigal!

 

– * –

Para estabelecimento do texto, foram usadas as 1ª, 2ª e 5ª edições de Frauta de Barro. Conservou-se o título usado nas duas primeira edições.

  

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Liberdade de expressão

 Pedro Lucas Lindoso

 

Nunca se falou tanto sobre esse princípio constitucional. Todavia, crônicas são relatos do cotidiano, memórias ou mesmo ficção. Não se prestam às opiniões científicas. Portanto, aí vão lembranças e breves considerações sobre o que os americanos chamam de “freedom of speech” – a tão comentada liberdade de expressão.

Em 1973, em pleno Regime Militar no Brasil, fui aluno de intercâmbio em Ohio nos Estados Unidos. Ainda no Brasil, meu professor de OSPB – Organização Social e Política Brasileira, nos ensinava que o mundo estava dividido. Havia países que apoiavam a União Soviética, de malvados comunistas, como Cuba. Mas o Brasil era aliado dos Estados Unidos, onde havia liberdade e progresso.

Na “High School” americana fui matriculado na disciplina “Speech”, ou seja, Oratória.  Aprendia-se a fazer diversos tipos de discursos, além de várias formas de comunicação oral. Certo dia a professora nos solicitou preparar um discurso diferente. Destinava-se a uma plateia em que sabíamos que os ouvintes eram majoritariamente contra o que se ia defender. Como legalização de drogas ou eutanásia. Então veio o meu susto e minha surpresa: um dos temas era “defenda o comunismo”. Como assim, pensei?

Estava estudando nos Estados Unidos e a professora me solicitava elogiar o comunismo! Mesmo como “exercício de oratória”! Só os da minha geração que estudaram OSPB podem me compreender. Depois, como bacharel em Direito pude entender que nos Estados Unidos a liberdade de expressão é plena e sem restrições.

Mais tarde, já advogado, em um seminário promovido pela OAB do Distrito Federal, ouvi de um palestrante, juiz federal americano, estranhar o inciso IV, do art. 5º no qual “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”. O anonimato é permitido nos Estados Unidos.

O americano palestrante disse que lá nos Estados Unidos o sigilo da fonte no jornalismo é protegido constitucionalmente. E complementou que não havia proibição do anonimato porque muitas conquistas dos direitos civis foram feitas a partir de panfletos anônimos.

No Regime Militar houve prisões injustas por denúncias anônimas inverídicas. Quando menino, aqui em Manaus, em épocas de eleições havia as odiosas “cartas anônimas”, com injúrias, difamações e mentiras envolvendo principalmente os candidatos e seus familiares.

Em tempos de tanta fake news e polarização política, há que se perguntar até que ponto o constituinte brasileiro acertou em vedar o anonimato. Ou não!

 

domingo, 4 de setembro de 2022

Manaus, amor e memória DLXXXIII

 

Colégio Santa Doroteia.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Leituras Compatilhadas: A espiral Crítica, de Peron Rios


Participação: Peron Rios, Dilson Lages Monteiro,
Ranieri Ribas, Carlos Evandro e Zemaria Pinto.

 

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

A poesia é necessária?

 

Canção

Cecília Meireles (1901-1964)

 


Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

– depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar.

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.

 

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio...

 

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

 

Depois, tudo estará perfeito:

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas.