O
início de ano é uma época propícia para se fazer planos. Muitos, como eu,
consideramos importante fazer alguns propósitos para o ano que se inicia. Neste
ano o meu objetivo é ser leve. Buscar leveza. Em tudo e por tudo. Leveza
pressupõe e tem o caráter do que é singelo, delicado. É o que procuro:
singeleza, airosidade, frescor.
Enfrento
um problema de saúde. Estou temporariamente com dificuldades de locomoção em
razão de queda e posterior cirurgia na coluna. Com as pernas pesadas, desejo
torná-las leves e ágeis. Conto com minha força de vontade e ajuda de
fisioterapia. Além de uma carinhosa rede de apoio de amigos e familiares. Sou
imensamente grato a todos.
Tenho
consciência de que para obter leveza e mobilidade é preciso que eu faça
exercícios físicos. Leveza e mobilidade é vida. A morte é dura e inflexível. É
só observar o bambu. É forte e flexível. E se deixa balançar com o vento em
poética e natural leveza.
Quero
também ser leve com as pessoas que convivo. Não vou exigir deles expectativas.
Mesmo porque seriam expectativas minhas e não deles. Assim me torno mais leve.
Para mim e para os outros.
Também
não vou procurar fazer mapas, planilhas ou projetos mirabolantes. Vou seguir os
caminhos que a vida, com suas surpresas, me proporcionar. Como diz a música:
“deixa a vida me levar”. E, claro, com leveza! Quero estar sem mochilas e sem
maletas. Com as mãos e com a alma vazias. Leves.
Vou
também procurar encarar o tempo sem ansiedade. Acatar as novas oportunidades
com calma e serenidade. Talvez esse seja o propósito mais difícil. Mas é
consequência primordial do propósito principal. Ou seja, procurar a leveza.
Não
permitirei que pessoas me coloquem fardos. Alguém poderá me ofender ou me
perturbar. Então vou fazer todo um esforço. Não só para perdoar, mas para
esquecer. Aprendi com meu pai a soprar ofensas e problemas. Sim, soprar!
Impelir o ar com a boca. O ar se desloca de dentro de você levando a ofensa.
Ah! Não podemos esquecer que o sopro serve também para refrescar, refrigerar. O
corpo e a alma!
Quanto
aos desejos de consumo, sou um privilegiado. Ando pelos shoppings e vejo muitas
coisas das quais não necessito. Mesmo que não tenha os objetos e coisas que
desejo, que eu possa encarar o não ter com leveza.
Desejo
a todos um 2024 com menos estresse e mais momentos alegres. Menos preocupações
e mais otimismo. Menos pressa e mais bom humor. Menos cansaço e mais vontade. E
sobretudo mais leveza!
Elson Farias tem boa
parte de sua obra alicerçada sobre o modo de viver interiorano, reflexo de sua trajetória
e experiência. Seus poemas são espontâneos, especialmente na série dos
“romances”, falando da vida do homem da Amazônia e – acrescentaria o próprio
autor, na epígrafe de um de seus livros – da sua fantasia.
“Romance do banho” estava
no primeiro livro de Elson Farias, Barro
verde, de 1961. Posteriormente, em 1985, o autor publicou Romanceiro, onde reuniu as suas
composições com características de romances: poemas narrativos, vazados, quase
sempre, em redondilhas maiores, sem rimas, tratando de “casos” típicos da vida
ribeirinha. Neste, o poema de que vamos nos ocupar está reunido a outros dois
sob o título “Três romances da infância”.
É importante ressaltar a
tradição do romance, de raízes medievais, narrativas de episódios aventureiros,
galantes e amorosos, guardando parentesco distante com o poema épico, reservado
às narrativas de maior fôlego, a celebrar as grandes conquistas nacionais. O
passar do tempo transformou a narrativa poética em prosa, dando origem ao
romance como o conhecemos hoje, mas a tradição na poesia permanece até nossos
dias. Não é leviano supor que Federico García Lorca (1898-1936), poeta espanhol
dos mais influentes do século 20, teve, com o seu Romanceiro Gitano, papel fundamental na formação do então jovem
poeta Elson Farias.
“Romance do banho” conta a
aventura vivida por um menino, talvez em seu primeiro “alumbramento”, para
usarmos a palavra cara a Manuel Bandeira, quando viu, o coração aos saltos,
“uma moça nuinha no banho”. O poema de Elson Farias registra o fato, em
primeira pessoa, ressaltando, com o recato possível, toda a sensualidade do
episódio.
Dividido em quatro
estrofes, separadas por um sinal que funciona como um separador temporal, o
poema tem quatro momentos distintos:
Momento 1. O poeta
descreve a moça, dando ênfase ao modo como ela anda. Essa escolha é bastante
feliz, pois nos coloca numa posição de voyeurs, observando a moça do mesmo
ângulo do menino. As imagens procuram ressaltar as formas da moça: morena
tostada / forte / cabelos claros / castanhos / de longas tiras / costa vincada
em curvas / calcanhar firme / andar arroliçado. Duas imagens ligadas a
animais reforçam o retrato da moça: esbelta como um cão, referindo-se ao
seu andar imponente; – eram cobras encravadas / no dorso de uma raiz,
alusão aos seus cabelos. Em poesia, a comparação do ser humano com animais se
dá para realçar sua beleza, fortaleza ou sensualidade. A primeira visão da moça
já “tocou” o menino em seus instintos mais primitivos, ainda, provavelmente,
desconhecidos.
Momento 2. A
moça, sem pressentir que é observada, começa a cantar e a se despir. O poeta
metaforiza a inocência da moça comparando-a a uma flor de papoula. Não custa
lembrar, entretanto, que essa flor contém substâncias entorpecentes, base para
a fabricação de drogas pesadas, como a morfina e a heroína. Esse duplo sentido
incita a dúvida no leitor mais experiente: a moça estaria agindo de caso
pensado? Nesse momento, o mundo entra em ebulição, para o menino, que mistura
as imagens percebidas, sem nenhuma ordem aparente, como se estivesse tonto:
patativas e anus; marimbondos, sol e vento; água e mel. A moça, um sorriso nos
dentes por trás dos lábios carnudos, começa a tirar a roupa.
Momento 3. Aqui temos nova metáfora animalizadora – as imagens de
poldros, potros, cavalos, têm nítida conotação sexual –, ressaltando aquilo que
já percebíamos no momento anterior: a volúpia sentida pelo menino, que não
sabia exatamente como agir diante da visão inusitada, e a consciência tênue de
que os “poldros” do seu instinto, rachando cones de pedra,
manifestavam-se duramente no seu “raciocínio mole”. Uma forma poética de dizer
que a visão o perturbava a tal ponto, que ele sentia-se fraco mentalmente,
temendo cometer, num impulso incontrolável, ações das quais depois poderia
arrepender-se.
Momento 4. Neste ponto, já algum tempo é passado desde que a moça
entrou n’água. Sabemos disso pelo tempo do verbo: “esfalfou-se”. Sabiamente, o
menino não saiu de seu lugar, observando-a, tentando adivinhar o que acontecia.
Ele imagina o corpo da moça na água, entre os peixes, os camarões; imagina seus
pés roçados pelos “gumes virgens” das escamas; o movimento das palmeiras como
línguas; as coxas da moça, e a “sombra escura” no fundo... Toda a sensualidade
esboçada na mente do personagem é transformada em linguagem pelo poeta. Por
derradeira, a imagem das anáguas brancas ao sol é o ápice da claridade
vislumbrada: prazer e revelação. O menino pode, enfim, relaxar.
Então, aos 25 anos, Elson Farias trabalha com as sutilezas da
linguagem, como um velho mestre, senhor do seu ofício: a primeira leitura é
apenas a superfície vislumbrada, a água cristalina, soprada pela brisa matinal.
Para saber o que há dentro da água espessa do poema, é preciso cultivar a
paciência necessária, e mergulhar no perau.
Se acaso uma alma se fotografasse
De modo que nos mesmos negativos
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face;
E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos... Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse
Mesmo em ligeiros traços fugitivos...
Poeta! tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando, deste grupo bem ao meio,
Que o mais belo, o mais forte e o mais ardente
Destes sujeitos, é precisamente
O mais triste, o mais pálido e o mais feio...
Manaus, 2 de fevereiro de 1905
(Remetido a Rodrigo Octavio, este poema foi escrito sobre uma
fotografia, onde Euclides posa com o grupo de trabalho que iria explorar o rio
Javari.)
Tia
Idalina é tão supersticiosa que ela pede às pessoas para não lhe relatarem
nenhum tipo de superstição. O motivo é simples: ela acaba tendo que adotar a
prática. E ela já não aguenta mais administrar tanto “conhecimento
supersticioso”, como ela própria me diz.
No ano
novo é um sofrimento. Principalmente quando está longe de uma praia e não tem a
oportunidade de pular as sete ondas.Certa ocasião estava num resort longe do litoral. Ficou aliviada ao
saber que no local havia uma piscina com ondas. Segundo ela, mesmo sendo
artificial o propósito foi feito e teve um ano maravilhoso.
Mas
fica tremendamente angustiada com relação às cores. Como se sabe, para cada cor
usada, magos e fadas, pitonisas, astrólogos e toda sorte de influenciadores de
simpatias e autoajuda espiritual, apresentam significados e objetivos diversos.
Isso deixa tia Idalina maluca.
Titia
gosta muito de se vestir de preto. O que é vedado para alguns daqueles
especialistas. Já uma outra disse a titia que o preto está aí para movimentar
seu ano, já que significa tomada de decisões, independência e autoridade. Não
convenceu Idalina.
Ela
sempre acaba usando branco mesmo. Afinal, o branco é um clássico para boas
energias. O sentimento é de paz, calma e pureza. Mas ela queria variar. Não que
estivesse com as finanças comprometidas mas dizem que o amarelo é elemento da
alegria e do dinheiro. Mas para quem quer ficar rico no ano que se inicia deve
apostar em um look dourado ou prata.
Uma
sobrinha de Brasília sugeriu a cor azul ou mesmo um laranja. Azul no ano novo
significa harmonia, honestidade e confiança. Já o laranja significa energia,
entusiasmo e coragem. A sua afilhada de Manaus sugere a cor verde ou o rosa.
Explica que o verde no ano novo atrai esperança, saúde e boa sorte. E que o
rosa representa o amor, afeto e o carinho.
Sua
comadre de Niterói aposta no lilás e no cinza. O lilás é a cor da
espiritualidade e do autoconhecimento. O cinza, além de sofisticado, representa
modernidade e flexibilidade. Ou então vermelho, que significa paixão, desejo e
intensidade
Idalina
quase tem um ataque cardíaco com tantas e diversas opiniões. Começou a ter
taquicardia. O que fazer então? Pagou uma nota e foi consultar a pitonisa do
momento. A moça está famosa aqui em Copacabana. Tia Idalina saiu de lá
satisfeitíssima com o parecer que lhe foi dado: O ano que finda é 2023. E dia
31 ainda é nesse ano. Então deve-se usar o violeta, segundo a cromoterapia e
numerologia. Na conta, se soma 2+0+2+3 = 7. 7 é representado pelo violeta.
Alívio total. Titia arrasou no seu vestido lilás, que segundo sua comadre é a
cor do autoconhecimento.
Ernesto Penafort é mais
lembrado por sua obsessão pela cor azul do que pela sua poesia. Apesar de
presente nos quatro títulos que publicou – Azul
geral, A medida do azul, Os limites do azul e O verbo azul –, o azul é apenas um dos
muitos símbolos que povoam a obra desse poeta, desaparecido em plena
inquietação criativa. E o que representa essa constância do azul na poesia de
Penafort? A mais densa das cores, o azul, em suas várias tonalidades, pode
significar o tudo e o nada. Imaginemos a abóbada celeste, num dia claro: vemos
o azul infinito, apenas – e pensamos em quão pequenos somos diante do cosmos
que se descortina sobre nós, mas do qual não vemos nada, além do azul... O azul
está presente nos quatro elementos: no ar, inicialmente invisível, mas representado
pelo próprio firmamento; na terra, nas várias gemas de tons azuis; na água,
especialmente do mar, profundamente azul; e no fogo, com suas labaredas azuis.
O azul é, portanto, símbolo de vida e de finitude, de ação e de morte. Uma das
três cores primárias, o azul é fundamento para a composição de outras cores.
Trata-se, portanto, de um símbolo muito forte. Penafort levou o seu uso à
exaustão, desde a mera expressão pictórica até a simbologia mais complexa, de
cunho espiritual. Mas os poemas que analisaremos, presentes tanto no segundo
como no quarto livro, não têm o azul por tema, embora sua presença seja
latente, na melancolia blues que
deles emana.
Ambos os poemas têm a
noite como tema, mas não a noite simplesmente, qualquer noite. “Do corpo, da
memória”, trata da “noite morta”; “Da dor maior”, da “noite líquida”. A locução
“noite morta” é de vasto uso popular, variante de “noite alta” ou “alta noite”.
Para compormos bem a imagem que o poeta quer transmitir não precisamos definir
um horário, mas as circunstâncias: silêncio total de atividades humanas; ruídos
noturnos, apenas. A noite aqui representa a solidão absoluta, o poeta em
companhia de si mesmo, unicamente.
O poema não permite uma
leitura linear; então, faz-se necessário estabelecer parâmetros para orientar a
leitura. As expressões “outras terras”, “outros mares”, “suor do corpo”, “luz e
longe”, “memória e tatuagem”, além dos verbos andar (“anda”, presente) e partir
(“partiu”, passado) são chaves para a compreensão da expressão poética, de
clara extração simbolista. O poeta, tendo por companhia a extrema solidão,
representada pela “noite morta” – os ruídos noturnos, que não deixam perceber nenhum
som que lembre o humano –, descreve as sensações que aquele momento único lhe
proporciona: a sensação mental (alheamento da realidade – “outras terras”,
“outros mares”) se funde à sensação física (“suor do corpo”), à realidade
imediata, na reiterada imagem da noite morta. O suor do corpo – outra imagem
enfatizada – é “memória e tatuagem” e está presente, trazendo a lembrança do
“suor de quem partiu”. Corpo e memória.
As imagens se confundem
como se o poeta estivesse mentalmente confuso, pois é exatamente essa a ideia
que ele quer passar. Por isso as imagens aparecem desestruturadas, como num
filme em que os quadros estivessem fora de ordem. A ideia é bastante simples: o
poeta sofre com a solidão e com as lembranças deixadas por alguém que partiu.
Essas lembranças, no meio da noite morta, noite quente que o banha de suor, traduzem
a ideia de que aquela ausência está fixada de tal forma em seu íntimo que a
percepção física do próprio suor o leva a sentir o suor da pessoa ausente. Essa
opção por uma aparência desconexa é facultada pela linguagem densa que o poeta
utiliza para comunicar a sua impressão da realidade.
O segundo poema é mais
complexo em sua simbologia: ao substantivo “noite” junta-se o qualificativo
“líquida”, remetendo-nos à ideia de “noite de água”, de imediato promovida a
“noite chuvosa”. Mas não é isso o que o poema diz. Observe que, desde a
primeira estrofe, está clara a distância entre o eu lírico e o objeto de seu
desejo: “te encontras distante”, “vontade minha / de te ter nos braços”. Esse
desejo irrealizado é o fulcro da percepção para a metáfora “noite líquida” – a
noite que passa como o rio de Heráclito, para quem nunca nos banhamos no mesmo
rio, porque as águas não se repetem nunca, renovando-se constantemente. A noite
líquida de Penafort passa como um rio, sem que o poeta possa detê-lo. É uma
situação de pesadelo: o tempo escoando com a certeza de sua irrecuperabilidade.
O tempo aquoso encontra seu par perfeito na noite silenciosa e quente.
A segunda estrofe guarda
uma dualidade:
belo seria
o momento em que
pudesse
de um só golpe
sorver-te
mesmo através dos
poros
deste corpo que
pulsa por ti.
“Sorver-te” a quem? À
noite ou à ausente? O primeiro impulso pode nos levar à segunda opção, mas o
que é líquido, isto é, “sorvível”, é a noite: sorvê-la fará com que ela, a
noite, desapareça. Mas, logo adiante, há a referência que negaria essa hipótese:
“deste corpo que pulsa por ti”. O problema se estende à terceira estrofe, onde
o sujeito novamente não está definido. Mas, aqui, ao contrário, o que é mais
belo que “o cântico dos cânticos” e “que dilata meu coração” já não é mais a
noite, com toda certeza. Essa aparente confusão demonstra o estado mental do eu
lírico, tal como no primeiro poema: fora de si, febril, delirante.
A última estrofe procura
explicar, numa linguagem cifrada, esse estado: “também me umedeço /
orvalhecendo-me por ti”. Apogeu da paradoxal dicotomia desespero-prazer, o
neologismo “orvalhecendo-me” é a pedra de toque desse poema que trata,
sobretudo, da dor maior da solidão. Uma solidão tão densa – tão negra e tão
azul – que exclui até os deuses e as estrelas do céu.
No poema “O poeta e seus
elementos”, Ernesto Penafort, um lírico por excelência, registrara: “o poeta é
um território / em permanente degredo”. Exilado do mundo e de si mesmo, o poeta
não cabe em si, em permanente conflito com o caos. Talvez seja esta a chave
para a compreensão de seus poemas: não lhes basta a simples leitura; é
necessário conhecer, senão a alma do poeta, as suas entranhas; os seus medos
jamais revelados, a não ser na criptografia dos poemas; os seus sonhos mais
recônditos; a sua solidão incorruptível.
Os
filmes americanos com temática natalina invadem as telas da TV e dos canais de streaming
nessa época do ano. A grande maioria aborda o tema da reconciliação e do
perdão. Normalmente as circunstâncias são difíceis ou até impossíveis. Daí
ocorre o “milagre de natal”. Geralmente, com um “happy end” no final. E muita
emoção para fazer os corações mais sensíveis chorar.
Minha
querida Tia Idalina armou uma situação bem parecida com o enredo desses filmes
água com açúcar produzidos em Hollywood. Titia preparou uma baita ceia de natal
com toque de culinária amazonense. Aliás, um almoço natalino do dia 25. Além do
tender, peru e bacalhau, havia pirarucu de casaca e torta de banana frita.
Farinha do arini e pirarucu seco providenciados com antecedência. Encomenda
levada para o Rio de Janeiro por casal de amigos que não perdem o réveillon
de Copacabana há mais de trinta anos.
Tia
Idalina armou o indefectível amigo oculto. Com seu prestígio, os sobrinhos
rumaram felizes para sua casa no dia seguinte ao de natal. E avisou: “Não é
comida que sobrou da ceia. Vai ser um almoço especial. Sem sobras nem ‘restô
dontém’”. Seu objetivo era reconciliar dois sobrinhos brigados desde a eleição
em que Haddad perdeu para Bolsonaro. Para começar, ela manipulou o amigo
oculto. Estudou todas as circunstâncias, amizades e relacionamentos para evitar
polêmicas. O objetivo era reconciliar os dois sobrinhos, ora inimigos mortais
por conta de opinião política divergente.
Os
dois haviam começado uma guerra com viés ideológico que perdurou toda a
pandemia. Os insultos e bate-bocas se davam via grupo de Whatzapp no
qual Idalina era a administradora. Titia fez de tudo para evitar que a política
ficasse de fora das conversas familiares. Não teve jeito!
Os
sobrinhos tinham, porém, uma coisa em comum: ambos eram católicos e haviam sido
coroinhas na infância. Estavam afastados da Igreja. Um porque havia se
divorciado e casado novamente. O outro tinha um relacionamento homoafetivo.
Ambos raramente iam à missa e não comungavam mais.
Tia
Idalina, inspirada na manifestação do Papa Francisco que permitiu a benção a
pessoas nessas situações, houve por bem convidar um padre para abençoar os
sobrinhos e seus respectivos. O jovem padre aceitou o convite e fez uma homília
memorável. Lembrou que o Papa Francisco recomendou aos padres o acolhimento e
reconciliação. Incentivando a benção às pessoas divorciadas e homoafetivas. O
padre ressaltou que a Igreja e as religiões devem oferecer sempre
possibilidades de perdão, acolhimento e libertação. O perdão liberta as pessoas
do rancor e do ódio que só fazem mal.
Depois
das benções, os primos se abraçaram emocionados. Foi um almoço memorável com
muita dança, alegria e perdão recíproco. Tia Idalina estava radiante de
alegria. Um milagre de natal à brasileira. Com toque amazonense e em
Copacabana.
·Poems
of the water and the land – Poemas da água e da terra
(1987, edição bilíngue)
·In natura – poemas para a juventude (1999)
·Cantos ribeirinhos e outros poemas (2002)
·A Amazônia de Alcides Werk – toda poesia (2004 – póstumo)
NA PRAIA DA PONTA NEGRA
Às vezes
tenho vontade
de andar
de jeans,
sermoderno,
fazerversosesquisitos,
gerarpalavras
estranhas,
somarasfaltocomlua,
misturarbrigas
de rua
comrosa,
comcal
e mar.
Mas, quandotesonho
nua
na praia
da PontaNegra,
comgestos
de pré-amar,
todo o meuser se acomoda,
e eu
volto a mevermenino
que sonhara serpoeta
emnoites
de romantismo,
e, conquistado, me
esqueço
das conquistasque faria:
minhaalmamansa flutua
nas águas
pretas do rio
e esvoaça sobre
a tua
comoumpássaro no cio.
NO ROADWAY
As águas
do Roadway são negras
porquesão
filhas do rioNegro,
ouporque
os homens as toldaram?
As águas
lavam tudo,
masnão
lavam a si mesmas.
Meupequenoespírito, absorto,
filosofa sobre
essas obviedades.
Já vi muitas pessoas
lavar o ladosujo de suasalmas
no rioNegro.
Estamos ficando velhos
precocemente
– eu
e o rioNegro.
IGARAPÉ DE MANAUS
A água,
que é mãe
da vida
(antespura, clara,
doce),
passaaí
prostituída,
triste, amarga,
poluída,
como se maternão fosse.
A lírica
de Alcides Werk tem duas vertentesbem acentuadas: uma, telúrica,
voltada para as coisas
da terra; outra,
confessional, onde a sensibilidade do poeta se
expõe, muitas vezes, perigosamente. Os poemas “Na praia
da PontaNegra”,
“No Roadway” e “Igarapé de Manaus” fazem
uma espécie de ponteentre uma e outravertente. Sãopoemasque
enfatizam a preocupação do escritorcom o meioambiente, porém no âmbito da cidade,
longe das paisagens
desenhadas emoutrospoemas, onde
sobressai a descrição da natureza e dos fenômenos,
inclusivesociais,
a ela ligados.
“Na praia
da PontaNegra”
é umpoema
de amor. O poeta
coloca-se numa posição conservadora, umhomem de meia-idade, que
compara a agitação da praia – outalvez da suacalçada – com o
moderno “jeito”
de fazerpoesia.
Talvezele
se imagine um seresteiro, um romântico, e aquela agitação
dos jovensnão
tenha nada a vercom a suapoesia. Quandoelefalaemsomar “asfaltocomlua”, porexemplo, a palavraasfalto denota a agitação
da cidade e soma-se ao jeans, ao tênis,
enquanto a palavralua é seucontraponto de sonho.
O asfalto, aquimesmo; a lua,
impossível, impassível
e inalcançável. Masquando
o poetasonhacomsuaamada, a praia
da PontaNegra
se transforma e torna-se aquelelugarbucólico
do seutempo
de menino, emqueeleapenas sonhava serpoeta.
Observe o jogoque o autor
empreende com as palavras:
“Mas, quandoeutesonho nua / na praia
da PontaNegra,
/ comgestos
de pré-amar”. Esta últimapalavra, composta,
a rigor, não
existe. No textoela
significa algocomo
“antes do amor”,
a frasetoda
seria “comgestos
de antes do amor”.
Mas se formos maisfundo, no âmagomesmo do poema,
“pré-amar” se relaciona diretamentecom “preamar”, palavraque
significa marécheiaounívelmáximo da maré.
Ou seja: “gestos
de pré-amar” também significa que a mulheramada está transbordando – no nívelmáximo da maré
– de gestos de amor,
de carinho. Observe que
essa sensualidade faz parte de umsonho: nãosão os corposque se
encontram, mas as almas.
E a alma do poeta esvoaça sobre a da mulher amada
“como umpássaro
no cio”. Numa referênciaexterior, lembro-me de umpoema de Manuel Bandeira,
chamado “A arte de amar”,
em que ele, depois
de falarsobre
a incomunicabilidade das almas, conclui afirmando: “Porque
os corpos se entendem, mas as almasnão”. Manuel Bandeira
escrevia numa época de negação
aos valoresespirituais,
emboraelemesmo cultivasse uma espiritualidadeque
parecia tímida, emface da exigência
materialista de algumas facções modernistas. Alcides, neste poema, declara-se romântico e avesso
ao moderno, e, consequentemente, ao Modernismo. Daí o seuposicionamentofrontalmentecontrário ao de Manuel Bandeira.
O poema
“No Roadway” conecta-se com o primeiropelouso do rioNegrocomometáfora. Em
“Na praia da PontaNegra” o rio
é o lugarqueguarda as lembranças
do poeta-menino e, no sonho, é o leito de amor
do poetaadulto.
Roadway é o nomeoriginal
do porto de Manaus, explorado inicialmentepelos ingleses da Manáos Harbour, ainda
no início do século 20. O poema é umalertaamargosobre os
vícios testemunhados peloporto, há um século.
A função do rioaqui é menosnobreque
no poemaanterior:
suas águas lavam “o ladosujo das almas
das pessoas” que
transitam pelo Roadway e porissovão
ficando mais escuras, vão se toldando, porquevão acumulando a sujeira.
E o poeta, impotente, conclui que
está envelhecendo juntocom o seurio – precocemente.
Esta últimapalavra
remete-nos de volta ao início do primeiropoemaemque o poeta declara ter “vontade” de parecerjovem,
estabelecendo uma segunda conexão.
O poema
“Igarapé de Manaus” é uma das mais belas páginas
da poesiaecológica
– se é que existe uma poesiaecológica.
Há muitotempo
dizia-se poesia engajada, de cunhopolítico.
“Igarapé de Manaus”, emsuascincolinhas, valeporumtratadosobre a destruição
de umriopor uma cidade
– ouporseus bárbaros habitantes.
Não há muito
a explicar: a singeleza
do poema, mesmo
usando uma palavraemlatim (mater, mãe – o que reforça o caráter mítico da figura), falaporsimesma. A água, mãe da vida, queumdiajá passou, poralimesmo, “pura, clara, doce”, agorapassa “prostituída, triste,
amarga, poluída” – queimagemterrível!
–, semmaisostentar a condição
de mãe. Pense numa pessoaque, depois
de muitotempo
afastada de suamãe,
encontra-a nessas condições descritas pelopoeta. É apenasisso. Poesiapanfletárianemsempre
é boa poesia. Alcides Werk, comseuimensotalentopara a indignação e seumaioraindaamorpela natureza, consegue, em
22 palavras, escreverumtratado
sociológico sobre o descaso e a
destruição. Masesse
sofrimento do Igarapé de Manaus vai acabar: como último ato dessa tragédia, vão
aterrá-lo.[1]
Na praia da Ponta Negra - No Roadway - Igarapé de Manaus
(Mauri Mrq-Alcides Werk)
[1]
Referência ao projeto Prosamim, de “saneamento” dos igarapés de Manaus, em
andamento quando da escritura deste texto.