Amigos do Fingidor

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Lábios que beijei 62


Zemaria Pinto
Suely

Amante do pastor de sua igreja, Suely procurou-me no banco em busca de orientação financeira. Sem revelar a origem do dinheiro disponível, ela queria uma proteção contra a inflação descontrolada. Numa época de aplicações instáveis e inseguras, aconselhei-a a comprar dólares no mercado negro – ao qual hoje se aplica o eufemismo de paralelo – e guardá-los no próprio banco, com escrituração e seguro – uma operação limpa e livre de qualquer controle fiscal. Suely era uma mulata vistosa que a roupa típica das crentes não conseguia esconder. Sabendo-se bonita e desejada, sua expressão equilibrava-se entre a caricatura e a sensualidade: as pernas cruzando e descruzando, falava muito baixo, como se estivesse trocando segredos, com uma voz quente e sedosa; seus olhos nunca paravam no mesmo ponto por mais que dois segundos; os dentes brancos sempre à mostra deixavam passar a língua roxa, que ela insistia em deslizar pelos roxos lábios carnudos. Convidei-a para um almoço, que ela recusou dizendo que não poderia ser vista em público. – Não seja por isso, há muitos lugares onde podemos ir sem ser vistos. No início, quis se fazer de ingênua – aí não, nunca fiz isso, não sei como fazer aquilo. Aos poucos, foi se entregando à lascívia que tomava conta de seu belo corpo acastanhado, sem pudores, sem rodeios, sem limites. 

(Continua no blog Poesia na Alcova)