Amigos do Fingidor

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

A poesia é necessária?

 

Coragem

Luciana Nobre

 

A vida te parece um grande fardo;

as horas, meses; medo já te invade;

na mente exausta, o nada; sem vontade

estás, e ao mundo inteiro lhe vê pardo...

 

Tu buscas e te foge a potestade,

e o amor já não mais passa de um brocardo...

Confesso: quando assim, por dentro, eu ardo

querendo me agarrar à outra metade:

 

a vida, o quanto pesa, fortalece!

o instante pode ser o derradeiro...

a mente é a oficina de onde o oleiro

modela e remodela a sua benesse...

 

Coragem não nos falte nunca, pois.

Nada obstante as dores que há mundo,

colore-te, ama agora, e não depois...

 

Acende em teu abismo, isso te infundo

a luz que todos têm... temos nós dois...

e vais resplandecer, verás, fecundo...

 

terça-feira, 22 de agosto de 2023

A primeira e a última

 Pedro Lucas Lindoso

 

Na semana que passou, tivemos, mais uma vez, um apagão de energia. Enquanto se tomava o café da manhã de uma terça-feira considerada dia útil, de repente faltou energia. Nós, amazonenses, parece que ficamos meio sem-vergonha com isso. As quedas de energia são, de certa maneira, tão frequentes, que não nos espantamos mais.

As notícias vindas via internet, no celular, davam conta de que a cidade toda estava sem energia. E mais! O problema não se restringia somente a Manaus. O apagão atingia grande parte do território nacional. A origem era desconhecida e afetava todo o famoso linhão de Tucuruí, ao qual somos interligados.

Aliás, Manaus foi uma das últimas cidades a ser interligada. Boa Vista, que é ainda mais longe que Manaus, nada sofreu porque ainda não está no sistema.

Fui solicitado a ir a uma farmácia comprar fraldas e leite para minhas netinhas. Já era no meio da manhã e a falta de luz persistia. O trânsito na cidade estava relativamente calmo. Os sinais de trânsito ainda funcionavam misteriosamente. O comércio estava um tanto quanto vazio e me lembrei dos tempos de pandemia.

Entrei na farmácia e consegui comprar as fraldas. Não havia o tipo de leite que procurava. Uma outra farmácia estava com as portas fechadas. Na terceira, ainda no carro, fui abordado por uma vendedora que me informou estarem sem sistema em razão da falta de luz.

No caminho de volta para casa encontrei outra farmácia. Consegui encontrar o leite para as nenéns, graças a Deus.

Lembrei-me de um filme antigo chamado Where were you when the lights went out? (Onde você estava quando as luzes se apagaram?). O filme baseia-se no blecaute ocorrido em novembro de 1965, em  Nova York. A comédia, com Doris Day e Patrick O´Neal, fez muito sucesso. Patrick estava sendo entrevistado por uma jornalista muito bonita durante o blecaute. Já Robert Morse é um executivo que foge de sua empresa com dinheiro roubado e tem um problema com o seu carro. Acaba na casa de Margaret Zane, onde adormece placidamente

A imaginação de cronista fervilha em situação de apagão. Essas ocasiões podem ser cômicas ou extremamente dramáticas. Manaus foi a última cidade a ser interligada ao linhão. Tia Idalina, quando perguntada se é verdade que Manaus foi a primeira cidade a ter energia elétrica no Brasil, ela responde com paradoxal ironia:

– Foi a primeira e a última!

 

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Literaencontro: escritoras do Amazonas no Casarão de Ideias


Nesta quinta-feira, 24 de agosto, a partir das 18h, acontecerá um grande encontro de escritoras amazonenses, no Casarão de Ideias. Além de lançarem suas obras, as autoras conversarão sobre o fazer literário contemporâneo no Amazonas. Entrada franca. 



domingo, 20 de agosto de 2023

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Psicopatologia da composição de Música para surdos 4/6

Zemaria Pinto

    

Ecos da paixão. Chamar aos poemas de “exercícios” nasceu daquela interação com a memória juvenil. Eu já cometera alguns sonetos, mas um poeta pós-moderno, como eu me pretendia, tinha lá seus pudores. Ora, direis, fazer sonetos... Mas havia um, sem título – “Trago nas mãos a lâmina dos anos” –, dedicado ao amigo Alcides Werk, sonetista exímio, que poderia servir-me. Tratava-se de assunto relacionado à passagem do tempo, e fora escrito um ano antes, em ocasião muito sofrida da vida de Alcides. Foi o segundo poema incorporado ao grupo que viria a ser de 21.

A sequência em que os outros foram escritos perdeu-se nos vis desvios vãos da memória. O “exercício nº 5”, por exemplo, o mais anterior entre todos, ficou entre o 3 e o 9, porque era conveniente que ficasse. Mas o leitor vai observar que no primeiro e no quarto movimentos todos os exercícios são ímpares e no segundo e terceiro, pares. O simbolismo aí é primário: o ímpar é a solidão e o fazer poético é essencialmente solitário. Estes são os assuntos daqueles movimentos. O par, por outro lado, denota companhia, ou ausência de solidão, mesmo tendo a perda como consequência – assuntos desses movimentos. Além disso, o segundo movimento traz uma sequência que se expande em progressão geométrica, representando o amadurecimento e o distanciamento que a perda causaria na voz emissora do poema. Considerando um número ilimitado de poemas, o quinto soneto do segundo movimento, seria o de número 32, o sexto, o 64, o sétimo, o 128 etc., enquanto os outros continuariam na sequência ordinária, apenas alternando pares e ímpares. Os números, insisto, não têm nenhuma significação velada – sua importância é apenas estrutural.

Há um porquê também para as diferenças gráficas. No primeiro movimento, a articulação correta entre maiúsculas e minúsculas denota uma certa gravidade no tratamento do assunto. Os dois exercícios finais, entretanto, 17 e 19, repletos de autoironia, relaxam completamente, inclusive no que diz respeito à pontuação. No segundo movimento, a prevalência das minúsculas denota introspecção, talvez medo. Nos movimentos finais, observa-se um misto dessas situações. 

Para efeito, digamos assim, didático, chamemos a voz emissora de “o poeta”. Mantenha o leitor a certeza de que essa voz não é, necessariamente, a minha, lembrando sempre que o poeta é um fingidor. Dito isto, vamos a uma breve incursão pelo texto.

 

1º movimento – o eu e os outros

 

. “exercício nº 1” – as rimas intercaladas têm a intenção subsidiária de mostrar um certo anacronismo, em relação ao conjunto, todo em rimas brancas. É o poema do jovem estudante de poesia, solitário em seus múltiplos exercícios cotidianos.

. “exercício nº 3” – o jovem poeta vai à rua. É madrugada, embriaga-se. Sonha com uns versos perdidos de Eliot: “A pomba mergulhando rasga o espaço / Com flama de terror incandescente”.[1] O verso final ecoa a Clarice Lispector de Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres: a pontuação como ideia de continuidade eterna dentro do humano finito. Um grito de pesadelo. Mudo.

. “exercício nº 5” – em oposição aos dois exercícios anteriores, em que se revelava a juventude, a preocupação do poeta agora é com o passar do tempo. O poeta aqui é um ser humano em decomposição, como uma árvore velha num pântano sombrio.

. “exercício nº 9” – escrito em hendecassílabos, este poema dá curso ao anterior, porém reflete também um certo desconforto do poeta diante da poesia, que o cerca como espectro de um mundo do qual ele se recusa a tomar parte. Observa-se nos primeiros versos do segundo quarteto referências a Rilke (“A Pantera”), Poe (“O Corvo”) e Luiz Bacellar: “memória e angústia fundem-se num branco / cavalo manco numa rua torta”.[2] O tempo aqui é um rio de Heráclito, ecoando um distante Vinicius de Moraes: “Meu tempo é quando”.[3]

. “exercício nº 11” – o poeta lacerado vaga por entre as luzes da cidade, catando sobras entre as ruínas. Em meio à selva tenebrosa da urbe, tendo perdido a “verdadeira estrada”, ele recorre a Dante Alighieri para melhor descrevê-la: “esta selva selvagem, dura e forte / que, de a lembrar, renova todo o medo”.[4] A solidão por companheira, o poeta atingiu o fundo do poço escuro de si mesmo.

. “exercício nº 13” – neste poema, o profeta fala pelo poeta. As palavras de Zaratustra ecoam para além de qualquer horizonte conhecido: a positividade de “hoje sou ontem e amanhã e sempre” se contrapõe à negatividade de “já não sou quem fui ou quem serei ou quando”, do “exercício nº 9” e ao errante caminhar do “exercício nº 11”. Há uma clara mudança de tom – aqui o alegro substitui o largo. Ouça-se, ainda ecoando Nietzsche, a voz de Eliot: “Nós somos os homens ocos / Os homens empalhados / Uns nos outros amparados / O elmo cheio de nada. Ai de nós!”.[5] A procura está no centro deste poema. Nem por isso o poeta/profeta deixa de anotar, no último terceto, a solidão dessa busca insana, que leva o artista a viver com mais intensidade, e, no mais das vezes, por isso mesmo, apagar-se mais rapidamente.

. “exercício nº 17” – reencontrada a poesia, o poeta busca melhor compreendê-la, contemplando os livros da estante perdida no tempo. As reverberações são diversas. No primeiro quarteto, Rimbaud: “Se bem me lembro, minha vida outrora era um festim – aberto a todos os corações, regado por todos os vinhos”.[6] No segundo quarteto, o mergulho é mais raso, ao citar o “poema de todas as ausências”, de Fragmentos de Silêncio: “na estante, entre miríades de sonhos e sons / marcianos loucos materializam / suas fantasias de luzes / fosforescentes”.[7] No terceiro quarteto, o poeta busca a quintessência do silêncio em Drummond: “Lutar com palavras / é a luta mais vã”.[8] A partir deste soneto – e a partir da definição de poesia nele contida – o poema muda de nome, passando a chamar-se, definitivamente, Música Para Surdos. Nada mais. 

. “exercício nº 19” –  único poema do conjunto escrito em versos alexandrinos, este é um exercício de autoironia e uma renovação paródica do “exercício nº 13”, enfatizando com graça o que aquele dissera com as palavras do profeta. Note-se a evolução do tom do poema, começando com uma linguagem empolada, evoluindo, no segundo quarteto, para uma anti-helênica beleza, e lembrando, no quarteto seguinte, um clown a ecoar, no dístico final, de maneira quase chula, o bom Rimbaud: “Um dia, sentei a Beleza no meu colo. E a achei amarga – e injuriei-a.”[9]



[1] ELIOT, T. S. “Little Gidding”. In: Poesia. 2. ed. Tradução: Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p. 233

[2] “Noturno do Bairro dos Tócos”. Bacellar, obra citada: p. 75.

[3] MORAES, Vinícius de. “Poética”. In: Antologia Poética. Organização: Vinícius de Moraes. 11. ed. Rio de Janeiro: José Olympio,1974. p. 179.

[4] Perdi as referências desta tradução, mas se trata, claro, dos versos 5 e 6 do Canto I, do Inferno:

esta selva selvaggia e aspra e forte

che nel pensier rinova la paura!  

[5] Eliot, “Os homens ocos”, obra citada: p. 117.

[6] RIMBAUD, Arthur. Uma estadia no inferno. Tradução: Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977. p. 43.

[7] PINTO, Zemaria. Fragmentos de Silêncio. Manaus: EDUA, 1995. p. 73-74.

[8] ANDRADE, Carlos Drummond de. “O lutador”. In: Reunião – 10 livros de poesia. 6. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974. p. 67.

[9] Rimbaud, obra citada: p. 43.

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

A poesia é necessária?

 

Cicatriz

Tainá Vieira

 

Sonhei que a cicatriz do meu ventre se abria

e não havia criança

não tinha sangue

e nem doía

parecia

uma janela

pela qual se podia

ver o mundo

e vi um cenário oco

fosco.

Esse mundo está bem aqui, dentro de mim.    



terça-feira, 15 de agosto de 2023

Dia dos pais

Pedro Lucas Lindoso

 

Nesse dia dos pais estou me sentindo muito próximo de meus mortos. Meus pais, tios e avós que já estão no outro plano, mas por alguma razão sinto-os bem próximos. Nada mórbido ou triste. Uma saudade significativa, é verdade. Mas simplesmente saudade. No significado mais brasileiro que esta palavra tem. Uma conotação própria do Português. Saudade, simplesmente saudade. Repito.

O mês de agosto é carregado desse sentimento com relação ao meu pai. Não somente pelo dia dos pais, mas porque seu aniversário de nascimento é no dia 21 de agosto. Em muitos países o dia dos pais é comemorado em junho. Mas aqui esse mês é dos namorados. Sabemos que são datas incentivadas pelo comércio para consumir. Dar presentes. Mas, e daí? É sempre uma oportunidade de exercitar as tão necessárias demonstrações de afeto, de amor e consideração.

Com o passar dos anos vamos adquirindo coisas e conhecendo pessoas. Mas perdemos muitas. Nos são levadas pessoas que nos foram importantíssimas na juventude. Há uma fase da vida em que vamos adquirindo coisas e habilidades. Para depois perdê-las.

Observo minhas netinhas. As que são ainda bebezinhas estão adquirindo a habilidade de falar, de andar, de pedir e de contestar. Começam a expressar amor, ciúmes e desapontamentos. É um período de aquisições, de constante aprendizado. E haja responsabilidade para ensinar o certo, o adequado, o caminho mais seguro.

E aí vem a responsabilidade do pai. Nem todos têm ou tiveram o privilégio de ter tido pais presentes. A circunstâncias da vida e a história de cada um explica o porquê de crianças terem sido criadas sem a presença efetiva de seu genitor. Não nos cabe aqui analisar, censurar ou diagnosticar as causas desse problema. Vamos louvar os pais presentes. E também aqueles que a nossa memória afetiva e saudosa permite.

Muitas pessoas me dizem que meu pai foi uma pessoa importante. Eu concordo. Meu pai foi importante principalmente por ser meu pai, por ser esposo de minha mãe, um tio legal, um irmão bom, um filho dedicado e principalmente por ser amigo de seus amigos. E um grande amigo de seus filhos.

Como pai e avô esse é o meu conselho aos pais. Sejam amigos de seus filhos. Sem nunca perder a autoridade, porém. Seja sempre um pai presente e participativo. É preciso e necessário acompanhar o rendimento escolar de seus filhos e estar constantemente disponível para explicar, ensinar e orientar.

Um feliz dia dos pais!

 

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

domingo, 13 de agosto de 2023

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Psicopatologia da composição de Música para surdos 3/6


Zemaria Pinto

 

Pronto. Estava desenhado o meu poema. Faltava apenas escrevê-lo. Ou melhor, faltava escrever os 21 poemas que o comporiam, sempre lembrando o velho e querido Poe. Como disse anteriormente, durante o planejamento, que durou, entre concepção e amadurecimento, algo em torno de 6 a 8 semanas, um poema começou a tomar forma, o de número 21, aquele canto de amor que deveria encerrar o poema, sintetizando-o. E por que começar pelo fim? Recorro mais uma vez a Poe:

 

Só tendo o epílogo, constantemente em vista, poderemos dar a um enredo seu aspecto indispensável de consequência, ou causalidade, fazendo com que os incidentes e, especialmente, o tom da obra tendam para o desenvolvimento de sua intenção.[1]

 

Não tinha mais que os dois versos citados parágrafos atrás, mas sabia que o sujeito oculto neles era a própria poesia. Mas como abusaria à exaustão da forma soneto, resolvi trocar o todo pela parte, e referindo-me a Mário Faustino, que deu outra dignidade ao soneto no início dos anos 60, comecei assim o fim do meu poema:

 

soneto meu, faustino de armação

 

O verso seguinte refere-se às quebras promovidas ao longo do poema, que, todo em decassílabos, emprestam ao leitor uma outra possibilidade de leitura, fugindo ao metro convencional. Compare os três seguintes versos do primeiro quarteto:

 

tramado e arquitetado em vário pé

desarma-se em vis desvios vãos

limítrofes à tinta e ao papel

 

O leitor poderá, sem dificuldade, recompor em decassílabos o segundo quarteto, que finaliza recorrendo ao auxílio luxuoso de Caetano Veloso: “e no joelho uma criança sorridente, feia e morta / estende a mão / (...) / e nos jardins os urubus passeiam a tarde inteira entre os girassóis”.[2] Este soneto, não esqueça o leitor, deveria sintetizar o que seria o movimento dos mitos pessoais, além de ter a responsabilidade de encerrar o poema. Daí a necessidade de fazê-lo fora do comum na forma, mas sem cair, em relação ao conteúdo, na armadilha da mera lembrança. “Tropicália” e Caetano fizeram parte da minha descoberta da poesia, ali pelos 11, 12 anos de idade. Ao mesmo tempo, o “crânio morto” refere-se diretamente ao Hamlet que vestia todas as minhas fantasias de loucura e suicídio: “síntese de nada ou cousa alguma”.

Este poema, o “exercício nº 21”, é tão autobiográfico na tentativa de reconstituição dos mitos pessoais, que talvez fique ininteligível para o leitor, sem que se faça um resumo histórico: Santarém, 1969. Temporada com a avó. AI-5 em vigor. As Forças Armadas promovem exercícios antiguerrilha em plena área urbana. Foi lá, no meio das salvas de festim, entre Caetano, Shakespeare e o fantasma aureolado do Che,[3] que eu senti queimar pela primeira vez a centelha da poesia. Foi lá que eu senti pela primeira vez a angústia de estar no mundo. A impotência de ser um objeto humano, meramente manipulável. Lia sob a luz de duas lamparinas a querosene. E o único contato com o mundo, além das buzinas dos navios em trânsito, era a BBC de Londres, transmitindo em português, no rádio a pilha do tio louco. O “exercício nº 21” é uma conversa íntima entre o poeta e sua poesia:

 

a ti revelo-te tua natureza

 

Mostro a mim mesmo, e a Ela, onde tudo começou.

 



[1] Poe, obra citada: p. 61.

[2] “Tropicália”, de Caetano Veloso. LP Caetano Veloso. Philips Records, 1968.

[3] Sem relação com o poema, mas muito viva na minha lembrança, a canção “Soy loco por ti, América”, de Gil e Capinam, que Caetano cantava no citado álbum de 1968: “El nombre del hombre muerto / Ya no se puede decirlo, quién sabe?” O que se cochichava pelas ruas de barro batido da cidadezinha era que “el hombre” não morrera – e era por isso que as forças estavam em movimento. Esperando-o, para matá-lo novamente, quantas vezes fosse preciso...

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

A poesia é necessária?

 

Assoviando Santa Helena                

Jalna Gordiano

 

Eu assovio muito mal.

Minha língua foi quase decepada, mas isso não justifica.

Nunca assoviei direito.

Me magoo facilmente.

Guardo rancores.

Planejo vinganças. Esqueço delas.

Não desejo o mal de ninguém que me fez mal.

Mas, quando acontece, não finjo que não fiquei feliz.

Quando eu engordo, engorda logo a barriga.

Quando emagreço, secam logo as pernas.

Já matei gente com palavras e indiferença.

Da mesma forma me mataram.

Já cortei muitas asinhas.

Arrancaram minhas asas no dente.

Aprendi a levitar à força.

Já me fuzilaram com palavras.

Visito cemitérios sem ter quem visitar.

Sinto melhor em cemitérios que em praças.

Também gosto de supermercados.

Converso com meus amigos mortos todos os dias.

Às vezes, choro de saudade. Dói.

Gosto de gente. De longe.

Perto, geralmente machucam.

Por isso mando as pessoas embora e ligo a televisão pra fingir que tem alguém em casa.

Quando enjoa, desligo.

Ainda trago doçura no coração.

Guardo-a dentro de um bunker.

Meus filhos tem acesso a esse bunker.

Mas mostro-lhes a maldade vez ou outra.

Gozo melhor sozinha.

Detesto gente burra de propósito.

Detesto barulho de água.

Amo chuva.

Fui gerada numa tempestade e parida num vendaval.

Nado tão bem quanto uma pedra.

Se pudesse, viveria bêbada.

Preciso trabalhar, então não vivo.

Se pudesse, comeria a maçã envenenada.

Preciso trabalhar, então não durmo.

Não sei o que você vai fazer agora, com essas informações.

Nada.

Faça o que lhe for da cabeça.

Você não pode me destruir.

Vou desligar a tv, fazer o jantar e dançar.

 

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Imagina

Pedro Lucas Lindoso

 

Cresci ouvindo que não deveria se economizar no uso das palavras obrigado, por favor, com licença, desculpe-me e suas variações. Tia Idalina, didaticamente, ensina às crianças que são palavras mágicas.

Em Portugal usa-se muito “bem haja’. É escrita sem hífen e usada como forma de agradecimento. Portanto, é sinônimo de muito obrigado. É um desejo que você tenha tudo de bom. Bem haja, no singular, deve ser usado no agradecimento de apenas uma pessoa. Bem hajam, no plural, deve ser usado no agradecimento de mais do que uma pessoa.

Assim como obrigado é usado por homens e obrigada por mulheres. As portuguesas raramente erram. Mas há brasileiras que agradecem erradamente a vida toda. Uma professora de português me disse que a língua é machista. Para as mulheres é bem mais difícil falar corretamente.

Os americanos ao aprender o português acham muito interessante que haja “thank you” para homens, ou seja obrigado e outro para mulheres, obrigada. Em época de “todes” pode ser que venha a colar o “obrigade”. Ou não.

O fato é que a língua é dinâmica e evolui. O mesmo idioma varia no tempo e espaço. Vossa mercê virou vós mecê e hoje é você.

Peguei um táxi certa vez. E lhe pedi: Vieiralves, por obséquio. No que o motorista respondeu que iria pegar a avenida Djalma Batista, pois não sabia ir “por obséquio”.

Voltando aos agradecimentos. Nós brasileiros costumamos responder ao obrigado de diversas formas: “Por nada!”, “Não há de quê!”, “De nada!”, “Não seja por isso!”, “Obrigado você!, “Obrigado eu!”

No Inglês, a forma mais comum de se responder ao “thank you” é com a expressão “You are welcome”, que também significa seja bem-vindo. Usa-se ainda “any time” e também a expressão “don’t mention it’, dentre outras.

Em São Paulo a resposta que mais ouvi para o obrigado foi “imagina!” A expressão é muito comum entre os paulistas. Serve também para reforçar o que é verdadeiro e possível. As vezes pode ter o sentido de aprovar, despreocupar e concordar ao mesmo tempo. Mas predomina como resposta ao obrigado.

No Rio de Janeiro, onde se troca muito e por i ouvi, um muito obrigado assim: agradecido. Ou melhor “gradicido”. Imagina?

  

domingo, 6 de agosto de 2023

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Psicopatologia da composição de Música para surdos 2/6

 Zemaria Pinto

 

O primeiro movimento teria como assuntos a juventude, a vida sem rumo, e, como decorrência disso, a passagem inexorável do tempo e a inevitável solidão. Era aquela melancolia traduzida num andamento inicialmente largo, para em seguida transformar-se num alegro, representando a descoberta da poesia e do amor. Deveria ter de 7 a 8 sonetos.

O segundo movimento, por outro lado, num andamento de adágio, representaria a perda, totalizaria a dor. Teria 3 ou 4 poemas.

O terceiro movimento teria a responsabilidade de apagar a impressão de tristeza deixada pelo anterior e ao mesmo tempo preparar o grand finale. Um alegro moderato. Desde o início, defini que, nesta seção, trataria de mitos, emprestando à “música” a ambiência mágica anteriormente planejada. Mas não seriam quaisquer mitos. Seriam meus, pessoais, exclusivos. Ateu, meus mitos são as representações simbólicas da minha realidade fraturada – metáforas e alegorias do abismo entre o desejo do ser e o ser do desejo. 6 a 7 poemas.

Finalmente, o quarto movimento deveria ser uma celebração à poesia, daí o seu andamento presto, triunfante. 3 a 4 poemas, não mais.

Se contasse o número de poemas pelo máximo, teria 23 sonetos. Pelo mínimo, 19. Números feios, nada sugestivos. Como a coisa já ia se alongando e o primeiro poema já começara a tomar forma (“a ti entrego-te meu braço destro / meu sexo meus olhos e meus delírios”) resolvi batizá-lo com o número 21, e ele seria o “fechamento” do poema – afinal, o 21 é um número carregado de simbolismos, múltiplo que é de 3 e de 7, números relacionados com o sagrado e o místico. Ou seja, dividindo o número de poemas por seção, de acordo com o que considerei a duração ideal da música em cada movimento, dando a cada um deles números pares de poemas, com exceção do último, que sintetizaria em três poemas cada um dos movimentos anteriores, estava definida a extensão do poema: 21 sonetos ou 294 versos. Mas, devo dizer que nada disso guarda qualquer relação com numerologia, cabala ou tarô – é apenas uma estrutura numérica.

É preciso esclarecer, embora óbvio para o leitor de poesia, que um poema se faz de outros poemas e de toda a tradição que o antecede. Tem sido assim desde sempre. Um poema ecoa outros poemas. Por isso, não deve estranhar o leitor pouco afeito às citações que ocorrem ao longo de um poema, que, quando reveladas, parecem pedantismo acadêmico ou falta de originalidade. A música pop inventou o verbo “samplear”. Na Universidade chamam a isso de intertextos ou, o que é muito mais poético, palimpsestos – escritos sobre outros escritos.

Forma, assunto, extensão, um título provisório e até mesmo uma “chave de ouro” – estava esboçado o meu poema. Mas é preciso dizer que a diversidade do item assunto colocou-me frente a um outro problema: o tom do poema. Percebi então que esse tom já estava definido no próprio andamento de cada movimento: o largo é melancólico; o adágio é triste. Ambos trazem uma carga de negatividade existencial e filosófica relacionada ao mal e ao não-ser. Era preciso enfatizar isso. Mas o alegro do primeiro movimento deveria reverter essa situação, levando-a a um paroxismo de plenitude. Por isso o alegro deveria trazer à tona uma visão nova do Homem. Isso me deu outra definição: o sexto poema do primeiro movimento seria uma referência direta ao mal interpretado Nietzsche, uma leitura que me acompanhava havia muito tempo, seguida de uma abordagem amorosa do que vem a ser o fazer poético.

Quanto ao alegro moderato relacionado aos mitos, o melhor tom que se me afigurou foi o da ironia enquanto valor positivo, onde a repulsa se transforma, numa leitura menos banal, em atração fatal. O tom do último movimento deveria sintetizar, como já disse antes, os outros três. Um poema de tom positivo partindo de uma situação negativa, uma louvação à poesia. Um segundo poema, dilacerado, contaminado pela dor da perda e permitindo que esta contamine a própria elaboração poética. Finalmente, o poema de número 21, num procedimento dialético, seria um canto de amor e de entrega à poesia.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

A poesia é necessária?

                

Reminiscências

Tenório Telles

 

Lá fora a chuva

banha (a vida) de prata e silêncio:

o girassol dança

ao ritmo do vento

– disco solar em botão.

 

Embalado pelas lembranças

que habitam os cômodos

da casa da memória

– eu – grávido de ti

costuro retalhos do tempo.


terça-feira, 1 de agosto de 2023

Cor e preconceito


Pedro Lucas Lindoso


Dia 25 de julho comemora-se o Dia do Escritor. Parece-nos que antigamente era mais fácil esse ofício de lutar com palavras escrevendo-as. Não havia o que hoje se chama de “politicamente correto”. Monteiro Lobato ao descrever Tia Anastácia disse que ela era “negrinha de estimação”. Com certeza não a teria descrito desse modo nos dias de hoje. Ainda bem. As pessoas têm se conscientizado que índios, negros, deficientes, LGBTS e outros segmentos discriminados devem ser respeitados, valorizados e protegidos juridicamente.

A linguagem das metáforas, algumas vezes usando as cores, é perversamente preconceituosa. Tia Idalina tem uma receita que se chama “preto de alma branca”. Trata-se de um bolo de duas camadas, sendo a de cima preta. A outra, branca. Um dos sobrinhos sugeriu que mudasse o nome para bolo Botafogo, em razão das cores preto e branco do time carioca. Há outro quitute com nome de “nega maluca”. A culinária está cheia de nomes inadequados. Parece que a cozinha sempre foi local de racismo explícito.

Conheci um rapaz apelidado de coalhada. O apelido é em razão dele ser branco demais para os padrões manauaras. E azedo porque não gostava muito de banho. Seu irmão era o macaxeira. Ao fazer uma prova quando não nos lembramos de algo dizemos: “Deu um branco”. Seria isso preconceituoso? E ficar branco de susto?

Quando se chega em Cusco, a capital Inca, no Peru, pode-se ver uma grande quantidade de bandeiras arco-íris. O arco-íris está ligado ao sol, um deus importante para os incas. Nada a ver com o movimento gay.

Um nobre de sangue azul poderia ser torcedor do boi garantido? O boi vermelho? Dar o bilhete azul é uma expressão popular que significa demitir do emprego. Parece que nenhuma das cores primárias escapam de alguma idiossincrasia. Amarelar tornou-se uma gíria muito usada para acovardar-se. Seria desrespeitoso aos asiáticos que seriam da raça amarela?

A palavra denegrir pode ser considerada ofensiva aos negros. Na verdade, não deveria. Sua origem etimológica tem origem no latim “denigrare” que significa manchar a reputação de alguém, mas nada relacionado com negro. Em Inglês evoluiu para “denigrate”. É bom evitar o seu uso.

E verde de fome? Uma famosa série americana, “A Princesa de Marte”, do escritor americano Edgard Burroughs, descreveu pela, primeira vez, os marcianos como homens verdes. A série fez tanto sucesso que os marcianos verdes foram eternizados. Seriam os marcianos seres famintos?

Nunca foi tão importante ter cuidado com palavras e expressões para evitar ferir suscetibilidades. Escrever ou dizer algo nem sempre é preciso.