Amigos do Fingidor

sábado, 9 de janeiro de 2010

Fantasy Art – Galeria

A jamais.
Séverine Pineaux.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

o grito

a cidade acordara com o espocar dos foguetões. nas ruas e avenidas, as faixas e bandeirinhas. no céu sem nuvens, o aeroplano fazia acrobacias incríveis, deixando para trás mensagens de fumaça.

súbito, os acordes da banda anunciaram a chegada do carro oficial. os aplausos e foguetórios explodiram frenéticos, ao aceno do imperador.

da multidão, veio o único grito não-ensaiado.

– morra o imperador!

foi então decretada a caça às últimas bruxas.

(Adrino Aragão)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Craniotomia pré-histórica

João Bosco Botelho


Quaisquer que tenham sidos os motivos que levaram o homem pré-histórico a praticar a craniotomia ─ abertura dos ossos do crânio como ação intencional do homem sobre outro homem ─, no Neolítico, há mais ou menos 10.000 anos, não podem estar dissociados da imemorial luta contra o sofrimento, onde a solidariedade estabeleceu as bases da sobrevivência.

Muitos achados confirmam atitudes solidárias entre os nossos ancestrais distantes. Uma das mais destacadas, envolvendo a intenção cooperativa, é a representada pelos ossos achados na caverna La Lave, na França, de um homem pré-histórico, que sofreu ferimento perfurante de uma lança com ponta de pedra, pela frente, no osso sacro, no final da coluna. Esse hominídeo sobreviveu muito tempo após a ajuda de alguém que arrancou parte externa do objeto perfurante, cuidou do ferido e o alimentou. O tempo que a vítima viveu, depois do ferimento, pode ser calculado, com aproximação, a partir da regeneração óssea em torno da lesão no osso.

Permanece como um marco nas atitudes cooperativas, entre os nossos ancestrais, na busca dos mistérios do corpo, os crânios trepanados na pré-história. Os crânios foram abertos intencionalmente, sem intenção de matar, com meticuloso cuidado, em vários lugares da Europa, da Ásia e da África, diferenciando peremptoriamente dos outros crânios dilacerados pelo trauma com intenção de matar.

Muitos indivíduos submetidos às trepanações cranianas sobreviveram vários anos após a cirurgia, o suficiente para que as bordas do osso cortado se regenerassem parcialmente, crescendo de modo centrípeto, comprovados pela microscopia revelando osteogênese, só possível no organismo vivo.

Os locais escolhidos no crânio pelos curadores pré-históricos no acesso para cortar os espessos ossos parecem ter significações específicas. Alguns fizeram as craniotomias nos ossos temporais, outros nos parietais ou no frontal, retirando fragmentos ósseos com formas geométricas diferentes, de poucos centímetros, até grandes aberturas, como a do crânio achado em Collombey‑Muraz, na Suíça, da qual o doente não sobreviveu.

A extensão territorial e a diversidade de onde e como as craniotomias foram realizadas contribuíram para supor que eram muito difundidas e fizeram parte de um conjunto maior de intervenções do homem no homem, assinalando um momento específico na luta contra a dor e o sofrimento dos entes queridos. O “médico”, naquele momento, deixou de ser mero espectador para tentar mudar, com a sua ação, o curso de um acontecimento na saúde.

Não importa qual tenha sido o motivo para que houvesse a concordância do “médico” e do “doente”, respectivamente, para aceitar e executar a intervenção como necessária. O fato é que elas foram realizadas em grande número e é pouco provável que todas tenham sido sob violência coercitiva.

A frequência das craniotomias, nos esqueletos estudados, surpreende ainda mais. No sítio neolítico de Saint‑Martin‑la-Rivière, na Áustria, após a exumação de sessenta crânios pré-históricos, cinco deles (8%) foram trepanados.

Essas cirurgias, numerosas, executadas em torno de há 10 mil anos, encontraram a força necessária à reprodução a partir do momento em que o homem desejou mudar o curso da vida, depois de reconhecer a importância das funções vitais abrigadas na intimidade do cérebro. O cotidiano e, em seguida, o conhecimento historicamente acumulado, tornaram transparente aos ancestrais que o trauma intencional ou não no crânio poderia determinar a morte imediata, portanto diverso dos outros traumas.

Mesmo com esses pressupostos, não há como saber as razões pelas quais as craniotomias foram realizadas, de modo muito semelhante, por diferentes povos da Europa, Ásia, África, há 10.000 anos, e, mais recentemente, pelas civilizações da América pré‑colombiana, sem que os grupos humanos tenham tido contato interétnico. Na cultura pré‑incaica de Tiawanaku e na incaica, as escavações arqueológicas não param de revelar as múmias, magnificamente conservadas, que foram submetidas à trepanação em vida.

Talvez seja possível unir alguns elos para teorizar o entendimento de como atuaram certas associações simbólicas no aparecimento da trepanação pré‑histórica. O culto do crânio é um das mais importantes. O conhecimento empírico historicamente acumulado já era suficiente para dar ao homem neolítico a importância do conteúdo do crânio. Essa observação forneceu a sedução para que os nossos ancestrais iniciassem a compreensão do crânio com o seu conteúdo como parte sagrada do corpo.

O professor Leroi Gurhan, já falecido, um dos mais respeitados estudiosos da pré-história, a partir do achado de um altar primitivo composto com um crânio humano na porção central, sugere a possibilidade de ter existido cultos específicos ao crânio.

O valor da cabeça na vida de relação pode ter sido suficiente para justificar o culto da estrutura protetora ─ o crânio ─ e a intencionalidade para abrir, por meio das craniotomias, para conhecer e tomar posse das qualidades.

Craniotomia de 10 mil anos, com sobrevivência.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Luis Royo.

drops de pimenta 44

.
─ Cerveja ou chope?

─ Posso pedir um vinho?

─ A quem você está querendo impressionar?

(Zemaria Pinto)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Os mistérios de uma fotografia

Rogel Samuel*


Como se pôde obter essa fotografia?

Fileto Pires Ferreira concluiu as obras do Teatro Amazonas, que estavam paradas, e o inaugurou em 31 de dezembro de 1896. Mesmo assim, no dia da inauguração, neste dia, os andaimes da construção do teatro ainda estavam lá, talvez, porque o teatro não estava inteiramente concluído. Inaugurou-se o teatro naquele dia com La Gioconda, de Amilcare Ponchielli, sob a regência do maestro brasileiro Joaquim de Carvalho Franco, que foi diretor da Academia Amazonense de Belas Artes.

Como se pôde obter aquela fotografia aérea?

A foto deve ser da época da inauguração. Governo Fileto Pires Ferreira.

Como não havia helicóptero, a foto só pôde ter sido tomada de um balão!

Mas como fotografar de um balão com as câmeras fotográficas da época?

Quem foi o autor da foto? Foi George Huebner (1862-1935), um fotógrafo alemão que se estabeleceu em Manaus, onde viveu cerca de 50 anos, e onde faleceu.

Diz Mário Ypiranga que a foto é da edição de George Huebner, de Dresden, Alemanha. O livro está publicado hoje: George Huebner 1862-1935: um Fotógrafo em Manaus, de Daniel Schoepf.

Sobre George Huebner, leia-se de Andreas Valentin:

http://www.studium.iar.unicamp.br/17/02.html?studium=index.html

Observando bem, se vê em primeiro plano os fortes muros de contenção que foram construídos e que existem até hoje como o que hoje aparece na Rua Simão Bolívar e serviriam para conter o arrimo do Palácio do Governo, a maior obra de Eduardo Ribeiro, maior do que o Teatro Amazonas. O Palácio nunca foi finalizado, e sobre suas fundações Álvaro Maia construiu a escola normal tal como existe até hoje. Os muros estão lá, para confirmar. O Palácio seria, se construído, a maior construção do Brasil de sua época!

Naquele espaço depois do muro há umas casas que deviam abrigar operários ou materiais e muito mato. Ali hoje estão ruas e casas.

Atrás, à direita da foto, a observação é mais curiosa: onde está o Palácio da Justiça? Está ali, ainda quase no chão, está em obras. As obras podem ser vistas se ampliar a foto.O que se vê é a estrada tosca do que viria a ser a Avenida Eduardo Ribeiro e a Matriz, no canto superior direito. Dá para ver os postes de iluminação no meio da Avenida, um luxo para época. São postes com várias lâmpadas cada um, cada um tem três fileiras de lâmpadas, contei 30 lâmpadas em cada poste.

Mas atrás da igreja Matriz há uma construção enorme. Que será aquilo? Perto do quarto poste se pode distinguir a casa de Eduardo Ribeiro, talvez. Observe no primeiro plano que o terreno desce e aquilo devia dar num lago ou pântano e essa depressão existe até hoje, atrás da Academia de Letras. Aquele terreno era um pântano.

É uma foto aérea, rara para a época.

Foto extraordinária.

*Publicado no blog de Rogel Samuel.

Manaus, amor e memória VIII

Teatro Amazonas, em construção, meados dos anos 1890, visto da atual Ramos Ferreira.
A rua que passa à direita é a que viria a ser a Eduardo Ribeiro. As torres ao fundo são da Matriz.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Renovação


Tenório Telles


Se a primavera é a estação da alegria, das cores e da beleza, o inverno é a renovação, a chegada das águas que umedecerão a terra, saciarão as plantas e farão germinar as sementes. Com o ciclo das águas a vida se renova, reafirmando a promessa de continuidade da existência, de superação de nossas fragilidades e de reencontro com o que de melhor se perdeu em nós. Metáfora dessa renovação, expressa na impermanência do tempo e no caráter cíclico da natureza, é o nosso existir – que se cumpre como as estações, em que cada momento, com suas circunstâncias e sentidos, acrescenta-se ao que somos: e, assim, de semente nos tornamos planta, florescemos, legamos ou não nossos feitos e nos perpetuamos nas sementes que geramos, e que engendrarão novas árvores, propiciando o milagre da colheita e da reatualização do existir dos seres e das coisas.

E assim “floresce ao longe o vale mais sombrio”. O verso do poeta alemão Ludwig Uhland é expressivo da natureza renovadora da “máquina do mundo” – essa grande e misteriosa engrenagem que gera a bruteza da pedra, o indomável oceano, o furor dos ventos, mas nos brinda igualmente com a delicadeza das flores, a alegria dos passarinhos e o sorriso das crianças. Se a natureza é capaz de criar coisas tão grandiosas e belas – que tornam a vida uma promessa de felicidade permanente, não é impossível que faça florescer “o vale mais sombrio” do humano coração, em que se refugiam os espectros da ambição, da mesquinhez e da crueldade. Que as águas e a luz cheguem a essa paragem do Ser e esse vale de sombras e de morte se transforme num jardim, onde germinem as sementes do bem, da tolerância e da compaixão.

Renovação é a palavra que melhor traduz este momento da existência. Que melhor expressa o anseio de uma humanidade cansada de guerras, injustiças e incompreensões. Renovação é a metáfora viva desse desejo recalcado, sem face e sem voz, que habita nosso Ser – esse anseio de transcendência, de diálogo com o inefável e de reencontro com a essência que nos faz humanos e que jaz soterrada sob os escombros de uma época banalizada pela maldade, cinismo e indiferença. De um tempo inglório, em que a covardia triunfa sobre a coragem e a nobreza. Em que os maus assumiram o governo do mundo e implantaram o reinado da mentira, da pilhagem e da covardia.

A vida, entretanto, é maior. É maior que a força das armas; é superior ao poder dos tiranos; é luz que ofusca e dilui a mentira; é dignidade que envergonha a covardia, fazendo-a fenecer. A vida, com sua nobreza e sua lei, é a espada que pune os injustos, os que causam a ruína do povo e fazem sofrer as crianças, os velhos e os deserdados da sorte. Apesar dos desacertos do mundo, o dia continua nascendo, os passarinhos cantando, as flores colorindo e perfumando nossa existência. Os poetas seguem alegrando nosso espírito com seus versos mágicos. Os homens de boa vontade e os que sonham a utopia tecem, com os fios da esperança e da verdade, as malhas do novo tempo que refulge no horizonte. Talvez seja o momento de sairmos “em busca do coração perdido, do espírito de compaixão” que está adormecido em cada um de nós e também nos bichos, nas pedras, nas flores, nas águas, nas estrelas, no sol, nos passarinhos. E também em ti, caro leitor.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Lirismo, sensualidade e humor na poesia de Cândida Alves

Zemaria Pinto*


A poesia lírica tem três mil anos, e em que pesem as mudanças de forma, nem tantas, mantém-se rigorosamente fiel ao seu conteúdo: reflexo(e)s do ego do poeta. Talvez isso explique a dificuldade de se vendê-la: é uma arte essencialmente solitária, resultante de um trabalho de (auto)contemplação do mundo, o que implica, na relação escritor x leitor, na existência de uma predisposição cúmplice, por parte deste.

A poesia lírica não objetiva divertir ou educar. Como se trata da exposição de uma postura particular, única, diante da realidade, só será plenamente apreciada se o leitor-receptor estiver em perfeita sintonia com o poeta. Daí que o momento mágico do poeta só se revela integralmente ao leitor-poeta, aquele que, desarmado das defesas do óbvio, vê o poema por dentro, muito além da palavra impressa.

Seria pedante e ocioso desfilar aqui as razões que filósofos, críticos literários e até mesmo alguns tímidos poetas, enumeram para explicar o intimismo e a solidão do lírico, que, poetizando para si, tem como história as próprias lembranças recontadas e como geografia, o limite que se lhe impõem os olhos, reinventando-a.

A poeta Cândida Alves é herdeira legítima dessa tradição milenar. Sua poesia é simples sem ser banal e sensual sem ser vulgar. O humor de Cândida é amargo – afinal, dói rir de si mesma. Feminina, sua poesia é uma delícia de incorreção política. Por outro lado, a linguagem de Cândida é viva, pulsante, mas econômica, essencial:

               Bate à porta
               come, dorme, sai e
               bate a porta

Este poema ilustra quase todas as qualidades acima listadas. Releia-o. Repare na sutil diferença entre o primeiro e o terceiro versos. O segundo verso, por sua vez, em três palavras, realiza uma interação precisa entre tempo e circunstância, ao mesmo tempo em que registra, na sequência de movimentos entre as imagens congeladas da porta, a entediante rotina da mulher solitária.

Aliás, é fundamental frisar essa dicção feminina na poesia de Cândida Alves. Não há meio termo. O eu lírico que fala para si mesmo os poemas de Todo corpo é feminino – às vezes mulherzinha, como em “Ele sempre me fode”:

               acorda cansado, azedo
               mas ainda me fode
               acabando se manda
               e não diz nem se volta
               e definitivamente
               me fode

Às vezes revoltada, como em “É quase de manhã”, onde depois de lamentar-se da velha rotina de cama e mesa, ela proclama:

               de agora em diante
               eu que vou te comer

Às vezes apaixonada e feliz, mas nunca fútil, com recursos técnicos complexos inseridos na musicalidade do poema, tirando de letra o fio de navalha que separa a grande poesia da simples pieguice, como neste “Eu te amo”:

               Teu beijo
               me escorre na cara
               escancaras na boca
               um bocejo (...)


               Vou à geladeira
               encontro uma pera
               e como
               sentada na pia


               Um gato que mia lá fora
               me lembra na hora
               meu gato sozinho na cama

O humor e o amor são fichinhas marcadas do lirismo. E, na poesia de Cândida, eles se realizam por inteiro, mesmo quando o eu lírico ultrapassou o estágio da revolta, chegando à resignação. O sofrimento provoca um sorriso cruel, sem dentes, sem lábios, que explode no peito da poeta, como em “Alívio final”:

                Acho que estou morta
                sinto-me toda torta
                nessa carcaça de pele (...)


                devo estar mesmo morta
                toda torta nessa farofa
                em que se tornou a vida
                pra onde olho não vejo saída
                sem ter que voltar atrás

Penso que é bobagem a distinção entre poesia masculina e feminina. Há que ser de qualidade para ficar. Se for ruim o tempo será seu coveiro. Mas quando se chama a atenção para o fato é para notar a reduzida participação feminina na literatura amazonense de qualidade. Há mais de dez anos publicou-se uma Antologia poética da mulher amazonense. Candoca, menina, não está lá. Pontificavam, então – a linguagem de apresentação é rebuscada e vazia, eivada de adjetivos vãos –, as poetas Violeta Branca e Astrid Cabral. Duas gerações que se encontravam para determinar o fazer poético da mulher amazonense. Cândida, vórtice voraz da feminil paixão, é o vértice que faltava para completar a figura perfeita – e encerrar o século. Que assim seja.


(*) Apresentaqção do livro Todo Corpo, de Cândida Alves, Edições Governo do Amazonas, 2000.

sábado, 2 de janeiro de 2010

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

(in)nesperado

acordou na hora de costume. após o café, demorou um pouco mais na leitura dos jornais, vestiu o paletó e, como sempre fazia, despediu-se com um beijo no rosto da mulher.

mas, desta vez, não voltaria para o almoço. nem sequer telefonaria. era quase noite quando foram encontrá-lo sentado no banco da praça próxima ao porto. o corpo inerte, já frio como o da estátua em bronze poucos metros adiante. os olhos sem brilho permaneciam fixos na folha de papel, que comunica a aposentadoria compulsória.


(Adriano Aragão)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O bug do milênio

Roberto Mendonça



Os autógrafos no postal.


Há dez anos, aconteceu a virada do século e, simultaneamente, do milênio. Encerrava-se o século XX, datado por seus novecentos, e o mundo encarava nova era, nova contagem do tempo. Esse fato corriqueiro, naquele dezembro de 1999 prestou-se para diversos debates, fossem os de cunho científico, fossem os de botequim. Em todos, porém, havia o consenso: um desastre rondava nossas vidas pelo possível mau funcionamento do computador, a máquina que já exercia amplo domínio sobre nossas ações. Tanto os especialistas quanto os “brameiros” concordavam: na passagem do milênio, o computador haveria de “travar”, causando sérios desastres. Desse modo, a apreensão amplamente disseminada pelo planeta moveu os governantes à aplicação de medidas preventivas.

Pouco entendo de computação; mas, recordo-me da proclamação de que os dados até então armazenados sofreriam grave descontrole. Argumentava-se que, nos computadores, a modificação de 99 para 00 não se encontrava devidamente programada, poderia não funcionar. Seria melhor prevenir. E assim, em diversas atividades, houve concretização de medidas. Uma das providências drásticas aplicou-se na aviação: nada de avião entre o céu e a terra na virada do ano.

Mas, para tripudiar sobre os especialistas e palpiteiros, uma empresa de aviação nacional desafiou a zebra, encarou o enigma, realizando no território nacional e, nesse horário, o único voo. Falo da extinta Viação Aérea São Paulo (Vasp) que, na noite de São Silvestre, efetuou o VP 234, saindo de São Paulo para Manaus, com escala em Brasília, onde eu embarquei.

Na ocasião, encontrando-me em Curitiba, decidi passar o reveillon em Manaus. Ao buscar passagem, fui surpreendido com essa viagem aérea. Não vacilei. Decidi arriscar e, óbvio, me dei bem. Apesar de programado, não acreditava na realização do voo, pois as autoridades a qualquer momento poderiam suspendê-lo.

Encontrei o aeroporto de Brasília às moscas. Afinal, somente um passageiro “maluco” iria embarcar. E, de fato, apenas eu embarquei naquele momento. A bordo da aeronave encontrei poucos passageiros, quase todos parentes dos tripulantes (soube depois). Como é de praxe no país, na oportunidade, cumpria-se o horário de verão, por isso, decolando pouco antes da meia-noite, logo brindamos a virada de ano. E repetimos o brinde e mais abraços quando, em voo panorâmico, sobrevoamos Manaus, naquele instante, colorida e enfeitada pelos fogos de artifícios estourados ao longo da cidade.

Para ilustrar a aventura, gravei os dados essenciais em um cartão postal. Nele, captei o registro venturoso da tripulação, sob a responsabilidade do comandante Ibrahin. Trata-se de um registro vitorioso, tanto da empresa que se dispôs a enfrentar o desafio do bug (segundo restou crismado), quanto de minha parte, que contribuí ao menos com o registro. Enfim, da apreensão estabelecida ao longo do ano, nada aconteceu de extraordinário. O computador comportou-se com dignidade, transformando toda aquela angústia em grande fiasco (ainda bem!). Lembrou-me em parte o temor espalhado no mundo pelo trânsito no espaço do cometa Halley.

O resultado mais visível do bug do milênio, passado o primeiro decênio: eu perdi os meus cabelos, e a aviação perdeu a Vasp.


 O lado A do postal.

Medicina romana: Galeno e Sorano

João Bosco Botelho


Após a terceira guerra púnica, os romanos consolidaram o vasto império no Mediterrâneo. Com o desenvolvimento obtido pelas conquistas militares e anexação de territórios, a sociedade romana absorveu grande parte das virtudes gregas, especialmente, as prá-ticas médicas voltadas para a tríade: diagnóstico, tratamento e prognóstico, como elementos mais distanciados da vontade das deusas e dos deuses.

Entre as primeiras providências para mudar a Medicina, em Roma e nas colônias, a legislação sacramentou os médicos como uma categoria profissional definida, tanto entre os homens livres como entre os escravos. As obrigações do médico passaram a ser organizadas pelo senado romano, que também definia os pagamentos pelos serviços profissionais.

Sob o Império de Adriano, no século II da era cristã, os médicos eram dispensados do serviço militar e quase todas as cidades romanas dispunham de médico remunerado pelo Estado romano.

Em torno do século IV, as frequentes queixas dos usuários impôs severa fiscalização da profissão médica por parte da administração e instituíram-se rigorosos exames de seleção, organizados pelos mais importantes médicos de Roma, para todos que quisessem exer-cer a profissão.

Os rigores nas seleções provocaram forte diminuição de curadores, que determinaram outro tipo de reclamação coletiva: poucos médicos para atender a demanda, tanto em Roma quanto nas colônias. Sob esse novo tipo de questionamento, o império romano subvencionou os estudantes de Medicina, mas em troca eram obrigados a prestar assistência aos pobres.

Sob forte influência dos textos gregos da Escola de Cós, especialmente, os que tratavam das complicações da interrupção voluntária da gravidez, tanto na mãe quanto no feto, os médicos foram proibidos de praticar o aborto. O extraordinário viés legislador romano norteou outras mudanças de grande importância, que são respeitadas até os dias atuais: o médico recusar o atendimento de qualquer doente seja quais fossem as circunstâncias.

Nessa mesma época, sob o império de Diocleciano, no ano de 300, um édito imperial impunha como condição para que o candidato fosse aceito numa escola de medicina, a apresentação de certificado de boa conduta fornecido pelo comando militar da cidade.

Com o crescimento do número de escolas de medicina, avolumaram-se os conflitos nascidos em torno da má prática. Um dos mais significativos está inserido nas disputas entre clínicos e cirurgiões. Essa diferença entre clínicos e cirurgiões, respectivamente, os que tratavam os enfermos por meio de métodos não invasivos e os que sempre cortavam ou amputavam partes do corpo, está clara em Cícero ao escrever sobre os médicos verdadeiros, que corresponderia aos clínicos gerais de hoje. Esse magnífico orador romano registrou algumas especialidades médicas:
              Cascelio extirpa ou cura os doentes; tu Igino, queimas os cílios que irritam os o-lhos, Eros elimina as tristes cicatrizes dos servos e Hermes goza de fama de ser o Podalírio das hérnias.

A maior ponte entre as Medicinas grega e romana é atribuída ao médico Cláudio Galeno, considerado o sucessor de Hipócrates, e que influenciou de modo marcante a Medicina medieval. Galeno nasceu em Pérgamo, na Ásia Menor, no ano de 130.

Galeno erigiu a teoria dos Quatro Temperamentos acoplando outras variáveis, sem dúvidas, mais visíveis, à teoria dos Quatro Humores, descrita por Políbio, o genro de Hipócrates. Para cada “humor” existiria um “temperamento” que melhor explicaria a etiologia das doenças:

HUMOR - TEMPERAMENTO

Fleuma – Fleumático: doenças úmidas (p. ex. respiratórias, como a asma)
Sanguíneo – Sanguíneo: doenças quentes (p. ex. cardíacas, como o infarto)
Bilioso amarelo – Colérico: doenças secas (p. ex. hepáticas, com a hepatite)
Bilioso preto – Melancólico: doenças frias (p. ex. psiquiátricas, como a depressão)

Desse modo, cada temperamento era mais ou menos suscetível a determinada doença. Sob essa leitura, se fosse possível mudar o temperamento de uma ou de um grupo de pessoas, as doenças poderiam ser evitadas.

As suas obras abordavam a anatomia, a fisiologia, a patologia, a sintomatologia e a terapêutica. Uma parte dos livros foi publicada em Veneza, em 1538, formando um núcleo de consultas dos médicos medievais e do Renascimento europeu.

O outro médico romano que se destacou nos séculos seguintes foi Sorano, nascido em Éfeso. Os escritos de Sorano demonstram extrema lucidez e bom senso. Entre as obras dele destaca-se o Manual de Ginecologia, que serviu de orientação aos médicos durante quase quinze séculos, praticamente, sem qualquer contestação. Nessa obra genial, descreveu com absoluta precisão as posições anormais dos fetos durante o nascimento.

Esses médicos extraordinários viveram no Império Romano, na época em que foi instalado um dos mais competentes sistemas públicos de atenção à saúde. A preocupação dos legisladores com a saúde pública era inquestionável. A Lei das Doze Tábuas, que remonta aos primórdios da República, estabelecia normas para o sepultamento e queima dos cadáveres fora dos muros da cidade, e a construção dos esgotos. As autoridades públicas fiscalizavam o cumprimento das normas que regulamentavam a higiene pública.

As novas idéias da medicina alcançaram a arquitetura. Os grandes arquitetos romanos, como Vitrúvio, recomendavam a escolha de lugares ensolarados para a construção das casas.


A teoria dos Quatro Temperamentos, de Galeno.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Fantasy Art – Galeria

Goh' Cephal.
Henning Ludvigsen.

drops de pimenta 43

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─ Camarão, caranguejo?...

─ Batata frita!

─ É... nem pra tira-gosto você tem classe!


(Zemaria Pinto)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

AAL – José Braga é reeleito



O acadêmico José Braga foi reeleito, por unanimidade, nesta tarde, para a presidência da Academia Amazonense de Letras, biênio 2010-2011. A eleição, presidida pelo acadêmico e arcebispo de Manaus Dom Luiz Soares Vieira, transcorreu em clima de fraternal cordialidade.

Poemas no mar mineiro

Cristina Duarte-Simões*


Decididamente, a poetisa brasileira Tânia Diniz tem jeito para semear... Há mais de vinte anos, através do movimento Mulheres Emergentes, ela espalha pela cidade de Belo Horizonte – sob a forma de cartaz – um número impressionante de poemas escritos por mulheres, não somente nos lugares mais propícios (escolas, bibliotecas), como também nos mais inesperados (estações, centros de eventos e convenções). Um trabalho que exigiu muita tenacidade, pois apesar de no início não ter contado com nenhum apoio financeiro, a autora mineira soube persistir no seu projeto e aperfeiçoá-lo com o passar dos anos. Para comemorar o décimo oitavo aniversário desses cartazes poéticos, foi lançada em 2007 a coletânea Antologia ME 18, apresentando uma compilação de poemas escritos por quarenta e três mulheres.

Recentemente, procurando destacar o aspecto masculino desse trabalho original, Tânia Diniz decidiu prestar homenagem a todos os homens que, às vezes nos bastidores, apoiaram o projeto desde 1989. E eis que poetas, escritores, desenhistas, radialistas, jornalistas, colaboradores, amigos e leitores aceitaram o convite. Todos esses textos poéticos foram então publicados na Antologia Meninos, que acaba de ser lançada no Brasil.

O pequeno livro de 63 páginas surpreende pela grandeza do propósito e do conteúdo. "A poesia emerge desses meninos para nos tornar ainda mais humanos", anuncia pertinentemente o escritor Caio Junqueira Maciel, no texto inaugural. Com efeito, um prazer imenso conduz o leitor nesse percurso tecido pelos 25 poetas da coletânea. Há uma grande diversidade: jovens e menos jovens; poetas premiados e desconhecidos do público em geral; alguns preferem poemas curtos, outros mais longos; uns adotam formas poéticas contemporâneas, outros permanecem fiéis às formas clássicas. São poemas-poemas, poemas em prosa e até mesmo visuais. Ainspiração dos autores é também bastante variada. Num momento, um poeta presta homenagem ao animal de companhia que acabou de perder (“Lá vai o poeta fazer a cova…”, Antônio Dayrell); em outro, são versos curtos que descrevem o instante mágico de uma pausa musical (“Dança nordestina”, Osvaldo André); um pouco depois, certos cômodos de uma casa são revisitados com nostalgia (“A casa perscrutada: escrivaninha / biblioteca / quarto das meninas”, Zemaria Pinto). Às vezes, prefere-se a forma clássica para louvar a mulher amada (“Soneto para iluminar você”, J.B. Donadon-Leal); outras vezes, a concisão de seis versinhos é suficiente para falar do desejo (“Aportar”, Cláudio Márcio Barbosa). Um poeta presta homenagem ao piano de uma mãe: toda tecla / plena de história (“Poema pro piano da mãe de Rogério Salgado”, Kiko Ferreira); enquanto outros confessam a admiração que têm por Michel Foucault (“Foucaltidianamente”, Lucas Guimaraens) ou por Julia Kristeva (“Efeito Kristeva”). Se Sérgio Bernardo prefere encenar a fuga de um homem de um campo de concentração para homossexuais (“Atrasa o trem na estação de Bergen”), J.S. Ferreira lembra, em versos incisivos, o drama da Faixa de Gaza, em que o eterno estopim do ódio se acende (“Na faixa de Gaza”).
Como no livro anterior (Antologia ME 18), pinceladas vigorosas fazem reviver o poeta Carlos Drummond de Andrade, mineiro, como aliás os dois livros citados. É o caso do poema “Passagem” de Lucas Guimaraens, que não deixa de relembrar dois grandes monumentos poéticos do grande autor: “José” e “A flor e a náusea”: No rumo da casa José colheu a rosa no asfalto. A inspiração do poeta de Itabira pode também ser encontrada na leitura do poema “Esperança”, do mesmo Lucas Guimaraens, que parece fazer referência ao “Poema de sete faces” (Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo…), como ao “Soneto da perdida esperança”. Por seu lado, Luiz Zanotti também homenageia Drummond no belíssimo poema “Luiza”, iluminado com muita sensibilidade pelo texto em prosa que o acompanha. A menina Luiza acabou de nascer, é a filha do autor; enquanto que no texto de Drummond trata-se de uma moça desaparecida e de uma mãe completamente desesperada (“Desaparecimento de Luísa Porto”). Entretanto, pensamos que são nos poemas de Di Moreira (“Mineiro uai”) que se encontra a melhor transmissão do espírito do inevitável poeta, por exemplo nos versos: carrego com muito amor / o meu jeito do interior. De uma forma mais geral, pode-se perguntar se a referência ao grande Drummond — forçosamente intertextual — não seria passagem obrigatória para qualquer poesia originária de Minas Gerais; como se os poetas, a um momento do percurso, se sentissem na obrigação de pagar um tributo à essa obra monumental…

O Modernismo paulistano de 1922 também recebe uma homenagem através da pluma de um Lucas Guimaraens, bisneto do conhecido poeta do Simbolismo brasileiro, Alphonsus de Guimaraens. No poema “São Paulo”, o autor interpela os grandes nomes da Semana de Arte Moderna: Mário, Oswald, / de onde veio esta força em piadas / se trânsito não permite atropelar realidade? Por outro lado, se o livro anterior, organizado pela mesma Tânia Diniz, tinha nos acostumado à delicadeza dos textos das mulheres-poetas, esta nova obra surpreende pela exatidão dos sentimentos masculinos : Eu não tenho consciência da minha / fragilidade e do futuro / e me perco nas palavras (“Depoimento”, Sandro Starting); ou então: São os vales do meu sertão que me fazem assim… / jacumã das embarcações aladas… / colibri do mato, horizonte aberto… (“Jacumã”, Ronaldo Zenha); e o que dizer da tão bem sucedida aliteração : errar / a rota rota e surrada / entre / arrotos / matinais do poema, “Cohen et Joplin no Celsea Hotel”, de Kiko Ferreira?

Mesmo que a grande maioria dos poetas da Antologia Meninos seja originária do Estado de Minas Gerais, outras regiões do Brasil também estão representadas por autores que, de uma forma geral, adotaram a terra mineira. O carioca Paulinho Andrade compõe, numa linguagem fresca e coloquial, um dos poemas mais emocionantes da coletânea (“Honra e glória”). O amazonense Simão Pessoa interessa-se pelo próprio mecanismo da construção poética, não sem uma boa dose de humor (“Para fazer um poema concreto”). O artista plástico pernambucano Severino Iabá faz brotar poesia dos objetos de cerâmica fotografados (sem título, p. 50). Único poeta de origem estrangeira, o português Fernando Aguiar não deixa de fazer referência ao mar, inserindo-se numa forte tradição lusitana: e se de noite te acendo e na penumbra te beijo / é no teu mar de desejo que me quero afogar (“E se o riso”).

A dificuldade desta coletânea, hoje em dia, vem do simples fato de ser poesia, gênero um pouco menosprezado pelo público em geral. No entanto, para aquele ou aquela que tiver a delicadeza e a curiosidade de se aproximar e de ouvi-los, os versos desses meninos deixará, sem dúvida alguma, uma marca indelével. E a melhor imagem para definir esse aspecto frágil e fugidio, talvez seja a que foi proposta por Affonso Romano de Sant'Anna, na apresentação da obra: os diversos poemas vogam ao acaso no mar impalpável de Minas Gerais, um dos raros estados brasileiros a não dispor de acesso ao oceano.


(*) Professora na Université de Toulouse-le Mirail, França.

domingo, 27 de dezembro de 2009

malditas criaturas infernais 3

ou a ponte de Pandora*



O governador da província de Zhejiang, na China, reúne seu secretariado e, dedo em riste, liga o ventilador giratório**:

– Bando de incompetentes! Nós constluímos a maiol ponte do mundo – 35 quilômetlos soble o mal! – e pagamos somente 82 milhões de dólales por quilômetlo? Lá em Pandola estão fazendo uma pontezinha de meloda, soble um liozinho chinflin, de apenas 4 quilômetlos, e já pagalam, pol quilômetlo, mais de 215 milhões! Eles é que sabem adminstlar o dinheilo público! Vocês vão fazer um estágio em Pandola, seus bulos, pla aplender com quantos milhões de dólales se faz uma ponte!


(João Sebastião)

(*) Esta Pandora é muito parecida com a do filme. A diferença é que aqui os invasores ganharam a guerra.

(**) Tradução simultânea, com sotaque da 25 de março.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Fantasy Art – Galeria

The Divining Heart.
Michael Whelan.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Mudamos de ciclo! Pois sejam felizes!

.
Cansei-me de ti, Natal,

mas nunca do Senhor Cristo:

não me convence o banal

que fazem de tudo isto.

Ainda assim, Feliz Natal

e um Ano Novo bem longe

desse triste carnaval.


(Jorge Tufic)