quinta-feira, 19 de novembro de 2015
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
terça-feira, 17 de novembro de 2015
O vigia que dormia
Pedro Lucas Lindoso
Quando aquela família se mudou
para o Vieiralves, há mais de trinta anos, o conjunto era tranquilo. Não havia
comércio e Manaus não apresentava esses altos índices de violência de nossos
dias.
A casa ficou bonita e grande,
ocupando dois terrenos. A família então contratou Juscenildo para ser o vigia
noturno da propriedade. Tio da cozinheira da casa, que o indicou para o
serviço, Juscenildo conquistou a família pela sua pontualidade, assiduidade e
discrição. Apesar de surdo-mudo, Juscenildo ficava atento quando os patrões
chegavam, abrindo a porta da garagem com solicitude e um sorriso nos lábios.
Vestia sempre uma farda cinza, comprada por dona Dejanira, a matriarca.
A família tinha um casal de
filhos adolescentes que rapidamente tornaram-se adultos. A moça da casa
casou-se e a recepção foi na própria residência da noiva. Antigamente era
assim. Não havia essas festas performáticas nos buffets e clubes. Juscenildo
foi o segurança da festa, vestido num paletó preto, comprado especialmente para
a ocasião.
Os anos se passavam. Certo dia
o rapaz da casa chegou tarde e flagrou Juscenildo dormindo. O bairro já dava
sinais de violência. O moço manteve segredo e sugeriu a aquisição de uma cerca
elétrica. Dona Dejanira foi contra. Afinal, tinham o Juscenildo. Mas segurança
nunca é demais. Instalou-se a tal cerca.
O jovem rapaz da casa se casou
e dona Dejanira ficou viúva. Os filhos então sugeriram que ela se mudasse para
um apartamento. O conjunto estava cada dia mais violento. Ela recusou. Foi então
que os filhos abriram o jogo:
– Mamãe, o Juscenildo dorme. No
que ela respondeu:
– Eu sei que ele dorme. Eu sei
que ele é surdo-mudo. Mas aqui na rua tem outro vigia que também dorme que eu
já vi. O vigia da Tereza, minha amiga também dorme. Mas nunca, jamais entrou
ladrão em nossas casas.
Dona Dejanira detesta
apartamento. Ouviu falar do ladrão Homem Aranha que sobe nos prédios. Não se
mudaria de sua casa nunca. Detesta elevador.
Morreu bastante idosa, dormindo
e em sua casa. Nunca foi roubada. Lá fora tinha o vigia, o Juscenildo, que também
dormia.
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Prosa & Panela – 3
Tainá
Vieira
Quase todo mundo tem uma
receita de família, aquela que vai passando de geração a geração. Geralmente, a
pessoa que tem interesse pela culinária recebeu influência de alguém da
família, ou foi da mãe ou do pai, às vezes aprendeu a cozinhar com a avó e até
mesmo se inspirou em alguma tia mestre-cuca, enfim, sempre herda o livro de
receitas. Não é o meu caso, não conheço nenhum parente que saiba ser tão bom na
cozinha e principalmente que tenha uma receita maravilhosa para passar a alguém.
Sei que todas as mulheres da minha família cozinham, mas é o trivial, nada de
divino ou espetacular. Agora de onde vem essa minha paixão pela culinária, esse
meu lado cozinheira? Aprendi por aí, li livros de receitas, pesquisei receitas
na internet. E continuo aprendendo, a
cada comida que preparo.
Lembro-me bem do dia em que
eu fiz a minha primeira comida para o almoço. Meu pai pediu que eu preparasse
feijão, arroz e ovo; não sabia como preparar o feijão, mas sempre observava
como minha mãe cozinhava, então fui lembrando e tentando fazer. O arroz foi
fácil. Até consegui fazer o feijão e quando meu pai viu que já estava pronto, ele
disse que íamos comer com ovo. Eu jamais podia imaginar que o ovo seria frito,
eu querendo agradar papai, mostrando que já sabia cozinhar, não perdi tempo,
quebrei os ovos e os coloquei na panela com o feijão. Ficou algo bem estranho e
a minha comida virou motivo de piada.
Para meus pais eu jamais aprenderia a cozinhar, e olha que eles nem são
exigentes. Minha mãe me brigava todas as vezes que mandava fazer café; nunca saía
do jeito dela; acho que por isso fiquei tão exigente em relação ao café, não é qualquer
café que me agrada.
É difícil encontrar por aí
um bom café, mas procurando bem se pode encontrar, até porque a vida é curta
demais para tomar café ruim. Eu desteto aqueles cafés solúveis, é café de gente
preguiçosa, não tomo café feito em cafeteira elétrica, acho sem gosto. E nem
gosto daqueles cafés cheio de coisas como cremes, canela, chocolate, chantilly e
tantas outras misturas que colocam no café. Eu ainda sou muito primitiva em
relação ao café, prefiro meu café feito com água fervida no fogão, coado no
filtro de papel e adoçado antes de colocar na garrafa. O café que bebo é feito
desse jeito, e a garrafa tem de ficar sobre a mesa da sala de estar, às minhas
vistas, para eu tomar a hora que quiser: isso significa mais de quatro vezes ao
dia. O mundo seria um tédio sem livros e café. Um livro sempre pede a companhia
de um café e vice-versa.
Mas eu falava sobre o meu
lado cozinheira, de onde vem essa paixão pela culinária. Quando eu cozinho, ou
melhor, quando eu preparo uma boa comida, eu me sinto útil. Ter contato com os
alimentos é uma maneira de se socializar com várias culturas, pois ninguém vive
apenas com a comida do seu lugar de origem e não dividir os pratos típicos da
sua região ou país é egoísmo. E não é só uma questão cultural, mas também
religiosa, filosófica, histórica etc. Enfim, uma pizza não é só uma pizza que
veio da Itália (aliás, a pizza surgiu há
mais de 5. 000 anos com os babilônios, hebreus e egípcios que já misturavam o
trigo, amido e a água e assavam em fornos rústicos; essa massa era chamada de
pão de Abraão, era muito parecida com
os pães árabes atuais e recebia o nome de piscea). Uma paella, não é só uma
paella da culinária espanhola. Uma feijoada não é só uma feijoada inventada
pelos escravos no Brasil. Uma feijoada assim como a pizza e a paella são muito
mais que pratos típicos, eles trazem historia e envolvem mais que aspectos culturais
de uma determinada região. Para cada prato típico de um país, há milhões de
pessoas com uma história para contar. Ou seja, não é só um prato, uma receita,
é a própria vida de um povo. Quando eu cozinho, quando eu consigo executar uma
receita da minha região ou de outra, eu me realizo. Acabo de concluir que cozinhar não é paixão,
é um ato de amor. E o amor não precisa ser herdado de alguém ou ensinado por
alguém, o amor simplesmente nasce em nós quando menos esperamos e vive dentro
de nós, nos sustentando a cada dia.
domingo, 15 de novembro de 2015
sábado, 14 de novembro de 2015
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
Marcileudas 6/7
Xana, xibiu, xoxota
xereca, concha, xavasca
priquito, racha, tabaca
vulva, vagina, vaso
borboletinha, buceta
cona, crica, bacurinha...
São nomes que identificam
a fonte do mel da vida.
Entre todos eu prefiro
o que melhor qualifica:
me devora, perseguida!
a fonte do mel da vida.
Entre todos eu prefiro
o que melhor qualifica:
me devora, perseguida!
(Zemaria Pinto)
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A poesia é necessária?,
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A gulosa
Paulo Sérgio Medeiros
LOIRA FAMINTA, boca aveludada e bumbum
G. Realizo seus desejos completos. Carinhosa e não sou careta. Quer conferir? Fone:
7823-1180. Cada anúncio naquela folha de classificados era como lotes de terra
batida de luxúria. Metro quadrado de sussurros e gemidos vendido a preços
populares. O prazer da carne nu e cru oferecendo o profano pincelado de sagrado
por aquelas gêmeas de Eva. Meus olhos sobrevoavam aquele latifúndio do amor
fácil e aquelas palavras maquiadas do pecado da gula incharam minha libido a
ponto de tufar tanto dentro do meu saco da tentação que minha vida monogâmica
foi tornando-se flácida. Syleuza deslizava de uma extremidade a outra na cama,
remexia, gemia e gemia enquanto descansava seus duzentos e oito ossos
fraturados de mordidas. Ela hibernava em desejos reprimidos. Pensei em
acordá-la para serenar os ânimos e acabar com seus sonhos calientes e os meus indecentes,
porém impermeabilizada estava ela. Amarrotei o jornal e o larguei ao lado da
cama, desliguei o abajur e deitei meu corpo em labaredas. Queria a luz do dia
invadindo a janela do quarto para, enfim, apagar aquele fogo. Insistentemente,
boca aveludada... Desejos completos... Bumbum G. ... Carinhosa... Latejavam em
minha cabeça. Levantei-me e desembrulhei aquele cataclismo de desejos. A
transgressão me lambia a pele. Ligo ou não ligo? Era a pergunta que não queria
emudecer. Ainda que roído pelas traças do tempo, o respeito, órgão vital em um
relacionamento pulsava forte em meu crânio calvo, apesar do cárcere privado que
se tornara meus mergulhos em límpidos aquários. Na geografia da Syleuza tinha
eu migrado de porto seguro para porto velho. Ela é carinhosa e não é careta.
Bom, mas por que ela não colocou a idade? E se for uma velha e gorda? Careta?
Se for para ir ao inferno, é melhor que seja acompanhado de uma mulher jovem e
bonita. Então, como um bom professor de linguística, fiz uma breve análise do discurso.
Careta é uma palavra anacrônica. Essa loira deve ter seus quarenta e cinco
anos. Puta velha... Poderia ligar para outra terceirizada, era assim que
encararia aquele encontro, no entanto caros leitores, a palavra tem poder e
faminta foi a que despertou meu interesse e abriu meu apetite. Syleuza
continuava a gemer e a rolar na cama de meus pesadelos. Os ponteiros do relógio
na parede refletiam o meu instinto e protagonizavam o meu futuro ali na
horizontal um em cima do outro. Vesti-me de coragem e liguei fragmentando a
fala. Uma voz lânguida invade meu ouvido. – Olá, boa noite. – Loira... Loira
fam... Faminta? – Loira glutona! – Qu... quanto... cu... custa? – Cento e dez
reais por uma hora e meia. Pronto. Juntei a sede com a vontade de comer.
Detalhes acertados, com a testa beijada deixei Syleuza em meio a devaneios
impudicos e desgarrei-me dos braços do espantalho da solidão rumo ao breu
daquele encontro às escuras. A tentação arreganhara de vez seus dentes em minha
direção. Cheguei a casa 171 na Rua Belo Horizonte ciceroneado pelo medo e
através da campainha anunciei minha chegada. A porta abre-se rangendo no
silêncio palpitante daquele momento e vejo a dois passos de mim cento e dez
quilos de uma loira faminta... Engoli a seco as imagens do meu pensamento e
extraí, testemunhado pela lua minguante, as presas afiadas da tentação.
Bioética orientando e fiscalizando os avanços tecnológicos
João
Bosco Botelho
O processo teórico estruturante
da bioética, iniciado nos anos 1970, tomou melhor forma com a publicação, em
1976, do livro do filósofo Samuel Gorovitz “Problemas morais na Medicina”, e em
1979, o do também filósofo Tom Beauchamp
e do teólogo James Childress “Princípios da ética biomédica”.
Ao livro de Beauchamp e Childress
– compreendida como teoria da Principalidade – é acrescido um novo pressuposto
à ética e moral da pesquisa médica de modo geral e, especialmente, às que
envolvem seres humanos como sujeitos da pesquisa: não-maleficência, de clara
influência hipocrática.
Existem críticas na
originalidade da teoria da Principalidade, mas não no conteúdo ético e moral.
Os autores que duvidaram da originalidade sustentam que a obra de Beauchamp e
Childress somente uniu alguns argumentos publicados por outros autores: autonomia,
de Kant; beneficência, de John Stuart Mill; não maleficência, de Hipócrates; justiça,
de John Rawls.
Seja com ou sem crítica, o
certo é que esse contexto de união de esforços teóricos resultou também na
salvaguarda para os indivíduos fragilizados na saúde física ou mental e os que
não entendem os riscos da pesquisa. Nesse sentido, foi introduzida a obrigatoriedade
do “termo de consentimento livre e esclarecido” como alternativa administrativa
para proteger os que não podem decidir sobre as vantagens e riscos da pesquisa.
Essa questão ainda não estava
clara em 1964, quando os médicos e pesquisadores reunidos na 18ª Assembleia da
Associação Médica Mundial editaram a Carta de Helsinki I, anunciando cinco
princípios de base, que, como o Código de Nuremberg, não impôs força de lei:
– As pesquisas clínicas devem
estar contidas nos princípios morais e científicos, e só deverão ser iniciadas
após o sucesso nas experimentações em animais;
– As pesquisas devem ser
dirigidas por pessoas cientificamente competentes;
– Todo projeto de pesquisa
deverá ser precedido de uma lista detalhada e circunstanciada dos riscos e
benefícios esperados.
Outros códigos de ética
médica, ajustados às mudanças sociais e tecnológicas, se seguiram, com pontos
comuns: a Medicina e os médicos devem sempre manter e defender a completa
proteção do doente, promovendo a saúde e o bem-estar da sociedade. Na maior
parte, retornaram ao ideário ético grego hipocrático: Congresso de Moral
Médica, Paris, 1966; Declaração de Tóquio ou Helsinki II, 1975; Declaração de
Manilha ou Hensinki III, 1981; e a Resolução de Madri, 1987.
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Théo Correa (09/11/1960 – 11/11/2015)
Théo Correa era ator e diretor de teatro, com larga vivência em grupos de Manaus. Faleceu hoje pela manhã, em São Paulo, onde será cremado. Suas cinzas serão jogadas ao rio Negro.
Não podia ter deixado ele sair
Mauri Mrq
Não esqueço aquele dia quando
costumeiramente caminhava com uns amigos no Parque do Idoso e avistei aquela
bela senhora, que de imediato me chamou a atenção pela vistosa maneira de se
portar na atividade física que executava. Desde então, diariamente, a procurava
com olhares na esperança de oportunizar um encontro para conhecê-la.
Em uma festa comemorativa nessa
instituição que frequentávamos, à noite, um baile acontecia e como a
interatividade é a tônica nestes eventos, a troca de casais quando dançávamos
se dava de forma harmoniosa, foi quando provoquei nos revezamentos tomá-la como
par e bailar ao som da música “Chão de estrelas”. Flutuava com ela em meus
braços e seu perfume de rosas em tom suave, me fez sentir o que há muito não
sentia desde que perdi minha esposa. Aproveitei o momento para perguntar-lhe
seu nome e compassadamente disse: Amália. Em seguida foi compor um outro par e
naquele enorme salão não a avistei novamente.
No dia seguinte, caminhando, lançava
olhares nos ambientes procurando por Amália com seus cabelos pintados,
mesclando o branco com um azul clarinho e não a via. Mas, na semana seguinte,
lá estava Amália, tomando o café da manhã. Aproximei-me, dei-lhe bom dia e
perguntei se podia sentar à mesa, me confirmando positivamente com a cabeça.
Daí em diante nos tornamos amigos e, com o passar do tempo, namorados.
Sentia que Amália tinha resistência em
aprofundar nossa intimidade como namorados. Viúva há três anos, mulher em toda
a sua vida de um homem só, era compreensível o seu temor, mas procurava
mantê-la satisfeita priorizando seus gostos, cultivando sua companhia que me
agradava sobremaneira e percebendo que cada vez mais ficava à vontade comigo.
Numa sexta-feira fomos ao Teatro
Amazonas e após a bela apresentação da Orquestra Sinfônica, convidei-a para
jantar no restaurante giratório de um hotel indiano na avenida Getúlio Vargas,
ficando maravilhada com a vista da cidade de Manaus que pôde contemplar em
trezentos e sessenta graus. Um bom vinho, a troca de confidências e admiração
mútua, permitiu-nos a nossa primeira noite de amor.
No dia seguinte, na costumeira caminhada
no Parque do Idoso, não avistei Amália. Telefonei-lhe e vinha mensagem de
número inexistente. Mais um dia, nada de Amália, fui a sua casa e sempre a encontrava
fechada e ninguém atendia, ela morava sozinha.
Sucederam-se duas semanas e cadê Amália,
comecei a perguntar por ela todas as manhãs e ninguém sabia informar,
participava de atividades no Parque para me aproximar de algumas senhoras com
quem fiz amizade, tentando obter notícias.
Um certo dia fazendo caminhada para me
obrigar a não ceder a total angústia que começava a ser perceptível em meu
semblante, uma senhora andando em cadeira de rodas me acenou, fui ao seu
encontro, me perguntou se procurava por Amália, disse-lhe que sim, foi quando
disse que Amália tinha ido embora de Manaus e não retornaria, perguntei-lhe o
motivo, mas ela não sabia, quis saber se tinha algum telefone para encontrá-la
onde quer que fosse. Conheço sua irmã, mora na Joaquim Nabuco, minha vizinha há
anos. Vendo minha aflição, a senhora me forneceu o endereço e no dia seguinte
fui ao encontro da irmã de Amália, saber do seu paradeiro.
Muito simpática, me recebeu com
gentileza, e disse-lhe meu nome, Clodoaldo. Sei quem é o senhor, Amália falava
muito a seu respeito e do relacionamento de vocês. Pois é, estou desesperado com o sumiço de
Amália, o que aconteceu? Desista, seu
Clodoaldo, Amália não quer mais lhe ver. Mas por quê? É melhor que o senhor não
saiba. Insisti muito, e vendo minha aflição, resolveu me falar: Amália foi
casada por quarenta e cinco anos tendo ficado viúva há três anos. A única
pessoa que vi minha irmã dar importância após sua viuvez foi o senhor, mas, o
senhor sabe, todos nós temos nossos problemas e Amália, assim como amava seu
marido, aturava suas atitudes orgânicas. Como assim? Rodolfo, esse era o nome
do falecido, era muito espontâneo com suas reações orgânicas que incomodavam e
criaram um trauma em Amália. Continuo não entendendo nada... Rodolfo era flatulento,
expelia gases, balançava a roseira com regularidade, achando normal tal atitude
na presença de Amália, e Amália não gostava, mas aturava, fora isso, conviveu
muito bem com seu marido não tendo filhos por Rodolfo ser infértil. Quer dizer
que ele sabia peidar mas não fazia filho. Me desculpe, minha senhora, mas onde
eu entro nessa estória pra ela não me querer mais, e o que tem a ver a
flatulência do Rodolfo? Amália me contou que vocês tiveram uma noite de amor e
depois que concluíram, o senhor soltou um “pum”, e logo em seguida se
desculpou. Exatamente, foi um peido inconsciente, sem querer, eu não sou um
velho flatulento e jamais peidaria na frente da Amália de propósito. Pois é, aí
é que eu digo que todo mundo tem seus problemas, ela não quis arriscar se
relacionando com o senhor, mesmo tendo sido educado após expelir o vento, se
desculpando, mas este é o trauma de Amália. Mas eu não sou o Rodolfo. Eu sei,
meu senhor, eu tentei convencê-la seria bom pra ela ter uma companhia na
velhice, mas foi irredutível. Por favor, perdoe Amália! Não se preocupe, vou
sobreviver, obrigado, e até um dia.
Essa não! Que coisa mais estapafúrdia me
aconteceu, perdi Amália por soltar um
peido.
Não podia ter deixado ele sair.
terça-feira, 10 de novembro de 2015
Coxinha, mas de macaxeira
Pedro Lucas Lindoso
Não faz muito tempo, a
Presidente da República discursou fazendo loas à mandioca. Com razão. Nada mais
brasileiro do que a mandioca, a nossa macaxeira. Para o carioca é aipim. Certa
feita, presenciei numa mesa de bar em Brasília, um discussão boba sobre o
correto nome desse tubérculo, tão apreciado por todos os brasileiros e
brasileiras, de norte a sul, de leste a oeste.
A variedade de produtos
derivados da macaxeira é imensa. As farinhas apresentam-se de formas e sabores
diversos, dependendo da região brasileira. Aqui, as preferidas são a ovinha, do
Uarini e a branca ou amarela fina, para farofa.
Na Bahia, quanto mais fina
for a farinha, mais prestígio e melhor preço.
A tapioquinha, feita da goma
da mandioca, está altamente prestigiada entre os nutricionistas do Brasil. Não
contém glúten ou farinha de trigo, o vilão das dietas modernas. E viva a
mandioca!
Temos ainda o nosso
delicioso tacacá, com base no tucupi, sumo da macaxeira.
A farinha de mandioca,
diferente do sagu, que parece bolinhas, mas é mais duro e consistente, serve
para tomar açaí e fazer “bolo podre”, o “pão de queijo” amazonense.
Nada mais brasileiro do que
a farofa, nos seus variados sabores e diferentes receitas. O brasileiro típico
adora futebol, carnaval, cerveja e farofa. E viva a macaxeira!
Em Manaus, nos lanches de
rua, além da bôla e do ovo coberto, tem sempre a coxinha de galinha, feita com
massa de macaxeira (no sudeste é sempre de trigo).
Um jovem empresário
amazonense, bem sucedido e conservador, foi chamado de “coxinha”, por um
sindicalista radical. No que ele respondeu:
– Sou coxinha, sim, mas de
macaxeira.
Ideologias e posições
políticas à parte, aí vai a receita de coxinha de macaxeira:
Ingredientes
para a massa: 2 kg de macaxeira crua, uma xicara de óleo, uma
colher de sal, quatro copos de agua fria, uma xicara de trigo. Ingredientes para o recheio: um
peito de frango, um tomate picado, uma cebola picada, um cheiro-verde picado,
sal a gosto. Ingredientes para empanar
a coxinha: um ovo, farinha de rosca. Modo de fazer a massa: descasque a macaxeira, corte em
pedaços grandes, coloque para cozinhar com água e sal, por 20 min. Depois
amasse a macaxeira com um garfo, adicione o óleo para untar a massa. Deixar
descansar por 30 minutos Para o recheio: corte o peito de
frango, coloque para cozinhar com água e sal por 30min. Depois, triture o
frango com uma faca, adicionando as verduras e os temperos levando ao fogo para
refogar por 15min. Para formar a coxinha: Retire uma
bola de massa, amasse na mão com trigo. Coloque uma colher de recheio e feche a
massa formando uma coxinha. Passe no ovo e na farinha de rosca. Fritar em óleo
quente.
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
Prosa & Panela – 2
Tainá
Vieira
Outro dia eu fiz uma coisa que
não tenho o costume de fazer, embora a maioria das mulheres o façam, digo, as
mulheres que cozinham. Eu cozinho. Era o dia de comer feijão; na minha casa
come-se feijão uma vez na semana. Preparar o feijão não é uma tarefa fácil como
parece. Primeiro antes de lavar os grãos, tem que catar ou escolher, isso
significa retirar as impurezas que vêm no saco de feijão. Coloquei os grãos
sobre a mesa e comecei a separar o joio do trigo, digo, comecei a separar o bom
feijão do feijão estragado. Há vários tipos de feijão, varias cores, tem feijão
preto, branco, vermelho e marrom; o meu era marrom. Da cor da terra. Às vezes
vem pedra junto ao feijão, pedra tem cor de terra, fica difícil ver, por isso é
necessário catar o feijão, antes eu só lavava, jamais havia feito o
procedimento de separação do feijão bom do feijão estragado. Pode-se encontrar também
milho junto ao feijão. 99% das pessoas já encontraram milho no feijão, e até
mesmo outras espécies de grãos. E vem terra, literalmente terra, aquela terra
cujo feijão foi semeado, onde ele nasceu, cresceu e depois, já maduro, foi
arrancado pelas mãos calejadas do trabalhador ou por maquinas assassinas de
grãos.
Ao trabalhador é concedido o perdão
por esse ato cruel. Pobre feijão, não queria sair dali, do seu habitat, o pé de
feijão. Não queria ir para a panela e depois para o estômago de pessoas
insensíveis. Algumas pessoas são tão cruéis no ato de comer. Comem com pressa
ou com os olhos fixos na tela da televisão ou do celular. Nem sentem o sabor
dos alimentos. Não respeitam os alimentos e, nem agradecem por tê-los à mesa.
Essas pessoas são incapazes de pensar em tudo o que os alimentos passaram para
chegar até seus pratos e mais, não imaginam o modo como eles foram preparados,
muitas vezes, estiveram numa cozinha suja, foram tocados por pessoas mal-humoradas,
cheias de sentimentos ruis (o bom ou mau humor de quem prepara a comida,
influencia o sabor e a digestão do alimento) e para lhe doer mais a vida, esses
alimentos vão ter fim em corpos de pessoas ingratas. Qualquer alimento tem
vida, assim como personalidade e sexo. O feijão é masculino. Vejamos o pé de
feijão, é fálico e seus grãos são duros, por isso, usa-se a panela de pressão
para preparar esse alimento. O principal elemento encontrado nele é o ferro, imprescindível
para o sangue. E quando já está pronto o
seu sabor é bem forte, marcante, diria que é um alimento poderoso, como um
macho mesmo, (entenda-se macho apenas como oposto de fêmea). Há quem coma
somente o feijão numa refeição por ele ser assim, tão forte. Eu sempre o preferi acompanhado de alimentos
brancos que são femininos, mas isso é outra e longa historia. O que eu estou
querendo dizer desde o inicio é que antes eu comia feijão uma vez por semana,
agora sou defensora desses grãos tão mal-encarados e subjugados por algumas
pessoas cruéis sem sentimentos. Apesar de toda sua masculinidade o feijão sofre
tanto, dói-me ver homem sofrer.
domingo, 8 de novembro de 2015
sábado, 7 de novembro de 2015
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
Marcileudas 5/7
O trombadinha na esquina
deixa passar a velhinha
para então, como um felino,
tomar-lhe a bolsa e o cordão.
Na fuga, encontra uma Ronda,
que lhe dispara um balaço,
abrindo um baita buraco
na altura do coração.
O corpo no chão caído,
a velhinha se aproxima,
fazendo o sinal da cruz;
e com o dedo em riste aponta
o polícia matador,
balbuciando este mantra:
era só uma criança...
era só uma criança...
(Zemaria Pinto)
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