domingo, 16 de junho de 2024
quinta-feira, 13 de junho de 2024
A poesia é necessária?
Poesia: 1970
Paulo Leminski (1944-1989)
Tudo o que eu faço
alguém em mim que eu desprezo
sempre acha o máximo.
Mal rabisco,
não dá mais pra mudar nada.
Já é um clássico.
terça-feira, 11 de junho de 2024
Confusão ou racismo
Pedro Lucas Lindoso
Há
pessoas que são mestras em fazer confusão.
São pessoas confusas. Também conhecidas como lesas. Confundem alhos com
bugalhos. Enquanto o alho é o bulbo de certa planta, muito usado e apreciado na
gastronomia, o bugalho, também conhecido como noz-de-galha, é a protuberância
que se forma em troncos de árvores comuns no continente europeu, como os
carvalhos,
Nem eu
sabia o que eram bugalhos. Fui pesquisar. Não posso deixar meus leitores
confusos. Ainda bem que temos o professor Google. Sempre nos ajudando a
esclarecer nossas dúvidas.
Pois
bem, voltando ao assunto confusão. Essa história é antiga. O fato se deu nos
anos sessenta do século passado. O ocorrido me foi relatado pelo meu dileto
confrade Geraldo Xavier dos Anjos. Ex-presidente e membro dedicado do IGHA –
Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e da Academia Amazonense de
Letras.
Havia
um desembargador que era negro. Raridade nos dias de hoje. Naquele tempo, mais
ainda. Vamos evitar “dar nome aos bois”, como se diz popularmente. Determinada
autoridade precisava entregar uma encomenda ao desembargador. Dirigiu-se à
residência do magistrado com seu motorista. Ao chegar na casa do desembargador
pediu ao leso do homem que entregasse o documento ao desembargador. O motorista
avistou um senhor negro no jardim da casa e o chamou:
– Ô
preto velho, vai chamar teu patrão. O desembargador aproximou-se do portão e
disse calmamente.
– Bom
dia, eu sou o desembargador. No que o confuso motorista replicou:
– Deixa
de conversa, seu preto safado. Vai logo chamar o teu patrão. O desembargador,
evitando criar confusão, treplicou:
– Estou
dizendo ao senhor que eu sou mesmo o desembargador. Ainda sem acreditar, o
motorista respondeu:
– Espera ai um pouco que eu já volto, disse o
impertinente motorista. O leso do chofer então retornou ao carro com a
encomenda. O patrão, sem entender o que estava acontecendo, pergunta:
–
Entregastes a encomenda? E o motorista abestado responde:
– Não
senhor. Um preto que estava no jardim não quis chamar o doutor. E ainda por
cima dizia que era o desembargador. No que o patrão, entre nervoso e atordoado,
repreendeu-o:
– Meu
Deus! O homem é mesmo o desembargador.
Vai lá, pede mil desculpas e entrega a encomenda. Tu acabaste de escapar
de ser preso por desacato à autoridade. Seu estrupício. A confusão causada pelo
motorista pode ser considerada como racismo estrutural. Está presente na
própria estrutura social. Segundo essa concepção, o racismo não seria uma
anormalidade ou “patologia”, mas o resultado do funcionamento “normal” da
sociedade. Nos nossos dias seria crime de injúria racial e desacato.
Provavelmente, o motorista seria preso mesmo. Por confusão, desacato ou por
racismo.
domingo, 9 de junho de 2024
Manaus, amor e memória DCLXXIV
![]() |
| Ônibus-ícone do livro Estação Radiant, de Margarida Campos, um passeio pela Manaus dos anos 40-60, do século passado. À venda no site da Editora e outros sites especializados. |
quinta-feira, 6 de junho de 2024
A poesia necessária?
Literato cantabile
Torquato Neto (1944-1972)
agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:
a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de ideia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.
terça-feira, 4 de junho de 2024
Em Portugal, fala-se português
Nossa
amiga Sonia Campos é emérita moradora de Copacabana. Vera e eu conhecemos Sonia
em Brasília. Nascida em Copacabana, retornou para o Rio após se aposentar. E
claro que Sonia conhece tia Idalina. Conhecida amazonense em autoexílio no Rio
de Janeiro há décadas. São amigas. As duas estão passando uns dias em
Portugal. Recebo notícias de ambas pelo whatsapp.
Que coisa fantástica esse aplicativo. Até bem pouco tempo gastava-se uma nota
para se comunicar com a família em viagens pelo exterior. Os amigos só tinham
notícias no retorno. Quando jovem, passei muitas férias no Rio de Janeiro.
Lembro-me que titia convocava todo mundo para assistir sessões de “slides” no
seu apartamento. Sempre que retornava de suas viagens.
Aquilo
era um tédio. Ninguém ousava falar nada. “Olha eu às margens do Sena”. Dizia
ela. Em Roma, na Fontana de Trevi. E sempre lembrava que tinha jogado moedas de
cruzeiros na tal fonte dos desejos. E poupado suas liras. Imagina, antes do euro!
E que ainda tinha francos. Que voltaria a Paris. E mostrava ainda os “slides”
em Lisboa. Em frente à Torre de Belém e nos Jerônimos. Aquilo era interminável.
E que Portugal valia a pena. Que se trocava dólares por escudos. E etc e tal.
Os jovens de hoje não sabem o que são “slides”, nem francos ou escudos. Muito
menos liras. Só o instrumento. Hoje, recebe-se fotos via whatsapp. É mais divertido e menos monótono do que ver
dezenas de “slides”.
Sonia e
Idalina foram ao Algarve. Visitaram um parque onde havia oliveiras milenares.
Tiraram foto de uma oliveira de aproximadamente 2850 anos. Pois é. Segundo um
amigo historiador, já se comia jaraqui por aqui na Amazônia há 3 mil anos
atrás. Mas acho que não tem uma sumaúma dessa idade.
Idalina
admirou-se que, no Aeroporto de Lisboa, as malas são colocadas em “tapetes” e
não em esteiras. As diferenças entre o Português do Brasil e de Portugal são
tantas que ela resolveu pedir informações em Inglês. Levou uma bronca. Falamos
o mesmo idioma, minha senhora. Ora, pois, pois. Fale o Português, “faz
favoire”.
As tais
oliveiras milenares foram certificadas por uma “equipa de investigadores” da
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. As árvores medem 569 cm no
perímetro médio ao nível do peito e 220 cm de altura. As árvores tem peito, em Portugal!
Sonia
fez aniversário no dia 27 de maio. Foram comemorar num restaurante chamado D’Bacalhau.
Sonia recebeu um diploma no qual o chef executivo do D’Bacalhau, Júlio
Fernandes, atenta que Sônia comemorou seu aniversário por lá. Que a data se
repita por muitos e longos anos. Foram os votos de toda a “equipa” do
restaurante.
Tia
Idalina já foi várias vezes a Portugal. Está cansada de saber que eles chamam
suco de sumo. Como ela anda meio surda, não entendeu o garçom. E já foi pedindo
“orange juice, please”. Titia não tem jeito. Alguém lembrou-lhe: “Já esqueceu a
bronca no aeroporto? Aqui falamos português, minha senhora!”
domingo, 2 de junho de 2024
quinta-feira, 30 de maio de 2024
A poesia é necessária?
Quichimbi sereia negra
Jorge de Lima (1893-1953)
Quichimbi sereia negra
bonita como os amores
que tem partes de chigonga
não tem cabelos no corpo,
é lisa que nem muçum,
é ligeira que nem buru
não tem matungo e é donzela,
ao mesmo tempo pariu
jurará sem urucaia.
Quichimbi vive nas ondas
coberta de espuma branca,
dormindo com o boto azul,
conservando a virgindade
tão difícil de sofrer.
Quichimbi segue nas ondas
dez mil anos caminhando,
dez mil anos assistindo
as terras mudar de dono,
o mar servindo de escravo
ao homem branco das terras.
Quichimbi sereia negra
bonita como os amores
dormindo com o boto azul,
não sabe de nada, não.
quarta-feira, 29 de maio de 2024
terça-feira, 28 de maio de 2024
Somos assim mesmo
Pedro Lucas Lindoso
Chaguinhas
me telefonou, convidando-me para um chope no Bar do Armando. Ao encontro iriam
o José, o Silva e o Antero. Disse-lhe que ainda estava com problemas de
locomoção. Mas que me telefonasse novamente contando do encontro.
Chaguinhas
me disse que o “happy hour” foi muito bom. Falou-se de futebol. José se gabou
do sucesso de seu Flamengo. Antero das tristezas de ser Vasco. Mas que seu time
voltará a ser campeão em breve. Silva lembrou-se dos tempos em que jogava no
peladão. Chaguinhas me disse desolado:
– Não
falei sobre minha humanidade. Não ouvi nada sobre a humanidade deles.
Então
me contou do campeonato de dominó. Disse-me que foi ótimo. Ele e Silva ficaram
em segundo lugar. Conversaram muito. Mas ninguém falou sobre as suas
humanidades. Chaguinhas também não falou sobre a humanidade dele.
Depois
me contou do jantar na casa de Antero. O assunto foi política. Em especial as
próximas eleições. Muita indefinição. Houve discussões e alguns
constrangimentos. Os homens estavam na varanda sozinhos. Ninguém falou sobre
suas humanidades.
Chaguinhas
então mencionou o passeio de barco com a turma do trabalho. Foram pescar.
Falaram sobre mulheres, política e futebol. Chaguinhas não teve oportunidade de
falar sobre a sua humanidade. Nem ouviu nada da humanidade dos colegas.
No
futebol das quartas, na casa do José, também não falaram sobre a sua
humanidade. Ninguém falou da humanidade deles. No final de semana, houve
churrasco na chácara da família. Estavam lá os irmãos, cunhados, primos e
sobrinhos. Falou-se sobre tudo. Menos sobre a minha, a nossa, a humanidade
deles.
O sogro
do Antero faleceu. No velório ninguém falou sobre as suas humanidades. Nem
sobre a humanidade do defunto. Nem tampouco sobre a humanidade do Chaguinhas.
No
casamento da filha do Fausto havia uma mesa só de homens. Conversaram sobre
tudo. Até sobre religião. Um assunto delicado. Chaguinhas me disse que não teve
chance de falar sobre a sua humanidade. Também não se falou sobre a humanidade
dos homens presentes. Os homens não gostam de falar sobre suas humanidades.
Deve ser a causa de viverem menos que as mulheres
No
final da conversa disse ao Chaguinhas:
– Me
desculpe aí, Chaguinhas. Não quero falar sobre a sua humanidade. Não quero
falar sobre a minha humanidade. Não gosto de falar sobre a humanidade de
ninguém. Nós homens somos assim mesmo.
domingo, 26 de maio de 2024
sexta-feira, 24 de maio de 2024
quinta-feira, 23 de maio de 2024
A poesia é necessária?
Retrato
Cecília Meireles (1901-1964)
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?
quarta-feira, 22 de maio de 2024
terça-feira, 21 de maio de 2024
Focinho de porco não é tomada
Pedro Lucas Lindoso
Em
Inglês a palavra “understand” significa entender, compreender. O prefixo “mis”
pode mudar completamente o significado de uma palavra e dizer o oposto! No caso
de “understand”, por exemplo, temos “misunderstand”. O que vem a significar o
oposto de entender, que é compreender mal, não necessariamente um
desentendimento.
Martinho
Lutero, como sabemos, foi o famoso monge alemão do século XVI. Fundou a
doutrina protestante luterana. A doutrina de Lutero tem como elemento central a
crença na justificação pela fé, ou seja, que a salvação de uma pessoa é
garantida exclusivamente pela fé. Os livros de História sempre se referem ao
Martin Luther alemão como Martinho Lutero e nunca como Martin Luther. Já o líder negro americano que lutou pelos
direitos civis dos negros sempre foi conhecido no Brasil como Martin Luther
King Jr. E nunca como Martinho Lutero King.
Frei
Donald foi pároco da Igreja de Santo Antônio em Brasília. É falante do inglês.
Sempre se esforçando em falar o português corretamente. Mas dava suas
derrapadas. Certa vez fez um sermão em que falava sobre o líder negro
americano. Chamou-o de Martinho Lutero King.
Ninguém entendeu nada. As pessoas achavam que ele se referia ao monge
alemão fundador da Igreja Luterana. Frei
Donald é meu amigo. No final da missa fui falar com ele e esclareci a confusão.
O sermão foi um grande “misunderstanding”.
Quando
jovem, fiz um curso de Inglês em Londres. Em nossa turma havia estudantes de
diversos países. Uma jovem brasileira do interior de Minas nunca havia
conversado com um mulçumano. Ao ser informada pelo rapaz que ele fazia suas
orações virado para Meca, a moça caiu na gargalhada. O jovem árabe não gostou.
Ficou ofendidíssimo.
A
garota pediu desculpas que não foram aceitas. Tentei argumentar dizendo que ela
desconhecia a cultura dele e não quis ofender. Não adiantou. E o pior. Ficou
chateado comigo. Achou que eu estava dando razão à moça. Ninguém quis, em
momento algum, desrespeitar a religião e a cultura do jovem rapaz. Pelo
contrário.
Expliquei
a ele que nós, católicos, durante a missa, comungávamos com um pão simbolizando
o corpo de Cristo. E que cada religião tinha seus dogmas e mistérios. E que em
nenhum momento houve desrespeito à religião dele. Por fim, o rapaz concordou
que estava tudo bem. Mas não poderia perdoar a garota mineira. É uma pena que
mal-entendidos não possam ser perdoados. Em época de divisões políticas, ódios
injustificáveis, fake news e ressentimentos fica ainda mais difícil
esclarecer os mal-entendidos.
Lembra-se
da tomada e do focinho de porco? Ambos têm dois buracos. Confundi-los acarreta
problemas. Melhor estar atento às diferenças. Nunca foi tão difícil explicar
que focinho de porco não é tomada.
domingo, 19 de maio de 2024
quinta-feira, 16 de maio de 2024
A poesia é necessária?
Radiografia social
Henrique Duarte Neto
Jamais tantos néscios
passaram por sábios...
Ou, ao menos, gritaram,
ergueram a voz,
discursaram – tais quais
brilhantes oradores.
Tempos de imbecilidade
coletiva,
em que se dá voz
aos insensatos!
Quiçá, o último estágio
antes da ruína final!
terça-feira, 14 de maio de 2024
Filhos, sempre prioridade
Pedro Lucas Lindoso
Há uma
quantidade enorme de crônicas, depoimentos, poemas, canções e textos em geral
homenageando as nossas mães. Mês de maio, mês das mães. Um domingo só delas e
para elas. Homenageá-las por meio da escrita é fácil. O difícil é ser original,
sem ser piegas e ainda emocioná-las. Nossas queridas mães e leitoras. Uma
tarefa bem difícil. Mas é preciso sempre expressar amor por elas. Sempre.
Vou
começar as loas pela minha saudosa mãe. Ela começava a mimar e amar seus filhos
assim que se descobria gestante. Fazia sapatinhos, luvas e casaquinhos de tricô
como ninguém. Teve sete filhos. Todos amamentados e cuidados como se fossem
únicos. Sem jamais deixar de ser parceira e apoiadora incondicional de meu pai
em tudo e por tudo.
Minha
esposa Vera é uma mãe e avó devotadíssima. Quando nossos filhos eram pequenos,
Vera organizava, com meses de antecedência, as festas de aniversário. Decoração
esmerada, personagens infantis, além de muito brigadeiros e quitutes diversos.
Sempre um sucesso.
Marina,
nossa filha, esperou bastante pela chegada da Catarina. Nossa Senhora ouviu
suas preces e nossa princesinha chegou linda e perfeitinha. E pasmem, Catarina
era uma bebezinha de três meses. Surpresa! Isadora resolveu que chegaria também
para a família. Hoje Marina toma conta de não só uma, mas duas bebezinhas.
Mamãe em dose dupla. De amor e de trabalho.
Dona
Nice foi minha secretária na EMBRATUR em Brasília. Teve seu filho Rafael
acidentado brincando com álcool. O garoto ficou com o corpo bastante queimado.
Com nossa ajuda, levou o rapazinho para um hospital especializado em Goiânia.
Dona Nice foi uma heroína. Ela moveu céus e a terra para que seu filho tivesse
o melhor tratamento e se recuperasse. O diagnóstico inicial não era dos
melhores. Mas ela lutou e conseguiu recuperar a saúde do filho. O garoto hoje é um brilhante jovem advogado.
A
Princesa de Gales, Katherine, será a futura Rainha da Inglaterra. A jovem mãe escondeu
da Imprensa mundial e de todo o Reino Unido que estava com um grave problema de
saúde. O objetivo era preservar seus filhos. São bem crianças os jovens
principezinhos. A princesa necessitava de tempo para prepará-los para a grave
notícia. Katherine é muito querida em toda a Inglaterra. A notícia seria
impactante e pegaria as crianças despreparadas. Era preciso poupá-las. E
conseguiu.
É
conhecida a história da mãe do soldado displicente. Ao ver seu filho marchando
fora do passo, acreditou que todo o batalhão marchava errado. Seu filho era o
único no passo certo.
Elas
podem ser psicólogas, primeiras damas, secretárias, trabalhadoras ou rainhas.
Filhos são prioridades. Filhos estão sempre nos pensamentos das mamães. Em
momentos de amor ou na dor. FELIZ DIA DAS MÃES.
domingo, 12 de maio de 2024
quinta-feira, 9 de maio de 2024
A poesia é necessária?
Psicologia da composição
João Cabral de Melo Neto (1920-1999)
I
Saio de meu poema
como quem lava as mãos.
Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.
Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;
talvez, como a camisa
vazia, que despi.
II
Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me incita ao verso
nítido e preciso.
Eu me refugio
nesta praia pura
onde nada existe
em que a noite pouse.
Como não há noite
cessa toda fonte;
como não há fonte
cessa toda fuga;
como não há fuga
nada lembra o fluir
de meu tempo, ao vento
que nele sopra o tempo.
III
Neste papel
pode teu sal
virar cinza;
pode o limão
virar pedra;
o sol da pele,
o trigo do corpo
virar cinza.
(Teme, por isso,
a jovem manhã
sobre as flores
da véspera.)
Neste papel
logo fenecem
as roxas, mornas
flores morais;
todas as fluidas
flores da pressa;
todas as úmidas
flores do sonho.
(Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera.)
IV
O poema, com seus cavalos,
quer explodir
teu tempo claro; rompendo
seu branco fio, seu cimento
mudo e fresco.
(O descuido ficara aberto
de par em par;
um sonho passou, deixando
fiapos, logo árvores instantâneas
coagulando a preguiça.)
V
Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.
Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu
também como flor)
que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louro
sabor, e ácido
contra o açúcar do podre.
VI
Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;
não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;
mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola,
aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.
VII
É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.
São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.
É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.
É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza
da palavra escrita.
VIII
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.
(A árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
caiu, fruto!
Enquanto na ordem
de outro pomar
a atenção destila
palavras maduras.)
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:
então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;
onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.
terça-feira, 7 de maio de 2024
Das penteadeiras ao camarim
Pedro Lucas Lindoso
Escrevi
uma crônica sobre o petisqueiro de minha avó. Muitas pessoas amigas sugerem
temas ao cronista. Depois da crônica do petisqueiro algumas garotas de minha
geração sugeriram que eu fizesse uma crônica sobre penteadeiras.
Eu
então resolvi pedir a algumas conhecidas que falassem sobre suas penteadeiras.
As respostas foram bem interessantes.
Uma delas me disse que herdou uma penteadeira antiga, linda, com espelho
que balançava. Depois confessou que a tinha vendido para um antiquário. O
motivo: não coube no seu novo apartamento.
Outra
me contou que sua penteadeira saiu de moda. O móvel atualmente se encontra num
sítio da família. Alguns relatos foram coincidentes. Os espelhos sempre
aparecem como objeto de destaque nos depoimentos. Muitas descreveram os
espelhos assim:
“As
penteadeiras tinham um espelho central e dois laterais que eram presos ao
central. De modo que se podia movê-los para perto do rosto. Assim, era possível
se ver os cabelos e os respectivos penteados da parte posterior da cabeça.
Tanto de um lado, como do outro.”
Nas
gavetas se colocavam grampos, laços, presilhas e fitas. Nessas gavetas também
eram guardados os produtos para maquiagem. Geralmente, um batom claro e um
pouco de “rouge”. Depois o tal “rouge” passou a ser chamado de “blush”. Nos
olhos, somente uma leve sombra, que hoje se chama “eye shadow”. Tudo muito discreto, como cabia a uma moça de
família.
Em cima
das penteadeiras, bem em frente ao espelho central, ficavam o talco e o perfume
da época. Uma delas confessou que usava um chamado de “Alma de Flores”, até
hoje presente nas farmácias.
Para a
grande maioria, o importante sempre foi o espelho, repita-se. Sem esquecer a
banqueta, que dava conforto, não só para se pentear, como para se maquiar –
“sempre sentadas”, explicou-me uma delas.
O espelho deveria ser bisotado ou “bisotê”. São espelhos que não
deformam a imagem, ainda que se mire de longe.
Muitas
penteadeiras foram transformadas ou desmembradas. Ou mudaram de função. Como a
de uma ilustre advogada cuja antiga penteadeira adorna a sua sala, onde coloca
porta-retratos com fotos das pessoas que lhe são queridas. As que foram
desmembradas, em sua maioria, ficam sem
os espelhos, realocados em outro ponto da casa.
Aliás, as penteadeiras, contudo, sempre
existiram e não acabarão jamais. No quarto de moças e senhoras privilegiadas de
nossos dias existe um móvel modulado com espelho e gavetas que se chama
camarim. Elas não vivem sem espelhos. Ainda bem.
domingo, 5 de maio de 2024
sexta-feira, 3 de maio de 2024
Usina Literária, com Zemaria Pinto
Usina Literária, podcast apresentado por Luiz Eduardo de Carvalho.
Acesse pelo Spotfy, clicando sobre a figura ou aqui:
quinta-feira, 2 de maio de 2024
A poesia é necessária?
Meu pranto
José Seráfico
É
para você o meu pranto
e...
para
mim também
para
e por Marielle
também
choro
mal
entrara na luta
que
tanta vida
tem
ceifado
tanta
amargura
multiplicado
tanto
ódio cultivado
meu
lamento se faz
diante
da música
que
já não tem
som
algum
perdido tiro
dos
oitenta disparados
calou
de vez o instrumento
e
a vida que ali
jaz
É
também por Vlado
que
meus olhos
vertem
água
por
sua falsa gravata
guilhotina
adequada aos tempos
de
terror
porque
amar dói
códigos
malditos
ódios
desatados
porões
infectados
das
piores (des)humanas
moléstias
merece
minhas lágrimas
não
tenho como negá-las
como
retê-las
muito
menos
as
chamas que deram
fim
a Ney Lopes
os
fuzis
de
Carandiru e os
fuzilados
camponeses
em
busca do Eldorado
cujas
caras e tudo
mais
jazem
no
buraco mais alto
foi
tudo quanto restou
Que
Frei Tito
ouça
meu langor
esteja
onde (onde?)
estiver
o que de
Rubens
restou
saibam
quanto deploro
a
partida de Dorothy Stang
o
jogo perdido por
Chico
Mendes
por
eles
(e
quantos mais)
é
que choro
saudoso
mais que
triste
sem
ódio
nenhum
rancor
as
lágrimas rolam
pela
impossibilidade
do
amor.








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