Amigos do Fingidor

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Pessoa, Miller e Keats - parte I

Marco Adolfs


Abril passado estive na Europa em viagem de férias. Viagem programada que finalmente pude realizar. Fui com a minha esposa Dora a Portugal, França e Itália. Mas, não só para filmar e fotografar tudo o que via - os ícones do velho continente -, mas também com o intuito e visitar Fernando Pessoa em Lisboa, Henry Miller na França e o poeta Keats em Roma. Entre outros escritores e também pintores que nos legaram suas obras a partir de uma visão eurocêntrica, muitas vezes romântica, quase sempre clássica ou reveladora. Uma viagem cultural em essência, visitando antes de tudo as ruas dessas capitais, os museus e as homenagens variadas dedicadas ao espírito humano, em forma de esculturas e arquiteturas gigantescas. E, como em uma máquina do tempo acionada pela memória do que já tinha sido lido, senti-me transportado para a história desses intelectuais e de suas existências fundamentais em um velho mundo que se tornou essencial para toda a humanidade.

Cheguei a Lisboa com o frio do inverno enfrentando a força da primavera que se avizinhava resoluta. Nas ruas e metrôs, os portugueses corriam em busca de recuperar o tempo perdido durante os anos passados de salazarismo. Em seus bolsos, agora tilintava o Euro. Forte e vigoroso incentivo ao desenvolvimento. Salazar era apenas uma página virada de que todos riam ou se lamentavam. Explicando uma parte e justificando outra de Portugal. Mas agora, Salazar e seu mundo pertenciam a um velho e inconcebível Portugal, só visto de relance em revistas de exaltação desse tempo, amarelecidas e esquecidas em uma banca da Feira da Ladra. E que nenhum português, em sã consciência, desejava comprar ou sequer folhear. Não haveria lugar mais justo para Salazar e seu tempo ficarem esquecidos do que na Feira da Ladra. Tempos roubados aos portugueses, esses de Salazar.

Mas, eu estava querendo mesmo era encontrar Fernando Pessoa. Disseram-me, ainda no Brasil, que ele vivia sentado em uma mesa do bar A Brasileira, ali no Largo do Chiado, a tomar os seus aperitivos ou café; e falando com seus heterônimos enquanto escrevia. Ou então, que ele poderia ser encontrado, ou na tabacaria A Havaneza, bem ao lado do bar; ou na Licorista, na Travessa do Arco do Sapateiro, lá pros lados do Rossio. Lugar onde gostava de tomar uns goles de uma bebida alcoólica preparada artesanalmente. Daí ter sido proibida.

Estávamos hospedados no Campo Pequeno, bem perto da Praça dos Toros, e teríamos, segundo informações, que pegar o metrô e nos deslocar até o Rossio. De lá, era só caminhar um pouco pelas charmosas e ladeirosas ruas de Lisboa até o Chiado. Lá, com certeza quase que absoluta, estaria o Fernando pensando ou matutando como escrever algum outro poema ditado pelo Álvaro de Campos.

Lisboa é uma cidade pequena com alma grande. Que tem que ser descoberta perdendo-se em suas ladeiras e praças. Ainda é uma capital bucólica que guarda seu passado distante como se ele já não tivesse passado. Isso é muito bom. Todas as cidades deveriam ser assim. Um provincianismo gostoso, uma personalidade madura e um jeito de quem sabe viver sua vida de todos os tempos. Mas assim é Lisboa. Uma mulher bonita cantando um fado melodioso. Ou então, quase como a casa da gente, com tios e primos diversos circulando ao redor.

Fazia ainda muito frio quando saímos da estação do Rossio, em busca de encontrar o Fernando. Caravanas ridículas de turistas ansiosos, tocados como gados por algum esperto guia, circulavam pela grande praça fotografando e filmando tudo o que encontravam pela frente. Como se quisessem devorar os pedaços de pedras e esculturas da velha Lisboa Pombalina. Eram bárbaros. Os novos bárbaros a invadir a Europa.

Uma excursão de brasileiros passou rente aos meus ouvidos e eu escutei bem uma voz feminina quase a gritar que estava era a fim de beber um vinho, e não de ver essas casas velhas todas. Mais bárbaros ainda. Cruz credo. Afastei-me o mais rápido e independente possível querendo falar com o Pessoa, para inclusive perguntar, em uma conversa de bar, sobre o que achava de tudo isso. Poeta, ficcionista, dramaturgo, filósofo e prosador, além de ocultista seguidor de Aleister Crowley, Fernando Pessoa, com certeza, iria me dizer que já estava providenciando uma magia qualquer para afastar essa gente barulhenta e insensível de perto de sua casa e das redondezas do Chiado.

– Não é possível escrever com toda essa gente circulando e fotografando por aí – iria me dizer. – Vou despachar essa gente para uma temporada no inferno!

Subimos as calçadas, cruzando como bondes saídos do passado e lá estava o Fernando Pessoa sentado em frente ao bar A Brasileira. Aproximei-me lentamente, tentando ver o que ele estaria fazendo naquele frio. Sentei em uma cadeira da mesa vizinha como quem não quer nada e fiquei olhando de esguelha. Ele estava com a perna esquerda apoiada na direita e parecia estar pensando em algum guardador de rebanhos, tal a concentração. Não fumava, nem bebia o Fernando. Parecia que apenas estava realmente pensando. Rígido e resistente como uma estátua de bronze.

Um dos maiores poetas e prosador da nossa Literatura, Pessoa pode ser considerado, sem nenhum erro, universal. Ele sabe que a vida é múltipla. Daí ele saber que tem que se multiplicar para entendê-la. Sabendo-se também múltipla as suas vozes, criou os seus heterônimos: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, sem esquecer um outro pouco falado, o Bernardo Soares e um tal de Alexander Search. Esse, procurando se esconder como um simples pseudônimo.

Se o Pessoa não fosse poeta, talvez tivesse se tornado filósofo. Foi o que eu pensei, ao olhar um pouco mais atentamente para ele. Fernando tinha apenas quinze anos e já lia de tudo, inclusive pesados tomos filosóficos. Embora tudo levasse a crer que fosse abraçar o Classicismo puro, sua produção implementou o Sensacionismo, marcando firmemente o modernismo português. Um vanguardista o Pessoa. Que mesmo no silêncio recatado de sua solidão e modéstia aparente, se desdobra em vários e ainda pensava em Orpheu. Provocando seus conhecidos, que se espantavam com palavras tão fortes vindas de um homem tão quieto.

Pensava eu ainda em tudo isso quando uma excursão de turistas se aproximou célere, vinda do Largo do Carmo, carregando suas armas e brasões. Máquinas fotográficas japonesas, francesas e italianas, cercaram o poeta imediatamente e eu não via mais nada. Mas, passados alguns segundos que pareceram durar décadas, vi o Fernando Pessoa levantar-se com certa dificuldade e sair, aborrecido, com tudo aquilo. Pareceu dirigir-se, quase correndo, para sua casa ali perto. O número 16 da Rua Coelho da Rocha.

Respeitei o desejo do poeta de ficar bem longe das pessoas, e parti. Mais alguns dias descobrindo Lisboa e seus poetas, conhecidos ou desconhecidos, e eu estaria embarcando para Paris em busca de Henry Miller. Que estaria a escrever, com certeza, algum livro importante na paz de Clichy.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Poesia Minimal, de U. Sanches - apresentação

Zemaria Pinto*

Vai me perdoar o leitor mais escolado, mas é pensando no neófito que escrevo esta apresentação. Aquele leitor que, atraído pela capa ou pelo título, estranhou o excessivo espaço em branco ou o pouco texto. Haicai, haikai ou haiku: poema cultivado inicialmente no Japão feudal, no período Edo, a partir do século XVII, tem apenas 3 linhas. Os antigos usavam a métrica 5-7-5, mas isso não pode ser uma camisa-de-força. O mais interessante da forma haicai não é exterior: observação da natureza, ou melhor, do meio ambiente, e anulação do eu. Não ao sentimentalismo, à reflexão, ao antropomorfismo, às figuras de linguagem, aos exercícios retóricos. Arte antiintelectual, no dizer de Octavio Paz. Não sobra muita coisa, deve estar pensando o leitor. Pois é exatamente desse universo reduzido, condensado, que o haijin, o cultor do haicai, extrai sua arte.

Flagrante de um momento único, o haicai é um poema tão concentrado, que, por muitas vezes, nem percebemos a poesia nele entranhada. Daí que o desapego da métrica proporciona ainda maior liberdade, podendo resultar em maior concentração. O haicai é isso: uma explosão. Não no sentido literal da palavra: uma explosão de sensações, porque, enquanto o lírico trabalha sentimentos, o haijin trabalha sensações. Veja o exemplo tirado deste Poesia Minimal, de U. Sanches, que você tem em mãos:

Tarde chuvosa –
escondida nos bambus
a orquestra dos sapos

O primeiro verso exprime a melancolia do momento: uma tarde de chuva. Não está dito, mas infere-se, é fim de tarde e os primeiros sapos começam a cantoria. O poeta lírico certamente puxaria pela memória e faria uma relação daquele momento com algum sentimento recôndito. O haijin limita-se a registrar o momento, com os recursos que um fotógrafo ou mesmo um pintor não disporiam. Um cinegrafista, talvez. Mas não conseguiria, contudo, passar a mesma sensação que o poeta, porque ao leitor cabe compor a imagem e imaginar os sons que ela evoca, tornando-se cúmplice na criação. Esse leitor, se tiver alguma intimidade com a paisagem, despertará todos os sentidos: sentirá a chuva molhando sua pele; ouvirá o ruído da chuva e a música da saparia; perceberá o cheiro que emana daquele paul; sentirá na boca o gosto daquelas sensações todas; e sobretudo verá com todas as cores aquela paisagem cinza. Mas há um sexto sentido, que é um atributo do haijin: a percepção do que não é evidente, a intuição de que aquele momento único, que não irá se repetir jamais, é um poema, que ele, com seu poder de concisão, registra em nove palavras.

Sirvo-me ainda do poema de Sanches para ilustrar outra característica do poema-haicai, a estruturação em duas camadas: uma refletindo a condição geral do poema, normalmente identificando o que os japoneses chamam de kigo, isto é, o elemento do poema que define a estação na qual ele foi escrito; e outra refletindo o efêmero, o instante, a experiência jamais sentida: o aguçamento do sexto sentido. Aquela primeira camada anuncia – tarde chuvosa – a condição espacial e/ou temporal do poema. A repetição eterna de que se nutre a natureza. A segunda camada – escondida nos bambus / a orquestra de sapos – traz o inesperado, o estranho, que só subsiste em contato com a primeira camada. É da união das duas que se enforma o haicai.

Chega de conversa, que esta apresentação já vai além da conta. O gaúcho U. Sanches cultiva o haicai com a dignidade de um mestre. Lê-lo é mais instrutivo que qualquer teoria.

*O livro Poesia Minimal, de U. Sanches, permanece inédito.
** O livro foi lançado, em Manaus, dia 4 de Janeiro de 2014, na livraria Valer.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Ephemeral Miracle.
Yannick Bouchard.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

os habitantes da chuva

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o velho, os peixes prateados, a rã verde. eram sempre os mesmos, e chegavam com a chuva.

o que pretendiam? de onde vinham?

nunca se soube. chegavam silenciosos. partiam mais silenciosos.

num desses temporais memoráveis, só a rã decidiu permanecer no vilarejo.

ainda hoje coaxa, solitária, no escuro brejo. coaxa, coaxa, coaxa; talvez à espera de novos temporais.


(Adrino Aragão)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

5º Concurso Internacional de Minicontos Mulheres Emergentes

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O 5o. Concurso Internacional de Minicontos ME* comemora o vigésimo ano (2009) de existência do mural poético Mulheres Emergenpes, o sensual em cartaz. Idealizado pela escritora Tânia Diniz, e agora editado por ela e a escritora Ana Carol Diniz, em Belo Horizonte – MG – Brasil, é uma publicação trimestral, em formato de pôster, que enfatiza o feminino e o sensual nas artes. Circula no país e exterior.

Regulamento:
Para homens e mulheres

1. Trabalhos inéditos recebidos em português ou espanhol.

2. a. Máximo de 03 minicontos inéditos, com máximo de uma lauda (26/28 linhas), digitados ou datilografados em papel ofício, espaço dois, em 01 (uma) via, sob pseudônimo, além de enviados para o email: 5concursoME@gmail.com

b.Dados pessoais (nome, endereço, e.mail, telefax, profissão, RG, pequena biografia etc.) em envelope lacrado, externo, apenas pseudônimo e nome da obra, e em outro e.mail em anexo.

3. Tema livre.

4. Inscrições abertas de 11 de janeiro a 31 de março de 2010, valendo a data do carimbo postal. Encaminhar para a redação do ME junto com a taxa de inscrição de R$20,00 ou US$10, ou Euros, para estrangeiros.

Aceita-se mais de uma obra inscrita por autor desde que sob pseudônimo e taxa diferentes (do mesmo valor). Ou depositados na conta no. 39522-6/Banco do Brasil/ agencia 3032-5, desde que enviada cópia do comprovante do banco.

Redação: R. José Viola, 88 CEP 30411-370 Belo Horizonte- MG -Brasil -Telefax (31) 3332-2111

5. A premiação constará de três (3) primeiros lugares, que receberão troféu e livros, além da exemplares da publicação em Edição Especial do mural ME com os dez finalistas classificados.

6. A Comissão Julgadora será composta de 3 a 5 membros altamente qualificados e suas decisões são definitivas e irrecorríveis.

7. Os originais não serão devolvidos. A inscrição vale pela aceitação de todos os itens deste regulamento e cessão de direitos para eventual publicação.

8. O resultado será anunciado em junho/10, pela imprensa e em e-mails e cartas aos participantes. A data e local de entrega dos prêmios serão determinados na ocasião.


(*) O ME chama de microconto o que aqui chamamos de nanoconto.
(Nota do editor)

A queda do muro de Berlim, a grande roda e o pranto do médico albanês


João Bosco Botelho


Durante o pós-doutorado, em algum dia do inverno de 1992, entre janeiro e fevereiro, conheci na salle de garde, da Universidade de Paris VII, o médico albanês Halrian Plavcz. Pelo crachá de identificação atado à bata branca, todos podem saber os nomes e os países de origem dos que circulam no hospital. Durante o almoço, o nosso diálogo começou em consequência da notícia, no jornal Le Monde, analisando a alta inflação brasileira.

As salles des gardes são as salas de refeições somente dos médicos. A tradição de os médicos comerem em lugares separados dos da administração hospitalar remonta à Revolução Francesa.

Não me lembro como a conversa avançou na direção da ruína da ordem socialista-comunista, no leste europeu. Nesse momento, o médico albanês, com certa emoção, disse que estava, naquele momento e naquele lugar, porque o muro tinha sido derrubado. Em seguida, explicou que a intolerância à liberdade, antes da queda do muro, seria facilmente compreendida por meio da peça teatral A grande roda, do teatrólogo Vaclav Havel, na época, presidente da Tchecoslováquia, que estava sendo encenada no Teatro de la Ville, um dos mais de trezentos teatros parisienses em funcionamento.

A peça é essencialmente voltada à forte crítica do modelo socialismo-comunismo (ou comunismo-socialismo), que enclausurou a liberdade às ordens dos partidos comunistas.

Aos que estavam próximos, era visível o aumento da tensão emocional do Halrian, ao dizer que nunca compreendeu como os membros dos partidos comunistas, uma porção minoritária em relação à população, conseguiram se manter tanto tempo no poder. Durante alguns instantes, fitando a fumaça do cigarro entre os dedos amarelados, perguntou como as pessoas puderam ter se encantado com um partido político que, essencialmente, baniu as mais elementares noções de liberdade.

Naquele momento, relembrei para ele a viagem realizada ao leste europeu, no inverno de 1976, quando visitei vários países. É difícil esquecer o entardecer gelado do domingo, em Sofia, na Bulgária, quando fotografei os dois policiais na porta da magnífica catedral, fiscalizando os papéis de autorização para as pessoas entrarem e assistirem a missa.

O médico albanês afastou o prato de comida e ajeitou os cabelos precocemente embranquecidos. Acendendo outro cigarro, perguntou se eu era cristão. Sem esperar a resposta, elevando o tom da voz, disse que o pai dele era pastor metodista e que, inconformado com a miséria dos camponeses, acreditou nas propostas do socialismo-comunismo. Não muito tempo depois, viu os amigos que contestavam a autoridade do partido comunista serem julgados e condenados. Por ter discordado publicamente de um desses “julgamentos”, foi preso e a família nunca mais teve notícia dele. Em poucos dias, a igreja foi transformada em viveiro de galinhas e patos.

Nesse instante, vi que o médico chorava sem ruído; as lágrimas escorriam pela face muito branca. Foi quando se levantou e sem importar-se com os médicos que interromperam a refeição, a maior parte sem saber do que se passava, com a voz visivelmente alterada pela emoção, disse que a mãe dele, antes de morrer, dois anos após o desaparecimento do pai, fez ele e o irmão jurarem que tentariam fugir em direção ao oeste.

O refeitório estava em silêncio; todos ouviam e viam o pranto do médico quando ele aumentou ainda mais o tom da voz para dizer que tivera mais sorte. Seu irmão Glawcav morreu de frio e de fome antes de alcançar a fronteira italiana. Halrian soluçava e alguns médicos perguntavam o que se passava.

Vários colegas franceses e eu tentávamos dizer que toda aquela agonia havia passado. Uma médica búlgara afagava a face dele molhada pelas lágrimas. Halrian sentou-se e com a cabeça baixa continuou o pranto de dor.

Não me lembro quanto tempo passou; o grupo se dissolveu pouco a pouco, com os médicos retornando às enfermarias.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Shi.
Julie Bell.

drops de pimenta 45

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─ Pronto, meu bem; seu frango assado, no ponto!

─ Demorou tanto que até passou a vontade...



(Zemaria Pinto)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Livraria é templo

Marco Adolfs

O cronista, em frente à Shakespeare and Company.

Preciso escrever alguma coisa sobre as livrarias, esses lugares inventados para vender livros. Sempre penso, quando entro em uma, que na livraria estão todos os santos consagrados pela sabedoria humana.

Se para o escritor argentino Jorge Luiz Borges uma livraria era como se fosse uma espécie de paraíso, para mim qualquer livraria é sempre um campo repleto de árvores, frutos e flores.

Sou um rato de livrarias. Desses que fuçam os livros sabendo que ali existe sempre um odor característico que nos faz desejar comê-los. Mas se não posso comê-los – pelo menos literalmente falando –, levo-os para casa. Lá, os degusto como devem ser degustados. Pelo menos alguns desses.

Se livrarias são templos consagrados, existem algumas catedrais espalhadas pelas capitais do mundo. Recentemente estive em uma dessas catedrais, a Shakespeare and Company, localizada em Paris. Mas aqui vale uma observação: essas “catedrais” não são catedrais por causa do seu espaço físico, mas sim pelas suas especificidades. Não passam de portinhas atulhadas de livros espalhados quase que de forma caótica. São livrarias para você fuçar e não se perder.

A história da Shakespeare and Company é de se visitar em rápidas pinceladas. Tirei um dia, no intervalo desta escrita, só para respirá-la. Ela é uma dessas livrarias que viraram ponto de romaria.

A Shakespeare and Company começou a existir naquela Paris dos anos 20 do século passado. Por ali passaram Gide, Valéry, Picasso, Pound, Joyce e Hemingway, entre outros. Sua história daria um romance ou um filme. Para se ter idéia de seu peso, foi nessa livraria que o Ulysses, o livro famoso de James Joyce, foi editado pela primeira vez.

Na verdade existiram três Shakespeare and Company. As duas primeiras, criadas pela americana Sylvia Beach. Uma, a primeira, aberta na rue Dupuytren em 1919, e que durou apenas vinte meses, e a segunda, localizada na rue l`Odeon, 12, e que durou até 1941. A terceira e definitiva é uma imitação, usando a franquia do nome, criada em 1951 por George Whitmam, e que até os nossos dias continua na Rive Gauche, no número 37 da rue de la Bucherie. Ainda hoje, uma livraria especializada em literatura de língua inglesa.

Dois fatos notáveis sobre essa livraria merecem ser relatados rapidamente aqui. Um deles foi a edição dramática e dificultosa, pela própria livraria, como já disse, do romance Ulysses, de James Joyce, entre 1921 e 1922. E o outro caso se deu em 1941, quando um oficial alemão fez pressão para que Sylvia Beach lhe vendesse a cópia do Finnegans Wake e ela se recusou. O oficial, revoltado, ameaçou-lhe confiscar todos os bens. Sylvia imediatamente chamou seus amigos e transferiu todo o estoque da loja para um outro lugar, ludibriando o oficial nazista. Mas esse fato selou o fechamento da sua livraria.

Quanto à edição de Ulysses, além de Sylvia resolver editá-lo sem experiência alguma, houve uma verdadeira guerra de bastidores no que diz respeito a censuras prévias vindas de setores conservadores da sociedade e quanto ao serviço de datilografia e revisão exaustivos, já que Joyce mudava constantemente o texto e sua caligrafia era de difícil entendimento.

Um verdadeiro périplo, repleto de situações negativas, permeou toda a pré-edição da obra: com manuscritos de partes do livro jogados ao fogo por um ciumento marido de uma das datilógrafas, pressões de assinantes impacientes em prol da obra que haviam pago antecipadamente, e o problema crônico em um dos olhos de Joyce, que teve que ser operado às pressas, ainda com o livro sendo revisado.

Mas, com pressões de todo o tipo, o livro finalmente foi lançado em fevereiro de 1922. Já a sua comercialização posterior nos países de língua inglesa foi mais uma aventura à parte, com intervenções até de contrabandistas voluntários, que passavam a obra por guardas de fronteira, escondida entre suas roupas. Imaginem então, milhares de livros grossos, passando um por um e todos os dias, na travessia de uma inocente balsa.

Essa é uma apenas uma parte, que resolvi contar, desse nosso mundo de textos, livros e livrarias. O que devemos notar sempre é o serviço que essas livrarias – sejam elas quais forem –, prestam à iluminação, quase que de fundo religioso, à humanidade. São templos onde a intolerância e a barbárie – como diz o nosso amigo Tenório Telles, coordenador editorial da nossa livraria Valer – não podem entrar.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Crime de lesa-patrimônio

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O que restou dos casarões geminados.
Ao fundo, o Palácio Rio Negro.
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O que assistimos nos últimos dias foi de embrulhar os estômagos mais insensíveis: um festival de mentiras sobre, afinal, de quem é a responsabilidade pela demolição das casas situadas ao lado do Palácio Rio Negro, reformadas há não mais que 10 anos. As autoridades responsáveis jogaram a culpa na construtora, contumaz financiadora de prefeitos e governadores do Amazonas, nos últimos 28 anos.
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Mentira 1: a demolição foi manual. Como se isso fizesse alguma diferença. A sequência de fotos da nossa querida Clara Nihil – a melhor fotógrafa do Jardim Brasil – escancara a mentira.
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Mentira 2: nenhuma autoridade sabia o que estava acontecendo. Os casarões ficam ao lado da Secretaria de Cultura – que, como ninguém ignora, funciona num anexo do Palácio Rio Negro –, e a 500 metros da UGPI, gestora do Prosamin, cujo nome de remédio esconde o maior crime ambiental cometido contra esta infeliz cidade de Manaus: o aterramento dos igarapés que cortavam a cidade. Estavam todos de férias?
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Mentira 3: a construtora vai refazer os casarões, sem ônus para o Estado. Então, tá. E certamente ainda sobrará um trocado para a campanha deste ano.
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É o caso de se perguntar: destruíram os igarapés que estavam aí desde os tempos míticos de Yabá Buró, a Avó do Mundo, por que nós estamos reclamando de umas casinhas de pouco mais de 100 anos?
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Que a maldição de Iurupari se abata sobre a canalha!










Texto: João Sebastião, o arrasa-quarteirão.
Fotos: Clara Nihil, a inefável.

Crime de lesa-poesia

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O que restou da casa do Seu Genaro, cantada por Astrid Cabral.


Geografia provinciana
Astrid Cabral


Manaus um ponto perdido
no mapa. Ali, desgarrada
entre paredes de verde.
Mas iam e vinham navios
trazendo franjas do mundo.
Europa e Península Ibérica
surgiam das próprias pedras
das avenidas e esquinas:

a Itália na taberna
de seu Vicenzo Arenaro.
Também no livro de Dante
que o sapateiro traduzia
rodeado de crianças
a mostrar-lhes céus e infernos
toda a celeste geografia.

Seu Genaro, já grisalho
fundava o reino de Espanha
atrás de barris de vinho
tinas mantas de banha
vinagres azeites doces
réstias de alho e cebola.

Seu Carvalho, o português
vendia bolos e broas
à vontade do freguês
mais rala-rala e refrescos
de guaraná e groselha.
Síria China e Argentina
vinham na gorda maleta
do turco mais seus bigodes:
damascos crepes Chambleys.

A França era ali na Madame
Marie
e no Aux Cent Mille Paletots
a moda do dernier cri.

E passavam barbadianas
sob chapelões de palha
ao sol dos dias em brasa.
E um fugitivo das Guianas
testemunhava a Ilha do Diabo!

O mundo estava em Manaus
Manaus estava no mundo.
Foto: Clara Nihil.

Fantasy Art – Galeria

A jamais.
Séverine Pineaux.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

o grito

a cidade acordara com o espocar dos foguetões. nas ruas e avenidas, as faixas e bandeirinhas. no céu sem nuvens, o aeroplano fazia acrobacias incríveis, deixando para trás mensagens de fumaça.

súbito, os acordes da banda anunciaram a chegada do carro oficial. os aplausos e foguetórios explodiram frenéticos, ao aceno do imperador.

da multidão, veio o único grito não-ensaiado.

– morra o imperador!

foi então decretada a caça às últimas bruxas.

(Adrino Aragão)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Craniotomia pré-histórica

João Bosco Botelho


Quaisquer que tenham sidos os motivos que levaram o homem pré-histórico a praticar a craniotomia ─ abertura dos ossos do crânio como ação intencional do homem sobre outro homem ─, no Neolítico, há mais ou menos 10.000 anos, não podem estar dissociados da imemorial luta contra o sofrimento, onde a solidariedade estabeleceu as bases da sobrevivência.

Muitos achados confirmam atitudes solidárias entre os nossos ancestrais distantes. Uma das mais destacadas, envolvendo a intenção cooperativa, é a representada pelos ossos achados na caverna La Lave, na França, de um homem pré-histórico, que sofreu ferimento perfurante de uma lança com ponta de pedra, pela frente, no osso sacro, no final da coluna. Esse hominídeo sobreviveu muito tempo após a ajuda de alguém que arrancou parte externa do objeto perfurante, cuidou do ferido e o alimentou. O tempo que a vítima viveu, depois do ferimento, pode ser calculado, com aproximação, a partir da regeneração óssea em torno da lesão no osso.

Permanece como um marco nas atitudes cooperativas, entre os nossos ancestrais, na busca dos mistérios do corpo, os crânios trepanados na pré-história. Os crânios foram abertos intencionalmente, sem intenção de matar, com meticuloso cuidado, em vários lugares da Europa, da Ásia e da África, diferenciando peremptoriamente dos outros crânios dilacerados pelo trauma com intenção de matar.

Muitos indivíduos submetidos às trepanações cranianas sobreviveram vários anos após a cirurgia, o suficiente para que as bordas do osso cortado se regenerassem parcialmente, crescendo de modo centrípeto, comprovados pela microscopia revelando osteogênese, só possível no organismo vivo.

Os locais escolhidos no crânio pelos curadores pré-históricos no acesso para cortar os espessos ossos parecem ter significações específicas. Alguns fizeram as craniotomias nos ossos temporais, outros nos parietais ou no frontal, retirando fragmentos ósseos com formas geométricas diferentes, de poucos centímetros, até grandes aberturas, como a do crânio achado em Collombey‑Muraz, na Suíça, da qual o doente não sobreviveu.

A extensão territorial e a diversidade de onde e como as craniotomias foram realizadas contribuíram para supor que eram muito difundidas e fizeram parte de um conjunto maior de intervenções do homem no homem, assinalando um momento específico na luta contra a dor e o sofrimento dos entes queridos. O “médico”, naquele momento, deixou de ser mero espectador para tentar mudar, com a sua ação, o curso de um acontecimento na saúde.

Não importa qual tenha sido o motivo para que houvesse a concordância do “médico” e do “doente”, respectivamente, para aceitar e executar a intervenção como necessária. O fato é que elas foram realizadas em grande número e é pouco provável que todas tenham sido sob violência coercitiva.

A frequência das craniotomias, nos esqueletos estudados, surpreende ainda mais. No sítio neolítico de Saint‑Martin‑la-Rivière, na Áustria, após a exumação de sessenta crânios pré-históricos, cinco deles (8%) foram trepanados.

Essas cirurgias, numerosas, executadas em torno de há 10 mil anos, encontraram a força necessária à reprodução a partir do momento em que o homem desejou mudar o curso da vida, depois de reconhecer a importância das funções vitais abrigadas na intimidade do cérebro. O cotidiano e, em seguida, o conhecimento historicamente acumulado, tornaram transparente aos ancestrais que o trauma intencional ou não no crânio poderia determinar a morte imediata, portanto diverso dos outros traumas.

Mesmo com esses pressupostos, não há como saber as razões pelas quais as craniotomias foram realizadas, de modo muito semelhante, por diferentes povos da Europa, Ásia, África, há 10.000 anos, e, mais recentemente, pelas civilizações da América pré‑colombiana, sem que os grupos humanos tenham tido contato interétnico. Na cultura pré‑incaica de Tiawanaku e na incaica, as escavações arqueológicas não param de revelar as múmias, magnificamente conservadas, que foram submetidas à trepanação em vida.

Talvez seja possível unir alguns elos para teorizar o entendimento de como atuaram certas associações simbólicas no aparecimento da trepanação pré‑histórica. O culto do crânio é um das mais importantes. O conhecimento empírico historicamente acumulado já era suficiente para dar ao homem neolítico a importância do conteúdo do crânio. Essa observação forneceu a sedução para que os nossos ancestrais iniciassem a compreensão do crânio com o seu conteúdo como parte sagrada do corpo.

O professor Leroi Gurhan, já falecido, um dos mais respeitados estudiosos da pré-história, a partir do achado de um altar primitivo composto com um crânio humano na porção central, sugere a possibilidade de ter existido cultos específicos ao crânio.

O valor da cabeça na vida de relação pode ter sido suficiente para justificar o culto da estrutura protetora ─ o crânio ─ e a intencionalidade para abrir, por meio das craniotomias, para conhecer e tomar posse das qualidades.

Craniotomia de 10 mil anos, com sobrevivência.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Luis Royo.

drops de pimenta 44

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─ Cerveja ou chope?

─ Posso pedir um vinho?

─ A quem você está querendo impressionar?

(Zemaria Pinto)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Os mistérios de uma fotografia

Rogel Samuel*


Como se pôde obter essa fotografia?

Fileto Pires Ferreira concluiu as obras do Teatro Amazonas, que estavam paradas, e o inaugurou em 31 de dezembro de 1896. Mesmo assim, no dia da inauguração, neste dia, os andaimes da construção do teatro ainda estavam lá, talvez, porque o teatro não estava inteiramente concluído. Inaugurou-se o teatro naquele dia com La Gioconda, de Amilcare Ponchielli, sob a regência do maestro brasileiro Joaquim de Carvalho Franco, que foi diretor da Academia Amazonense de Belas Artes.

Como se pôde obter aquela fotografia aérea?

A foto deve ser da época da inauguração. Governo Fileto Pires Ferreira.

Como não havia helicóptero, a foto só pôde ter sido tomada de um balão!

Mas como fotografar de um balão com as câmeras fotográficas da época?

Quem foi o autor da foto? Foi George Huebner (1862-1935), um fotógrafo alemão que se estabeleceu em Manaus, onde viveu cerca de 50 anos, e onde faleceu.

Diz Mário Ypiranga que a foto é da edição de George Huebner, de Dresden, Alemanha. O livro está publicado hoje: George Huebner 1862-1935: um Fotógrafo em Manaus, de Daniel Schoepf.

Sobre George Huebner, leia-se de Andreas Valentin:

http://www.studium.iar.unicamp.br/17/02.html?studium=index.html

Observando bem, se vê em primeiro plano os fortes muros de contenção que foram construídos e que existem até hoje como o que hoje aparece na Rua Simão Bolívar e serviriam para conter o arrimo do Palácio do Governo, a maior obra de Eduardo Ribeiro, maior do que o Teatro Amazonas. O Palácio nunca foi finalizado, e sobre suas fundações Álvaro Maia construiu a escola normal tal como existe até hoje. Os muros estão lá, para confirmar. O Palácio seria, se construído, a maior construção do Brasil de sua época!

Naquele espaço depois do muro há umas casas que deviam abrigar operários ou materiais e muito mato. Ali hoje estão ruas e casas.

Atrás, à direita da foto, a observação é mais curiosa: onde está o Palácio da Justiça? Está ali, ainda quase no chão, está em obras. As obras podem ser vistas se ampliar a foto.O que se vê é a estrada tosca do que viria a ser a Avenida Eduardo Ribeiro e a Matriz, no canto superior direito. Dá para ver os postes de iluminação no meio da Avenida, um luxo para época. São postes com várias lâmpadas cada um, cada um tem três fileiras de lâmpadas, contei 30 lâmpadas em cada poste.

Mas atrás da igreja Matriz há uma construção enorme. Que será aquilo? Perto do quarto poste se pode distinguir a casa de Eduardo Ribeiro, talvez. Observe no primeiro plano que o terreno desce e aquilo devia dar num lago ou pântano e essa depressão existe até hoje, atrás da Academia de Letras. Aquele terreno era um pântano.

É uma foto aérea, rara para a época.

Foto extraordinária.

*Publicado no blog de Rogel Samuel.

Manaus, amor e memória VIII

Teatro Amazonas, em construção, meados dos anos 1890, visto da atual Ramos Ferreira.
A rua que passa à direita é a que viria a ser a Eduardo Ribeiro. As torres ao fundo são da Matriz.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Renovação


Tenório Telles


Se a primavera é a estação da alegria, das cores e da beleza, o inverno é a renovação, a chegada das águas que umedecerão a terra, saciarão as plantas e farão germinar as sementes. Com o ciclo das águas a vida se renova, reafirmando a promessa de continuidade da existência, de superação de nossas fragilidades e de reencontro com o que de melhor se perdeu em nós. Metáfora dessa renovação, expressa na impermanência do tempo e no caráter cíclico da natureza, é o nosso existir – que se cumpre como as estações, em que cada momento, com suas circunstâncias e sentidos, acrescenta-se ao que somos: e, assim, de semente nos tornamos planta, florescemos, legamos ou não nossos feitos e nos perpetuamos nas sementes que geramos, e que engendrarão novas árvores, propiciando o milagre da colheita e da reatualização do existir dos seres e das coisas.

E assim “floresce ao longe o vale mais sombrio”. O verso do poeta alemão Ludwig Uhland é expressivo da natureza renovadora da “máquina do mundo” – essa grande e misteriosa engrenagem que gera a bruteza da pedra, o indomável oceano, o furor dos ventos, mas nos brinda igualmente com a delicadeza das flores, a alegria dos passarinhos e o sorriso das crianças. Se a natureza é capaz de criar coisas tão grandiosas e belas – que tornam a vida uma promessa de felicidade permanente, não é impossível que faça florescer “o vale mais sombrio” do humano coração, em que se refugiam os espectros da ambição, da mesquinhez e da crueldade. Que as águas e a luz cheguem a essa paragem do Ser e esse vale de sombras e de morte se transforme num jardim, onde germinem as sementes do bem, da tolerância e da compaixão.

Renovação é a palavra que melhor traduz este momento da existência. Que melhor expressa o anseio de uma humanidade cansada de guerras, injustiças e incompreensões. Renovação é a metáfora viva desse desejo recalcado, sem face e sem voz, que habita nosso Ser – esse anseio de transcendência, de diálogo com o inefável e de reencontro com a essência que nos faz humanos e que jaz soterrada sob os escombros de uma época banalizada pela maldade, cinismo e indiferença. De um tempo inglório, em que a covardia triunfa sobre a coragem e a nobreza. Em que os maus assumiram o governo do mundo e implantaram o reinado da mentira, da pilhagem e da covardia.

A vida, entretanto, é maior. É maior que a força das armas; é superior ao poder dos tiranos; é luz que ofusca e dilui a mentira; é dignidade que envergonha a covardia, fazendo-a fenecer. A vida, com sua nobreza e sua lei, é a espada que pune os injustos, os que causam a ruína do povo e fazem sofrer as crianças, os velhos e os deserdados da sorte. Apesar dos desacertos do mundo, o dia continua nascendo, os passarinhos cantando, as flores colorindo e perfumando nossa existência. Os poetas seguem alegrando nosso espírito com seus versos mágicos. Os homens de boa vontade e os que sonham a utopia tecem, com os fios da esperança e da verdade, as malhas do novo tempo que refulge no horizonte. Talvez seja o momento de sairmos “em busca do coração perdido, do espírito de compaixão” que está adormecido em cada um de nós e também nos bichos, nas pedras, nas flores, nas águas, nas estrelas, no sol, nos passarinhos. E também em ti, caro leitor.