sábado, 12 de dezembro de 2009
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Zemaria Pinto escreveu seu “roteiro para depois da minha morte (ii/iv)”:
não permita que eu vegete
ou degenere no abismo
da insanidade:
apressa o fim
sem temer a dor
que não irei sentir
Seus pequenos poemas são antológicos. Pois o poema quer que o sujeito morra, morra de uma vez, e não fique vegetando na cama de um hospital, e nem fique na insanidade senil, que outra forma de vegetar é. Pior que a morte, a insanidade. Que o fim seja rápido como o raio, sem medo da dor, que o morto não irá sentir, quem vai sentir são os outros, os amigos. Morrer não apavora, por que nada “sabemos” do que seja a morte. Não podemos temer o que não conhecemos. Para alguns, será a paz. Para outros, como a glória. Para os maus, o arrepender-se (?). Para os puros, sua pureza.
Algumas mortes foram exemplares, como a do iogue Vivekananda. Ele reuniu os discípulos, perguntou se algum tinha alguma dúvida. E no fim disse que ia “morrer”. Fechou os olhos e “retirou-se”. Simplesmente, morreu ali mesmo.
Alguns dos grandes místicos do Tibet realmente não “morriam”. Transformavam os seus corpos em luz, nas cores do arco-íris, e evanesciam-se na cara de todo mundo.
Houve grandes e belas mortes entre as pessoas comuns que conheci. Meu tio Alberto Souza, de Manaus, estava na sala vendo TV com a mulher. No intervalo, Luzia perguntou:
– Alberto, você quer um café?
Quando ela voltou, ele estava morto.
Outra bela morte foi a de meu grande amigo Nathanael Caixeiro, escritor, violinista e tradutor de dezenas de livros (veja no Google). Ele acordou cedo, fez passear o cachorro, afinou o violino, sentado na cama. Sua mulher perguntou se ele queria um café. Quando ela voltou, ele estava morto.
Dias antes me visitou à toa, apareceu sem mais nada. Esteve em minha casa, ouvimos Mozart, conversamos sobre música. Ele era cultíssimo. Depois fomos até a praia vermelha ver o mar.
Era uma despedida e eu não sabia.
sem temer a dor
que não irei sentir
.
(*)Publicado originalmente no blog de Rogel Samuel.
esticou os braços, um após o outro, as pernas, o corpo, os olhos ainda pesavam sonolentos, bocejou, que vida mais besta, meu deus.
indiferente aos reclamos da mulher, permaneceu mergulhado na rede. agora sonhava com urubus voando, planando, festejando as nuvens que se arrastavam ameaçadoras.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
malditas criaturas infernais 2
O aprendiz de imperador, dedo em riste na direção do supersecretário, pouco menor que um anão de jardim, vociferou:
– Melou tudo, seu bosta, melou tudo!!! Não quero mais ver você na minha frente! Amanhã mesmo você vai pro TCE!
O corte separando o antes e o depois, nos saberes da Medicina como Paideia, encontra-se no livro Das Doenças Sagradas, de autor desconhecido, do século 4 a.C.:
Os integrantes da Escola de Cós construíram o maior legado da Medicina como Paideia: a teoria dos Quatro Humores, aqui considerada como primeiro corte epistemológico da Medicina. Na realidade, a proposta teórica uniu elementos reconhecidos da Filosofia e da Medicina. Para cada elemento de Empédocles foi associada uma categoria teórica, capaz de unir com coerência as qualidades da natureza com as do corpo.
A teoria dos Quatro Humores, atribuída a Políbio, está descrita no manuscrito Da Natureza do Homem (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855:
A Medicina como Paideia saltou do domínio casual e ametódico para o método construído em torno da busca da etiologia nos desequilíbrios dos humores. O diagnóstico acompanhava o prognóstico e a terapêutica para identificar o excesso ou da falta do humor desequilibrado. Como consequência, os tratamentos se voltaram para excretar as sobras por meio de vomitórios, sudoreses, diureses, diarreias e sangrias. O prognóstico se materializava na boa ou na ausência de resposta à terapêutica.
A aceitação da teoria dos Quatro Humores por alguns médicos da Escola de Cós, não atenuou os embates com alguns filósofos, em certa medida, defensores da medicina-empírica e da medicina-divina, ambas livres das medidas de mensurações impostas pelo entendimento jônico da natureza.
Esses conflitos aparecem em dois textos:
- O filósofo Heráclito de Éfeso (540-470), de genialidade exclusiva, é contundente na antipatia aos médicos (Os Pré-Socráticos: fragmentos, doxografia e comentários. 2. ed. São Paulo. Abril Cultural. 1978. p. 297: “Os médicos, quando cortam, queimam, e de todo o modo torturam os pacientes, ainda reclamam um salário que não merecem, por efetuarem o mesmo que as doenças”;
- O autor desconhecido de Sobre a Medicina Antiga, do século 4 a.C., testemunha certo conflituoso entre alguns médicos e filósofos, no qual repudiaram de maneira enfática, a generalização de todas as doenças estarem estritamente ligadas somente aos quatro elementos de Empédocles: (DAREMBERG, 1855. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855: “1. Que no caso de um doente afetado por uma alimentação crua e curado por uma alimentação cozida, não é possível dizer o que foi eliminado da direita, se o calor, se o frio, se a umidade ou a secura; 2. Que não existe um quente absoluto que possa ser misturado para curar o frio, uma pessoa tem de tomar água quente ou vinho quente ou lente quente e a água o vinho e o leite tem propriedades diferentes que serão mais eficazes do que o calor”.
Em alguns trechos da mesma obra, Hipócrates também sustenta que o corpo humano é composto por grande número de coisas de naturezas diversas: salinas, amargas, doces, ácidas, adstringentes, insípidas etc.; e não só de quatro componentes. Essa posição hipocrática é intrigante porque, em última análise, pode ser entendida como resistência à teoria dos Quatro Humores do genro Políbio.
De certo modo, a contestação hipocrática traduz o conflito que alcançou outros filósofos para reduzir a saúde e a doença somente aos quatro determinantes da teoria doa Quatro Humores (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra). É possível que os médicos da Escola Médica de Cós tenham sofrido influência de Alcméon, filósofo e médico de Crotona, no Sul da Itália, que admitia um grande número de forças atuando nos corpos (Thivel, Antoine. Cnide et Cós? Paris. Les Belles Lettres. 1981. p. 289-383). No livro Da Natureza do Homem, atribuído a Políbio, na mesma época, ressalta as idéias de Alcméon (Jouanna, J. Hippocrate et l’École de Cnide. Paris. Les Belles Lettres. 1974 p. 137- 174), o defensor da ideia de a saúde ser dependente do equilíbrio de múltiplas forças dinâmicas e a doença seria o predomínio de uma sobre as outras.
Platão (República 407b-c-d-e) adotou o modelo médico dos tempos homéricos. É possível que essa leitura platônica tenha contribuído para ativar o conflito de competência entre a Medicina, voltada à interpretação da natureza por meio da tékhne, e a religião. Em aparente contraditório, Platão retoma a Medicina como téhkne ao distinguir as diferenças entre as práticas Medicinais entre pobres e ricos. O filósofo critica o modo como os médicos dos escravos correm de um paciente para outro e dão instruções rápidas sem falar com os doentes e os compara com os médicos dos homens livres (Leis 720a-b-c-d-e):
Em certos aspectos, médicos e filósofos estavam de acordo. Tanto Platão (Platon. Oeuvres Complètes. Paris: Ed. Gallimard. Bibliothèque de la Pléiade. 1950. v.1, v.2. Banquete, 186-187) quanto Hipócrates (Darembrg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris: Labe Éditeur. 1855), reconheceram como insofismável a obrigação do médico em esclarecer o doente de todos os aspectos da enfermidade. Aristóteles (Aristote. La Politique. Paris: J.Vrin. 1989. I, 11, 1282) vai mais longe e distingue o médico do homem culto em Medicina, estabelecendo o espaço que cada um pode ocupar nas suas funções específicas.
A relação da medicina-oficial com a natureza que os gregos tão bem assimilaram ao atingir o social, em sistemas de valores e respostas claramente configurados, reforçava-se como Paideia. Nesta perspectiva, foi evocada por Sólon ao descrever os elos entre as doenças pessoais e coletivas com a desorganização social. Baseado nesta relação, esse legislador fundamentou parte do seu pensamento político afirmando que as crises políticas interferiam na qualidade da saúde de uma população.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
(William Shakespeare, Macbeth – Ato V, Cena V)
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Tenório Telles
Os fracos e ignorantes dissimulam a própria fragilidade e ausência de esclarecimento pelo uso da presunção e da arrogância. Quando não, extrapolam do poder de que estão investidos para impor suas vontades e interesses. A empáfia e a grosseria tornaram-se tão comuns que são encaradas socialmente como sinais de força e autoridade. Esse tipo de conduta contaminou as relações entre os indivíduos. Neste tempo de inversão de valores, civilidade e tolerância são virtudes banidas do convívio social.
Incomodou-me uma cena que testemunhei esses dias: num encontro com algumas autoridades e convidados, em meio ao diálogo surgiu uma divergência de ponto de vista entre o representante de um órgão público e seu superior. Para surpresa dos presentes, o funcionário foi desautorizado publicamente e instado a se calar. Nervoso e constrangido pediu desculpas a seu chefe. O mal-estar era evidente. Humilhado, retratou-se, quando deveria ter sido o contrário. Assistimos diariamente a exemplos como este de incivilidade e falta de cortesia e respeito pelo outro. O pior é que as pessoas que, normalmente, agem assim não são nenhum exemplo de correção.
Pus-me a refletir sobre o porquê de pessoas agirem dessa maneira: se seria ausência de formação, de valores morais, autodefesa! A explicação mais convincente encontrei nos argumentos do escritor Eder Siegel: “A arrogância sempre é o véu que está na iminência de ser despido para efetivamente mostrar a ignorância tal como é: nua, crua e feia de doer”. De fato, atitudes assim são sintomáticas desse mal que assola o nosso tempo: soberba, grosseria e o uso da força como solução para as divergências e conflitos. O pior de tudo isso é que a arrogância é apenas um dos passos do caminho que leva à violência, à brutalidade e à destruição dos outros. As palavras do sábio romano Plínio, o velho, são mais que esclarecedoras: “Pasma ver até onde pode chegar a arrogância do coração humano estimulada pelo menor êxito”.
Acredito ser a arrogância uma das consequências da falta de sabedoria. Um espírito esclarecido e nobre é incapaz de fazer uso desses expedientes para convencer ou dissuadir os outros dos seus argumentos. Até porque tem consciência das suas fragilidades e de seus limites. Os seres humanos elevados usam a força da argumentação e do convencimento para fazer valer suas ideias e princípios. Em nossos dias, raros são os líderes políticos que agem com serenidade e sabedoria. Tampouco com honestidade. Aliás, a arrogância é o instrumento que usam para intimidar e, assim, acobertar seus atos e aquilo que realmente são.
A soberba é uma doença. Causa sofrimento a quem é atingido pelo seu veneno. As consequências, entretanto, desse mal atingem principalmente o seu portador. O arrogante é a maior vítima da arrogância: torna-se indiferente à dor que causa e, por acreditar que está certo, não reflete sobre seus atos. Pelo contrário, compraz-se com a sua dureza. O arrogante torna-se um ser enfermo, descontrolado e megalomaníaco. Por se achar superior e melhor que os outros, acredita que todos devem aceitar suas grosserias. O destino desse tipo humano é a solidão e a loucura. É preciso ter cuidado com ele, pois impõe-se destruindo a autoestima alheia. O poder que detém é aparente, esgota-se na força momentânea que possui e não na sua autoridade. Como ensina a sabedoria judaica: “A arrogância é o reino – sem a coroa”.
domingo, 6 de dezembro de 2009

Dia 21 de dezembro, de 19h às 21h, em Teresina, PI, acontece na Livraria Nova Aliança o lançamento do romance de estreia de Dílson Lages Monteiro. O morro da casa-grande ambienta-se em Barras-PI, em meados do século XX, quando a vida ainda era essencialmente agreste. Cidade e campo praticamente se confundiam e as distâncias pareciam não ter fim. As fazendas ainda estavam de pé como elemento concentrador de renda, mas o modelo socioeconômico já dava sinais de ruína.
Começava a se formar um aglomerado urbano mais vigoroso, mas negligente às tradições e ao patrimônio cultural. Agredia-se, no silêncio da omissão, a identidade de um núcleo populacional fundado entre a fazenda e a igreja.
Os costumes da vida rural, a infância, a velhice, a morte, a desigualdade social e a fé são alguns dos temas pelos quais transitam Genésio, Marciano, coronel Custódio, coronel Alberto e outros personagens vigorosos em emoção.
A Livraria Nova Aliança localiza-se na rua Olavo Bilac, ao lado do prédio novo do Colégio Diocesano. Fone: (86) 3221-6793.
sábado, 5 de dezembro de 2009
“Canto Geral” é o novo trabalho do cantor e compositor amazonense Pedrinho Ribeiro, que será apresentado ao público manauara, na noite de hoje e no póximo sábado, no Espaço Cultural Fino da Bossa.
No show, Pedrinho Ribeiro apresenta um repertório diversificado, que inclui composições de sua autoria, músicas de compositores regionais conhecidos, de jovens compositores nacionais e também de compositores históricos da Música Popular Brasileira e internacional.
“A proposta é valorizar a produção amazônica, relembrar clássicos da MPB, e ao mesmo tempo apresentar ao público local trabalhos contemporâneos de qualidade e que são pouco divulgados, porque estão fora do circuito das rádios comerciais”, explica Pedrinho Ribeiro.
O cantor se apresenta em Manaus depois de passar o primeiro semestre em Nova York e Miami, nos Estados Unidos, tocando e cantando em bares e casas noturnas, especialmente dedicadas ao gênero Bossa Nova.
Sua experiência no exterior também inclui passagens pela França e Espanha, onde esteve no final da década de 90.
Mas como todo caboclo parintinense, como ele mesmo gosta de se apresentar, não consegue passar muito tempo longe da sua terra, de seus amigos, de sua família. E a cada retorno, surge com novas ideias e projetos, que às vezes são concebidos a partir de simples conversas entre amigos.
Foi assim que ele teve a idéia de realizar o show “Canto Geral”, com esse formato diferenciado, reunindo músicas regionais, nacionais e internacionais.
"Alguns amigos comentavam que depois que Manaus ganhou ares de metrópole, nos últimos anos, é raro ouvir músicas de artistas amazonenses ou mesmo de outros estados da Amazônia em bares ou nas emissoras de rádio, principalmente aquelas músicas produzidas nas décadas de 80 e 90, que marcaram época", analisa.
"Por outro lado, afirmavam que há na cidade um segmento de público que ainda aprecia bastante esse tipo de repertório. Outros chamavam atenção para os novos talentos da música contemporânea, que incorpora novos sons e ritmos ao samba e à bossa nova. Assim, resolvi reunir tudo isso, e oferecer ao público um repertório bem variado. Afinal, boa música não tem estilo, nem tempo, nem fronteiras", garante.
Repertório
Sob a direção musical de George Jucá, o repertório escolhido para o show “Canto Geral” divide-se em três partes, permeadas com músicas de autoria própria de Pedrinho Ribeiro, entre elas “Igarapé dos Currais”, “Yara”, “Tributo a Joãos e Marias”, “Bossa Pávula”, “Água doce” (parceria com Orlando Farias) e “Caça ferida” (parceria com João Thomé).
Um momento é dedicado a compositores regionais consagrados, como Chico da Silva ("Amazonas"), Anibal Beça ("Hoje é Domingo"), Paulo André e Rui Barata ("Pauapixuna"), Fred Góes ("Itaracuera") e George Jucá e Antônio José Nápoles ("Amazônia").
Outra parte do show é dedicada a compositores clássicos da MPB, como Milton Nascimento e Fernando Brantes ("Nada será como antes"), Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieiri ("Upa neguinho"), Billy Blanco ("Banca do distinto"), Gonzaguinha ("Sangrando"), Chico Buarque ("Roda Viva"), Geraldo Vandré e Theo de Barros ("Disparada") e Sérgio Ricardo ("Deus e o Diabo na Terra do Sol").
Por fim, a apresentação de músicas contemporâneas, que segundo Pedrinho Ribeiro traduzem a proposta do show, de reunir passado e presente, sem fronteiras, misturando samba, disco, soul music e drum’nbass.
"Esses jovens músicos brasileiros, como Fernanda Porto e o grupo internacional Eldissa foram escolhidos pelo trabalho diferenciado e por serem pouco conhecidos do público em geral", avisa.
SERVIÇO
Local: FINO DA BOSSA
Av. Max Teixeira, Tv. S.Judas Tadeu n.3- Cidade Nova.
Datas: 05 e 12/12/09
Hora: 22:00
Mesas: R$ 40,00 (4 pessoas)
Contatos: 9192-7428 / 8225-1895
Músicos:
• George Jucá (arranjos, piano e contra- baixo)
• Neto Armstrong (violão e guitarra)
• Noval (bateria)
• Ianayra, Lívia Abreu e Liliane Araújo (Vocal)
• Alessandro Almeida (voz e violão) – Pré Show
Direção Musical – George Jucá
Produção Executiva – Valdecir Fragata e Livia Abreu
Iluminação: Naldo Gadelha
Cenário: Juarez Lima
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
o pescador ficou orgulhoso quando se reconheceu nas fotos, em cores, que ilustravam a reportagem da revista editada na capital. só não entende por que agora as mesmas pessoas desejam expulsá-lo do mundo primitivo em que sempre viveu: as gaivotas e garças repartem com ele a fartura de peixes, a areia branca da praia contrasta com o verde do mar e dos coqueiros, o vento e as ondas sussurram segredos, nas noites escuras e solitárias da ilha.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Desse modo, a Medicina como Paideia abriu o caminho para a dominação da medicina-oficial sobre a medicina-divina e a medicina-empírica. É possível que com esse objetivo central, os conceitos jônicos da natureza tornaram-se as principais medidas da medicina-oficial. As normas alcançaram os significantes das enfermidades entendendo-as como desvios da natureza e em maior amplitude, mudança na physis do homem.
É possível compor cinco alicerces fundamentais da physis embutidos na Medicina como Paideia:
- Como universalidade e individualidade: todas as coisas têm a sua physis própria, os astros, os ventos, as águas, os medicamentos, o homem com as suas partes e as doenças (Das Epidemias, distingue: “...a physis comum de todas as coisas, da physis própria de cada coisa”;
- Como princípio: a physis é o princípio (arkhé) de tudo que existe (Sobre os Lugares e o Homem, lê-se: “A physis do corpo é o princípio da razão da Medicina”).
- Como harmonia: na sua aparência e na sua dinâmica a physis é harmoniosa; é a ordem que se realiza com beleza. A natureza é harmoniosa e produz harmonia;
- Como racionalidade: a natureza é racional em si mesma. Por esta razão existe uma fisiologia; a ciência na qual o logos do homem se harmoniza diretamente com os logos da natureza;
- Como divindade: a physis é em si mesma divina.
É possível que esse caráter divino da physis estivesse transparecendo a necessidade de o senso comum manter a medicina-oficial ligada à medicina-divina e à medicina-empírica ou, sob outra perspectiva, não ser possível a completa separação entre as três medicinas.
Esse é um dos aspectos mais interessantes na Medicina, na Grécia, do século 4 a.C.: mesmo sem ataques aos deuses protetores da saúde, em especial, ao deus Asclépio, os médicos de Cós e os filósofos estabeleceram elos duradouros entre o binômio saúde-doença com a natureza circundante, como está presente na introdução do manuscrito Dos Ventos, Águas e Regiões, de autor desconhecido, escrito no século 4 (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855. p. 1050):
Quem quiser aprender bem a arte de médico deve proceder assim: em primeiro lugar, deve ter presentes as estações do ano e os seus efeitos, pois nem todas são iguais mas diferem radicalmente quanto à sua essência especificada e quanto às suas mudanças. Deve ainda observar os ventos quentes e frios, começando pelos que são comuns a todos os homens e continuando pelas características de cada região. Deve ter presente também os efeitos dos diversos gêneros de Águas. Estas distinguem-se não só pela densidade e pelo saber, mas ainda por suas virtudes. Quando um médico chegar a uma cidade desconhecida para ele, deve determinar, antes de mais nada, a posição que ela ocupa em relação às várias correntes de ar, ao curso de sol (...) assim como anotar o que se refere às águas (...) e à qualidade do solo (...) Se conhecer o que diz respeito à mudança das estações e do clima, o nascimento e o ocaso dos astros, conhecerá antecipadamente a qualidade do ano. Pode ser que alguém considere isto demasiadamente orientado para a ciência, mas quem pensar assim pode convencer-se, se alguma coisa for capaz de aprender, que a astronomia pode contribuir essencialmente para a Medicina, pois a mudança nas doenças do homem, está relacionada com a mudança do clima.
As doenças deixaram de ser compreendidas isoladas e passaram a compor parte da busca da etiologia. Esse é um dos pontos fundamentais da medicina-oficial grega, do século 4, marcando a união entre a filosofia jônica e os conceitos de saúde e de doença. Entre as muitas consequências é possível identificar:
- Cada doente ficou compreendido como um doente, diferente de todos os outros;
- Desaparecimento gradual da receita médica que valia para todos, como uma receita de bolo.
O centro de confluência dessa nova estrutura aproximou-se da teoria dos Quatro Elementos, do filósofo e médico Empédocles (495-435 a.C.). Segundo esse magistral filósofo de Agrigento, os corpos são formados por quatro elementos eternos que permanecem em constante movimento: fogo, terra, água e ar.
Estava em curso, pela primeira vez, uma proposta teórica para explicar a origem das doenças, divorciada dos deuses e deusas. Toda e qualquer enfermidade seria consequência do desequilíbrio entre um ou mais elementos.
Como toda mudança profunda nos saberes, a passagem da medicina-divina e da medicina-empírica, ambas ametódicas, mais ou menos mágicas, para a medicina-oficial metódica, unindo o diagnóstico, prognóstico e o tratamento valorizando a busca da etiologia, encontrou resistência em muitos setores da sociedade grega. Para contornar esses estorvos, os médicos expunham, como os sofistas, perante o público, os problemas determinados pelas doenças que poderiam causar a morte e a dor fora de controles.
Não é demais repetir que Platão, sistematizou o pensamento corrente da época ao descrever a nova postura do médico e do político. Ambos, baseados nos respectivos saberes, deveriam sempre que necessário, intervir na sociedade para promover melhoras. O diálogo platônico estabelece alguns parâmetros da nova posição social do médico atuando como agente da Medicina como Paideia no magistral Político (296a-b-c) (Platon. Oeuvres Complètes. Paris. Gallimard. Bibliothèque de la Pléiade. 1950. v.1, v.2.):
Estrangeiro: — É interessante. Dizem, com efeito, que se alguém conhece leis melhores que as existentes não tem o direito de dá-las à sua própria cidade senão o que for necessário para promover melhoras na sociedade.
Sócrates, o Jovem: — Muito bem! Não estarão eles certos?
Estrangeiro: — Talvez. Em todo o caso, se alguém dispensa esse consentimento e impõe a reforma pela força, que nome se dará a esse golpe? Mas, espera. Voltemos primeiro aos exemplos precedentes.
Sócrates, o Jovem: — Que queres dizer?
Estrangeiro: — Suponhamos um médico que não procura persuadir seu doente, senhor de sua arte, impõe a uma criança, a um homem ou uma mulher o que julga melhor, não importando os preceitos escritos. Que nome se dará a essa violência? Seria por acaso o de violação da arte e erro pernicioso? E a vítima dessa coerção, não teria o direito de dizer tudo, menos que foi objeto de manobras perniciosas e ineptas por parte de médicos que as impuseram?
Sócrates, o Jovem: — Dizes a pura verdade.
Estrangeiro: — Ora, como chamaríamos aquele que peca contra a arte política? Não o qualificaríamos de odioso, mau e injusto?
A autoridade de Platão não foi suficiente para estancar as resistências dos curadores da medicina-divina e da medicina-empírica, que muito mais numerosos do que os médicos de Cós, promoveram manifestações públicas contra a nova força da Medicina como Paideia junto ao poder político.










