Chuva
Celestino Neto
O Sol canta todas as manhãs
no meu quintal
os pássaros o anunciam
as plantas o procuram
as crianças lambuzam-se
com seus raios
Da minha varanda
ouço seu clamor diário
na escuridão de mim
ensaios, contos & outras prosas
Chuva
Celestino Neto
O Sol canta todas as manhãs
no meu quintal
os pássaros o anunciam
as plantas o procuram
as crianças lambuzam-se
com seus raios
Da minha varanda
ouço seu clamor diário
na escuridão de mim
De
repente, numa segunda-feira típica e preguiçosa, embora ainda em pandemia, o
mundo se pergunta: “What’s up?”. Expressão em Inglês que significa “E aí?” ou “O
que houve?” O nome para o aplicativo “WhatsApp”, é, com certeza, uma brincadeira
linguística entre a expressão “What's up?” e a palavra “app” que significa
aplicativo.
Falantes
de espanhol se perguntavam: “Que se pasa?” e franceses, por seu turno:
“Qu’est-ce qu’il y a?” ou “qu'est-ce qui se passe?”
O fato
era que WhatsApp, Facebook e Instagram sofreram uma interrupção geral. O
porta-voz dos aplicativos usou o Twitter para explicar:
– Sabemos
que muita gente está com problemas para acessar nossos aplicativos e produtos. Desculpem,
algo está errado. Estamos trabalhando nisso e vamos solucionar o problema o mais
rápido possível.
Simples assim? Mas o mundo inteiro continuava
a perguntar: what’s up? E aí? As consequências dos aplicativos fora do ar
causaram forte queda nas ações em bolsas de valores. Mr. Zuckerberg amargou
abalo sísmico em sua fortuna.
Quem trabalha
na área do Direito junto aos tribunais país afora está acostumado a ter
problemas para acessar os sistemas, em especial o famoso Pje. Nós, manauaras,
estamos acostumados com as inconsistências da internet oferecida pelas
operadoras que nos servem. Infelizmente, nós amazônidas, não desfrutamos da
mesma qualidade e do mesmo serviço que as operadoras oferecem aos sudestinos e
sulistas.
A
interrupção do WhatsApp causou prejuízo não só aos seus acionistas. Os pequenos
empresários e a população em geral amargaram muitos danos. Alguns irreparáveis.
Houve abalos até nas relações familiares e entre amigos. A comunicação por
WhatsApp tornou-se muito utilizada em várias situações e por vários públicos de
interesse.
A
verdade é que esses aplicativos, em especial o Facebook, estão sob a pressão de
governos, ONGs e da sociedade organizada. Todos preocupam-se em evitar
desinformação, ódio, fake news e conteúdo impróprio para crianças.
A
sociedade pressiona por leis e pela aprovação de novas regras que sejam
eficazes para as proteções online. Tudo isso é muito válido. Mas para Tia
Idalina foi uma segunda-feira atípica. Ela mandou um Twitter dizendo que “ficar
sem zap zap foi um horror. De última.”
Exercício n° 5
Lua Passos
Pássaros que trazem o verão
O canto ilumina o dia
Voar sem qualquer razão
E nem descansar podia
Varanda que abriga sonhos
O bico é cor de marfim
A tela que mostra a vida
A vida que sai de mim
Completo, porém recluso
E nem protetor eu uso
A chama que vem de mim
Abriga o começo e o fim.
Pedro Lucas Lindoso
Houve
uma época em que as pessoas famosas, as celebridades e/ou mesmo as admiradas
por alguns poucos, eram solicitadas a dar autógrafos. Em hall de hotéis,
aeroportos, saídas de shows ou qualquer lugar público havia alguém muito
conhecido dando autógrafo a algum fã. Hoje a moda é pedir uma “self”. Ou ser
fotografado pelo celular.
Não
sou, obviamente, uma celebridade. A primeira vez que me pediram um autógrafo
foi após uma apresentação de “slides” sobre o Brasil. Era estudante de
intercâmbio em Ohio, nos Estados Unidos. Fui convidado a falar sobre o Brasil
numa Junior High School (escola de ensino fundamental).
Nos
anos setenta não havia celular, Internet nem datashow. Eu tinha uma pequena
coleção de “slides” sobre o Brasil. Fotos do Rio, Brasília, São Paulo e, claro,
de Manaus, do nosso teatro e do encontro das águas. Eram a base de minhas “conferências” sobre o
Brasil. Um lugar exótico e desconhecido dos americanos do Meio Oeste, onde
morei na longínqua década de 1970.
Após
falar sobre o Brasil, mostrar meus slides e tocar umas músicas brasileiras num
gravador de fita cassete, eu fui aplaudido. E no final, vieram me pedir
autógrafos. Me senti importante pela primeira vez na vida.
A
segunda vez em que fui solicitado a dar um autógrafo foi por uma sobrinha. À
época, com seis anos de idade. Ela estava aprendendo e compreendendo as
relações familiares. Descobriu que eu não era um “tio” qualquer. Eu era tio
porque era irmão de seu pai. Um tio em sentido estrito, um tio de verdade, um
tio “completo”, como ela mesma me definiu. E, claro, peguei um cartão de
visitas e dei um autógrafo a ela.
Nos
lançamentos de meus livros, além da dedicatória, sou solicitado a tirar fotos
com as pessoas que me prestigiam. Apesar de não ser celebridade, sou admirado e
querido por alguns. Mas só me pedem fotos, nunca autógrafos.
Foi
então que semana passada aconteceu o terceiro autógrafo inesquecível. Uma
senhorinha de 92 anos, Dona Terezinha, quis me conhecer. Era minha leitora.
Havia lido meus livros, inclusive meu romance Oremos pela Guerra. Após
cumprimentá-la, agradecer pelo seu carinho e despedir-me, ela então me
surpreendeu:
– Um
autógrafo, por favor.
Dona
Terezinha tem um caderno capa dura com vários autógrafos. Há do Roberto Carlos,
Pelé, Elis Regina. Muitos artistas. Vários ex-presidentes e governadores. E
agora eu! Quanta honra!
Rosa de sombra
Pollyanna Furtado
No vermelho da sombra,
esconde-se uma rosa azul.
Rosa precária e triste,
sem pétalas nem odor.
Aquela mancha fria,
dissolvida ao pé da porta,
de talos inacabados
e é sombra, coisa morta.
Eu vi uma rosa rude
se fechar na boca da noite.
Sem ressoar de sinos.
Rosa venosa de Vênus,
venenosa.
Matéria lendária de sonho,
um vulto apenas na manhã.
Nem um pássaro quis beijá-la.
A rosa se desfez.
Pedro Lucas Lindoso
Dar sem
nada pedir em troca. Um dos maiores ensinamentos de Jesus foi: “amai-vos uns
aos outros”. Mas no dia a dia nossos atos de amor são geralmente direcionados a
pessoas que de certa maneira irão retribuí-los.
Antes
de ir para o aeroporto, ao retornar a Manaus, resolvi comprar um lanche frio em
supermercado de Brasília. Os preços de qualquer coisa dentro dos terminais de
aeroporto são escandalosamente caros.
De
posse de um sanduíche natural e suco entrei na fila do caixa rápido. Na minha
frente, um casal pagava por café, açúcar, arroz, um frango e um pacote de carne
moída. De repente, o jovem senhor, abre a carteira e com tristeza diz para a
caixa: “Não vou levar o frango e nem a carne”.
Eu
então o interrompi e me ofereci para pagar pela proteína. O rapaz então disse
que aceitava o empréstimo. Perguntou onde poderia me devolver o dinheiro. Eu
respondi que não morava em Brasília. Que não se preocupasse. Aprendi no Movimento
Escoteiro a fazer uma BA (boa ação) por dia. A jovem senhora que o acompanhava
me interrompe e diz:
– É
para alimentar nossos filhos. Nós trabalhamos. Eu e ele. É que as coisas estão
caras mesmo. Muito obrigado.
O casal
se retirou agradecido. Ao pagar pelo meu sanduíche vi a moça do caixa,
emocionada, com lágrimas nos olhos. Disse-me que estava triste e com dor de
cabeça. Aquele meu gesto havia produzido nela uma sensação de bem-estar. Era
como se tivesse tomado um remédio.
Eu
também senti uma sensação boa com meu gesto. Da porta do mercado o casal sorriu
para mim. A jovem senhora fez um gesto de coração com os dedos da mão. Imaginei
que eles também sentiram a mesma sensação de prazer relatada pela moça do
caixa.
A minha
BA (boa ação) havia produzido uma sensação fisiológica de prazer não só para
mim, mas para mais três pessoas.
No
avião, ofereci meu livro “Crônicas da pandemia” ao senhor que estava ao meu
lado. Ele disse ser médico endocrinologista. Gostava muito de ler. Meu gesto o
havia proporcionado uma carga extra de ocitocina. Perguntei-lhe o que era
aquilo. Então ele me explicou:
Ocitocina
é um neurotransmissor natural produzido pelo hipotálamo. Promove confiança,
empatia, estabilização emocional e bem-estar. É bastante relaxante também.
Alguns dizem que é o hormônio do amor, da caridade.
Fiquei
muito feliz. Havia proporcionado doses extras de ocitocina àquelas pessoas.
Precisamos todos de muita ocitocina.
Pequena elegia para o meu pai
Inácio Oliveira
Meu pai trabalhou muito,
dançou muito,
amou muito,
sofreu muito e foi muito feliz.
Depois ele foi se cansando,
hoje ele me olha mas não me vê.
Já não me abraça,
perdeu a força,
perdeu a graça,
perdeu o tato,
ficou preso no porta-retrato.
Pedro Lucas Lindoso
O
grande filósofo italiano Norberto Bobbio trouxe para a filosofia contemporânea
o conceito de “mitezza”. O vocábulo italiano é traduzido como serenidade,
moderação, mansidão.
Por seu
turno o francês Sartre, pai do Existencialismo, nos ensina que somos livres,
condenados a ser livres. E temos que fazer escolhas. Isso às vezes é
angustiante. O Brasil vive um momento de extremismos. A Nação está polarizada.
Escolher é parte da nossa existência. Não temos opção de não escolher. Não
fazer nada. Não escolher é uma escolha.
Minha
escolha pessoal é pela “mitezza” de Bobbio.
Verifico que a sociedade se tornou violenta. A polarização política
retroalimenta essa violência, criando inimizades, opressão, medo, desconfiança.
O que nos resta a não ser a esperança? Esperança de que o bem vai vencer.
E
repito, me agarro no conceito de “mitezza”, compreendido como mansidão:
“Bem-aventurados os mansos porque eles possuirão a terra”.
Essa
proposta de “mitezza”, de mansidão, não deve e não pode ser confundida com
submissão nem tampouco com humildade. Nós, cidadãos brasileiros, devemos deixar
a força, o confronto, os acordos para a seara da política e seus agentes. Nós,
enquanto povo, enquanto sociedade em comunidade, devemos exercer a “mitezza”,
reconhecendo no outro a beleza e a necessidade de bem se relacionar.
No
“Louvor à Mitezza”, Norberto Bobbio ensina que, para responder à violência, nós
traímos a “mitezza”, desconsideramos a nossa própria mansidão. São as escolhas
angustiantes que temos que fazer, como nos lembra Sartre.
Bobbio
explica que a “Mitezza”, ou seja, a mansidão, na verdade, não é uma virtude
recíproca: “O manso não pede, não exige qualquer reciprocidade: a mansidão é
uma disposição para com outros que não precisam ser pagos para se revelar em todo
o seu escopo.”
O
Brasil parece estar numa encruzilhada. As cartas estão dadas. Devemos ter
responsabilidade para deixar e oferecer às novas gerações um país melhor, mais
desenvolvido, mais igual e próspero. E penso que para isso é necessária a
“mitezza”, a mansidão. Abominando a agressão. Temos que construir uma sociedade
onde ninguém seja covarde. Que possamos ouvir a voz dos que não têm voz.
Precisamos fazer renascer a justiça e a verdade. Mas com “mitezza”, sem pisar
ou vilipendiar ninguém.
Não sou caboco à toa!
Rojefferson Moraes
Não sou caboco à toa!
Sou curumim desvairado
Mendigo de roda de pinga
Comedor de farinha puba
Não sou “caboco” à toa!
Sou o que, sob sol escaldante,
Sentado nas escadas desbotadas,
Corta um limão
E toma um caldo quente
De jaraqui amargo!