Amigos do Fingidor

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

A poesia é necessária?

 

Aprendizagem

Juan Carlos Galeano


 

Com os primeiros estrondos da guerra e buracos

nas paredes, meus pais correram para a floresta.

 

Para me salvar me pintaram com as cores de uma arara

e me deixaram vivendo entre os índios.

 

Meu irmão cresceu na cidade estudando a vida interior

das pedras assoviando música clássica.

 

Quando me trouxeram de volta, meus pais liam os jornais

e a casa brilhava nos espelhos.

 

De minha parte, eu era feliz olhando os informes meteorológicos.



(Tradução: Thiago de Mello)



terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Leveza

Pedro Lucas Lindoso

 

O início de ano é uma época propícia para se fazer planos. Muitos, como eu, consideramos importante fazer alguns propósitos para o ano que se inicia. Neste ano o meu objetivo é ser leve. Buscar leveza. Em tudo e por tudo. Leveza pressupõe e tem o caráter do que é singelo, delicado. É o que procuro: singeleza, airosidade, frescor.

Enfrento um problema de saúde. Estou temporariamente com dificuldades de locomoção em razão de queda e posterior cirurgia na coluna. Com as pernas pesadas, desejo torná-las leves e ágeis. Conto com minha força de vontade e ajuda de fisioterapia. Além de uma carinhosa rede de apoio de amigos e familiares. Sou imensamente grato a todos.

Tenho consciência de que para obter leveza e mobilidade é preciso que eu faça exercícios físicos. Leveza e mobilidade é vida. A morte é dura e inflexível. É só observar o bambu. É forte e flexível. E se deixa balançar com o vento em poética e natural leveza.

Quero também ser leve com as pessoas que convivo. Não vou exigir deles expectativas. Mesmo porque seriam expectativas minhas e não deles. Assim me torno mais leve. Para mim e para os outros.

Também não vou procurar fazer mapas, planilhas ou projetos mirabolantes. Vou seguir os caminhos que a vida, com suas surpresas, me proporcionar. Como diz a música: “deixa a vida me levar”. E, claro, com leveza! Quero estar sem mochilas e sem maletas. Com as mãos e com a alma vazias. Leves.  

Vou também procurar encarar o tempo sem ansiedade. Acatar as novas oportunidades com calma e serenidade. Talvez esse seja o propósito mais difícil. Mas é consequência primordial do propósito principal. Ou seja, procurar a leveza.

Não permitirei que pessoas me coloquem fardos. Alguém poderá me ofender ou me perturbar. Então vou fazer todo um esforço. Não só para perdoar, mas para esquecer. Aprendi com meu pai a soprar ofensas e problemas. Sim, soprar! Impelir o ar com a boca. O ar se desloca de dentro de você levando a ofensa. Ah! Não podemos esquecer que o sopro serve também para refrescar, refrigerar. O corpo e a alma!

Quanto aos desejos de consumo, sou um privilegiado. Ando pelos shoppings e vejo muitas coisas das quais não necessito. Mesmo que não tenha os objetos e coisas que desejo, que eu possa encarar o não ter com leveza.

Desejo a todos um 2024 com menos estresse e mais momentos alegres. Menos preocupações e mais otimismo. Menos pressa e mais bom humor. Menos cansaço e mais vontade. E sobretudo mais leveza!

 

domingo, 14 de janeiro de 2024

Manaus, amor e memória DCLIII

 

Ao fundo, à esquerda, O Cineteatro Alcazar, depois Guarany;
à direita, o quartel da Polícia Militar.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Lira da Madrugada – Elson Farias 13/15


Zemaria Pinto

 

 

 

Ficha biobibliográfica

 

Autor: Elson Farias

Nome completo: Elson Bentes Farias

Naturalidade: Itacoatiara – AM

Nascimento: 11 de junho de 1936

 

Obra poética:

·       Barro verde (1961)

·       Estações da várzea (1963)

·       Três episódios do rio (1965)

·       Ciclo das águas (1966)

·       Dez canções primitivas (1969)

·       Um romanceiro da criação (1969)

·       Do amor e da fábula (1970)

·       Imagem (1976)

·       Roteiro lírico de Manaus em 1900 (1977)

·       Made in Amazonas (1978)

·       Palavra natural (1980)

·       Romanceiro (1985)

·       Balada de Mira-anhanga e outras aparições (1995)

·       A destruição adiada (2002)

·       Semibreves & exercícios de harmonia (2006)


ROMANCE DO BANHO

                             

 

Era morena tostada,

forte, esbelta como um cão,

os cabelos eram claros

de saboroso castanho;

longas tiras escorriam

na costa vincada em curvas

– eram cobras encravadas

no dorso de uma raiz;

o calcanhar era firme,

seu andar arroliçado,

as ilhargas mal roçavam

nas pregas da saia fina.

 

                *

Fendeu-se o cerrado verde

de patativas e anus,

filhos de caba, sol quente,

ventos gerais, água e mel;

ela vinha   – balde, cuia,

dentes expostos, carnudos

os lábios, flor de papoula

a cantar e a se despir.

 

                 *

Ela vinha, mas menino

balador de passarinhos,

não sabia descobri-la;

pressentia apenas vagos

sons das patas elegantes

dos poldros do meu instinto,

rachando cones de pedra

no meu raciocínio mole.

 

                  *

Ela esfalfou-se nas águas,

misturou-se com os peixes,

camarões a beliscaram,

escamas, pés, gumes virgens;

o relampejo das palmas

como línguas de uma faca;

a sombra escura no fundo,

as coxas alvas e turvas;

peixes, menina de banho,

anáguas brancas ao sol.

 

Elson Farias tem boa parte de sua obra alicerçada sobre o modo de viver interiorano, reflexo de sua trajetória e experiência. Seus poemas são espontâneos, especialmente na série dos “romances”, falando da vida do homem da Amazônia e – acrescentaria o próprio autor, na epígrafe de um de seus livros – da sua fantasia.

“Romance do banho” estava no primeiro livro de Elson Farias, Barro verde, de 1961. Posteriormente, em 1985, o autor publicou Romanceiro, onde reuniu as suas composições com características de romances: poemas narrativos, vazados, quase sempre, em redondilhas maiores, sem rimas, tratando de “casos” típicos da vida ribeirinha. Neste, o poema de que vamos nos ocupar está reunido a outros dois sob o título “Três romances da infância”.

É importante ressaltar a tradição do romance, de raízes medievais, narrativas de episódios aventureiros, galantes e amorosos, guardando parentesco distante com o poema épico, reservado às narrativas de maior fôlego, a celebrar as grandes conquistas nacionais. O passar do tempo transformou a narrativa poética em prosa, dando origem ao romance como o conhecemos hoje, mas a tradição na poesia permanece até nossos dias. Não é leviano supor que Federico García Lorca (1898-1936), poeta espanhol dos mais influentes do século 20, teve, com o seu Romanceiro Gitano, papel fundamental na formação do então jovem poeta Elson Farias.

“Romance do banho” conta a aventura vivida por um menino, talvez em seu primeiro “alumbramento”, para usarmos a palavra cara a Manuel Bandeira, quando viu, o coração aos saltos, “uma moça nuinha no banho”. O poema de Elson Farias registra o fato, em primeira pessoa, ressaltando, com o recato possível, toda a sensualidade do episódio.

Dividido em quatro estrofes, separadas por um sinal que funciona como um separador temporal, o poema tem quatro momentos distintos:

Momento 1. O poeta descreve a moça, dando ênfase ao modo como ela anda. Essa escolha é bastante feliz, pois nos coloca numa posição de voyeurs, observando a moça do mesmo ângulo do menino. As imagens procuram ressaltar as formas da moça: morena tostada / forte / cabelos claros / castanhos / de longas tiras / costa vincada em curvas / calcanhar firme / andar arroliçado. Duas imagens ligadas a animais reforçam o retrato da moça: esbelta como um cão, referindo-se ao seu andar imponente; – eram cobras encravadas / no dorso de uma raiz, alusão aos seus cabelos. Em poesia, a comparação do ser humano com animais se dá para realçar sua beleza, fortaleza ou sensualidade. A primeira visão da moça já “tocou” o menino em seus instintos mais primitivos, ainda, provavelmente, desconhecidos.

Momento 2. A moça, sem pressentir que é observada, começa a cantar e a se despir. O poeta metaforiza a inocência da moça comparando-a a uma flor de papoula. Não custa lembrar, entretanto, que essa flor contém substâncias entorpecentes, base para a fabricação de drogas pesadas, como a morfina e a heroína. Esse duplo sentido incita a dúvida no leitor mais experiente: a moça estaria agindo de caso pensado? Nesse momento, o mundo entra em ebulição, para o menino, que mistura as imagens percebidas, sem nenhuma ordem aparente, como se estivesse tonto: patativas e anus; marimbondos, sol e vento; água e mel. A moça, um sorriso nos dentes por trás dos lábios carnudos, começa a tirar a roupa.

Momento 3. Aqui temos nova metáfora animalizadora – as imagens de poldros, potros, cavalos, têm nítida conotação sexual –, ressaltando aquilo que já percebíamos no momento anterior: a volúpia sentida pelo menino, que não sabia exatamente como agir diante da visão inusitada, e a consciência tênue de que os “poldros” do seu instinto, rachando cones de pedra, manifestavam-se duramente no seu “raciocínio mole”. Uma forma poética de dizer que a visão o perturbava a tal ponto, que ele sentia-se fraco mentalmente, temendo cometer, num impulso incontrolável, ações das quais depois poderia arrepender-se.

Momento 4. Neste ponto, já algum tempo é passado desde que a moça entrou n’água. Sabemos disso pelo tempo do verbo: “esfalfou-se”. Sabiamente, o menino não saiu de seu lugar, observando-a, tentando adivinhar o que acontecia. Ele imagina o corpo da moça na água, entre os peixes, os camarões; imagina seus pés roçados pelos “gumes virgens” das escamas; o movimento das palmeiras como línguas; as coxas da moça, e a “sombra escura” no fundo... Toda a sensualidade esboçada na mente do personagem é transformada em linguagem pelo poeta. Por derradeira, a imagem das anáguas brancas ao sol é o ápice da claridade vislumbrada: prazer e revelação. O menino pode, enfim, relaxar.

Então, aos 25 anos, Elson Farias trabalha com as sutilezas da linguagem, como um velho mestre, senhor do seu ofício: a primeira leitura é apenas a superfície vislumbrada, a água cristalina, soprada pela brisa matinal. Para saber o que há dentro da água espessa do poema, é preciso cultivar a paciência necessária, e mergulhar no perau.

Romance do banho 
(Mauri Mrq - Elson Farias)


 


quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

A poesia é necessária?

 

Se acaso uma alma se fotografasse

Euclides da Cunha (1866-1909)

 

Se acaso uma alma se fotografasse
De modo que nos mesmos negativos
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face;

E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos... Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse
Mesmo em ligeiros traços fugitivos...

Poeta! tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando, deste grupo bem ao meio,

Que o mais belo, o mais forte e o mais ardente
Destes sujeitos, é precisamente
O mais triste, o mais pálido e o mais feio...

 

Manaus, 2 de fevereiro de 1905

 

(Remetido a Rodrigo Octavio, este poema foi escrito sobre uma fotografia, onde Euclides posa com o grupo de trabalho que iria explorar o rio Javari.)


terça-feira, 9 de janeiro de 2024

As cores do ano novo

Pedro Lucas Lindoso

 

Tia Idalina é tão supersticiosa que ela pede às pessoas para não lhe relatarem nenhum tipo de superstição. O motivo é simples: ela acaba tendo que adotar a prática. E ela já não aguenta mais administrar tanto “conhecimento supersticioso”, como ela própria me diz.

No ano novo é um sofrimento. Principalmente quando está longe de uma praia e não tem a oportunidade de pular as sete ondas.  Certa ocasião estava num resort longe do litoral. Ficou aliviada ao saber que no local havia uma piscina com ondas. Segundo ela, mesmo sendo artificial o propósito foi feito e teve um ano maravilhoso.

Mas fica tremendamente angustiada com relação às cores. Como se sabe, para cada cor usada, magos e fadas, pitonisas, astrólogos e toda sorte de influenciadores de simpatias e autoajuda espiritual, apresentam significados e objetivos diversos. Isso deixa tia Idalina maluca.

Titia gosta muito de se vestir de preto. O que é vedado para alguns daqueles especialistas. Já uma outra disse a titia que o preto está aí para movimentar seu ano, já que significa tomada de decisões, independência e autoridade. Não convenceu Idalina.

Ela sempre acaba usando branco mesmo. Afinal, o branco é um clássico para boas energias. O sentimento é de paz, calma e pureza. Mas ela queria variar. Não que estivesse com as finanças comprometidas mas dizem que o amarelo é elemento da alegria e do dinheiro. Mas para quem quer ficar rico no ano que se inicia deve apostar em um look dourado ou prata.

Uma sobrinha de Brasília sugeriu a cor azul ou mesmo um laranja. Azul no ano novo significa harmonia, honestidade e confiança. Já o laranja significa energia, entusiasmo e coragem. A sua afilhada de Manaus sugere a cor verde ou o rosa. Explica que o verde no ano novo atrai esperança, saúde e boa sorte. E que o rosa representa o amor, afeto e o carinho.

Sua comadre de Niterói aposta no lilás e no cinza. O lilás é a cor da espiritualidade e do autoconhecimento. O cinza, além de sofisticado, representa modernidade e flexibilidade. Ou então vermelho, que significa paixão, desejo e intensidade

Idalina quase tem um ataque cardíaco com tantas e diversas opiniões. Começou a ter taquicardia. O que fazer então? Pagou uma nota e foi consultar a pitonisa do momento. A moça está famosa aqui em Copacabana. Tia Idalina saiu de lá satisfeitíssima com o parecer que lhe foi dado: O ano que finda é 2023. E dia 31 ainda é nesse ano. Então deve-se usar o violeta, segundo a cromoterapia e numerologia. Na conta, se soma 2+0+2+3 = 7. 7 é representado pelo violeta. Alívio total. Titia arrasou no seu vestido lilás, que segundo sua comadre é a cor do autoconhecimento.



domingo, 7 de janeiro de 2024

Manaus, amor e memória DCLII


Euclides da Cunha, ao centro, de perfil, esteve em Manaus em 1905.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Lira da Madrugada – Ernesto Penafort 12/15

 

                                                                                  Zemaria Pinto

 

Ficha biobibliográfica

 

Autor: Ernesto Penafort

Nome completo: Ernesto da Silva Penafort

Naturalidade: Manaus – AM

Nascimento: 27 de março de 1936

Falecimento: 3 de junho de 1992

 

Obra poética:

·       Azul geral (1973)

·       A medida do azul (1982)

·       Os limites do azul (1985)

·       Do verbo azul (1988)

 

 


DO CORPO, DA MEMÓRIA

 

eis que surges, noite morta.

nem te adivinhava antes,

já vagava em outras terras,

outros mares me banhavam.

entretanto, estás

presente, suor do corpo.

rastro de quem anda,

amor de quem partiu.

 

eis que surges, noite morta.

mesmo adivinhar-te

era um absurdo, noite morta.

principalmente agora

que vejo luz e longe,

estás presente, suor do corpo,

memória e tatuagem,

novamente suor do corpo,

estás presente,

memória de quem anda,

suor de quem partiu.

 

 

DA DOR MAIOR

        

líquida é esta noite

em que te encontras distante.

líquida, também,

é esta vontade minha

de te ter nos braços

e amar com toda a força

da minha existência de homem.

     

belo seria

o momento em que pudesse

de um só golpe sorver-te

mesmo através dos poros

deste corpo que pulsa por ti.

     

o cântico dos cânticos

não é mais belo do que tu.

e cantar-te, nesta hora,

é para mim o privilégio

que dilata meu coração,

que pulsa por tua vontade,

     

líquida é esta noite

em que também me umedeço,

orvalhecendo-me por ti,

como se fosse o produto

de um céu sem deuses,

como se fosse o único astro

de um firmamento fechado.


Ernesto Penafort é mais lembrado por sua obsessão pela cor azul do que pela sua poesia. Apesar de presente nos quatro títulos que publicou – Azul geral, A medida do azul, Os limites do azul e O verbo azul –, o azul é apenas um dos muitos símbolos que povoam a obra desse poeta, desaparecido em plena inquietação criativa. E o que representa essa constância do azul na poesia de Penafort? A mais densa das cores, o azul, em suas várias tonalidades, pode significar o tudo e o nada. Imaginemos a abóbada celeste, num dia claro: vemos o azul infinito, apenas – e pensamos em quão pequenos somos diante do cosmos que se descortina sobre nós, mas do qual não vemos nada, além do azul... O azul está presente nos quatro elementos: no ar, inicialmente invisível, mas representado pelo próprio firmamento; na terra, nas várias gemas de tons azuis; na água, especialmente do mar, profundamente azul; e no fogo, com suas labaredas azuis. O azul é, portanto, símbolo de vida e de finitude, de ação e de morte. Uma das três cores primárias, o azul é fundamento para a composição de outras cores. Trata-se, portanto, de um símbolo muito forte. Penafort levou o seu uso à exaustão, desde a mera expressão pictórica até a simbologia mais complexa, de cunho espiritual. Mas os poemas que analisaremos, presentes tanto no segundo como no quarto livro, não têm o azul por tema, embora sua presença seja latente, na melancolia blues que deles emana.

Ambos os poemas têm a noite como tema, mas não a noite simplesmente, qualquer noite. “Do corpo, da memória”, trata da “noite morta”; “Da dor maior”, da “noite líquida”. A locução “noite morta” é de vasto uso popular, variante de “noite alta” ou “alta noite”. Para compormos bem a imagem que o poeta quer transmitir não precisamos definir um horário, mas as circunstâncias: silêncio total de atividades humanas; ruídos noturnos, apenas. A noite aqui representa a solidão absoluta, o poeta em companhia de si mesmo, unicamente.

O poema não permite uma leitura linear; então, faz-se necessário estabelecer parâmetros para orientar a leitura. As expressões “outras terras”, “outros mares”, “suor do corpo”, “luz e longe”, “memória e tatuagem”, além dos verbos andar (“anda”, presente) e partir (“partiu”, passado) são chaves para a compreensão da expressão poética, de clara extração simbolista. O poeta, tendo por companhia a extrema solidão, representada pela “noite morta” – os ruídos noturnos, que não deixam perceber nenhum som que lembre o humano –, descreve as sensações que aquele momento único lhe proporciona: a sensação mental (alheamento da realidade – “outras terras”, “outros mares”) se funde à sensação física (“suor do corpo”), à realidade imediata, na reiterada imagem da noite morta. O suor do corpo – outra imagem enfatizada – é “memória e tatuagem” e está presente, trazendo a lembrança do “suor de quem partiu”. Corpo e memória.

As imagens se confundem como se o poeta estivesse mentalmente confuso, pois é exatamente essa a ideia que ele quer passar. Por isso as imagens aparecem desestruturadas, como num filme em que os quadros estivessem fora de ordem. A ideia é bastante simples: o poeta sofre com a solidão e com as lembranças deixadas por alguém que partiu. Essas lembranças, no meio da noite morta, noite quente que o banha de suor, traduzem a ideia de que aquela ausência está fixada de tal forma em seu íntimo que a percepção física do próprio suor o leva a sentir o suor da pessoa ausente. Essa opção por uma aparência desconexa é facultada pela linguagem densa que o poeta utiliza para comunicar a sua impressão da realidade.

O segundo poema é mais complexo em sua simbologia: ao substantivo “noite” junta-se o qualificativo “líquida”, remetendo-nos à ideia de “noite de água”, de imediato promovida a “noite chuvosa”. Mas não é isso o que o poema diz. Observe que, desde a primeira estrofe, está clara a distância entre o eu lírico e o objeto de seu desejo: “te encontras distante”, “vontade minha / de te ter nos braços”. Esse desejo irrealizado é o fulcro da percepção para a metáfora “noite líquida” – a noite que passa como o rio de Heráclito, para quem nunca nos banhamos no mesmo rio, porque as águas não se repetem nunca, renovando-se constantemente. A noite líquida de Penafort passa como um rio, sem que o poeta possa detê-lo. É uma situação de pesadelo: o tempo escoando com a certeza de sua irrecuperabilidade. O tempo aquoso encontra seu par perfeito na noite silenciosa e quente.

A segunda estrofe guarda uma dualidade:     

belo seria

o momento em que pudesse

de um só golpe sorver-te

mesmo através dos poros

deste corpo que pulsa por ti.

 

“Sorver-te” a quem? À noite ou à ausente? O primeiro impulso pode nos levar à segunda opção, mas o que é líquido, isto é, “sorvível”, é a noite: sorvê-la fará com que ela, a noite, desapareça. Mas, logo adiante, há a referência que negaria essa hipótese: “deste corpo que pulsa por ti”. O problema se estende à terceira estrofe, onde o sujeito novamente não está definido. Mas, aqui, ao contrário, o que é mais belo que “o cântico dos cânticos” e “que dilata meu coração” já não é mais a noite, com toda certeza. Essa aparente confusão demonstra o estado mental do eu lírico, tal como no primeiro poema: fora de si, febril, delirante.   

A última estrofe procura explicar, numa linguagem cifrada, esse estado: “também me umedeço / orvalhecendo-me por ti”. Apogeu da paradoxal dicotomia desespero-prazer, o neologismo “orvalhecendo-me” é a pedra de toque desse poema que trata, sobretudo, da dor maior da solidão. Uma solidão tão densa – tão negra e tão azul – que exclui até os deuses e as estrelas do céu.

No poema “O poeta e seus elementos”, Ernesto Penafort, um lírico por excelência, registrara: “o poeta é um território / em permanente degredo”. Exilado do mundo e de si mesmo, o poeta não cabe em si, em permanente conflito com o caos. Talvez seja esta a chave para a compreensão de seus poemas: não lhes basta a simples leitura; é necessário conhecer, senão a alma do poeta, as suas entranhas; os seus medos jamais revelados, a não ser na criptografia dos poemas; os seus sonhos mais recônditos; a sua solidão incorruptível.

Do corpo, da memória – Da dor maior
(Mauri Mrq – Ernesto Penafort) 


quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

A poesia é necessária?

 

Movimento

Etiane Ruas

 

 

quero ser mais que um punhal

 

– uma lança atravessando na contramão –

 

arrebentando as resistências

interpelando as reticências

 

no mais, ter trajetória livre

com direito a rosto ao vento


terça-feira, 2 de janeiro de 2024

O almoço natalino de Idalina


Pedro Lucas Lindoso

 

Os filmes americanos com temática natalina invadem as telas da TV e dos canais de streaming nessa época do ano. A grande maioria aborda o tema da reconciliação e do perdão. Normalmente as circunstâncias são difíceis ou até impossíveis. Daí ocorre o “milagre de natal”. Geralmente, com um “happy end” no final. E muita emoção para fazer os corações mais sensíveis chorar.

Minha querida Tia Idalina armou uma situação bem parecida com o enredo desses filmes água com açúcar produzidos em Hollywood. Titia preparou uma baita ceia de natal com toque de culinária amazonense. Aliás, um almoço natalino do dia 25. Além do tender, peru e bacalhau, havia pirarucu de casaca e torta de banana frita. Farinha do arini e pirarucu seco providenciados com antecedência. Encomenda levada para o Rio de Janeiro por casal de amigos que não perdem o réveillon de Copacabana há mais de trinta anos.

Tia Idalina armou o indefectível amigo oculto. Com seu prestígio, os sobrinhos rumaram felizes para sua casa no dia seguinte ao de natal. E avisou: “Não é comida que sobrou da ceia. Vai ser um almoço especial. Sem sobras nem ‘restô dontém’”. Seu objetivo era reconciliar dois sobrinhos brigados desde a eleição em que Haddad perdeu para Bolsonaro. Para começar, ela manipulou o amigo oculto. Estudou todas as circunstâncias, amizades e relacionamentos para evitar polêmicas. O objetivo era reconciliar os dois sobrinhos, ora inimigos mortais por conta de opinião política divergente.

Os dois haviam começado uma guerra com viés ideológico que perdurou toda a pandemia. Os insultos e bate-bocas se davam via grupo de Whatzapp no qual Idalina era a administradora. Titia fez de tudo para evitar que a política ficasse de fora das conversas familiares. Não teve jeito!

Os sobrinhos tinham, porém, uma coisa em comum: ambos eram católicos e haviam sido coroinhas na infância. Estavam afastados da Igreja. Um porque havia se divorciado e casado novamente. O outro tinha um relacionamento homoafetivo. Ambos raramente iam à missa e não comungavam mais.

Tia Idalina, inspirada na manifestação do Papa Francisco que permitiu a benção a pessoas nessas situações, houve por bem convidar um padre para abençoar os sobrinhos e seus respectivos. O jovem padre aceitou o convite e fez uma homília memorável. Lembrou que o Papa Francisco recomendou aos padres o acolhimento e reconciliação. Incentivando a benção às pessoas divorciadas e homoafetivas. O padre ressaltou que a Igreja e as religiões devem oferecer sempre possibilidades de perdão, acolhimento e libertação. O perdão liberta as pessoas do rancor e do ódio que só fazem mal.

Depois das benções, os primos se abraçaram emocionados. Foi um almoço memorável com muita dança, alegria e perdão recíproco. Tia Idalina estava radiante de alegria. Um milagre de natal à brasileira. Com toque amazonense e em Copacabana.


domingo, 31 de dezembro de 2023

Manaus, amor e memória DCLI


“Colaboradoras da Beleza”, na Revista Cabocla, dirigida por Genesino Braga,
em fevereiro de 1937. Destaque para a poeta Violeta Branca, no alto, à direita. 

 

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Lira da Madrugada – Alcides Werk 11/15


Zemaria Pinto

 

Ficha biobibliográfica

 

Autor: Alcides Werk

Nome completo: Alcides Werk Gomes de Matos

Naturalidade: Aquidauana – MS

Nascimento: 20 de dezembro de 1934

Falecimento: 13 de novembro de 2003

 

Obra poética:

·       Da noite do rio (1974)

·       Trilha dágua (1980)

·       Poems of the water and the land – Poemas da água e da terra (1987, edição bilíngue)

·       In natura – poemas para a juventude (1999)

·       Cantos ribeirinhos e outros poemas (2002)

·       A Amazônia de Alcides Werk – toda poesia (2004 – póstumo)


NA PRAIA DA PONTA NEGRA

 

Às vezes tenho vontade

de andar de jeans, ser moderno,

fazer versos esquisitos,

gerar palavras estranhas,

somar asfalto com lua,

misturar brigas de rua

com rosa, com cal e mar.

Mas, quando te sonho nua

na praia da Ponta Negra,

com gestos de pré-amar,

todo o meu ser se acomoda,

e eu volto a me ver menino

que sonhara ser poeta

em noites de romantismo,

e, conquistado, me esqueço

das conquistas que faria:

minha alma mansa flutua

nas águas pretas do rio

e esvoaça sobre a tua

como um pássaro no cio.

 

 

 

NO ROADWAY

 

As águas do Roadway são negras

porque são filhas do rio Negro,

ou porque os homens as toldaram?

 

As águas lavam tudo,

mas não lavam a si mesmas.

 

Meu pequeno espírito, absorto,

filosofa sobre essas obviedades.

 

Já vi muitas pessoas

lavar o lado sujo de suas almas

no rio Negro.

 

Estamos ficando velhos

precocemente

– eu e o rio Negro.

 

 

IGARAPÉ DE MANAUS

 

A água, que é mãe da vida

(antes pura, clara, doce),

passa aí prostituída,

triste, amarga, poluída,

como se mater não fosse.

  

A lírica de Alcides Werk tem duas vertentes bem acentuadas: uma, telúrica, voltada para as coisas da terra; outra, confessional, onde a sensibilidade do poeta se expõe, muitas vezes, perigosamente. Os poemas “Na praia da Ponta Negra”, “No Roadway” e “Igarapé de Manaus” fazem uma espécie de ponte entre uma e outra vertente. São poemas que enfatizam a preocupação do escritor com o meio ambiente, porém no âmbito da cidade, longe das paisagens desenhadas em outros poemas, onde sobressai a descrição da natureza e dos fenômenos, inclusive sociais, a ela ligados.

“Na praia da Ponta Negra” é um poema de amor. O poeta coloca-se numa posição conservadora, um homem de meia-idade, que compara a agitação da praia – ou talvez da sua calçada – com o moderno “jeito” de fazer poesia. Talvez ele se imagine um seresteiro, um romântico, e aquela agitação dos jovens não tenha nada a ver com a sua poesia. Quando ele fala em somar “asfalto com lua”, por exemplo, a palavra asfalto denota a agitação da cidade e soma-se ao jeans, ao tênis, enquanto a palavra lua é seu contraponto de sonho. O asfalto, aqui mesmo; a lua, impossível, impassível e inalcançável. Mas quando o poeta sonha com sua amada, a praia da Ponta Negra se transforma e torna-se aquele lugar bucólico do seu tempo de menino, em que ele apenas sonhava ser poeta.

Observe o jogo que o autor empreende com as palavras: “Mas, quando eu te sonho nua / na praia da Ponta Negra, / com gestos de pré-amar”. Esta última palavra, composta, a rigor, não existe. No texto ela significa algo como “antes do amor”, a frase toda seria “com gestos de antes do amor”. Mas se formos mais fundo, no âmago mesmo do poema, “pré-amar” se relaciona diretamente com “preamar”, palavra que significa maré cheia ou nível máximo da maré. Ou seja: “gestos de pré-amar” também significa que a mulher amada está transbordando – no nível máximo da maré – de gestos de amor, de carinho. Observe que essa sensualidade faz parte de um sonho: não são os corpos que se encontram, mas as almas. E a alma do poeta esvoaça sobre a da mulher amada “como um pássaro no cio”. Numa referência exterior, lembro-me de um poema de Manuel Bandeira, chamado “A arte de amar”, em que ele, depois de falar sobre a incomunicabilidade das almas, conclui afirmando: “Porque os corpos se entendem, mas as almas não”. Manuel Bandeira escrevia numa época de negação aos valores espirituais, embora ele mesmo cultivasse uma espiritualidade que parecia tímida, em face da exigência materialista de algumas facções modernistas. Alcides, neste poema, declara-se romântico e avesso ao moderno, e, consequentemente, ao Modernismo. Daí o seu posicionamento frontalmente contrário ao de Manuel Bandeira.

O poema “No Roadway” conecta-se com o primeiro pelo uso do rio Negro como metáfora. Em “Na praia da Ponta Negra” o rio é o lugar que guarda as lembranças do poeta-menino e, no sonho, é o leito de amor do poeta adulto. Roadway é o nome original do porto de Manaus, explorado inicialmente pelos ingleses da Manáos Harbour, ainda no início do século 20. O poema é um alerta amargo sobre os vícios testemunhados pelo porto, há um século. A função do rio aqui é menos nobre que no poema anterior: suas águas lavam “o lado sujo das almas das pessoas” que transitam pelo Roadway e por isso vão ficando mais escuras, vão se toldando, porque vão acumulando a sujeira. E o poeta, impotente, conclui que está envelhecendo junto com o seu rio – precocemente. Esta última palavra remete-nos de volta ao início do primeiro poema em que o poeta declara ter “vontade” de parecer jovem, estabelecendo uma segunda conexão.

O poema “Igarapé de Manaus” é uma das mais belas páginas da poesia ecológica – se é que existe uma poesia ecológica. Há muito tempo dizia-se poesia engajada, de cunho político. “Igarapé de Manaus”, em suas cinco linhas, vale por um tratado sobre a destruição de um rio por uma cidade – ou por seus bárbaros habitantes. Não há muito a explicar: a singeleza do poema, mesmo usando uma palavra em latim (mater, mãe – o que reforça o caráter mítico da figura), fala por si mesma. A água, mãe da vida, que um dia já passou, por ali mesmo, “pura, clara, doce”, agora passa “prostituída, triste, amarga, poluída” – que imagem terrível! –, sem mais ostentar a condição de mãe. Pense numa pessoa que, depois de muito tempo afastada de sua mãe, encontra-a nessas condições descritas pelo poeta. É apenas isso. Poesia panfletária nem sempre é boa poesia. Alcides Werk, com seu imenso talento para a indignação e seu maior ainda amor pela natureza, consegue, em 22 palavras, escrever um tratado sociológico sobre o descaso e a destruição. Mas esse sofrimento do Igarapé de Manaus vai acabar: como último ato dessa tragédia, vão aterrá-lo.[1]   

 

Na praia da Ponta Negra - No Roadway - Igarapé de Manaus
(Mauri Mrq-Alcides Werk) 



[1] Referência ao projeto Prosamim, de “saneamento” dos igarapés de Manaus, em andamento quando da escritura deste texto.