Amigos do Fingidor

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Eles têm as armas... Eles que se fodam. Nós temos o champanhe!

Capa do Charlie Hebdo que circula hoje, em Paris.

Fantasy Art - Galeria


Autor desconhecido.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

O vigia que dormia



Pedro Lucas Lindoso


Quando aquela família se mudou para o Vieiralves, há mais de trinta anos, o conjunto era tranquilo. Não havia comércio e Manaus não apresentava esses altos índices de violência de nossos dias.
A casa ficou bonita e grande, ocupando dois terrenos. A família então contratou Juscenildo para ser o vigia noturno da propriedade. Tio da cozinheira da casa, que o indicou para o serviço, Juscenildo conquistou a família pela sua pontualidade, assiduidade e discrição. Apesar de surdo-mudo, Juscenildo ficava atento quando os patrões chegavam, abrindo a porta da garagem com solicitude e um sorriso nos lábios. Vestia sempre uma farda cinza, comprada por dona Dejanira, a matriarca.
A família tinha um casal de filhos adolescentes que rapidamente tornaram-se adultos. A moça da casa casou-se e a recepção foi na própria residência da noiva. Antigamente era assim. Não havia essas festas performáticas nos buffets e clubes. Juscenildo foi o segurança da festa, vestido num paletó preto, comprado especialmente para a ocasião.
Os anos se passavam. Certo dia o rapaz da casa chegou tarde e flagrou Juscenildo dormindo. O bairro já dava sinais de violência. O moço manteve segredo e sugeriu a aquisição de uma cerca elétrica. Dona Dejanira foi contra. Afinal, tinham o Juscenildo. Mas segurança nunca é demais. Instalou-se a tal cerca.
O jovem rapaz da casa se casou e dona Dejanira ficou viúva. Os filhos então sugeriram que ela se mudasse para um apartamento. O conjunto estava cada dia mais violento. Ela recusou. Foi então que os filhos abriram o jogo:
– Mamãe, o Juscenildo dorme. No que ela respondeu:
– Eu sei que ele dorme. Eu sei que ele é surdo-mudo. Mas aqui na rua tem outro vigia que também dorme que eu já vi. O vigia da Tereza, minha amiga também dorme. Mas nunca, jamais entrou ladrão em nossas casas.
Dona Dejanira detesta apartamento. Ouviu falar do ladrão Homem Aranha que sobe nos prédios. Não se mudaria de sua casa nunca. Detesta elevador.
Morreu bastante idosa, dormindo e em sua casa. Nunca foi roubada. Lá fora tinha o vigia, o Juscenildo, que também dormia.




segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Prosa & Panela – 3



Tainá Vieira

Quase todo mundo tem uma receita de família, aquela que vai passando de geração a geração. Geralmente, a pessoa que tem interesse pela culinária recebeu influência de alguém da família, ou foi da mãe ou do pai, às vezes aprendeu a cozinhar com a avó e até mesmo se inspirou em alguma tia mestre-cuca, enfim, sempre herda o livro de receitas. Não é o meu caso, não conheço nenhum parente que saiba ser tão bom na cozinha e principalmente que tenha uma receita maravilhosa para passar a alguém. Sei que todas as mulheres da minha família cozinham, mas é o trivial, nada de divino ou espetacular. Agora de onde vem essa minha paixão pela culinária, esse meu lado cozinheira? Aprendi por aí, li livros de receitas, pesquisei receitas na internet.  E continuo aprendendo, a cada comida que preparo.
Lembro-me bem do dia em que eu fiz a minha primeira comida para o almoço. Meu pai pediu que eu preparasse feijão, arroz e ovo; não sabia como preparar o feijão, mas sempre observava como minha mãe cozinhava, então fui lembrando e tentando fazer. O arroz foi fácil. Até consegui fazer o feijão e quando meu pai viu que já estava pronto, ele disse que íamos comer com ovo. Eu jamais podia imaginar que o ovo seria frito, eu querendo agradar papai, mostrando que já sabia cozinhar, não perdi tempo, quebrei os ovos e os coloquei na panela com o feijão. Ficou algo bem estranho e a minha comida virou motivo de piada.  Para meus pais eu jamais aprenderia a cozinhar, e olha que eles nem são exigentes. Minha mãe me brigava todas as vezes que mandava fazer café; nunca saía do jeito dela; acho que por isso fiquei tão exigente em relação ao café, não é qualquer café que me agrada.
É difícil encontrar por aí um bom café, mas procurando bem se pode encontrar, até porque a vida é curta demais para tomar café ruim. Eu desteto aqueles cafés solúveis, é café de gente preguiçosa, não tomo café feito em cafeteira elétrica, acho sem gosto. E nem gosto daqueles cafés cheio de coisas como cremes, canela, chocolate, chantilly e tantas outras misturas que colocam no café. Eu ainda sou muito primitiva em relação ao café, prefiro meu café feito com água fervida no fogão, coado no filtro de papel e adoçado antes de colocar na garrafa. O café que bebo é feito desse jeito, e a garrafa tem de ficar sobre a mesa da sala de estar, às minhas vistas, para eu tomar a hora que quiser: isso significa mais de quatro vezes ao dia. O mundo seria um tédio sem livros e café. Um livro sempre pede a companhia de um café e vice-versa.  
Mas eu falava sobre o meu lado cozinheira, de onde vem essa paixão pela culinária. Quando eu cozinho, ou melhor, quando eu preparo uma boa comida, eu me sinto útil. Ter contato com os alimentos é uma maneira de se socializar com várias culturas, pois ninguém vive apenas com a comida do seu lugar de origem e não dividir os pratos típicos da sua região ou país é egoísmo. E não é só uma questão cultural, mas também religiosa, filosófica, histórica etc. Enfim, uma pizza não é só uma pizza que veio da Itália (aliás, a pizza surgiu há mais de 5. 000 anos com os babilônios, hebreus e egípcios que já misturavam o trigo, amido e a água e assavam em fornos rústicos; essa massa era chamada de pão de Abraão, era muito parecida com os pães árabes atuais e recebia o nome de piscea). Uma paella, não é só uma paella da culinária espanhola. Uma feijoada não é só uma feijoada inventada pelos escravos no Brasil. Uma feijoada assim como a pizza e a paella são muito mais que pratos típicos, eles trazem historia e envolvem mais que aspectos culturais de uma determinada região. Para cada prato típico de um país, há milhões de pessoas com uma história para contar. Ou seja, não é só um prato, uma receita, é a própria vida de um povo. Quando eu cozinho, quando eu consigo executar uma receita da minha região ou de outra, eu me realizo.  Acabo de concluir que cozinhar não é paixão, é um ato de amor. E o amor não precisa ser herdado de alguém ou ensinado por alguém, o amor simplesmente nasce em nós quando menos esperamos e vive dentro de nós, nos sustentando a cada dia.

domingo, 15 de novembro de 2015

Manaus, amor e memória CCXXXVIII


Ponte sobre o igarapé da Cachoeira Grande.

sábado, 14 de novembro de 2015


Luis Royo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Marcileudas 6/7



Xana, xibiu, xoxota
xereca, concha, xavasca
priquito, racha, tabaca
vulva, vagina, vaso
borboletinha, buceta
cona, crica, bacurinha...


São nomes que identificam
a fonte do mel da vida.
Entre todos eu prefiro
o que melhor qualifica:
me devora, perseguida!

(Zemaria Pinto)

A gulosa



Paulo Sérgio Medeiros
          

LOIRA FAMINTA, boca aveludada e bumbum G. Realizo seus desejos completos. Carinhosa e não sou careta. Quer conferir? Fone: 7823-1180. Cada anúncio naquela folha de classificados era como lotes de terra batida de luxúria. Metro quadrado de sussurros e gemidos vendido a preços populares. O prazer da carne nu e cru oferecendo o profano pincelado de sagrado por aquelas gêmeas de Eva. Meus olhos sobrevoavam aquele latifúndio do amor fácil e aquelas palavras maquiadas do pecado da gula incharam minha libido a ponto de tufar tanto dentro do meu saco da tentação que minha vida monogâmica foi tornando-se flácida. Syleuza deslizava de uma extremidade a outra na cama, remexia, gemia e gemia enquanto descansava seus duzentos e oito ossos fraturados de mordidas. Ela hibernava em desejos reprimidos. Pensei em acordá-la para serenar os ânimos e acabar com seus sonhos calientes e os meus indecentes, porém impermeabilizada estava ela. Amarrotei o jornal e o larguei ao lado da cama, desliguei o abajur e deitei meu corpo em labaredas. Queria a luz do dia invadindo a janela do quarto para, enfim, apagar aquele fogo. Insistentemente, boca aveludada... Desejos completos... Bumbum G. ... Carinhosa... Latejavam em minha cabeça. Levantei-me e desembrulhei aquele cataclismo de desejos. A transgressão me lambia a pele. Ligo ou não ligo? Era a pergunta que não queria emudecer. Ainda que roído pelas traças do tempo, o respeito, órgão vital em um relacionamento pulsava forte em meu crânio calvo, apesar do cárcere privado que se tornara meus mergulhos em límpidos aquários. Na geografia da Syleuza tinha eu migrado de porto seguro para porto velho. Ela é carinhosa e não é careta. Bom, mas por que ela não colocou a idade? E se for uma velha e gorda? Careta? Se for para ir ao inferno, é melhor que seja acompanhado de uma mulher jovem e bonita. Então, como um bom professor de linguística, fiz uma breve análise do discurso. Careta é uma palavra anacrônica. Essa loira deve ter seus quarenta e cinco anos. Puta velha... Poderia ligar para outra terceirizada, era assim que encararia aquele encontro, no entanto caros leitores, a palavra tem poder e faminta foi a que despertou meu interesse e abriu meu apetite. Syleuza continuava a gemer e a rolar na cama de meus pesadelos. Os ponteiros do relógio na parede refletiam o meu instinto e protagonizavam o meu futuro ali na horizontal um em cima do outro. Vesti-me de coragem e liguei fragmentando a fala. Uma voz lânguida invade meu ouvido. – Olá, boa noite. – Loira... Loira fam... Faminta? – Loira glutona! – Qu... quanto... cu... custa? – Cento e dez reais por uma hora e meia. Pronto. Juntei a sede com a vontade de comer. Detalhes acertados, com a testa beijada deixei Syleuza em meio a devaneios impudicos e desgarrei-me dos braços do espantalho da solidão rumo ao breu daquele encontro às escuras. A tentação arreganhara de vez seus dentes em minha direção. Cheguei a casa 171 na Rua Belo Horizonte ciceroneado pelo medo e através da campainha anunciei minha chegada. A porta abre-se rangendo no silêncio palpitante daquele momento e vejo a dois passos de mim cento e dez quilos de uma loira faminta... Engoli a seco as imagens do meu pensamento e extraí, testemunhado pela lua minguante, as presas afiadas da tentação.

Bioética orientando e fiscalizando os avanços tecnológicos



João Bosco Botelho

O processo teórico estruturante da bioética, iniciado nos anos 1970, tomou melhor forma com a publicação, em 1976, do livro do filósofo Samuel Gorovitz “Problemas morais na Medicina”, e em 1979, o do também filósofo Tom Beauchamp  e do teólogo James Childress “Princípios da ética biomédica”.
Ao livro de Beauchamp e Childress – compreendida como teoria da Principalidade – é acrescido um novo pressuposto à ética e moral da pesquisa médica de modo geral e, especialmente, às que envolvem seres humanos como sujeitos da pesquisa: não-maleficência, de clara influência hipocrática.
Existem críticas na originalidade da teoria da Principalidade, mas não no conteúdo ético e moral. Os autores que duvidaram da originalidade sustentam que a obra de Beauchamp e Childress somente uniu alguns argumentos publicados por outros autores: autonomia, de Kant; beneficência, de John Stuart Mill; não maleficência, de Hipócrates; justiça, de John Rawls.
Seja com ou sem crítica, o certo é que esse contexto de união de esforços teóricos resultou também na salvaguarda para os indivíduos fragilizados na saúde física ou mental e os que não entendem os riscos da pesquisa. Nesse sentido, foi introduzida a obrigatoriedade do “termo de consentimento livre e esclarecido” como alternativa administrativa para proteger os que não podem decidir sobre as vantagens e riscos da pesquisa.
Essa questão ainda não estava clara em 1964, quando os médicos e pesquisadores reunidos na 18ª Assembleia da Associação Médica Mundial editaram a Carta de Helsinki I, anunciando cinco princípios de base, que, como o Código de Nuremberg, não impôs força de lei:
– As pesquisas clínicas devem estar contidas nos princípios morais e científicos, e só deverão ser iniciadas após o sucesso nas experimentações em animais;
– As pesquisas devem ser dirigidas por pessoas cientificamente competentes;
– Todo projeto de pesquisa deverá ser precedido de uma lista detalhada e circunstanciada dos riscos e benefícios esperados.

Outros códigos de ética médica, ajustados às mudanças sociais e tecnológicas, se seguiram, com pontos comuns: a Medicina e os médicos devem sempre manter e defender a completa proteção do doente, promovendo a saúde e o bem-estar da sociedade. Na maior parte, retornaram ao ideário ético grego hipocrático: Congresso de Moral Médica, Paris, 1966; Declaração de Tóquio ou Helsinki II, 1975; Declaração de Manilha ou Hensinki III, 1981; e a Resolução de Madri, 1987.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Théo Correa (09/11/1960 – 11/11/2015)



Théo Correa era ator e diretor de teatro, com larga vivência em grupos de Manaus. Faleceu hoje pela manhã, em São Paulo, onde será cremado. Suas cinzas serão jogadas ao rio Negro.

Não podia ter deixado ele sair




                                                                    Mauri Mrq


Não esqueço aquele dia quando costumeiramente caminhava com uns amigos no Parque do Idoso e avistei aquela bela senhora, que de imediato me chamou a atenção pela vistosa maneira de se portar na atividade física que executava. Desde então, diariamente, a procurava com olhares na esperança de oportunizar um encontro para conhecê-la.

Em uma festa comemorativa nessa instituição que frequentávamos, à noite, um baile acontecia e como a interatividade é a tônica nestes eventos, a troca de casais quando dançávamos se dava de forma harmoniosa, foi quando provoquei nos revezamentos tomá-la como par e bailar ao som da música “Chão de estrelas”. Flutuava com ela em meus braços e seu perfume de rosas em tom suave, me fez sentir o que há muito não sentia desde que perdi minha esposa. Aproveitei o momento para perguntar-lhe seu nome e compassadamente disse: Amália. Em seguida foi compor um outro par e naquele enorme salão não a avistei novamente.

No dia seguinte, caminhando, lançava olhares nos ambientes procurando por Amália com seus cabelos pintados, mesclando o branco com um azul clarinho e não a via. Mas, na semana seguinte, lá estava Amália, tomando o café da manhã. Aproximei-me, dei-lhe bom dia e perguntei se podia sentar à mesa, me confirmando positivamente com a cabeça. Daí em diante nos tornamos amigos e, com o passar do tempo, namorados.

Sentia que Amália tinha resistência em aprofundar nossa intimidade como namorados. Viúva há três anos, mulher em toda a sua vida de um homem só, era compreensível o seu temor, mas procurava mantê-la satisfeita priorizando seus gostos, cultivando sua companhia que me agradava sobremaneira e percebendo que cada vez mais ficava à vontade comigo.

Numa sexta-feira fomos ao Teatro Amazonas e após a bela apresentação da Orquestra Sinfônica, convidei-a para jantar no restaurante giratório de um hotel indiano na avenida Getúlio Vargas, ficando maravilhada com a vista da cidade de Manaus que pôde contemplar em trezentos e sessenta graus. Um bom vinho, a troca de confidências e admiração mútua, permitiu-nos a nossa primeira noite de amor.

No dia seguinte, na costumeira caminhada no Parque do Idoso, não avistei Amália. Telefonei-lhe e vinha mensagem de número inexistente. Mais um dia, nada de Amália, fui a sua casa e sempre a encontrava fechada e ninguém atendia, ela morava sozinha.

Sucederam-se duas semanas e cadê Amália, comecei a perguntar por ela todas as manhãs e ninguém sabia informar, participava de atividades no Parque para me aproximar de algumas senhoras com quem fiz amizade, tentando obter notícias.

Um certo dia fazendo caminhada para me obrigar a não ceder a total angústia que começava a ser perceptível em meu semblante, uma senhora andando em cadeira de rodas me acenou, fui ao seu encontro, me perguntou se procurava por Amália, disse-lhe que sim, foi quando disse que Amália tinha ido embora de Manaus e não retornaria, perguntei-lhe o motivo, mas ela não sabia, quis saber se tinha algum telefone para encontrá-la onde quer que fosse. Conheço sua irmã, mora na Joaquim Nabuco, minha vizinha há anos. Vendo minha aflição, a senhora me forneceu o endereço e no dia seguinte fui ao encontro da irmã de Amália, saber do seu paradeiro.
  
Muito simpática, me recebeu com gentileza, e disse-lhe meu nome, Clodoaldo. Sei quem é o senhor, Amália falava muito a seu respeito e do relacionamento de vocês.  Pois é, estou desesperado com o sumiço de Amália, o que aconteceu?  Desista, seu Clodoaldo, Amália não quer mais lhe ver. Mas por quê? É melhor que o senhor não saiba. Insisti muito, e vendo minha aflição, resolveu me falar: Amália foi casada por quarenta e cinco anos tendo ficado viúva há três anos. A única pessoa que vi minha irmã dar importância após sua viuvez foi o senhor, mas, o senhor sabe, todos nós temos nossos problemas e Amália, assim como amava seu marido, aturava suas atitudes orgânicas. Como assim? Rodolfo, esse era o nome do falecido, era muito espontâneo com suas reações orgânicas que incomodavam e criaram um trauma em Amália. Continuo não entendendo nada... Rodolfo era flatulento, expelia gases, balançava a roseira com regularidade, achando normal tal atitude na presença de Amália, e Amália não gostava, mas aturava, fora isso, conviveu muito bem com seu marido não tendo filhos por Rodolfo ser infértil. Quer dizer que ele sabia peidar mas não fazia filho. Me desculpe, minha senhora, mas onde eu entro nessa estória pra ela não me querer mais, e o que tem a ver a flatulência do Rodolfo? Amália me contou que vocês tiveram uma noite de amor e depois que concluíram, o senhor soltou um “pum”, e logo em seguida se desculpou. Exatamente, foi um peido inconsciente, sem querer, eu não sou um velho flatulento e jamais peidaria na frente da Amália de propósito. Pois é, aí é que eu digo que todo mundo tem seus problemas, ela não quis arriscar se relacionando com o senhor, mesmo tendo sido educado após expelir o vento, se desculpando, mas este é o trauma de Amália. Mas eu não sou o Rodolfo. Eu sei, meu senhor, eu tentei convencê-la seria bom pra ela ter uma companhia na velhice, mas foi irredutível. Por favor, perdoe Amália! Não se preocupe, vou sobreviver, obrigado, e até um dia.

Essa não! Que coisa mais estapafúrdia me aconteceu, perdi Amália por soltar um peido.

Não podia ter deixado ele sair.





Fantasy Art - Galeria


Forest demoness.
Andrey Vasilchenko.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Coxinha, mas de macaxeira



Pedro Lucas Lindoso

Não faz muito tempo, a Presidente da República discursou fazendo loas à mandioca. Com razão. Nada mais brasileiro do que a mandioca, a nossa macaxeira. Para o carioca é aipim. Certa feita, presenciei numa mesa de bar em Brasília, um discussão boba sobre o correto nome desse tubérculo, tão apreciado por todos os brasileiros e brasileiras, de norte a sul, de leste a oeste.
A variedade de produtos derivados da macaxeira é imensa. As farinhas apresentam-se de formas e sabores diversos, dependendo da região brasileira. Aqui, as preferidas são a ovinha, do Uarini e a branca ou amarela fina, para farofa.
Na Bahia, quanto mais fina for a farinha, mais prestígio e melhor preço.
A tapioquinha, feita da goma da mandioca, está altamente prestigiada entre os nutricionistas do Brasil. Não contém glúten ou farinha de trigo, o vilão das dietas modernas. E viva a mandioca!
Temos ainda o nosso delicioso tacacá, com base no tucupi, sumo da macaxeira.
A farinha de mandioca, diferente do sagu, que parece bolinhas, mas é mais duro e consistente, serve para tomar açaí e fazer “bolo podre”, o “pão de queijo” amazonense.
Nada mais brasileiro do que a farofa, nos seus variados sabores e diferentes receitas. O brasileiro típico adora futebol, carnaval, cerveja e farofa. E viva a macaxeira!
Em Manaus, nos lanches de rua, além da bôla e do ovo coberto, tem sempre a coxinha de galinha, feita com massa de macaxeira (no sudeste é sempre de trigo).
Um jovem empresário amazonense, bem sucedido e conservador, foi chamado de “coxinha”, por um sindicalista radical. No que ele respondeu:
– Sou coxinha, sim, mas de macaxeira.
Ideologias e posições políticas à parte, aí vai a receita de coxinha de macaxeira:
Ingredientes para a massa: 2 kg de macaxeira crua, uma xicara de óleo, uma colher de sal, quatro copos de agua fria, uma xicara de trigo. Ingredientes para o recheio: um peito de frango, um tomate picado, uma cebola picada, um cheiro-verde picado, sal a gosto. Ingredientes para empanar a coxinha: um ovo, farinha de rosca. Modo de fazer a massa: descasque a macaxeira, corte em pedaços grandes, coloque para cozinhar com água e sal, por 20 min. Depois amasse a macaxeira com um garfo, adicione o óleo para untar a massa. Deixar descansar por 30 minutos Para o recheio: corte o peito de frango, coloque para cozinhar com água e sal por 30min. Depois, triture o frango com uma faca, adicionando as verduras e os temperos levando ao fogo para refogar por 15min. Para formar a coxinha: Retire uma bola de massa, amasse na mão com trigo. Coloque uma colher de recheio e feche a massa formando uma coxinha. Passe no ovo e na farinha de rosca. Fritar em óleo quente.


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Prosa & Panela – 2

        
  Tainá Vieira


Outro dia eu fiz uma coisa que não tenho o costume de fazer, embora a maioria das mulheres o façam, digo, as mulheres que cozinham. Eu cozinho. Era o dia de comer feijão; na minha casa come-se feijão uma vez na semana. Preparar o feijão não é uma tarefa fácil como parece. Primeiro antes de lavar os grãos, tem que catar ou escolher, isso significa retirar as impurezas que vêm no saco de feijão. Coloquei os grãos sobre a mesa e comecei a separar o joio do trigo, digo, comecei a separar o bom feijão do feijão estragado. Há vários tipos de feijão, varias cores, tem feijão preto, branco, vermelho e marrom; o meu era marrom. Da cor da terra. Às vezes vem pedra junto ao feijão, pedra tem cor de terra, fica difícil ver, por isso é necessário catar o feijão, antes eu só lavava, jamais havia feito o procedimento de separação do feijão bom do feijão estragado. Pode-se encontrar também milho junto ao feijão. 99% das pessoas já encontraram milho no feijão, e até mesmo outras espécies de grãos. E vem terra, literalmente terra, aquela terra cujo feijão foi semeado, onde ele nasceu, cresceu e depois, já maduro, foi arrancado pelas mãos calejadas do trabalhador ou por maquinas assassinas de grãos.
Ao trabalhador é concedido o perdão por esse ato cruel. Pobre feijão, não queria sair dali, do seu habitat, o pé de feijão. Não queria ir para a panela e depois para o estômago de pessoas insensíveis. Algumas pessoas são tão cruéis no ato de comer. Comem com pressa ou com os olhos fixos na tela da televisão ou do celular. Nem sentem o sabor dos alimentos. Não respeitam os alimentos e, nem agradecem por tê-los à mesa. Essas pessoas são incapazes de pensar em tudo o que os alimentos passaram para chegar até seus pratos e mais, não imaginam o modo como eles foram preparados, muitas vezes, estiveram numa cozinha suja, foram tocados por pessoas mal-humoradas, cheias de sentimentos ruis (o bom ou mau humor de quem prepara a comida, influencia o sabor e a digestão do alimento) e para lhe doer mais a vida, esses alimentos vão ter fim em corpos de pessoas ingratas. Qualquer alimento tem vida, assim como personalidade e sexo. O feijão é masculino. Vejamos o pé de feijão, é fálico e seus grãos são duros, por isso, usa-se a panela de pressão para preparar esse alimento. O principal elemento encontrado nele é o ferro, imprescindível para o sangue.  E quando já está pronto o seu sabor é bem forte, marcante, diria que é um alimento poderoso, como um macho mesmo, (entenda-se macho apenas como oposto de fêmea). Há quem coma somente o feijão numa refeição por ele ser assim, tão forte.  Eu sempre o preferi acompanhado de alimentos brancos que são femininos, mas isso é outra e longa historia. O que eu estou querendo dizer desde o inicio é que antes eu comia feijão uma vez por semana, agora sou defensora desses grãos tão mal-encarados e subjugados por algumas pessoas cruéis sem sentimentos. Apesar de toda sua masculinidade o feijão sofre tanto, dói-me ver homem sofrer.


domingo, 8 de novembro de 2015

Manaus, amor e memória CCXXXVII


Livraria Valer (10/11/1990  08/11/2015)

Valeu!!!

sábado, 7 de novembro de 2015

Fantasy Art - Galeria


Chelin Sanjuan.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Marcileudas 5/7



O trombadinha na esquina
deixa passar a velhinha
para então, como um felino,
tomar-lhe a bolsa e o cordão.

Na fuga, encontra uma Ronda,
que lhe dispara um balaço,
abrindo um baita buraco
na altura do coração.

O corpo no chão caído,
a velhinha se aproxima,
fazendo o sinal da cruz;
e com o dedo em riste aponta

o polícia matador,
balbuciando este mantra:
era só uma criança...
era só uma criança...

(Zemaria Pinto)