Amigos do Fingidor

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Um Grande Circular: Cenas da Vida Periférica

Ricardo Kaate Lima

 

A literatura realista de crítica social sempre teve grandes exemplos aqui no Brasil. Graciliano Ramos, Márcia Antonelli, Carolina Maria de Jesus, Lima Barreto, Ferréz e Arthur Engrácio. O realismo sempre será uma potência estética por aqui porque nosso país é um exemplo de nação que destrói o fraco e endeusa o forte, uma sociedade perpassada pela violência no campo, nas cidades, contra cidadãos pobres, mulheres, animais e o meio ambiente.

Manaus é uma cidade paradoxal e um terreno fértil para o ficcionista apreendê-la sob o realismo social. Província situada na periferia da periferia do capitalismo global, lugar mal-ajambrado onde milhares de almas são vilipendiadas sob o calor e a umidade. Um oceano de pobreza onde os índices de desenvolvimento humano são equiparáveis aos países mais miseráveis do mundo ao lado de poucas regiões de luxo e alta tecnologia, onde nossas elites dirigentes vivem despreocupadas, desfrutando de contratos com o Estado ou se apropriando de terras públicas. Manaus é a distopia concreta, o cyberpunk amazônico que cresce desprezando o igarapé e bovinamente voltado para o sudeste e para Miami.

Na novela Um grande Circular (Temiporã, 2026), de Marcus Souza (já escrevi sobre ele aqui), temos belo exemplo de um observador atento que captou o Zeitgeist da cidade. Mas não se valeu do velho Centro para falar de Manaus. Souza foi mais fundo. Sua matéria-prima literária são os bairros operários da zona Leste, com o trânsito caótico, igarapés poluídos, trabalhadores e trabalhadoras que labutam mais de doze horas por dia, traficantes, prostitutas e toda sorte de desajustados.

Letério, um homem que vive nos esgotos da Manaus por mais de vinte anos, desperta um dia e toma consciência de si. Jogado no mundo em conflito com as coisas e com os outros, passa a perambular pelas ruas de madrugada trombando com todo tipo de situação e tipos humanos. Ele se percebe como alguém, como “um outro” em meio à violência e sujeira. O estilo meticuloso me fez lembrar de Machado de Assis. Pensei também em Balzac com sua descrição vívida dos tipos que habitam os bairros operários da cidade. A preferência por aspectos desagradáveis da existência (imundície, sujeito e falta de perspectiva) lembrou-me de Zola e sua prosa brutal.

Classifico Um Grande Circular como novela-fábula do realismo\naturalismo contemporâneo. Irônico, rico em detalhes, violento e sem fazer concessões a uma literatura oficial e pseudo-regionalista do Amazonas que sempre aborda os mesmos temas (o Centro, o Teatro, o Largo, a economia gomífera de 1884 a 1914). Nos olhamos no espelho e não gostamos do que vimos.