Amigos do Fingidor

sábado, 21 de março de 2020

Fantasy Art - Galeria


Luis Royo.

quinta-feira, 19 de março de 2020

A poesia é necessária?



O lado vermelho do azul
(fragmento)
Arnaldo Garcez

(Em memória do poeta Ernesto Penafort)

O lado vermelho do azul
é encarnado encardido
assim como o amarelo
e a fome das crianças
do Solimões
o lado vermelho do azul
não é verde
tal os limões azedos
na ponta dos dedos
da memória do povo
(ovo em banho-maria)
o lado vermelho do azul
busca a dignidade
sem contemplar o tempo
essência de ócio e do cio
na fome da miséria
de alguns homens podres
o lado vermelho do azul
não admite o fruto falso
que traduz o vento
da lepra, que insiste
no encalço dos nossos
passos
entre a Getúlio Vargas
e a Dez de Julho
(ditadura e liberdade)
o lado vermelho do azul
rejeita o lilás
aliás é contrário
a qualquer forma de
governo
que não busque
a essência da luz
que traduza o alimento
a razão e o equilíbrio
o lado vermelho do azul
é mais forte
do que qualquer forma
de governo
permanece no ventre
do vento num tempo
que não necessita de
governo
o lado vermelho do azul
também é contrário
ao rio que escorre
como álibi, no córrego da
vida
faminta de uma sociedade
quase extinta
o lado vermelho do azul
não é frágil como os olhos
da manhã
que se ilude com o sol
os limões e a lepra
amarelada sob as armas
e armaduras de grupos
indecentes
o lado vermelho do azul
procura o verde, não esse
verde
da bandeira,
nem o verde da esperança,
mas sim, o ver do verde,
futuro decente
de um povo (o ovo em
banho-maria)
verdes o vermelho
é o outro lado do azul



quarta-feira, 18 de março de 2020

Fantasy Art - Galeria


Penélope.
Alex Alemany.

terça-feira, 17 de março de 2020

A lua é...


Pedro Lucas Lindoso


No último dia 9 de março, um dia após a comemoração ao dia Internacional da mulher, surgiu nos céus da nossa querida Manaus e do Brasil uma superlua.
Fiquei curioso em saber o porquê desse destaque. O que tornaria aquela lua, muito bonita e bastante brilhante por sinal, uma superlua?
As notícias dos jornais explicavam que a superlua ocorre quando a lua cheia coincide com a sua maior aproximação com a Terra. O fenômeno tem o nome de perigeu. Essa maior aproximação faz o nosso querido e festejado satélite parecer ainda mais brilhante e maior do que as outras luas cheias.
Aprendi no Grupo Escolar Saldanha Marinho, aqui em Manaus, que os índios chamavam a lua de Jaci. Lições de livros editados e oriundos do sul do Brasil. De fato, Jaci na mitologia tupi é a deusa Lua. Mas há outras línguas indígenas importantes, como o Saterê Mauwé. Trata-se de tronco linguístico do tupi, mas a lua se chama Wati.
A lua sempre exerceu um enorme fascínio sobre os homens. Penso até mais do que o sol. Possivelmente pela oportunidade que se tem de observá-la melhor, sem se ofuscar. E esse fascínio parece presente em todas as culturas. Em suas mais diversas manifestações. Na religião, nas artes plásticas, na literatura, em especial na poesia e na música.
A palavra lua e suas derivações, como luar, lunar, lunático, lual e tantas outras só parece rivalizar em variações e conotações quando o assunto são as estrelas, incluindo o sol.
Na boca dos poetas o luar cai sobre a mata, que revela a lua, que no céu flutua. A lua é sempre lembrada poeticamente em metáforas e nas mais diversas figuras de linguagem. A lua chora, pensa, tem pena, escuta e é confidente de muitos.
Carlos Páez Vilaró pintor, escritor e empresário uruguaio, foi proprietário da famosa Casapueblo. Escreveu um belo livro:  Entre meu filho e eu a lua. Seu filho Carlos estava no famoso desastre de avião em que uma equipe de rugby ficou perdida entre as neves dos Andes. Nas noites insones, Vilaró contemplava a lua. Já quase insano, na perspectiva de que seu filho também a contemplava e por ela pudessem se comunicar. Carlos foi um dos sobreviventes.
Há novas descobertas envolvendo o lado oculto da lua. Nessas disputas sobre quem é seu dono, não nos esqueçamos: a lua é dos namorados.

domingo, 15 de março de 2020

Manaus, amor e memória CDLXIV


Ponte de Ferro da Cachoeirinha; oficialmente, Benjamin Constant.

sábado, 14 de março de 2020

Fantasy Art - Galeria


Julie Bell.

sexta-feira, 13 de março de 2020



quinta-feira, 12 de março de 2020

A poesia é necessária?


O Solo dos utensílios
(em doze acordes cifrados)
        Anibal Beça (1946-2009)

Para o poeta Zemaria Pinto



No raso chão do convívio
as coisas da casa cosem
na costura dos minutos
um figurino ordenado.

Talhado traço exclusivo
para os olhos de quem veste
as coisas ganham lugar
no corpo de quem as usa.

No espaço entronizadas
regidas na duração
de seda comum do tempo
sela de um baio ordinário.

Há coisas que se cavalgam
sem as rédeas do comando
outras há de trote breve
encilhadas no seu trato.

As mais simples entre tantas
entretanto são tamanhas
na grandeza utilitária
servis ao seu mandatário.

Serviçais mas não escravas
pois têm vontade liberta
há dias nos seus recatos
regados de teimosia.

E se negam às tarefas
contrariando a mesmice
de repetir dia a dia
a previsão das agendas.

É esse o dia da caça:
a água quente que esfria
o barbear postergado
no ferrolho da desdita.

Mas há que reconhecer
dentre aquelas mais fiéis
as do amparo solitário
no voo das confidências.

Aquelas que escutam penas
acolchoando a memória
e que nunca recriminam
nossos pecados diários.

As que servem à magia
como aquela escrivaninha
repouso de muitos versos
emplumando garças brancas.

Quem tem os olhos de ver
as mais simples e ordinárias
ganham mimo especial
nesse afago de palavras.


quarta-feira, 11 de março de 2020

Fantasy Art - Galeria


Autor desconhecido.

terça-feira, 10 de março de 2020

Outro patamar



Pedro Lucas Lindoso


Tina é uma jovem profissional de sucesso. Ainda está solteira e mora com os pais. Os pais de Tina criam uma neta, Larissa, filha de um dos irmãos de Tina.
Larissa é fruto de um relacionamento fugaz entre o irmão mais novo de Tina e a mãe da garota. Entre idas e vindas, Larissa acabou ficando com os avós paternos. Uma guarda compartilhada e bem-sucedida. A mãe é presente na vida da garotinha. Porém, Larissa desde sempre mora com o pai e os avós. A relação entre os pais de Larissa acabou já há muito tempo. 
O relacionamento de Tina com sua sobrinha Larissa é permeado de muito afeto. Mesmo porque moram na mesma casa. Numa época em que até domesticas iam passear na Florida, Tina resolveu levar Larissa para conhecer os parques da Disney.
Passagem comprada com promoção relâmpago Manaus-Miami. Porém, tudo bem planejado e com bastante antecedência. Depois de tirar os passaportes, foram até Brasília para obter o visto junto à Embaixada Americana.
A ansiedade de Larissa era evidente. Tina também estava apreensiva. Era sua primeira viagem ao exterior e a responsabilidade de cuidar da sobrinha era grande.
Os pais obviamente autorizaram a viagem. Estava tudo certo. Entradas para os parques e hotéis devidamente pagos e reservados. No dia do embarque a família toda foi deixá-las no aeroporto.
Na hora do check-in um pequeno contratempo. Tina não havia reservado os lugares no voo. Só havia disponível lugares separados. Ela explicou para a atendente que Larissa era uma garotinha de dez anos. Estavam indo para a Disney pela primeira vez. Não poderia viajar longe da sua sobrinha. Estava responsável por ela.
A atendente resolveu então disponibilizar uma poltrona na primeira classe para a menina. Disse à Tina que ao seu lado estava um rapaz sozinho. Ele com certeza trocaria de lugar com Larissa na primeira classe. E as duas então poderiam viajar juntas.
Embarque concluído. Na hora da troca, Larissa já aboletada na primeira classe, não queria trocar de lugar como o moço. Larissa, pressionada pela tia, acabou cedendo a cadeira para o rapaz. E foi sentar perto da tia, protestando.
O rapaz, feliz da vida, exclamou:
– Primeira classe é outro patamar!

domingo, 8 de março de 2020

sábado, 7 de março de 2020

Fantasy Art - Galeria


Renso Castañeda.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Krapp em nova temporada no Ateliê 23


O Ateliê 23 fica na Tapajós, 166 - entre Ramos Ferreira e Monsenhor Coutinho.

quinta-feira, 5 de março de 2020

A poesia é necessária?



Última Vontade
Millôr Fernandes (1923-2012)


Enterrem meu corpo em qualquer lugar.
Que não seja, porém, um cemitério.
De preferência, mata;
Na Gávea, na Tijuca, em Jacarepaguá.
Na tumba, em letras fundas,
Que o tempo não destrua,
Meu nome gravado claramente.
De modo que, um dia,
Um casal desgarrado
Em busca de sossego
Ou de saciedade solitária,
Me descubra entre folhas,
Detritos vegetais,
Cheiros de bichos mortos
(Como eu).
E, como uma longa árvore desgalhada
Levantou um pouco a laje do meu túmulo
Com a raiz poderosa,
Haja a vaga impressão
De que não estou na morada.

Não sairei, prometo.
Estarei fenecendo normalmente
Em meu canteiro final.
E o casal repetirá meu nome,
Sem saber quem eu fui,
E se irá embora,
Preso à angústia infinita
Do ser e do não ser.
Ficarei entre ratos, lagartos,
Sol e chuva ocasionais,
Estes sim, imortais.
Até que um dia, de mim caia a semente
De onde há de brotar a flor
Que eu peço que se chame
Papáverum Millôr.



quarta-feira, 4 de março de 2020

Fantasy Art - Galeria


Jiansong Chen.

terça-feira, 3 de março de 2020

Um piscar de olhos



Pedro Lucas Lindoso


Conheci Rebeca num lançamento de livros. Uma jovem senhora professora de Português no Ensino Médio. Muito simpática. Disse-me que havia lido meu livro de crônicas – Uma amazonense em Copacabana. E que iria usá-lo em suas aulas de Português. Fiquei extremamente feliz.
Perguntou-me como surgiam as ideias para minhas crônicas. Sempre me fazem essa pergunta. Disse-lhe que minhas crônicas são geralmente coisas do cotidiano, de Manaus, de experiências e vivências minhas ou emprestadas dos amigos e conhecidos.
Conversando com alguém, como estou fazendo agora, pode surgir a ideia para uma boa crônica. Disse-lhe.
– Posso lhe contar algo que aconteceu esta semana? Talvez possa fazer uma bela crônica.
Rebeca me disse que uma de suas alunas, que sempre lhe confidencia coisas, apaixonou-se por um colega da escola.
A menina, que chamaremos de Alice, foi correspondida e engatou um namoro com Carlos. Alice tem uma “best friend” que chamaremos de Gina.
Tudo parecia correr bem com o namoro de Alice e Carlos. Ambos jovens, bonitos, bons alunos e educados. Mas ocorreu algo de inusitado. Gina contou para Alice que Carlos havia dado uma piscada de olho para ela no pátio da escola. Alice então terminou o namoro com o rapaz, sem maiores explicações. Ela estava desolada e veio conversar comigo, relatou a professora.
Rebeca argumentou com Alice que o piscar de olhos poderia ser simplesmente um cumprimento. Um “oi” que Carlos teria dado para Gina, sabendo que elas eram amigas. Rebeca argumentou que eles faziam um lindo casal. Um namoro assim não deveria acabar “num piscar de olhos”, já fazendo trocadilho da situação.
Alice então resolveu esclarecer a situação com Carlos. E a professora estava certíssima. A piscadela tinha se resumido a um simples olá. Carlos garantiu que nunca teve qualquer interesse em Gina. Reataram o namoro. E como disse Shakespeare, “tudo está bem quando acaba bem”.
Agradeço à professora Rebeca pela conversa. Afinal, as boas ideias para crônicas surgem sempre assim, de repente, num piscar de olhos.



domingo, 1 de março de 2020

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Fantasy Art - Galeria


Viktoria Lapteva.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A poesia é necessária?



Aspiração
Violeta Branca (1915-2000)


Eu quisera que meu corpo fosse feito de flores...

Que minha carne tivesse
o reflexo de rosas claras ao clarão do luar.
E assim,
quando chegasses para o calor de meu beijo,
aspirarias no meu hálito o fresco perfume
de um jardim florido.
Eu quisera que meu corpo fosse feito de flores...

Que meus cabelos tivessem a morna fragrância
das relvas tenras.

E assim,
quando cerrasses os olhos
e, sorrindo, afagasses meu corpo ardente e jovem
tuas mãos teriam
a deliciosa volúpia
de acariciarem a primavera...

Eu quisera que meu corpo fosse feito de flores...

E assim,
quando meus braços brancos,
como uma coroa de louros
envolvessem a tua cabeça de deus pagão,
sentirias a sensação embriagante
de seres um fauno novo
perdido numa selva de lírios.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Fantasy Art - Galeria


Stier.
H. P. Kolb.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Amazônia – um enigma a decifrar



Pedro Lucas Lindoso


Meu amigo Chaguinhas me relata que um cliente do Sudeste precisava de uma certidão a ser obtida junto a um cartório em Coari. Chaguinhas lhe disse que era impossível obter o documento para o mesmo dia. Não havia voo de Manaus para Coari naquela data. Perguntada a distância entre Manaus e Coari, Chaguinhas disse que não chegava a 400 km. Então, o cliente pediu a Chaguinhas para mandar um carro lá. Despesas por conta dele.
Os amazonenses sabem que não há estrada de Manaus para Coari. Mas o pessoal do Sul desconhece a nossa realidade.
Certo dia, quando ainda havia horário de verão, recebi uma ligação de um call center às 6:00 horas da manhã. Argumentei o inconveniente com a atendente que, em total desconhecimento sobre fusos horários, contra argumentava:
– Mas aqui em São Paulo são oito horas, senhor.
Em recente concurso público de nível federal algumas pessoas perderam a prova. O portão fechou pelo horário de Brasília.
O mundo inteiro fala sobre a biodiversidade da Amazônia. Fala-se muito sobre a riqueza de nosso ecossistema. Mas esquecem que aqui existe uma sociedade. Há indígenas, na floresta e nas cidades, há os ribeirinhos, as sociedades tradicionais. Portanto, não há que se falar somente em biodiversidade. É importante reconhecer a nossa sociobiodiversidade.
Os estatutos da ONU sobre biodiversidade preconizam que a utilização dos recursos naturais deve respeitar a cultura e os costumes das populações locais.
Foi criado um conselho para a Amazônia. Espera-se que sejam ouvidos os povos da região. Os povos da Amazônia construíram relações materiais e espirituais que se entrelaçam com esse maravilhoso ecossistema.
Há saberes, tradições, conhecimentos e uma diversidade cultural que precisa ser respeitada. Mesmo porque acredita-se que esses conhecimentos levam, ou melhor, possibilitam, a manutenção do ecossistema, a sobrevivência da floresta. A manutenção da própria vida como um todo.
 Chaguinhas e eu chegamos à conclusão de que a Amazônia é um enigma para os brasileiros do Sudeste. Eles parecem que não nos conhecem mesmo. Para decifrar esse enigma que é a Amazônia, o conselho deve privilegiar e ouvir verdadeiros amazônidas. Senão, a região continuará sendo desconhecida.  E o enigma, indecifrado.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Fantasy Art - Galeria

Aurora.
Jia Lu.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A poesia é necessária?



Das Dores ou sublingual
Grace Cordeiro


Não, não compreendo a minha lida
Sina algoz, feroz, fútil
Não é túnel nem fuzil
Nem fósforo aceso na escuridão
(lembrança de Érico Veríssimo)

Caminha-se só
Caminha-se nó
Na garganta, o som disfarçado de flecha
No pescoço, o alvo da ideia retilínea

E aquela luz é doce e seca e morta
E aquela escuridão é luz morta
Luzes apagadas, afogadas
Luzes que se foram

Por que entender se nada faz sentido
Por que ser, se somos todos um
Anil, anis, anéis

Sei da lima que corta
O ferro velho:
Enferrujado, enrugado, servil
A guilhotina,
Ferro novo:
Mente aberta, cabeça caída

Luz, escuridão, luz
Descansando no caos
Não há motivo óbvio
Para se descansar
– manter coração e razão –

Há sim...Carmim, jasmim, curumim
Há... Sobrevivência, subversão, subvenção

Subir a escada e não cair
Descer carregando a amada
(Ah! Das Dores)
E voltar íntegro, com as lavas
Eternas da inquietude que lambe
O mel da juventude

Sobreviver para sobreviver
Não para amar, odiar, ler
Escrever, apenas sobreviver
O resto, o reto, o gesto são consequências.

O canto do galo ao meio-dia.