Amigos do Fingidor

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Nelson Rodrigues, o reacionário anarquista

Zemaria Pinto



O teatro – juntamente com a pintura, a forma mais antiga de expressão – mantém-se vivo e é ainda a fonte que alimenta grande parte do nosso imaginário, mesmo nestes tempos de avançada tecnologia e efeitos especiais. Os grandes autores surgem como ícones de seu tempo, e muitas vezes superam a literatura, um fenômeno que tem seu maior exemplo em William Shakespeare, considerado por boa parte da crítica como o centro do cânone de toda a literatura universal.

No Brasil, a arte teatral deste século está intimamente ligada ao nome de Nelson Rodrigues, embora isso não seja uma unanimidade, afinal o próprio Nelson considerava que “toda unanimidade é burra”. Mas, a par da polêmica que sempre surge quando o tema é o dramaturgo pernambucano, não custa nada lembrar seu conterrâneo Manuel Bandeira, para quem, sem qualquer ranço de bairrismo barato, Nelson Rodrigues era “o maior poeta dramático da língua portuguesa”.

Nelson Rodrigues era de um tempo
em que os profissionais do futebol
assumiam suas preferências.
(Caricatura de Baptistão) 
Observem que o objeto de nossas observações é o dramaturgo inquieto, criativo, brilhante. Não o romancista, pífio, ou o cronista, descartável. Tampouco esse Nelson Rodrigues de “A Vida Como Ela É”, com textos escritos para urgências jornalísticas(*). Nelson construiu, em 17 peças, uma obra ímpar, sem dúvida a mais consistente da dramaturgia brasileira.

Sábato Magaldi classificou a obra de Nelson Rodrigues em três grandes grupos: peças psicológicas, peças míticas e tragédias cariocas. Ao primeiro pertence a obra-prima Vestido de Noiva, além de A Mulher sem Pecado, sua primeira peça, o monólogo Valsa n° 6, a comédia Viúva, Porém Honesta e a politicamente correta Anti-Nelson Rodrigues. Ao segundo grupo pertence seu trabalho mais polêmico, Álbum de Família, censurado por 22 anos, mais Anjo Negro, Doroteia e Senhora dos Afogados. No terceiro grupo, encontra-se o Nelson mais popular, principalmente pelas adaptações para o cinema: A Falecida, Perdoa-me por me Traíres, Os Sete Gatinhos, Boca de Ouro, O Beijo no Asfalto, Bonitinha, mas Ordinária, Toda Nudez Será Castigada e A Serpente, seu último trabalho para teatro. Por falar nessas adaptações, salvo Toda Nudez..., dirigida por Arnaldo Jabor, nenhuma está à altura do texto rodrigueano. Algumas, aliás, não passam de meras pornochanchadas.

Seguindo a linha aberta por Antonin Artaud, na França, que propôs o “teatro da crueldade”, Nelson Rodrigues também criou sua estética da exceção: o “teatro desagradável”. Mas, ao contrário de Artaud, que enlouqueceu antes de demonstrar na prática seus conceitos, Nelson impôs sua obra ao público e à crítica, apesar de todos os percalços, todos muito previsíveis. Em um depoimento à revista Dyonisos, ele escreveu: “com Vestido de Noiva, conheci o sucesso; com as peças seguintes, perdi-o para sempre (...) A partir de Álbum de Família enveredei por um caminho que pode me levar a qualquer destino, menos ao êxito”. E esse caminho era, nas próprias palavras do autor, “o teatro desagradável, formado por peças desagradáveis − obras pestilentas, fétidas, capazes, por si sós, de produzir o tifo e a malária na platéia”. Se a tragédia clássica, mesmo sem final feliz, pune o mal, Nelson ousa fazer, sempre, com que o mal triunfe. Nesse sentido, Álbum de Família, onde os arquétipos mais insondáveis da alma humana são levados à cena, é a maior expressão do desagradável.

E de que forma Nelson Rodrigues manipulava a platéia? Desprezando-a, simplesmente, como Camus, para quem “um homem só é verdadeiramente livre quando aprende a desprezar a humanidade”. Sobre a repugnância que a plateia lhe causava, de certa feita ele escreveu: “a rigor, não existe o autor dramático absoluto, já que todos aceitam a co-autoria das duzentas senhoras gordas da platéia. O espetáculo é feito para elas, à sua imagem e semelhança”. Ele, com certeza, rejeitava essa co-autoria, bem como a dos críticos, que ele caricatura, impiedosamente, em Viúva, Porém Honesta. Para Nelson, a plateia é partícipe do espetáculo, como um coro grego: ela reage e interage com o espetáculo. Logo, a vaia era um termômetro da inovação, do choque. E ele a buscava, obsessivamente.

Consciente do que fazia, Nelson Rodrigues, um reacionário assumido, agia como um anarquista que quisera destruir todos os laços sociais por sabê-los apodrecidos. E a família, sempre a personagem de maior destaque e sempre no papel de vilã, pode ser vista aqui como uma metáfora do Estado corrompido. Em Viúva, Porém Honesta, a personagem Diabo da Fonseca, o próprio, faz-se porta-voz de um verdadeiro manifesto contra os valores mais caros do conservadorismo: “(...) é falsa a família, falsa a psicanálise, falso o jornalismo, falso o patriotismo, falsos os pudores, tudo falso!”. O niilismo como postura filosófica, as atitudes públicas desafiadoras e polêmicas, o pessimismo entranhado nas personagens e nas situações que se repetem a cada trabalho, emprestam à obra de Nelson Rodrigues uma unidade inquestionável, mostrando o quanto ela foi planejada, trabalhada e construída, minimamente. Anti-Nelson Rodrigues é a exceção óbvia − de um óbvio, aliás, tão ululante que se exprime no próprio título: um gutural sorriso de escárnio contra quem esperava mais uma ousadia de quem já tudo ousara.

                            Cronologicamente, décima peça de Nelson Rodrigues, Viúva, Porém Honesta, é uma pequena obra-prima supra-realista, onde o autor, em tom quase panfletário, desanca as instituições inabaláveis da imprensa, da medicina e, claro, da família. Viúva é uma catarse que o autor opera em si mesmo, um desabafo, em que a vaia, que para ele era a consagração, sai do palco para a plateia, antes que esta, acostumada às “condenações inapeláveis” dos grandes dramas rodrigueanos, possa reagir diante do imbróglio criado pela jovem viúva, cujo lema é “trair um marido vivo, sim, um morto, nunca!”


Obs: texto escrito e publicado no Amazonas em tempo há uns 15 anos.

(*) O que eu queria dizer era que o dramaturgo é genial. E ponto.
Agora dizer que o cronista é descartável, francamente, seu Zemaria Pinto!...