Ricardo Kaate Lima
A literatura realista de crítica social sempre teve grandes
exemplos aqui no Brasil. Graciliano Ramos, Márcia Antonelli, Carolina Maria de
Jesus, Lima Barreto, Ferréz e Arthur Engrácio. O realismo sempre será uma
potência estética por aqui porque nosso país é um exemplo de nação que destrói
o fraco e endeusa o forte, uma sociedade perpassada pela violência no campo,
nas cidades, contra cidadãos pobres, mulheres, animais e o meio ambiente.
Manaus é uma cidade paradoxal e um terreno fértil para o
ficcionista apreendê-la sob o realismo social. Província situada na periferia
da periferia do capitalismo global, lugar mal-ajambrado onde milhares de almas
são vilipendiadas sob o calor e a umidade. Um oceano de pobreza onde os índices
de desenvolvimento humano são equiparáveis aos países mais miseráveis do mundo
ao lado de poucas regiões de luxo e alta tecnologia, onde nossas elites
dirigentes vivem despreocupadas, desfrutando de contratos com o Estado ou se
apropriando de terras públicas. Manaus é a distopia concreta, o cyberpunk amazônico
que cresce desprezando o igarapé e bovinamente voltado para o sudeste e para
Miami.
Na novela Um grande
Circular (Temiporã, 2026), de Marcus Souza (já escrevi sobre ele aqui), temos
belo exemplo de um observador atento que captou o Zeitgeist da cidade. Mas não se valeu do velho Centro para falar de
Manaus. Souza foi mais fundo. Sua matéria-prima literária são os bairros
operários da zona Leste, com o trânsito caótico, igarapés poluídos,
trabalhadores e trabalhadoras que labutam mais de doze horas por dia,
traficantes, prostitutas e toda sorte de desajustados.
Letério, um homem que vive nos esgotos da Manaus por mais de
vinte anos, desperta um dia e toma consciência de si. Jogado no mundo em
conflito com as coisas e com os outros, passa a perambular pelas ruas de
madrugada trombando com todo tipo de situação e tipos humanos. Ele se percebe
como alguém, como “um outro” em meio à violência e sujeira. O estilo meticuloso
me fez lembrar de Machado de Assis. Pensei também em Balzac com sua descrição
vívida dos tipos que habitam os bairros operários da cidade. A preferência por
aspectos desagradáveis da existência (imundície, sujeito e falta de perspectiva)
lembrou-me de Zola e sua prosa brutal.
Classifico Um Grande
Circular como novela-fábula do realismo\naturalismo contemporâneo. Irônico,
rico em detalhes, violento e sem fazer concessões a uma literatura oficial e
pseudo-regionalista do Amazonas que sempre aborda os mesmos temas (o Centro, o
Teatro, o Largo, a economia gomífera de 1884 a 1914). Nos olhamos no espelho e
não gostamos do que vimos.
