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| Rua 24 de Maio, de duas perspectivas diferentes. |
domingo, 2 de agosto de 2015
sábado, 1 de agosto de 2015
quinta-feira, 30 de julho de 2015
o povo e o poema
Zemaria
Pinto
sobre
um poema
que
não seja propriedade particular
sobre
um poema/canção de guerra
a
clamar
por
todos esses soldados
sobre
um poema de operários
camponeses,
guerrilheiros
sobre
um poema em que a fome
tome
sua verdadeira forma de fome
sobre
um poema concreto
de
aço e cimento e queda
sobre
um poema de enchente
de
seca, de lepra
sobre
um poema mendigo
sobre
um poema de grito
de
espanto
sobre um poema de sangue
de
bomba, de pus e de raça
sobre
um poema menor
de
índio, de puta e de dor
sobre
um poema que cale
a
voz do generalato
sobre
um poema oprimido
espremido,
pichado
sobre
um poema sem classes
é
sobre esse poema que marcha o meu povo.
(1977)
O poder político dos curadores
João Bosco Botelho
A existência de pessoas portadoras do dom de
curar, fora das construções da ciência, rejeitando a morte e empurrando os
limites da vida, tem acompanhado sociedades-culturas desde tempos ancestrais,
entre ricos e pobres, numa dimensão e repetição que não podem ser atribuídas
somente ao ordenamento social.
A maior parte da comunicação religiosa entre
curador e suplicante se realiza em torno da regra binária do prêmio-castigo,
onde a divindade principal recompensa os obedientes com a bonança e pune os
faltosos com a dor eterna, na vida após a morte. O aliado do divino dominante
que cura a doença e o infortúnio representa a própria divindade. Ao contrário,
o curador não alinhado, mesmo que sare e adivinhe com a mesma competência, é
impedido do renascimento bondoso.
A maior clareza dessas associações ficou mais
transparente a partir da leitura da escrita cuneiforme das tábuas de argila,
encontradas nos sítios arqueológicos assírios e babilônicos, no intrigante
sinônimo das palavras sortilégio, malefício, pecado, doença e sofrimento. De
modo semelhante, o sacerdote, médico, adivinho e o escriba receberam o mesmo
nome.
A posse do dom de curar oferece mais poder ao
detentor. Coloca-o em destaque na comunidade porque cura a doença ou o
infortúnio. É frequente encontrá-lo na História como intermediário das
divindades. Na prática, pode utilizar esse enorme poder político como forma de
aglutinar ou dissolver partes do grupo.
Parece ser no conflito social que se percebe
melhor a força explícita dos curadores. Pode aparecer quando o poder dominante
tenta impor outra abordagem escatológica e eliminar as heteropráxis, como etapa
indispensável da substituição cultural. O deus babilônico Baal, cujo culto era
difundido desde as regiões sírias até o Egito, foi combatido tenazmente pelos
profetas do Antigo Testamento, para, enfim, ser humanizado e destituído de
todos os atributos divinos por Euzébio.
O destaque social curador pode ser utilizado
como instrumento do poder dominador para convencer quanto à utilidade do
projeto político, a mudança do antigo pelo mais recente. Contudo, deve trazer a
mensagem de esperança requerida pelos anseios coletivos mais atuais. A sedução
exercida pela nova proposta está inserida no surgimento de imagens metafóricas
de novos curadores que defendem outros conceitos de salvação pessoal e
coletiva. Dessa forma, os novos curadores garantem a perenidade das promessas
de vida mais fácil.
Como exemplo dessa ruptura entre curadores
aliados e inimigos, é possível citar Astarte, mencionada no Pentateuco como
deusa da vegetação e da sexualidade, cultuada na Mesopotâmia e no Oriente
Médio, que acabou como símbolo do infortúnio e da doença porque não era aliada
do povo de Israel. Do mesmo modo, em diferentes períodos, os demônios bíblicos,
retratados como símbolos de falsos curadores, participaram do movimento de
resistência ao poder de Israel.
quarta-feira, 29 de julho de 2015
terça-feira, 28 de julho de 2015
Verão inesquecível
Pedro Lucas Lindoso
Eu era um menino de oito anos de idade, morava
na Rua Henrique Martins e estudava no Grupo Escolar Saldanha Marinho. Há exatos
cinquenta anos, em 1965, a nossa família foi passar as férias no Rio de
Janeiro.
Voamos pelas asas do Caravelle, da Pan Air. Meu
pai, José Lindoso, era advogado da extinta companhia aérea, que iria à falência
naquele ano. A cidade maravilhosa do Rio de Janeiro celebrava seus 400
anos.
Os festejos do quarto centenário se estenderam
por todo aquele verão carioca e jamais esquecerei aquelas férias. A viagem de
Caravelle fez escala em Brasília, cidade onde iriamos morar no ano seguinte,
com a eleição de José Lindoso para a Câmara dos Deputados.
A grande família Lindoso embarcou em Ponta
Pelada no voo PAB 483 que saia de Manaus às 12h40min, chegando em Brasília às
16h40min. Às 17h10min partia para o Rio e chegava às 18h40min no Santos Dumont.
Quem me deu esses dados foi tia Idalina, que hospedou parte da família em seu
apartamento, no Bairro de Fátima.
Inclusive a tartaruga. Sim, junto com os seus
seis filhos, o casal José e Amine Lindoso trazia uma tartaruga viva, embalada
adequadamente num caixote de madeira. A tartaruga foi tratada pela nossa
querida Darinha, que preparou um delicioso sarapatel. Mas antes de ser abatida,
os vizinhos faziam fila para ver a tal tartaruga, vinda do Amazonas e hospedada
no banheiro de serviço de tia Idalina. Naquele tempo não havia IBAMA e Ecologia
era uma ciência desconhecida dos comuns mortais.
A outra parte da família ficou hospedada em
Ipanema. Lembro-me bem do cine Pax, na Rua Visconde de Pirajá, da missa
dominical de hora em hora, na Igreja Nossa Senhora da Paz, superlotada de
fiéis. De uma praia sem poluição, com tatuí e conchinhas do mar.
E o carnaval daquele ano, segundo tia Idalina,
“permanece até hoje na memória do carioca o grande carnaval de 1965, em que
todas as escolas desenvolveram temática sobre o aniversariante quatrocentão”.
Outra coisa inesquecível foi o símbolo do
quarto centenário. A junção de quatro números 4, um de cada centenário. Uma
ideia simples e marcante. O símbolo entrou na cabeça das pessoas e fez sucesso.
Houve uma chuva de papeizinhos prateados com o símbolo impresso, jogados por um
helicóptero em toda a orla da Zona Sul do Rio. Eu mesmo guardei uns daqueles,
que se perderam.
E havia televisão na cidade maravilhosa e não
tínhamos, ainda, em Manaus. Naquela época os amazonenses não iam para Miami nem
para São Paulo ou Fortaleza. Todos iam para o Rio. A cidade celebra 450 anos
neste verão. Parabéns cidade maravilhosa! Parece que foi ontem que você se
tornou quatrocentona.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
Como Eva
Inácio Oliveira
Rafaela está nua, de tamancos, sobre
a cama. Ela os calça para fazermos amor, às vezes põe também os meus óculos.
Diz que assim me vê mais forte, mais perto, mais dentro. Gosto destes simples
acessórios que não interferem na sua beleza. Repousa de bruços no travesseiro.
A luz da tarde, em conjunção com os espelhos, reflete sobre a penugem dos seus
braços fazendo lembrar um campo de trigo. Sinto-me generoso ao pensar quantos homens
compartilham comigo o corpo desta mulher. Eu não os conheço, nunca vi seus
rostos, não sei das suas histórias; mas sinto-me a eles irmanado. Como se
fizéssemos parte de uma sociedade secreta, tão secreta que nem mesmo seus
membros sabem que dela participam, nem que ela existe. No entanto esta
sociedade existe, uma sociedade de homens tristes, entediados e solitários.
Rafaela se vira na cama. Os peitos
mantêm uma proporção correta, ainda são íntegros e rijos, apesar de muito manuseados.
Ela se move com a leveza de alguém sozinho dentro de um quarto. Diz que o meu
tempo acabou, mas posso ficar mais se quiser. Não há qualquer constrangimento
em seus gestos, como Eva antes de ter comido o fruto.
domingo, 26 de julho de 2015
sábado, 25 de julho de 2015
quinta-feira, 23 de julho de 2015
totem
Zemaria Pinto
a
língua percorre ávida
o
rosto molhado
os
olhos cerrados
a
boca afogada
os
seios em fogo sob a água
minhas
pernas sustentando
tuas
pernas bailarinas
metamorfose
dos corpos
fundidos,
totem armado
no
quadrilátero âmbar
cantam
crianças
pássaros
cantam
fulgor
na tarde avermelhada
asas-deltas
ultraleves
e
um blues na sala solitária
a
água no corpo
o
corpo no corpo
bocas
e pernas e mãos
teu
gozo estremece
meu
corpo
meu
sêmen chove de mim
teu
dorso incandescente
a
parede fria
o
grito sufocado
e
a alegria
–
ah, a alegria
de fazer parte de ti!
Percepções médicas navegando à margem da ciência
João Bosco Botelho
Com a
ajuda da minha prática profissional acumulada durante quarenta anos, hoje,
ainda mais consciente da imensa falibilidade da medicina, é possível refletir
que as atitudes moduladoras nas crenças das curas, tanto as do médico quanto as
do doente, em algumas situações, comportam componentes além dos muros da
universidade, infelizmente, ainda sem explicações razoáveis.
É
possível teorizar alguns elos que ligam as expressões coletivas e pessoais de
cura com o social, tanto na ciência quanto no espaço sagrado. Com esse
pressuposto, é válido o argumento de existirem estruturas moleculares, no
genoma, suficientemente coerentes com os mecanismos da sobrevivência, inatos e
adquiridos, provenientes da filogenia e da ontogenia, capazes de sustentar a fé
na cura, desde tempos imemoriais, com harmonia suficiente para moldar a ordem
social. Nesse complexo conjunto entrelaçado nas culturas-linguagens se destacam
os curadores de todos os matizes.
Os
homens e mulheres, portadores do dom de curar, ambos rejeitando a morte e
empurrando os limites da vida, tem acompanhado todas as sociedades, desde a
pré-história, ricos e pobres, numa dimensão e repetição que não podem ser
atribuídas somente ao ordenamento social.
O
interesse em estabelecer um sistema teórico, capaz de buscar explicações de
sustentabilidade das crenças nos limites da cura, amadureceu em etapas e como
fruto das indagações nascidas nas atividades profissionais como médico e
professor. Em três diferentes momentos presenciamos práticas de curas fora dos
muros universitários, envolvendo pessoas e lugares absolutamente diversos entre
si, assumiram papéis decisivos no processo:
1. Nas
enfermarias do Hospital Getúlio Vargas, em Manaus, durante trinta anos
assistimos à angústia de incontáveis doentes que suplicaram a cura aos santos
das suas devoções e os rituais das dádivas depositadas no altar da capela, como
agradecimentos pela saúde recuperada;
2.
Entre 1979 e 1981, durante o Doutoramento, na Universidade de Paris VI. O
doente emagrecido, com a pele apergaminhada sobre os ossos, inerte no leito,
sussurrando os suspiros da longa agonia, resistente a todos os tipos de
analgésicos, olhava esbugalhado na direção do rezador. O homem bem vestido
segurou a mão seca do enfermo e o confortou com palavras de generosa bondade. Ao
final da reza, colocou as suas mãos sobre a cabeça do canceroso e iniciou um
murmúrio incompreensível. Minutos após o início do rito, o doente calou-se e
dormiu profundamente. Os familiares presentes choravam, ao afirmarem ter sido a
primeira vez, em várias semanas, que o moribundo conseguia descansar sem a
injeção de morfina na veia. É claro que, naquele momento, o juízo crítico das
pessoas presentes discernia que não se tratava, absolutamente, de qualquer tipo
de cura do câncer. O cerne da questão era o profundo elo de confiança ligando o
rezador e o doente, capaz de provocar a resposta objetiva frente à dor.
3.
Entre os anos de 1985 a 1986, no projeto EDEN, financiado pela Universidade do
Amazonas, com o objetivo de estudar, comparativamente, os dados sociais e
nosológicos do Município de Coari, e os do bairro Novo Paraíso, na periferia
urbana de Manaus. Durante o desenvolvimento dos trabalhos de campo, comprovamos
que a maior parte da medicina praticada no Hospital Universitário estava muito
distante da compreensão de saúde e doença das três mil pessoas entrevistadas.
Na cabeceira do rio Copeá, nós vimos os leprosos, com as faces desfiguradas,
portando a imagem de São Lázaro, pedirem a bênção do padre para curar as
chagas. Também admiramos a idosa curadora desenhar, com a borda do polegar
direito, repetidas vezes, a cruz na testa da criança sonolenta e desidratada
pela violenta diarreia nos braços da mãe aflita, enquanto rezava algo
ininteligível para tratar a espinhela caída.
Nas
três circunstâncias, nos parece estarem claros os profundos elos de confiança
entre os curadores e os doentes, formando um conjunto coerente de ações e
respostas, em nada diferente dos descritos nas tradições da história da
medicina.
quarta-feira, 22 de julho de 2015
terça-feira, 21 de julho de 2015
Um olhar de ternura
Pedro
Lucas Lindoso
Nesta
semana vi novamente o filme do Walter Salles – Diários de Motocicleta. O
filme é grandioso. A fotografia é bonita. Os caminhos, as estradas tortuosas,
os lagos andinos, a cordilheira. As
tomadas são de uma plasticidade cativante. Quando Che Guevara e seu amigo
Alberto chegam ao Peru, o filme cresce e as cenas feitas em Cuzco e Machu Picchu
são emblemáticas.
O
ápice do filme ocorre quando eles chegam a San Pablo, colônia de hansenianos na
Amazônia peruana. Che e seu amigo também médico recusam as luvas que
estigmatizam. E assim, quebram regras e tabus impostos pelas freiras que
administram a colônia.
Aniversário
de Che. Há uma festa. Ele mira a outra
margem do rio onde ficam os hansenianos. E deseja comemorar o seu aniversário
com eles. Há um apartheid entre doentes
e sãos. Um caudaloso rio amazônico como barreira. Numa atitude suicida, Che se
atira naquele imenso rio, fundo, com correntezas, à noite, cheio de perigos. Há
gritarias de ambos os lados. Quando finalmente chega à margem onde moram os
hansenianos é carregado e socorrido por eles. Via-se nos olhos dos doentes um
olhar de ternura, endurecido pelo sofrimento,
O
mesmo olhar que vi exatamente em 22 de abril de 2004, há mais de dez anos, na
face dos hansenianos da Colônia Antônio Aleixo, aqui em Manaus.
Naquele
ano construiu-se um conjunto habitacional que se chama Amine Daou Lindoso. A
inauguração contou com a presença do governador do Amazonas, na época, Eduardo
Braga, o ex-presidente Lula e demais autoridades. D. Amine estava lá com seus
quase 80 anos.
Dona
Amine Lindoso foi primeira dama do Amazonas de 1979 a 1982. Ela visitava a
colônia semanalmente. Também nunca foi vista de luvas. Providenciou e conseguiu
atendimento médico, ambulatorial, escola e distribuiu muito carinho e atenção.
O espanto da sociedade manauara era o mesmo das freiras em relação aos dois
médicos argentinos visitantes na Colônia de San Pablo.
Terminada
a solenidade de inauguração do conjunto com discursos e placas de praxe, as
autoridades deixam o local.
E
aí eles vieram, vários, cumprimentar dona Amine. Queriam vê-la novamente.
Alguns bastante mutilados. Fiquei especialmente tocado com uma senhora de
cadeira de rodas, com sinais bastante evidentes de mutilações, porém muito
vaidosa, com uma flor no cabelo. Queria repetir versos já ditos outrora a D.
Amine. E assim o fez. Eles vieram demonstrar aquele olhar de ternura. O mesmo
olhar que Walter Salles captou nos hansenianos de San Pablo.
domingo, 19 de julho de 2015
sábado, 18 de julho de 2015
quinta-feira, 16 de julho de 2015
exercício nº 6
Zemaria Pinto
marandarilho,
Januário molda
o
passo reticente de insulado
ao
marulho pelágio unissonante
–
lençóis de sol, de sal, sargaçomar
o
olhar marítimo de Januário
mareia
a caravela em marrevolto
o
quarto soçobrado, o catre imundo
sondando
velas, ventos, vendavais
(ó
náufrago da navetempo, despe
de
tua face hirta de pierrô
as
sombras esculpidas pelas horas
de
abandono, torpor e negridão)
da
etérea gávea o marinheiro brada
um
canto sufocado sob as vagas
Busca da arqueologia da cura
João Bosco Botelho
Para compreender a arqueologia da cura,
utilizaremos a linguagem do filósofo francês Gaston Bachelard, para congelar as
marcas que sulcam os três cortes nos saberes médicos, em quatro mil anos de
história.
Primeiro corte: surgiu na Grécia antiga, quando
a doença foi abordada fora do domínio exclusivo da divindade, inaugurando a
Medicina do corpo. O grande e insuperável avanço, em relação à tradição
anterior, reside no fato de que, pela primeira vez, estava estabelecido um
sistema teórico coerente, capaz de explicar a doença, a saúde, a terapêutica e
o prognóstico. A teoria era simples e competente: para cada um dos quatro
elementos de Empédocles existiria um humor corpóreo: ar-fleuma; água-bile
amarela; fogo-sangue; terra-bile preta.
A ideia revolucionária dos médicos gregos da
Escola Médica, na ilha de Kós, representados por Hipócrates, ficou conhecida como
Teoria dos Quatro Humores: “O corpo humano é constituído de quatro humores:
sangue, fleuma, bile amarela e bile preta. São os responsáveis pela natureza,
saúde e doença”. O equilíbrio entre a quantidade e qualidade dos humores seria
o responsável pela saúde; desequilíbrios, as doenças.
Como consequência imediata, esse sistema
teórico permitiu aos médicos hipocráticos explicarem a origem das doenças e, de
modo adequado, iniciar o conflito de competência com a religião. A epilepsia,
tida como doença de natureza divina, foi arrancada do domínio dos deuses: “Quanto
à doença que nós chamamos de sagrada, eis o que ela significa: ela não me
parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma
natureza que as demais doenças e se origina das mesmas causas que cada uma
delas. Os homens atribuíram-lhe uma natureza e uma origem divinas por causa da
ignorância e do assombro que ela lhes inspira, pois em nada se assemelha às
outras”.
Para tratar qualquer doença, bastaria forçar o
equilíbrio dos humores por meio de atitudes induzidas para eliminar os líquidos
e excreções corpóreos. Os métodos de tratamentos da Medicina oficial passaram a
utilizar a sangria e as substâncias provocadoras do vômito, da diurese, do suor
e da diarreia.
O segundo corte ocorreu no século 17, quando a
doença foi retirada da macroestrutura corporal dos humores para a
microestrutura dos tecidos pela micrologia, descrita nos estudos de Marcelo
Malpighi (1628-1694), marcando a nova fase dos saberes médicos: a Medicina
celular.
O terceiro corte aconteceu com os estudos do
frade agostiniano Gregor Mendel (1822-1844), abrindo as portas da Medicina
molecular. Como consequência: projeto genoma, tratamentos com as
células-tronco, inseminação artificial, extraordinários avanços nos diagnósticos
e tratamentos de muitos cânceres.
No futuro, o quarto corte estará ligado,
certamente, ao maior domínio do binômio massa-energia, que envolve os elétrons,
os prótons, os nêutrons e as partículas subatômicas e sustentam as formas e as
funções dos seres vivos.
quarta-feira, 15 de julho de 2015
terça-feira, 14 de julho de 2015
Primas queridas
Pedro Lucas Lindoso
Neste mês em que se celebram
as mulheres, quero homenagear um dos segmentos mais simpáticos do universo
feminino: primas. Que fique claro tratar-se das filhas de irmãos e irmãs de
nossos pais e mães. Primas strictu senso.
Numa época em que há vários conceitos e preconceitos. Uns corretos outros nem
tanto, há que se delimitar expressamente o objeto de nosso assunto.
No lado materno, considerando
que minha mãe teve um único irmão e uma única irmã, fui aquinhoado com oito formosas
primas e um só primo. Já no lado paterno, a profusão de primos e primas foi bem
maior. Não só porque meu pai teve mais de dez irmãos, mas porque meu avô teve
filhos de dois leitos diferentes.
Conheço e sou amigo de todas
as minhas oito primas do lado materno. Infelizmente não conheço todas do lado
paterno, mas aquelas que conheço são todas igualmente formosas e merecedoras de
meu afeto e admiração.
Mulheres são seres sublimes e
merecedoras de nosso respeito, carinho e atenção. Quem tem o privilégio de ter
primas, geralmente é aconselhado a admirá-las e ser respeitoso. Crescemos
ouvindo que se deve sublimar qualquer sentimento mais romântico ou impetuoso
com relação a tão queridas criaturas. Dizem os mais velhos que não se deve
casar com primas, apesar de não existir impedimento legal. Mas quem nunca foi visitar uma tia só para
ver aquela prima bonitinha, não sabe o que é ter segundas intenções.
Assim, as primas pairam como
anjos amigos em sua doçura, formosura e inacessibilidade, igualando-se as nossas
irmãs no particular.
O tempo passa e a gente pode se separar, mas
as primas sempre ficam num lugar especial em nossos corações. As nossas
primeiras amizades femininas normalmente são as queridas primas e vamos encontrá-las
geralmente na mágica e inesquecível casa de nossos avós. Se há amigos para
sempre, primas são para a vida toda. Ninguém entende sua família melhor que
suas primas. Elas vão saber consolar e até ajudar e entender o motivo de muitas
estórias, disputas e segredos.
Como é bom ter primas. Tenho
primas advogadas, professoras, do lar, administradoras, dentistas. Algumas
solteiras, outras casadas e até viúvas. Minha homenagem a todas nesse março
todo delas.
Em Inglês a palavra “cousin” é
comum de dois gêneros. Ainda bem que em Português há primos e primas. Mesmo
porque primas são mulheres e mulher é obra-prima de Deus.
domingo, 12 de julho de 2015
sábado, 11 de julho de 2015
quinta-feira, 9 de julho de 2015
o adeus provisório
Zemaria Pinto
havia
em teus olhos duas fontes
trans/jorrando
pétalas de pedras
salcristalizados
diamantes
havia
em teus olhos diamantes
lavados
pela língua mineral
pétalas
de sal, cristais da ausência
líquido
cristal,
teus
olhos transbordantes:
minas
de luz
Busca da arqueologia da vida
João Bosco Botelho
Os seres vivos, dos unicelulares ao homem,
manifestam-se na natureza em torno da complexa dispersão da multiplicidade das
formas e das funções biológicas visíveis e invisíveis. Nessa maravilhosa
identificação dos múltiplos, uns mais semelhantes do que outros, porém únicos,
que é possível aos sentidos humanos, tanto os inatos quanto os cognitivos,
apreender a partir da comparação e, a seguir, reproduzir, modificar e
interpretar o observável.
Parece ter sido também por meio do
conhecimento historicamente acumulado – a repetição ou a repulsa do visível e
do sentido – que nós nos fizemos humanos. A explosão da inteligência humana
dá-se na construção de ideias para desvendar o ainda invisível, a partir do
processo cumulativo dos saberes.
Se tomarmos como exemplo um grupo de pessoas
adultas, ao longe o suficiente para vermos a forma – o corpo –, poderemos
caracterizá-lo, sem esforço, como homens e mulheres. Contudo, conforme nós nos
aproximarmos, perceberemos que continuam homens e mulheres, porém diversos
entre si em cada porção, agora mais perceptível, dos seus corpos.
Hipoteticamente, se essas pessoas fossem
submetidas à cirurgia da glândula tireoide, pelo mesmo cirurgião, ele
perceberia que todas possuem as tireoides – o órgão – parecidas, porém com as
formas diversas, seja no tamanho, na cor, na consistência ou em qualquer outro
parâmetro. Mesmo assim, com todas as dissimilitudes de apresentações, na
dimensão do corpo, prosseguem como homens e mulheres, e na dimensão do órgão,
tireoides, para qualquer observador.
Continuando o desvendar da matéria viva, a mesma
e incrível variação continua na dimensão microscópica – a célula. Apesar de as
células serem passíveis de reconhecimento como sendo originadas na tireoide, são
distintas entre si. Não obstante ainda não dispormos de tecnologia específica,
cabe indagar: o mesmo fenômeno que molda o ser vivente e as coisas ocorre também
no nível molecular? A célula é formada por milhões de moléculas com formas
diferentes e funções.
O que torna mais fascinante o desafio de
compreender o corpo humano, na busca da arqueologia da vida, é o fato de a doença
reproduzir, nas dimensões macro e microscópicas, um conjunto infinitamente
maior da multiplicidade das formas e das funções quando comparado ao corpo
considerado “normal”.
A perda do caráter individual dos seres vivos
ocorreria na dimensão atômica. Os corpos, órgãos, células e moléculas, “normais”
ou “doentes”, mantêm a multiplicidade, porém os átomos que os compõem não
teriam diferenças entre si. Esse é o ponto de encontro marcando os limites entre
o mundo vivo e a natureza inerte. Isso quer dizer que a ciência admite que os
átomos do carbono do diamante são iguais aos dos átomos de carbono das
moléculas das células do coração humano.
Neste momento, cabe a pergunta fundamental
que continua sendo o paradoxo fundamental da Medicina: em qual dimensão da
matéria viva o “normal” se transforma em “doença”?
quarta-feira, 8 de julho de 2015
segunda-feira, 6 de julho de 2015
Lábios que beijei 48
Zemaria Pinto
Nete
Era magra, pequena,
frágil, quase efêmera. Apenas os lábios e os seios de Nete pareciam
desproporcionados, mais volumosos que o conjunto. Conheci-a no clube que
frequentava aos sábados, com as crianças. Ela estava no segundo ano do
secundário. A primeira vez que fomos a um hotel foi inesquecível – pelo que não
aconteceu. Com o tempo, a menina foi aprendendo a arte e eu me adaptei de tal modo
àquela branda arquitetura, que, no contato com outras mulheres de formas
exuberantes, sentia falta de ângulos e reentrâncias que só encontrava em Nete.
O passar do tempo lhe foi benéfico, tornando-a harmoniosa, sem perder o encanto
da delicadeza. Nete casou, teve uma pequena, mas apesar de esparsos, nossos
encontros continuavam divertidos e cheios de tesão. Obrigações maritais,
entretanto, arrastaram-na ao Chile. Ainda recebi 3 ou 4 cartas saudosas, com
endereço da posta-restante, até que o silêncio dos anos deixou-me apenas a
lembrança de Nete. Tênue, suave, infinda.
domingo, 5 de julho de 2015
Manaus, amor e memória CCXIX
Marcadores:
Academia Amazonense de Letras,
Clube da Madrugada,
Jorge Tufic,
Manaus antiga
sábado, 4 de julho de 2015
quinta-feira, 2 de julho de 2015
exercício nº 18
Zemaria Pinto
caminhos que
se bifurcam, traçados
no tabuleiro
de jade, onde a besta
se deleita,
entre pétalas de pedra
e uma cascata
de sangue e absinto
caminhos
multiplicados, caminhos
de
descaminhos, em vão limitados
entre o sim
que dá passagem e o não
que abafa,
prende, verga, humilha e mata
os homens que
tenho sido se encontram
nos olhos
cegos do outro, nas mãos
rugosas do
outro, e até no hálito
apodrecido
que emana do outro
meu corpo
vaga nas escuras câmaras
feito um
camelo em meio a um maremoto
Marcadores:
A poesia é necessária?,
Neste Remoto Agora,
Zemaria Pinto
Darwin, o evolucionismo e a medicina
João Bosco Botelho
As ideias de Darwin revolucionaram os
saberes anteriores: os questionamentos não ficaram restritos a biologia e atingiram
fundamentalmente a religião. Sem dúvida, o naturalista Alfred Russel Wallace (1823-1913)
também teve importante parcela na evolução dos acontecimentos. Independente de
Darwin, ele formulou conceitos semelhantes sobre a evolução das espécies. Entretanto,
ele reconheceu a prioridade do colega inglês, que tinha feito estudos mais
detalhados e completos.
Em carta a outro naturalista amigo,
Charles Darwin escreveu: “Nunca vi
tamanha coincidência; se Wallace tivesse o esboço do meu manuscrito de 1842,
ele não poderia ter feito um melhor resumo”.
Wallace esteve, no Amazonas, em 1848, e publicou
em 1853, o livro Narrativa de viagens no Amazonas e no Rio Negro. Foi
após esse período, conhecendo a multiplicidade da natureza amazônica, que consolidou
o seu pensamento evolucionista, tão revolucionário quanto o de Darwin. Durante
a viagem, Wallace soube das observações de Henry Walter Bates (1825-1892).
Nesse livro, descreveu a incrível capacidade de algumas borboletas, para mudar
a aparência, com o objetivo de evitar o ataque de certas aves. É possível que
essa constatação de Bates tenha servido para ajudar Wallace na sua teoria
evolucionista.
Esse conjunto de informações motivou
particular interesse nos teóricos da escola positivista, liderada pelo francês
Augusto Comte e foram aplicadas em alguns ensaios também com o objetivo de estruturar
outra teorização do controle social.
A Igreja Católica, defendendo o
criacionismo, iniciou forte oposição às teorias evolucionistas. A disputa
ideológica persiste até a atualidade. Esse fato – a contenda entre os criacionistas
e evolucionistas, responsável pelas pressões eclesiásticas junto aos Estados
laicos, para conter o ensino do evolucionismo sob o prisma neodarwinista.
O caso mais conhecido ocorreu no sul dos
Estados Unidos, conhecido como o “cinturão
da Bíblia”, a região politicamente mais conservadora daquele país. Em
1982, uma lei obrigou que as escolas cumprissem o mesmo número de horas de
aulas tanto para a teoria criacionista quanto para a evolucionista. Chegaram a
afirmar, em documento conjunto, que o fato poderia ter consequências nefastas
ao desenvolvimento científico dos Estados Unidos.
Mais representativo e polêmico foi o
julgamento e condenação do professor John Scopes, no Tennesse, em 1925, somente
revogada em 1967: O seu crime foi desobedecer a uma lei do Estado que proibia o
ensino do evolucionismo: “É ilegal
ensinar qualquer teoria que negue a história da criação divina do homem como ensinada
na Bíblia, e ensinar em seu lugar que o homem descende de uma ordem inferior de
animal”.
As propostas teóricas de Darwin foram
incorporadas à Medicina e proporcionaram que o século 20 persistisse na busca
da saúde e da doença em compreensões abrangentes entendendo o Homem como
produto de múltiplas evoluções.
quarta-feira, 1 de julho de 2015
domingo, 28 de junho de 2015
sábado, 27 de junho de 2015
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