Amigos do Fingidor

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 10/11

João Bosco Botelho

Pensamento genético


Quando o abade agostiniano Gregor Mendel (1822-1883) apresentou, no dia 8 de fevereiro de 1865, perante a União dos Naturalistas de Brunn, o resultado das suas longas pesquisas sobre o cruzamento de ervilhas, os confrades presentes não entenderam a exposição, mas, em respeito ao religioso, nada perguntaram. Parece certo que o próprio Mendel também não avaliara que estava introduzindo o terceiro corte no conhecimento da Medicina – o pensamento molecular, numa dimensão muitíssimo menor. A célula e a bactéria são formadas por milhares de moléculas.

O abade, doutor em teologia, estudou matemática, física e ciências naturais em Viena. Sofreu a influência do darwinismo, em plena ascensão na Europa, e das teorias mecanicistas dos séculos precedentes. Durante quinze anos, pacientemente, no intervalo das suas obrigações litúrgicas, efetuou cruzamentos entre espécies diferentes de ervilhas e anotou os resultados. Só no primeiro ano, o cientista selecionou 5.527 sementes de ervilhas. A conclusão, que gerou as leis de Mendel, baseada no trabalho metódico, foi formulada quando percebeu que, cruzando ervilhas de semente amarela com ervilhas de semente verde, a primeira geração era toda de semente amarela. Em termos genéticos, isto significava que o amarelo dominava o verde, constituindo o caráter-dominante. Enquanto o verde tinha caráter recessivo, porque não aparecia na presença do amarelo.

A genialidade do botânico religioso foi ter unido os pontos do quebra-cabeça e ter anunciado as leis da genética que, até hoje, com todos os recursos tecnológicos, continuam tendo valor. Ficou estabelecida a existência concreta do componente genótipo (caracteres da herança genética) e do fenótipo (a aparência externa do indivíduo).

A consequência dos estudos de Mendel ainda esperaria algum tempo para que a busca da materialidade da doença passasse a ser procurada na dimensão menor da célula. As pesquisas pularam da microestrutura (a célula) para dentro da célula (no núcleo celular onde se localiza o componente genético). Foi aberto um formidável universo para outras explicações da saúde e da doença.

Esse ponto delimitou a nova esperança de resolver a principal contradição da Medicina durante a sua existência como especialidade social: em qual dimensão da matéria o normal se transforma em patológico?

Para melhor entender a importância da genética mendelina é necessário reconstruir algumas características do pensamento da segunda metade do século 19. Em 1859, Charles Darwin (1809-1882) publicou a sua obra fundamental A origem das Espécies, resultado de vinte anos de estudos e cinco de viagens, a bordo do navio Beagle, quando recolheu grande parte do material que utilizou de suporte para a sua teoria. Imediatamente o livro se tornou um sucesso de venda e foi traduzido, nos meses seguintes, em várias línguas.

As ideias de Darwin deram início à verdadeira revolução do pensamento que dominava naquele tempo: os questionamentos não ficaram restritos à biologia, atingiram fundamentalmente a religião. Sem dúvida que o naturalista Alfred Russel Wallace (1823-1913) também teve importante parcela na evolução dos acontecimentos. Independente de Darwin, ele formulou conceitos semelhantes sobre a evolução das espécies. Entretanto, reconheceu a prioridade do seu colega inglês, que tinha feito estudos mais detalhados e completos.

Em carta a outro naturalista amigo, Charles Darwin escreveu: “Nunca vi tamanha coincidência; se Wallace tivesse o esboço do meu manuscrito de 1842, ele não poderia ter feito um melhor resumo do mesmo. Seus termos, ainda agora, permanecem como títulos de meus capítulos”. Wallace fez longa viagem, no Amazonas, em 1848. Publicou em 1853, o livro Narrativa de viagens no Amazonas e no rio Negro. Foi após esse período, conhecendo a multiplicidade da natureza amazônica, que ele consolidou o seu pensamento revolucionário. Durante a viagem, Wallace tomou conhecimento de perto das observações do seu companheiro Henry Walter Bates (1825-1892). Nesse livro, ele descreveu a incrível capacidade de algumas borboletas, para mudar a aparência, com o objetivo de evitar o ataque de certas aves. É possível que essa constatação de Bates tenha servido para ajudar Wallace na sua teoria evolucionista. A união dos conceitos de Mendel e Darwin originou outra corrente teórica – neodarwinista. Essa inter-relação assumiu importante lugar nas novas discussões filosóficas, encabeçada principalmente pelo filósofo positivista Herbert Spencer (1820-1903). O entusiasmo de Spencer pelas teorias neodarwinistas chegou a tal ponto que, mesmo não sendo biologista, publicou em Londres, em 1864, o volumoso tratado Princípio de Biologia, onde expôs suas conclusões.

Esse conjunto de informações motivou particular interesse nos teóricos da escola positivista, liderada pelo francês Augusto Comte, sendo aplicado em alguns ensaios também com o objetivo de estruturar novo controle social.

A Igreja Católica defendendo o criacionismo iniciou forte oposição às teorias evolucionistas. A disputa ideológica persiste até a atualidade. Esse fato – a contenda entre criacionistas e evolucionistas – é responsável pelas pressões eclesiásticas junto aos Estados, para conter o ensino do evolucionismo sob o prisma neodarwinista. O caso mais conhecido ocorreu no sul dos Estados Unidos, conhecido como “o cinturão da Bíblia”, a região politicamente mais conservadora daquele país. Em 1982, uma lei obrigou que as escolas cumprissem o mesmo número de horas de aulas tanto para a teoria criacionista quanto para a evolucionista. A decisão gerou protesto formal de setenta e dois cientistas premiados pelo Nobel. Chegaram a afirmar, em documento conjunto, que o fato poderia ter consequências nefastas ao desenvolvimento científico dos Estados Unidos.

Mais representativo e polêmico foi o julgamento e condenação do professor John Scopes, do Tennesse, em 1925, somente revogada em 1967. O seu crime foi desobedecer uma lei do Estado que proibia o ensino do evolucionismo: “É ilegal ensinar qualquer teoria que negue a história da Criação Divina do homem como ensinada na Bíblia, e ensinar em seu lugar que o homem descende de uma ordem inferior de animal”.

Em pesquisa realizada pelo jornal Folha de São Paulo, no dia 3 de maio de 1987, é possível ter noção da grandeza do resultado conseguido pela igreja na luta contra o evolucionismo. Segundo os dados, 68% da população entrevistada acredita que o homem é criação de Deus, 19% valorizava o evolucionismo e 5% acreditava que os homens e as mulheres evoluíram de outros animais, mas foram criados por Deus.

De certo modo, resistindo aos contrários, acreditando ou não no evolucionismo, as propostas teóricas de Mendel e Darwin foram incorporadas à Medicina e proporcionaram que o século 20 persistisse na busca da saúde e da doença em dimensões cada vez menores da matéria viva.

O século 20 foi marcado por transformações geopolíticas tão grandes e profundas que é, de certa forma, difícil de compreender como foi possível, em tão pouco tempo, aumentar trinta anos na perspectiva de vida das pessoas. Esse extraordinário período, também reconhecido pelos horrores perpetrados dos homens contra homens, de máquinas contra homens e homens contra o meio ambiente.

Sem dúvida que o terceiro corte epistemológico da Medicina, pensamento molecular iniciado com os estudos de Mendel, marcou a prática médica dominante no século 20, gerando o aparecimento da biogenética.

Porém, entre os fatos que interferiram, direta ou indiretamente, destacam-se: transportes, dos automóveis aos foguetes; comunicação, do rádio à Internet; e o desvendar do átomo.

Parece claro supor que a melhor compreensão do átomo, nos próximos anos, impulsionará a Medicina do futuro na direção do quarto corte epistemológico, o pensamento atômico, quando as buscas pela materialidade da saúde e da doença serão dominadas pelas mudanças na estrutura do átomo. Nesse tempo, no futuro, talvez será possível desvendar em qual parte da matéria o normal se transforma em patológico, se é que existe o normal e o patológico nos sentidos compreendidos na atualidade.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A fragmentação das torres – 5

Marco Adolfs

Tio Otávio vai viajar


“Tchau, Cristo... logo atingiremos as nuvens e não verei mais nada”.

Sigo os passos do sonho. Para mim, agora, viver é isso. Entrar em aviões, vagões e quartos de hotel em um tour ao redor do mundo. No embalo disparado das turbinas metálicas dos aeroportos; no sopro subterrâneo dos metrôs. Sendo levado a descobrir os cantos de inúmeras ruas de inúmeras cidades do mundo. Sabendo que tudo é passageiro. Que você também é passageiro nisso tudo. Que o prazer está, única e exclusivamente, na descoberta. Em um quadro de Van Gogh vislumbrado no museu D`Orsay, em Paris. Ou em uma pizza, comida, despretensiosamente, em um restaurante de Nápoles. Claro que tudo são sensações que qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento também pode desejar viver. Todos nós já lemos alguma coisa algum dia e vimos algum programa de televisão que nos abriu a vontade de conhecer in loco um Cristo de braços abertos encarapitado no alto de um morro, ou as ruínas misteriosas de Machu Pichu, no Peru. Quem não quer? Mas a minha vida tomou esse rumo de viagens e hotéis, quando o meu médico deu o diagnóstico: “você tem câncer”. Aí só tive duas opções: ou me entregava a uma cama de hospital e à quimioterapia, esperando a morte chegar desse jeito; ou então viajaria até o fim do mundo, antes de morrer, quem sabe onde. Estava aposentado ainda novo, bem alimentado e aparentemente não tinha câncer nenhum. O médico havia me dado um ano de vida, talvez dois. “Ótimo doutor, muito obrigado – pensei –, vou morrer em algum lugar do mundo, menos em um leito cheirando a éter de hospital”. Nem me despedi dos amigos, nem dos parentes. Sempre gostei muito de fugir, sabe. Desde criança, quando pulava a janela da casa grande e, sob os gritos de minha mãe, corria para abrir a porteira do mundo. Corria para os campos de fora, onde um riacho translúcido estava sempre a esperar e ainda havia as estradas das frutas dos terrenos vizinhos. Quando papai vendeu a fazenda e disse que todos iriam morar em um apartamento pequeno na capital – “pois ele já estava cansado daquela vida et coetera e tal” – pensei que fosse perder todo aquele espaço da liberdade. Não só não perdi, como passei a descobrir que cada rua de uma cidade sempre leva a outra rua, em um labirinto sem fim. E além disso, havia aquela praia de Copacabana a meus pés. Era só sair do tal condomínio e ela estava lá, com o seu gosto salgado de ser e suas ondas sensualmente envolventes. Sempre fui meio vagabundo. E no Rio de Janeiro, capital da “boa vida”, segundo meu pai, isso se consubstanciou de forma mais categórica. Eram os anos sessenta, e eu, sem perceber, crescia junto com a garota de Ipanema, enquanto Tom Jobim e Vinicius de Morais tomavam seus porres homéricos nos intervalos de suas composições.

Quando o avião decolou, rumo a Portugal eu recitava baixinho aqueles versos, que diziam: “...navegar é preciso, viver não é preciso...”. Um doente, aparentemente terminal, viajando aparentemente despreocupado com o que carregava no interior do corpo, é no mínimo uma situação de dar pena. Mas, se eu pudesse aconselhar a muitos na mesma situação que a minha, que deixassem os hospitais e as lamentações e, se fosse possível, morressem voando ou em algum quarto de hotel, eu aconselharia pessoalmente.

Estava indo então para a Europa e de lá até o Tibete... Para uma série de meditações programadas... Antes de morrer.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Encontro das águas: triunfo do bom senso

Tenório Telles


A histórica decisão do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan), que tombou o Encontro das Águas, é uma vitória do bom senso, da responsabilidade e compromisso com as riquezas naturais do país. A deliberação do Iphan foi mais que isso: foi um ato de coragem e independência, pois contrariou interesses poderosos de empresas e pessoas que não costumam considerar as aspirações coletivas.

A preservação do espaço natural mais conhecido do Amazonas e um dos mais importantes do Brasil é uma evidência de que nem tudo está perdido em nossa sociedade e de que existem pessoas capazes de agir com isenção, de forma técnica e responsável.

Surpreso e emocionado com o êxito da luta de um punhado de homens e mulheres que se colocou a serviço dessa causa, lembrei-me do poeta Alcides Werk e de sua poesia entranhada das águas, da terra, das cores, magia e cheiros amazônicos.

Alcides foi um dos homens, que conheci, mais apaixonados pela Amazônia. Sua relação com esse universo era tão intensa que o transformou em fundamento de sua poesia e razão de ser de sua vida.

Leitor de sua obra, veio-me à memória seu delicado poema “Da opção”, que expressa seu fascínio e encantamento com a pátria das águas: “Um belo mundo/ de muitos lagos/ de muitos rios.// Um belo mundo de muitas matas/ de muitas vidas/ elementares.// Um belo mundo/ de muitas lendas/ de muitas mortes/ antecipadas.// Velhas estórias/ de água e florestas.// O homem e a terra.// – Eu canto para o homem”.


A batalha pelo Encontro das águas encerra várias lições: a mais significativa é que a resistência social é o caminho para a sociedade fazer valer seus interesses. O outro aprendizado evidencia a importância da união dos que combatem por uma causa. Os defensores da Ponta das Lajes se mantiveram unidos e firmes, apesar das pressões e da indiferença de muitos que poderiam ter ajudado, mas que se esquivaram com receio de se comprometer.

O comportamento do Iphan regional, de algumas lideranças políticas e de inúmeras entidades ambientais figurará na história como exemplo de oportunismo e negligência com suas atribuições legais e sociais. Essa experiência fortaleceu em mim a certeza de que para triunfarmos na vida é imperativo acreditar, persistir e ter convicção.

O tombamento do Encontro das Águas é resultado de uma aliança entre intelectuais, cientistas, escritores e lideranças comunitárias. A população da Colônia Antonio Aleixo deu a esta cidade uma lição de resistência e dignidade. Foram os verdadeiros responsáveis por esse feito. Essa gente simples teve no seu Barretinho, Marisa Lima e dona Maria do Carmo os melhores exemplos de coragem, compromisso social e cidadania.

O apoio dos romancistas Márcio Souza e Milton Hatoum ajudou a repercutir o movimento a favor da preservação. O jornalista Washington Novaes foi uma voz particular nessa luta. A vitória, entretanto, não teria sido possível sem a liderança e a persistência do antropólogo Ademir Ramos, sobretudo sem a poesia e a capacidade de articulação do poeta Thiago de Mello, que se tornou o grande patrono dessa causa.
A luta, entretanto, não terminou. O próximo passo é trabalharmos para que o entorno do Encontro das Águas seja transformado numa área de preservação, com um grande parque público para que as pessoas possam usufruir da beleza e encanto desse lugar mágico, que é um presente de Deus.

Numa cidade que vive de costas para o rio, a Ponta das Lajes é o porto onde o povo desta terra pode se encontrar com seus rios sagrados, afirmativos de sua identidade. Sem o Negro, o Solimões e o Amazonas não seríamos o que somos.

domingo, 7 de novembro de 2010

A nudez na berlinda em Fernanda Lima

Jorge Bandeira



A Televisão brasileira é pródiga em criar mitos, em abafar casos e em “desinformar” ao cidadão, que tem na telinha um vício em seu cotidiano. Recentemente estreou na TV Globo o programa AMOR&SEXO que em princípio visa esclarecer dúvidas sobre o tema SEXO, suas variantes e adjetivações, contando para tal com especialistas e desavisados de plantão.

Se a questão é audiência e patrocinadores, tudo é permitido. Não há limites para a burrice humana (com todo respeito aos asnos do reino animal!). A nudez está na pauta no tal programa: o quadro intitulado “......................................” leva à audiência e aos telespectadores um duelo patético entre famosos onde a competição se dá da seguinte maneira: a cada pergunta “instigante” sobre sexo o competidor(a) responde o que acha, ou seja, subjetivamente, sua opinião e resposta é colocada para ser analisada ao calor da “neutralidade” do público, os “macacos e macacas de auditório”.

Detalhe: se este mesmo público não ficar convencido da naturalidade da resposta, da sinceridade de intenção dos competidores, começa o ritual artificial de “desnudamento” do competidor que pisou na bola, vacilou, não convenceu. A cada questão não resolvida com precisão, uma peça de roupa é tirada dele(a). A nudez neste caso é castigada duas vezes: é uma falsa nudez, pois o competidor(a) fica atrás de um painel pintado, e somente sua cabeça, verdadeiramente, é que se mostra na telinha.

UMA NUDEZ FALSA, onde uma pintura representa o que se esconde. A segunda penalidade para a pobre nudez é que esta ação representa, também, uma marginalização do ato da nudez, que já é tão vilipendiado por estas terras tupiniquins. A impressão que fica à audiência e ao telespectador é que ficar NU ou NUA é o pior dos castigos, um vexame e humilhação, e que os artistas e famosos são castigados por terem seus “corpos” mostrados a uma massa sedenta de “olheiros”.

Aqui, a nudez é alvo de gracinhas, de pudores irresponsáveis, de usurpação, pois as roupas artificiais são tiradas como punição por algo que não se conseguiu (convencer o outro). A nudez fica desprotegida e temos mais uma vez de engolir a programação pobre de espírito de nossa televisão. O ato de tirar a roupa, banalizado, só coloca a nudez numa vitrine de atrocidades do corpo, marginalizando este ato tão nobre ao espírito do Naturismo: a nobreza do ser humano frente à nudez alheia. Se a assessoria de Fernanda Lima pudesse compreender que este quadro tão sem graça, sem criatividade alguma, que deve ser uma outra “franchising” como os Big Brother, as pegadinhas, as olimpíadas do Faustão, a dança dos famosos, CQC, enfim, que falta faz um Chacrinha, saudoso Velho Guerreiro, com sua autêntica Arte brasileira na Televisão! Se estes senhores que vivem do rebaixamento da qualidade da televisão entendessem, repito, que este quadro poderia ser muito melhor aproveitado, com uma Nudez autêntica levada às telas, aos lares brasileiros, pois o horário do programa já permitia tal “afronta” aos “valores da família brasileira”. Esqueçam o que escrevi antes, já seria demais para um Naturista a possibilidade desta NUDEZ REAL destes astros e famosos, que só ficam nus e nuas nas revistas masculinas e outras, onde o corpo é somente um objeto de consumo, de imagem repleta de subterfúgios de photoshops e outros “reguladores” da estética escravocrata da mídia e da moda. Tempos cruéis estes, em que a nudez é escamoteada, onde volto a lembrar do Velho Guerreiro, pois ao menos o bacalhau que o “Russo” jogava à platéia tinha cheiro de bacalhau, era VERDADEIRO. Não existe corpo de papelão!

sábado, 6 de novembro de 2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A miragem elaborada – 9

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço

VIII



Outros poemas, como “Vitória-Régia”, “Ariranha” e “Jaburu”, compilados em Poemas da água e da terra, têm por motivo, ainda, a ocupação do espaço poético pelos seres amazônicos. Nesse mesmo livro – uma edição bilíngue, português/inglês, para consumo ocasional de turistas preocupados com a causa ecológica – os poemas “Calypso” e “Boto cor de rosa” registram a famigerada incursão de Jacques Cousteau pela Amazónia em 1986. Não sem poesia, como nesta passagem de “Calypso”:

                    A salsugem do teu casco
                    traz ás minhas narinas
                    a lembrança de lugares que apenas sonhei

Não sem amarga ironia, como no poema dedicado à farsa criada por Cousteau e vendida como verdade científico-piegas ao mundo:

                    Boto,
                    boto cor de rosa,
                    que em menino aprendi vermelho

No já citado “Facheação”, ausente da antologia bilíngue, prevalece o aprendizado primeiro:

                    Se o peixe estiver vasqueiro,
                    convoco o boto vermelho
                    com dois ou três assobios,
                    e a noite vira uma festa

É interessante observar que, nessa coletânea, alguns dos poemas inéditos parecem escritos especialmente para ilustrar cantões-postais –“Encontro das águas”, “Boto cor de rosa”, “Calypso”, “Igarapé de Manaus”, “Vitória-Régia”, “Jaburu”, “Ariranha” – talvez por influência dos títulos, muito menos que pela qualidade literária que encerram.

O quinteto “Igarapé de Manaus”, por exemplo, traduz com precisão microscópica o que imagem alguma poderia mostrar:

                    A água, que é mãe da vida
                    (antes pura, clara, doce),
                    passa aí prostituída,
                    triste, amarga, poluída,
                    como se mater não fosse.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Iphan aprova o tombamento do Encontro das Águas

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou hoje (4/9/2010) o tombamento do Encontro das Águas dos rios Negro e Solimões, no Amazonas.

Segundo a assessoria do Instituto, dois escritórios jurídicos com sede no Rio de Janeiro entraram, no dia 27, com duas impugnações contra o processo de tombamento do Encontro das Águas, representando empresas que pretendiam construir portos no local. A impugnação foi considerada improcedente pelo Iphan.

A decisão foi tomada pelo Conselho Consultivo do instituto, que é formado por 22 integrantes, além do presidente, Luiz Fernando de Almeida. Fazem parte do conselho integrantes do Ministério do Turismo, Instituto dos Arquitetos do Brasil, Sociedade de Arqueologia Brasileira, Ministério da Educação, Sociedade Brasileira de Antropologia e Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), além de membros da sociedade civil.

Encontro das águas

Segundo a decisão, ficam protegidos os dez quilômetros contínuos do encontro das águas pretas do rio Negro e das barrentas do Solimões, além de trinta quilômetros quadrados em seu entorno. O fenômeno forma o rio Amazonas.

A empresa que estava construindo o Porto das Lajes, projeto orçado em R$ 22 milhões, a 2,4 quilômetros do fenômeno, entrou com questionamentos ao tombamento, mas as impugnações foram rejeitadas. A obra está parada desde junho, por falta de licenciamento ambiental do órgão estadual. O tombamento, contudo, não inviabiliza a obra, mas faz com que qualquer construção na área tombada seja obrigatoriamente autorizada pelo Iphan, além do já necessário aval de órgãos ambientais.

Conforme o texto do tombamento, "toda nova intervenção que possa interferir nos valores arqueológicos, etnográficos e paisagísticos do bem deverão passar pela avaliação prévia do Iphan". A área delimitada pelo tombamento abrange a Ilha de Xiborena, a comunidade Terra Nova, além dos bairros Mauazinho e Colônia Antonio Aleixo, o Lago do Aleixo e matas próximas.

O Movimento S.O.S. Encontro das Águas, amparado na vontade popular, articulou-se com o Ministério Público Estadual e Federal com propósito de mobilzar formadores de opinião, força acadêmica, intelectuais, religiosos, estudantes e demais lideranças comunitárias, para sustentar com determinação a defesa do Tombamento Já do Encontro das Águas. Destemidamente, o Movimento Socioambiental pró Encontro das Águas monitorou o processo de Tombamento desse bem e alertou o povo do Amazonas para as manobras tramadas contra este que é o Cartão Postal do Amazonas.

Assustadora foi a omissão criminosa do Governador do Estado, da Assembléia Legislativa, da Câmara Municipal e do próprio Prefeito de Manaus. Mas a luta continuou com os holofotes sobre o Iphan, que enfim, aprovou o tombamento.

Hoje sou um, amanhã outro










Dia 05/11/2010, às 20 horas


Espaço Cultural SINTTEL ( Rua Alexandre Amorim, 392, bairro de Aparecida)

Ingressos: R$ 10,00 E R$ 5,00 (meia)

Cores & Sons

Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 9/11

João Bosco Botelho


Microscópios e micróbios


Contudo, como não poderia deixar de ser, a genialidade de Marcelo Malpighi estava em sintonia com algumas variáveis importantes, presentes no século 17. Além do estímulo coletivo de busca da materialidade da doença, que contagiou a Europa, os novos estudos da óptica foram fundamentais para que pudessem ser montados os microscópios mais potentes.

O depoimento de Malpighi ao utilizar as lentes de aumento trouxe à materialidade e ao visível outro mundo inimaginável: “O aparelho é fixado num círculo, móvel na base; para ver tudo é preciso girá-lo, num só golpe de olhos, pode-se ver apenas uma pequena parte do conjunto... Para observar objetos muito grandes é preciso poder distanciar e aproximar as lentes e isso é possível graças à mobilidade do aparelho.. Deve ser usado com um ar sereno e límpido, sendo melhor utilizável ao sol, para que o objeto seja bem iluminado. Contemplei inúmeros animais pequenos com admiração infinita: entre eles a pulga é horrível, o mosquito e a traça os mais belos e foi com grande contentamento como fazem a mosca e outros pequenos animais para caminhar”.

O conjunto das novas observações consequentes da utilização do microscópio foi tão grande e em espaço de tempo tão pequeno, que se formaram inúmeras associações científicas, onde eram comunicadas e discutidas as descobertas da microestrutura do corpo humano. Uma das aplicações imediatas das novas observações foi a identificação do ácaro como agente causador da sarna. Esta doença da pele já era conhecida desde os tempos bíblicos e foi incluída entre as oito doenças aceitas como contagiosas. A identificação do ácaro foi a primeira prova de que o microorganismo podia ser a causa de uma doença.

Foi a partir dessa nova concepção da realidade que a teoria atomista de Demócrito foi resgatada. Ela fora abandonada pela força da Teoria dos Quatro Humores gerada na Escola Médica de Cós. O conceito atomista da realidade foi retomado para explicar os fenômenos fisiológicos. Por outro lado, o modo como os médicos do século 17 se relacionavam com os doentes passou a ser questionado. A frieza com que a concepção mecanicista de vida impunha, determinava a simplificação das funções vitais a simples acontecimentos mecânicos. Os médicos passaram a se contentar com a descrição dos sintomas a distância. A partir dos dados obtidos de maneira indireta, estabeleciam o diagnóstico e o tratamento.

A crítica mais contundente da Medicina mecanicista foi fortalecida com as publicações de Thomas Sydenham (1624-1689). Esse genial autor trabalhou os últimos anos da vida tentando demonstrar que o ponto fundamental da Medicina era a presença do médico na cabeceira do doente, utilizando os recursos que pudessem auxiliar na cura.

O convencimento da utilidade do pensamento micrológico na busca da materialidade da doença alcançou o século 19. Nessa esteira, se tornou magistral o esforço de muitos médicos, especialmente de quatro entre eles, que se imortalizaram por terem evitado a morte e a dor de incontáveis doentes:

– Louis Pasteur (1822-1895)

O monumental trabalho de Pasteur tomou maior dimensão, em 1877, em torno dos estudos sobre a fermentação; em seguida, divulgou o método que ficaria conhecido como “pasteurizacão”, para conservar o vinho e o leite. De modo definitivo, acabou com a teoria da geração espontânea, defendida durante a Idade Média, que preconizava ser possível a vida surgir do ar, ao demonstrar que a cólera das galinhas era contagiosa e provocada por bactéria. Mesmo com a clareza dos argumentos, enfrentou ferozes inimigos que insistiam em negar a relação entre as bactérias com as doenças infecciosas. Entre os relevantes trabalhos de Pasteur, é possível destacar: identificação do estafilococo no furúnculo e na osteomielite (infecção no osso); identificação do estreptococo na febre puerperal (infecção pós-parto que matou milhões de mulheres); introduziu o termo vacinação; realizou a primeira vacinação antirrábica, em 6 de julho de 1885, numa criança de 9 anos de idade que tinha sido mordida por cão raivoso; introduziu a assepsia e antissepsia com famosa frase: “Se eu tivesse a honra de ser cirurgião, sempre lavaria as mãos com muito rigor e as exporia, rapidamente, ao calor, e só usaria instrumentos limpos previamente submetidos à temperatura entre 130 e 150 graus, e água tratada até 110 graus”.

– Robert Koch (1843-1910)

Esse notável médico alemão introduziu os meios de cultura capazes de fazer crescer, no laboratório, a maior parte das bactérias causadoras de doenças. Entre a enorme contribuição à humanidade, destacaram-se: definitiva comprovação de que cada doença infecciosa é causada por bactéria específica; isolamento, em 1882, do bacilo da tuberculose; identificação, em 1884, do vibrião da cólera.

– Alexandre Yersin (1863-1943)

Durante a epidemia, em Hong Kong, em 1894, esse médico suíço identificou o bacilo da peste e o papel do rato na transmissão da doença, contudo não associou a pulga como o elemento contagiante.

– Gehard Hansen (1841-1912)

Identificou o bacilo da lepra (Mycobacterium leprae), em 1873, a partir de preparações frescas e não coradas.

Além desses pilares da infectologia, apoiada busca da materialidade da doença, outros também se imortalizaram na identificação das causas de muitas doenças que causaram morte e dor durante milhares de anos:

– Febre tifóide:

a. Carol Eberth (1835-1926), em 1880, identificou o bacilo que recebeu o seu nome;

b. Émile Achar e Raoul Bensaude, em 1896, descrevem o paratifo.

– Tétano: identificado, em 1884, por Arthur Nicolaïer (1862-1921);

– Colibacilo: em 1885, por Theodor Escherich (1857-1911);

– Meningococo: em 1887, por Anton Weichselbaum (1845-1920);

– Cancro, em 1889, por Auguto Ducrey (1860-1940).

Ao lado desse incalculável avanço no diagnóstico micrológico, traduzindo a importância social do segundo corte epistemológico da Medicina, a cirurgia também obteve grande melhoria. Mesmo com os cuidados da assepsia e antissepsia preconizadas por Pasteur, incontáveis doentes morreram em consequência das complicações decorrentes das infecções no pós-operatório. O cirurgião deveria ser muito rápido e evitar as cavidades abdominais e torácicas pela possibilidade de as infecções pós-operatórias tornarem-se mortais.

Ainda com a resistência de muitos que ainda não acreditavam nos cuidados da assepsia e antissepsia, a maior parte dos cirurgiões, em pouco tempo, passaram a usar: máscaras cirúrgicas, luvas de borracha esterilizadas após cada cirurgia, proposta por Halsted, em 1889; esterilização sistemática e rigorosa dos instrumentos cirúrgicos; isolamento das salas de cirurgia e proibição de circulação de pessoal não autorizado; uso do ácido fênico para esterilizar o instrumental cirúrgico, introduzido por Joseph Lister (1827-1912), em 1867; lavagem permanente das áreas expostas pela cirurgia, durante o ato operatório, com compressas embebidas com ácido fênico, por Stéphane

Tarnier (1828-1897) e Just Lucas Championnière (1843-1913); lavagem obrigatória das mãos do pessoal médico e auxiliar com solução de cloreto de cálcio antes de qualquer manuseio genital no após parto. Somente com escovagem das mãos, o médico Ignace Semmelweis (1818-1865), numa maternidade em Viena, conseguiu reduzir a mortalidade de 27% para 0, 23%.

O deslumbramento das práticas médicas com a microestrutura como único caminho para a completa materialização das etiologias das doenças durou na justa medida da chegada do pensamento molecular.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Bruce Pennington.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A tarde tão bonita que fazia não dava a mínima para o meu sofrimento

Inácio Oliveira



Hoje pela manhã descobri que tenho câncer. Minha mulher morreu da mesma doença três semanas atrás. Não tivemos filhos. Meus pais morreram quando eu era jovem, eles eram filhos únicos, eu sou filho único. Nunca tive amigos, portanto sou um homem sozinho. Agora estou aqui sentado no sofá da sala fingindo que espero alguém ou alguma coisa acontecer, mas eu sei que nada vai acontecer e que ninguém virá. Lá fora já anoiteceu, no entanto, eu não quero ficar aqui me lamentando, ainda tenho muitas coisas para resolver. Há pessoas que criam problemas, eu resolvo problemas. Foi isso que fiz a minha vida inteira, resolvi problemas. Preciso matar uma pessoa, mas eu nunca matei ninguém, não sei como fazer isso. Fico imaginando.

Eu toco a campainha. Ele abre a porta sem dizer nada. Eu digo, oi Aníbal, eu vim aqui acabar com essa sua porcaria de vida. Saco o revólver. Dou um tiro na cara dele. O sangue espirra nos móveis. Ele cai lentamente para trás, com a cara desfigurada. Eu limpo a arma com um lenço que trago no bolso. Dou meia volta e saio batendo a porta como um assassino cruel de sangue frio.

Ridículo, não é assim que se mata um homem. Nem mesmo um cretino como o Aníbal. Eu devia ser mesmo um marido desprezível para a minha mulher sair dando para um imbecil desses. O meu ódio por ele talvez não seja por ele ter transado com ela, talvez seja porque ele é jovem, bonito e saudável, insuportavelmente saudável com os seus dentes brancos demais; e eu um quase velho, calvo e cansado, com um câncer me corroendo por dentro. É a vida.

A primeira vez que eu o vi foi no cemitério, no dia do enterro dela. Ele estava lá com uma cara compungida e sofredora que me deu raiva. Ele não tinha o direito, ninguém tinha o direito de sofrer por ela a não ser eu, a pessoa com quem ela casou. Eu que sempre lhe dei tudo quanto um homem poderia lhe dar, eu que me domestiquei a seu lado e por um momento, embora houvéssemos esquecido, havíamos nos amado. Mas eu não sofria, queria sofrer, mas não conseguia derramar uma única lágrima sequer. Eu estava cansado demais para sofrer. No entanto ele estava lá, sofrendo. Dava para ver em seus olhos que ele estava sofrendo, parecia mais digno do que eu. Afinal, porque a morte da minha mulher o abalara tanto? Eu ainda não sabia que eles haviam tido um caso.

Descobri pouco tempo depois, quando tive que lidar com os rastros dela e ordenar seus vestígios. Eu era um corno póstumo. A morte sempre encobre muitas coisas, mas no meu caso Ela foi reveladora. Não revelou apenas minha solidão, mas revelou também a sujeira, o ódio, o desprezo, as ruínas do meu próprio mundo. Descobri entre os e-mails que eles trocavam: os encontros furtivos, confidências que ela nunca me fizera, as suas ausências inesperadas que agora eu compreendia, o amor clandestino que a deliciava. Descobri, sobretudo, que ela me odiava, assim como se odeia alguém que não se consegue amar. Descobri em meio a tudo aquilo uma mulher que não era a minha, não era a mulher com quem me casei e essa mulher eu desejei que estivesse viva para que eu pudesse matá-la com as minhas próprias mãos. Imagino.

Eu quebrando o seu pescoço com minhas mãos, assim como se quebra o pescoço de uma galinha. Um grito rouco se apagando dentro da sua garganta, os olhos arregalados, minhas mãos trêmulas de ódio e de prazer.

Inútil, ela está morta, irremediavelmente morta. E isso é o pior de tudo, eu nem tive a chance de me vingar. O que me resta é matar o Aníbal, uma vingança menor, mas ainda assim uma vingança, uma forma de me sentir honrado. Engraçado que, às vezes, a gente precise matar uma pessoa (ou várias) para se sentir honrado. Mas eu sei que isso não tem nada a ver com honra; é só vingança e ódio e não há honra na vingança nem no ódio. Tudo isso é só uma ilusão, mas o que é o homem sem suas ilusões?

Imagino outras possíveis mortes para o Aníbal. (eu não consigo parar de pensar nisso). É uma estrada interminável que corta uma imensa floresta, impecavelmente asfaltada, reta, deserta e silenciosa. Está anoitecendo. Eu estou no meu carro, vou devagar, olhando as árvores. Ele está fazendo cooper (sei que ele faz cooper, ele tem cara de quem faz cooper, é o tipo de sujeito que nas tardes de domingo coloca um tênis branco, veste um shortinho e uma camiseta para melhor destacar o seu corpo, e sai correndo pelas praças, ruas e parques para que todos vejam como ele é saudável, como ele é bonito; um exemplo a ser seguido). Agora ele está correndo nesta estrada imaginária que fiz para ele. Ele passa por mim, não me reconhece. Eu sei que é ele. Sigo, dou meia-volta e paro. Minha Ranger 3.0 vai de 0 a 100 em 12,5 segundos. É um baque seco, surdo, quase um silêncio. Tudo desaparece: a estrada, as árvores, Aníbal e a noite. Minha Ranger 3.0 voa sozinha no espaço.

Volto ao sofá da sala, onde devo estar sentado já há muito tempo, embora eu sinta como se o tempo não passasse, potencializando assim a minha angústia. Lá fora a cidade parece estranhamente calma, estranhamente silenciosa. E eu não posso ficar aqui me lamentando, sei que ainda tenho muitas coisas para resolver, mas sinto um mal-estar terrível por todo o corpo, uma impossibilidade de qualquer gesto. Tenho tantas coisas para resolver, mas talvez eu não faça nada.

Na noite passada sonhei com minha mulher e Aníbal. Sonho que eles estão transando aqui neste sofá onde estou sentado agora. Eu e minha mulher compramos este sofá juntos. Ela gostava muito dele. Com o tempo praticamente toda a mobília da casa foi trocada, exceto o sofá, que permaneceu aqui, cúmplice de nossas misérias. Fizemos muitas coisas neste sofá: assistimos televisão, recebemos vista, conversamos, discutimos, brigamos; no natal ela derramou uma taça de vinho nele. Fizemos tudo, mas nunca transamos neste sofá. No meu sonho, as imagens dos dois nus no sofá vêm em flash de sucessivos quadros diferentes, em closes e perspectivas diversas, rápidas e confusas como um caleidoscópio; numa dessas imagens ela está de quatro no sofá, noutra eles estão em pé: ela com um das pernas no chão e outra em cima do sofá, (uma elasticidade nunca antes pressentida), noutra ela está de cabeça pra baixo e ele em cima e vice-versa. As imagens se alternam rapidamente. Eles se amam com fúria e violência. Closes do rosto dele, do rosto dela: uma expressão de dor e prazer, os olhos apertados, a boca entreaberta, a língua para fora, uma coisa obscena. (Amanhã se eu ainda amanhecer vivo a primeira coisa que farei será trocar este sofá.)

Acordei sobressaltado, sentindo o meu peito esmagado por uma grande força, o ar que entrava com dificuldade por meus pulmões doía. Isso me fez lembrar os exames que eu havia feito duas semanas antes, quando escarrei sangue na pia da cozinha. Mas depois que descobri aqueles e-mails eu havia esquecido o assunto. O médico leu os exames, me examinou outra vez, me olhou com aquela cara como se fosse meu amigo de infância e disse que a situação era delicada, poucas coisas podiam serem feitas, mas que eu precisava iniciar o tratamento imediatamente. Eu disse simplesmente que estava bem e fui embora. Eu não ia me trancar num hospital para ser sacrificado como um carneiro. Além disso minha vida já estava acabada mesmo.
No entanto, quando saí daquele consultório, comecei a pensar desesperadamente em Shirley. Há muito tempo que eu não pensava nela, na verdade eu já havia até a esquecido, pois eu sempre sinto uma espécie de remorso toda vez que penso nas pessoas que gostaram de mim, e Shirley talvez tenha sido a única mulher que realmente me amou. E quem sabe, por isso mesmo, eu começava a pensar nela daquela forma perturbadora, infantil e idiota. Como se ela fosse minha mãe e eu uma criança que estivesse perdida e com medo, num lugar muito distante e sombrio, e só ela pudesse me salvar, me levar para sua casa, para o seu abrigo, para a sua segurança. Pensei tanto que sentei transtornado num dos bancos da praça, com os olhos fechados; pensava tanto nela que tinha a certeza de que se abrisse os olhos eu a veria ali na minha frente. Abri os olhos, ela não estava.

Então eu comecei a sentir um arrependimento tão grande, um arrependimento de tudo, como um cristão ruim que morreu e foi para o inferno, um arrependimento dos meus erros, de minhas escolhas, de toda a minha vida. Desejei inutilmente uma viagem impossível no tempo. Tudo o que eu queria agora era vê-la, somente olhar para ela. Eu não ia dizer nada, eu não tinha nada para dizer. Eu ia dizer o quê?

Eu ainda lembrava vagamente onde ela morava. Fazia muito tempo, a cidade mudara tanto, tudo pareceu ficar mais longe. Errei o dia todo pelos bairros da zona sul procurando encontrar a casa antiga onde ela morava, eu sabia que ela ainda morava lá. Nos vimos algumas vezes antes do meu casamento, mas mesmo naquela época já fazia tempo que eu não ia na sua casa. Tudo mudou, o lugar parecia ser outro, mas a casa continuava lá, estava diferente mas era a mesma casa, os muros um pouco mais altos. Eu ia tocar a campainha, parei por um momento que deve ter sido breve, mas que para mim foi uma eternidade.

Fiquei pensando. Pra que invadir sua vida assim, sem mais nem menos? Destruir sua paz e seu sossego? Ela não merecia isso. Desisti. Sai caminhando rua abaixo, dava para ver o rio lá de cima, alguns meninos jogavam bola num campo improvisado. Eu começava a sentir um dor funda que vinha dos pulmões e atravessava-me as costas. A tarde tão bonita que fazia não dava a mínima para o meu sofrimento.

domingo, 31 de outubro de 2010

Desabafo em defesa da Dilma

Dori Carvalho*



1.
Tenho ouvido e lido dezenas de ofensas, calúnias e injúrias nunca vistas contra ninguém que tenha tentado ser presidente do meu país.

Por que tanto ataque pessoal à Dilma? Assassina, criminosa, bandida, assaltante, terroristas, vagabunda... fez plástica, cortou o cabelo, tá gorda, tá magra, é arrogante, é dura (ela vive “rodeada de homens meigos”).

Será que tudo é tão pequeno, tão mesquinho? Não quero acreditar que tudo isso seja porque ela é mulher.

Ora, qual é o crime da Dilma?

Levantar-se em armas, arriscar a própria pele, entregar a vida pela liberdade,ser presa e torturada, lutar contra a ditadura que nos calou e nos oprimiu por mais de duas décadas?

Eram jovens sinceros e idealistas que foram à luta armada contra golpistas,torturadores e carrascos que tomaram a democracia de nossas mãos, que tiraram do poder aqueles que foram eleitos pelo povo... isso é crime?

Então, temos que condenar aqueles que lutaram ao lado de Mandela, na África do Sul; de Che Guevara, Simon Bolívar, Tiradentes, Zumbi, Zapata, na América Latina; de Ho Chi Minh, no Vietnã; de franceses, judeus e socialistas que lutaram contra o nazismo; dos americanos contra os ingleses, dos portugueses contra Salazar, dos espanhóis contra Franco, dos africanos contra os portugueses, ingleses, franceses... a história não tem fim... eram todos chamados de bandidos.

2.
“Aquele que defender os fracos contra os fortes será condenado a viver como um fora-da-lei... Em tempos de tirania e injustiça, quando a lei oprime o povo, o fora-da-lei assume o seu papel na história.” In Robin Hood.

3.
Estão querendo condenar a Dilma e seus companheiros de luta duas vezes, pelo crime de defender o Brasil, de combater por um ideal, de defender uma causa com unhas e dentes. Enquanto os ex-torturadores estão de pijama se fingindo de pacatos e atirando em mendigos, caluniando na sombra do anonimato e “direitistas” chafurdando nas telas compradas da TV ou degustando vinhos em Manhattan. Essa gente que ama a democracia apenas quando está no poder ou gravitando em torno dele.

4.
Dilma
D de dedicação, determinação
I de independência, ideal
L de liberdade,luta
M
A de amor, avançar
(não, não esqueci do M)
M maiúsculo de Mulher

5.
Lá em casa, éramos cinco. Dalva, Dulce, Djalma, Darcy e Dorival. Todos rebeldes, inquietos e inconformados e, tenho certeza, todos ficaríamos honrados com mais uma irmã: Dilma.


*Este texto me foi passado antes do primeiro turno. Graças ao amigo Rogel Samuel, ganhou o mundo. Agora, é metáfora de um sonho realizado. Valeu, Dorival.
(Zemaria)

Benjamin Sanches na Livraria Acadêmica

Rogel Samuel*



Leio no excelente Blog do Coronel que a Livraria Acadêmica de Manaus fechou as portas em 2009. Eu saberia se tivesse ido a Manaus, pois era um dos lugares aonde sempre ia, desde a adolescência.

“Fundada em 1912, este estabelecimento fechou as portas ano passado. Agora, o edifício passa por reformas e, certamente, ali não mais haverá livros nem papéis. Nem o acolhimento fidalgo do seu Barata. Restarão apenas saudades pelo fim do mais antigo templo ocupado pelos leitores da cidade”, escreveu Roberto Mendonça.

“O Estado, por iniciativa da Secretaria de Cultura, já transferiu o que restou do acervo da Acadêmica para o Centro Cultural Palácio Rio Branco. Merece ser visitado, aproveitando o visitante para estender os olhos pelos outros seletos ambientes”, acrescentou.

Numa de minhas idas à Acadêmica, comprei um raríssimo exemplar de Argila, de Benjamin Sanches, com a bela capa de Moacir Andrade.

O livro estava tão escondido no fundo da sala, que o Sr. Barata não queria vender-me, pois não sabia o preço.

Onde andarão aquelas gigantescas estantes de madeira?

E o passado, ali recolhido?

Aquela livraria teve muito a ver comigo: foi uma das poucas livrarias de Manaus que comprou o meu O amante das amazonas, diretamente da Editora Itatiaia.

Termino reproduzindo um poema de Argila, chamado “Fé”:

                    Ver
                    sem
                    bem
                    crer.
                    Crer
                    sem
                    bem
                    ver.
                    Crer
                    é
                    fé.
                    Ver
                    não
                    é.

(Argila, Manaus: Sergio Cardoso, 1957)

(*) Postado originalmente no blog de Rogel Samuel.

Cleo Pires nua e a poesia naturista

Jorge Bandeira

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já tem a forma de nosso corpo.
Esquecer os nossos caminhos,
Que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia e se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos

Na perna nua de Cleo Pires, na capa da Playboy de agosto, esta frase lapidar sobre o que nos une e nossa árdua tarefa como naturistas de levar a mensagem na nudez natural. Não sei quem é o autor dessa frase que foi pintada na perna grossa (procurei e procurei, mas não achei), e segundo as informações, sem photoshop, de Cleo Pires. Não compro a Playboy, deixei de ler revistas masculinas há muito tempo (ah, mocidade tempestuosa!), mas apareceu aqui por casa um exemplar (meu sobrinho fez uma cota com minha tia Alzeneide e comprou) e logo me chamou a atenção a frase acima, logo de cara, na capa da revista.

A poesia é uma fonte importante para os naturistas, e ela tem o poder de colocar o corpo nu na ordem do dia, levando a sensibilidade ao leitor. Muitos escritores e poetas já escreveram sobre esta maravilhosa naturalidade, sem preconceitos e pudores ressentidos. Drummond talvez seja o caso ímpar de grande poeta que teve na nudez uma de suas mais gratas satisfações estéticas na obra poética. O Corpo Natural é o seu livro poético onde o corpo, e a nudez, por extensão, é matéria de primeiro plano.

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas. Aqui nosso poeta nos convoca para uma iniciativa, um devir, que muito representará em nossas vidas, e neste momento, tenhamos a certeza, estamos já com as minorias naturistas. O termo Naturista aqui deve ser entendido no seu sentido histórico, tradicional, seguindo os conselhos perpetrados na Suíça, em 1953, quando esse conceito envolveu a ética, a nudez e o meio ambiente como indissolúveis.

As roupas já têm a forma de nosso corpo: elas nos condicionaram a tantos preconceitos, de toda ordem, não só em relação à nudez. Estética, aqui, é a palavra que nos salta aos olhos e mentes. A ditadura das modas, o enorme fosso social entre ricos e pobres. Já pensamos em fazer uma campanha na periferia para levar todos ao Naturismo, ou seria utópico de minha parte, e continuamos a ter um Naturismo elitista, feito na tangente do turismo, de modo específico, direcionado, só tendo condições de ficar nus e nuas aqueles ou aquelas que possuem o vil metal para esse tipo “nobre” de divertimento e filosofia de vida? Perguntas que me assaltam na calada da noite, em meus sonhos intranquilos, tal qual um Kafka que questiona o estar no mundo, mundo do Naturismo, mas que pensa também no que não usufrui o outro lado, os pobres que vestem roupas. Porque só eu tenho dinheiro para ficar nu ou nua, em convívio social, com segurança, com o respaldo de um grupo e/ou Federação? Perguntas, perguntas.

Esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. Há sempre uma rota nova para ser alcançada, deslumbrada, vista de outro ângulo. Quando estamos nus e nuas, vestidos de nossas queridas e muitas das vezes calejadas peles, sentimos uma sensação de mudança interior, nós, naturistas, não tenhamos dúvidas dessa assertiva, mas só isso não basta para mudar verdadeiramente algo.

Este algo chamado Naturismo precisa de uma reflexão que perpasse ódios, raivas e rancores. Estes, sim, representam uma volta em círculos, ao mesmo lugar, um retrocesso. O naturismo já é um velho senhor, e não tem mais tempo a perder. No Brasil, de forma organizada, já almeja aos 60 anos, no mínimo. Desde Luz del Fuego, e aqui nem coloco a tão complexa questão do índio naturista, que merece outro artigo, mas veja, são anos e anos de uma experiência naturista em território brasileiro, onde temos nomes importantes, anônimos que às vezes são até mais importantes que os baluartes do Naturismo. É um fato, a História é feita pelos vencedores. No Naturismo não seria diferente.

É tempo da travessia e se não ousarmos fazê-la teremos ficados para sempre à margem de nós mesmos. Tirar a roupa é muito simples, extremamente fácil, o passo seguinte é que são elas: vestir-se de nada, eliminando rancores e preconceitos, ajudando, no tempo exíguo que lhe resta em seu cotidiano, na construção da história coletiva do Naturismo organizado no Brasil. Não é fácil, sei disso. Mas não é impossível dedicar uma hora, pelo menos, a esta tarefa, o pensar sobre o Naturismo.

Não para escrever ou algo parecido, mas apenas parar um pouco e refletir sobre o Naturismo em sua vida e nos que lhe abraçam neste caminho ou mesmo criticam esta causa filosófica de existir sem estar com uma etiqueta sobre o corpo. O homem-etiqueta que compra a Playboy tem vergonha de ficar nu, lembre-se, você pode convencer esse homem-etiqueta com sua prática social de que esta nudez da Playboy é útil somente aos donos da revista.

As mulheres (todas as coelhinhas!) também são vítimas, mesmo com seus astronômicos cachês. E por falar nisso, para não dizer que usei a revista só para criticar, aconselho a leitura da Playboy deste mês de agosto de 2010: está com muitas reportagens boas e que nos fazem pensar no Brasil. Esqueçam a Cleo Pires, leiam o que está na perna dela na capa. Sei que é difícil, mas não é, de todo, impossível.

sábado, 30 de outubro de 2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A miragem elaborada – 8

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço


VII



Mas nem sempre o dia é do pescador. Os poemas “Piranhas”, de Trilha dágua, e “Jacaré”, de Poemas da água e da terra, retratam o conflito natural entre o homem e seu meio. “Piranhas” descreve a viagem do gado, da várzea à terra firme, fugindo da enchente e o sacrifício de uma rês tresmalhada:

                    As águas se agitam
                    no rude festim,
                    e em poucos instantes
                    só resta o esqueleto.

O pequeno romance “Jacaré” narra a história do pescador Dico, que sai à caça do “jacaré-preto crescido / pra cima de quatro metros” e, quase uma semana depois, não retorna. Dico sabia dos riscos, mas a recompensa lhe era irrecusável:

                    Regatão passou dizendo
                    que jogava preço alto
                    no couro de jacaré:
                    fogo, pilha, sal, anzol,
                    sabão, conserva, tabaco,
                    cartucho, chumbo, espoleta,
                    pólvora, linha, terçado,
                    remédio pra impaludismo
                    e outras tantas precisões.

O regatão foi embora e Dico não retornou. A curva do rio, imóvel, guardará a lembrança da partida e a esperança do regresso:

                    E eu, testemunha da ausência,
                    no fim da tarde sombrio
                    lanço perguntas ao rio:
                    por onde Dico andará?

Vitor Manuel de Aguiar e Silva, na sua Teoria da Literatura, caracteriza o texto narrativo como “uma sequência de eventos, comportando como elemento estrutural relevante da sua forma de conteúdo a representação do tempo”. É interessante observar nos dois poemas anteriormente citados a facilidade com que Alcides Werk transita também nesse terreno, distanciado do lirismo usual. Outros poemas como “Amazônica” e “Facheação” também podem ser vistos sob esta ótica, uma vez que representam um sequência de eventos, além de terem uma representação temporal histórica, dentro de um espaço físico e social claramente delimitado.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Poesia e poetas do Parnasianismo, Simbolismo e Pré-Modernismo – lançamento

Os professores Marcos Frederico Krüger e Tenório Telles lançam mais uma obra em parceria. Trata-se da antologia Poesia e poetas do Parnasianismo, Simbolismo e Pré-Modernismo. O lançamento será antecedido por uma palestra sobre a Poesia Parnaso-Simbolista, em que os professores Marcos Frederico e Tenório Telles falarão sobre a importância e contribuição dos autores desse período para a Literatura Brasileira.

Poesia e poetas do Parnasianismo, Simbolismo e Pré-Modernismo apresenta uma reunião de poemas de autores de três importantes momentos da Literatura Brasileira, em que cada um é explicado por estudos introdutórios, onde são apresentados: o contexto histórico em que surgiram, as principais características, os autores e as obras mais expressivas, além de uma pequena reunião de poemas dos escritores selecionados.

O livro foi concebido com o objetivo de despertar, nos leitores, o interesse e o prazer da descoberta de alguns dos mais destacados poetas da nossa literatura. Estudá-lo é uma oportunidade de conhecimento das nossas letras. A leitura da poesia de Olavo Bilac, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, entre outros, será uma experiência enriquecedora e transformadora, em especial pela beleza e conteúdo humano da obra desses poetas. O que se pretende é que, a partir do contato com estes textos, o leitor sinta-se estimulado a aprofundar seus conhecimentos e buscar outras obras desses poetas e de outros das diversas escolas da literatura nacional. Percorrer as páginas da antologia é uma oportunidade de encontrar com a palavra encantada de alguns dos mais expressivos poetas de nossas letras. Poesia e poetas do Parnasianismo, Simbolismo e Pré-Modernismo é a terceira antologia organizada por Marcos Frederico Krüger e Tenório Telles. As primeiras foram Poesia e Poetas do Amazonas (2006) e Antologia do Conto do Amazonas (2009).

Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 8/11

João Bosco Botelho


Micrologia


A palavra higiene se impõe no sentido regulador não só da alimentação, mas também como caráter educativo na rotina do trabalho. A ginástica passou a fazer parte da manutenção da saúde. Por esta razão, os ginastas permaneceram independentes frente ao crescente poder médico nas relações sociais e também conquistaram papel importante no aconselhamento do corpo sadio.

O texto De um Regime de Vida Saudável se propõe servir de guia ao público. O autor desconhecido estabeleceu os parâmetros da cultura médica mínima que todos deveriam ter para permanecerem saudáveis. O objetivo central seria estabelecer, pela lei, o caminho que as pessoas deveriam seguir para evitar a doença.

O propósito parece ser o mesmo do autor do livro Da Dieta que aborda, em quatro capítulos, a teoria dos Quatro Humores. Se as patologias eram causados pelo desequilíbrio dos humores – o sanguíneo, o linfático, o bilioso amarelo e o bilioso negro – e estavam relacionadas com ao cotidiano das pessoas, nada mais lógico do que estabelecer normas alimentares com o intuito de evitar os males da alimentação.

A estrutura teórica da Medicina como paideia, na Grécia, no século 3 a.C., estava tão bem elaborada que perpassou o mundo romano. No século 2 d.C., o médico Galeno (138-201), o mais conhecido representante da medicina-oficial romano-cristã, acoplou aos humores da Escola de Cós as novas categorias denominadas temperamentos. Os escritos galênicos, valorizados durante mais de quinze séculos, no Ocidente cristão, valorizava a sangria sobre todas as alternativas de tratamentos. Para cada humor haveria um temperamento que ditaria as condições de saúde, de doença, e da capacidade intelectual de cada indivíduo:

Humor                                             Temperamento

Sanguíneo                                         Sanguíneo

Fleuma                                             Linfático

Bilioso preto                                    Melancólico

Bilioso amarelo                               Colérico

A imensa flexibilidade da Medicina como paideia acabou ferida, na Idade Média, pela intolerância restritiva exaltando a medicina-divina, onde Jesus Cristo e os Santos ao substituírem os deuses e deusas greco-romanos, tornaram-se a única terapêutica requerida pelos incontáveis doentes sem esperanças, nos incontáveis santuários, especialmente em Jerusalém e Compostela.

A influência hipocrático-galênica trazida pelo elemento colonizador esteve claramente presente no Brasil, quando a princesa Paula Mariana, filha do primeiro imperador do Brasil, sob os cuidados dos mais importantes médicos da corte, faleceu após ser submetida às muitas sangrias e clisteres para expurgar os “maus humores”. No século 19, o viajante Von Martius descreveu o temperamento dos índios como “fleumático, por terem pouco sangue nas veias”.

Micrologia e pensamento micrológico

Apesar dos claros resíduos do pensamento grego da Escola de Cós, nas práticas médicas, até o século 19, o processo de mudança estava delineado no Renascimento, especificamente, na busca da materialidade da doença em dimensões cada vez menores da matéria. Esse novo avanço em direção à matéria invisível aos olhos desarmados – pensamento micrológico – foi iniciado com os trabalhos de Marcelo Malpighi (1628-1694), que publicou o livro De Viscerum Structura, em 1666, no qual descreve alguns aspectos da micrologia dos tecidos da língua do boi iniciando o segundo corte epistemológico da Medicina.

O século 17 foi caracterizado pelo aperfeiçoamento das lentes de aumento, fazendo com que o microscópio ficasse mais competente e, como consequência, o pensamento microscópico ocupasse mais espaço na busca da etiologia das doenças, identificando essa etapa da busca da materialidade da doença por meio do invisível aos olhos como o segundo corte epistemológico da Medicina.

O maior fruto da iatrofísica foi Marcelo Malpighi (1626-1696), aluno de Santório. Ele foi o responsável pela introdução do pensamento micrológico que aumentou as margens da materialidade da saúde e da doença.

A histologia, o estudo das microscopias dos tecidos, propostas por Malpighi, trouxe a doença da macroestrutura (corpo), para a microestrutura (célula). Com este fato foi aberta a porta que desvendou a base da Medicina da atualidade: o diagnóstico microscópico, sem dúvida, deslocou a doença da macro para a microestrutura e renorteou as práticas médicas. A maior parte das ações de saúde que são realizadas, na atualidade, é alicerçada no diagnóstico da infecção (qual a bactéria) ou do tumor (qual o tecido onde o tumor iniciou).

Nessa conjuntura, o pensamento micrológico atenuou os medos pessoais e coletivos em relação ao diagnóstico de onde está o tumor ou a infecção. Este fato é facilmente comprovado pelas grandes campanhas mundiais de esclarecimento de como podemos evitar o câncer e as infecções. Em todos esses casos o diagnóstico é obtido do estudo da microestrutura.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Academia Amazonense de Letras promove concurso de poesia

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Por meio da Resolução N° 03/2010, a Academia Amazonense de Letras instituiu o Concurso Manaus e Poesia,em homenagem ao 341° aniversário de fundação da cidade de Manaus. A seguir transcrevemos os pontos relevantes do documento:


1 – O Concurso Manaus e Poesia em homenagem ao 341° aniversário de fundação da cidade de Manaus, tem o objetivo de incentivar a produção literária e promover maior integração entre a Academia Amazonense de Letras e a sociedade;

2 – Poderão participar do concurso quaisquer pessoas interessadas, residentes no Amazonas, exceto membros da própria Academia;

3 – Os poemas deverão ser inéditos e versarão, obrigatoriamente, sobre a cidade de Manaus;

4 – As inscrições deverão ser feitas na própria sede da Academia Amazonense de Letras, Casa de Adriano Jorge, localizada na Rua Ramos Ferreira, n° 1009, Centro, no período de 19 de outubro a 18 de novembro de 2010, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 14h30, podendo o candidato concorrer com mais de um poema;

5 – Os poemas deverão ser apresentados em papel formato A4, de cor branca, fonte Times New Roman, tamanho 12, com pseudônimo do candidato, sem qualquer outra identificação, e entregues na Secretaria da AAL em envelope branco, fechado, tendo como identificador apenas o pseudônimo;

6 – O candidato entregará, na mesma ocasião, outro envelope, modelo carta, lacrado, identificado com pseudônimo, indicando em seu conteúdo:

          a) nome completo do autor e pseudônimo;

          b) endereço completo, e-mail e telefone para contato;

          c) n° do CPF e cópia da Carteira de Identidade;

          d) título ou títulos dos poemas apresentados ao certame.

7 – O julgamento dos trabalhos será feito por uma Comissão de Acadêmicos, que escolherá os três melhores poemas, sem atribuir-lhes classificação;

8 – A identificação dos poemas será feita em sessão pública, na Casa de Adriano Jorge, pela Comissão Julgadora, e o resultado, proclamado a seguir pelo Presidente da Academia, sendo a decisão irrecorrível;

9 – Aos vencedores do Concurso Manaus e Poesia serão conferidos prêmios em dinheiro, no valor individual de R$ 3.000,00 (três mil reais), além de Diploma de Honra ao Mérito, sendo assegurada a publicação dos poemas na Revista da Academia. Aos demais concorrentes, serão conferidos certificados individuais de participação;

10 – A divulgação, pela Academia Amazonense de Letras dos poemas apresentados ao Concurso Manaus e Poesia não gerará direito indenizatório de qualquer natureza.

Mais informações, pelo telefone 3234-0584, no horário acima mencionado.

Fantasy Art – Galeria

Kim Eugene.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A fragmentação das torres – 4

Marco Adolfs


A dentista Ana Maria Lara


“Onde ela estará agora?”

Ziiim! Ziiim! Ziiim! Pronto, acho que está perfeito agora. É uma boca grande. “Vou comentar sobre as torres”. O que você acha disso? É, é... isso mesmo. Os Estados Unidos não vão deixar por isso mesmo. Também acho. Eles vão invadir com seus soldados e matar todo mundo. Está bom, o dente? Sente algum volume?Algum excesso? Está alto? Meu filho? Meu filho Juquinha vai bem e o Fernandinho? Meus cabelos? Uso esse mesmo. Claro. Trato bem os meus cabelos? Estão lindos, não? Mas, mais uma semana e terminarei o trabalho. Quero lhe ver com os dentes mais maravilhosos e perfeitos do mundo. Não, o mundo não vai se acabar, não. Puxa, estou cansada. Agora como ficará o dólar? Vou viajar, antes... Aquele violinista é um gato e ficou dando em cima de mim. Lindos olhos azuis. Meu Deus! “Sempre fui muito reprimida”. Acho que estou enjoada do Ramyres? É um grosso. O que me segura é o Juquinha. Se não fosse o Juquinha. E a mamãe. Que entre o próximo. Olá! Tudo bem!? Sente-se. Vamos ver como está essa boca. É horrível ver aquelas pessoas se jogando dos prédios. Esses terroristas são... Não acho que sejam. Sei, sei...Ziiim!Ziiim!Ziiim! Fico com vontade de corresponder. Ramyres já deve ter tido as suas aventuras. Aquela estagiária loira do escritório. Ele andou com ela. É claro que andou. E ninguém soube. Terei um amante e pronto. Ziiim! Ziim! Ziim! As vezes somos como flores que vão murchando e precisamos ser regadas por um jardineiro desconhecido... (Sorrindo)... Doeu?... Coitada da mamãe, sempre foi tão forte e alegre. E agora está daquele jeito. “Oh! Meu Deus!...E aquele homem do chat... Não vejo a hora de chegar em casa e esperar o Ramyres dormir para acessar o facebook”. Ainda bem que inventaram o facebook. Que tal? Não doeu nem um pouco, não foi? Aquelas palavras foram deliciosas. Excitantes. Ah! Meu Deus... Ele quer me ver no Yahoo Messenger, esta noite!...?...

domingo, 24 de outubro de 2010

Manaus, amor e memória XIX

Restaurante Chapéu de Palha, na esquina da Paraíba com a Fortaleza, no bairro de Adrianópolis, em foto de 1974. Não procurem: não existe mais. Há muito tempo.

Quem não tem naturismo usa óculos escuros

Jorge Bandeira

A mulher que vejo nua de óculos rayban,
não é a mesma que encontro toda manhã
(JB)


Há algum tempo, logo que começamos esta viagem boa do Naturismo amazônico no Graúna, Grupo Amazônico União Naturista, descobri que uma das chaves para a descoberta de um naturista leal eram as pupilas. Explico melhor, e nisso o aprendizado em locais de prática naturista me deram o escopo necessário para refletir sobre o que, antes, pensava ser uma paranóia purista de um naturista que estava “vendo fantasmas de roupas” em tudo quanto era lugar de naturismo.

Foi algo intuitivo, creio, pois observava que era grande a proliferação de óculos escuros, por parte de homens e mulheres naturistas. A estatística, porém, apontava um número maior de homens usando este invento medieval. Em princípio achava que seria um surto de conjuntivite, dado o grande número de óculos escuros em locais naturistas, seja aqui mesmo na nossa história de naturismo organizado pelo Graúna ou em minhas andanças em praias e locais privados de prática naturista.

A constatação era (e é!) uma só: tem muita gente de óculos escuros! O questionamento vem de forma imediata, e as respostas são variadas. Por que tanta gente de óculos escuros nos locais de nudez coletiva? Imaginei, na minha confiança no ser humano, ou talvez ingenuidade mesmo, que talvez a proteção aos raios de sol seria para que não prejudicassem os olhos dos naturistas, daí o uso constante dos óculos, motivos suficientes para acalmar o meu espírito inquiridor. Não foi o suficiente, pois mesmo quando o Sol “enfraquecia”, encoberto por nuvens ou no entardecer, após as 17:30, aquelas pessoas continuavam com os seus artefatos de lentes escuras.

Lembrei do poeta – “os olhos são os espelhos da alma” – e comecei a desvendar esse mistério às vezes insondáveis aos naturistas. Outro fator decisivo para minhas elucubrações que aqui exponho, como missivista do naturismo brasileiro, foi das primeiras viagens à grande São Paulo, onde morei por um curto espaço de tempo, fazendo uma pós-graduação por lá. Um amigo disse-me, em relação ao centro velho, lá pelo Anhangabaú: use sempre óculos escuros, por questões de segurança, pois os meliantes precisam saber que você está desatento para lhe furtar algo, e se você usa óculos escuros, eles não podem perceber se você está ou não distraído. Os meliantes precisam enxergar para onde você olha para saber se podem atacar! A ficha caiu na hora em relação à cruel dúvida que me assolava. Nada de conjuntivite, nada de problemas oculares, nada disso. Geralmente esses óculos escondem por trás de suas lentes os famosos olhos do voyeurismo. Eu falo geralmente, não estou dizendo TODOS que usam óculos escuros em locais naturistas.

Procurem bem nos locais que vocês frequentam e observem o que digo: tem gente que usa óculos escuros para ver, de soslaio, homens e mulheres nus(as), sem que sejam “denunciados” pelos olhares perscrutadores, que só faltam engolir as pessoas nuas que observam. Inclusive quando os jornalistas (estes são experts nisso! Lembrando, estou falando de alguns, e se a carapuça servir...) estão em praias e locais de naturismo quem está em seus rostos: os óculos escuros! São peças quase obrigatórias em entrevistas em áreas de naturismo. A técnica é simples, basta sentar e esperar a mulher ou homem nus, com a cabeça firme, não vire o pescoço, olhe de soslaio, com a beira dos olhos, para a esquerda ou direita, alguns tem mais facilidade de mover a retina mais para um lado do que para o outro. Pronto, já viu a mulher nua ou o homem nu sem dar mancada de seus atos. Ou seja, é um voyeurismo mesmo, cuja janela e/ou binóculo são os óculos escuros.

Não tenho motivos de proibir ninguém de usar óculos escuros num local de naturismo, mas cá pra nós, como é bom, legal, olhar nos olhos de todos que conversam conosco nesses locais, caminhar sem aquela sensação de que é um bicho de zoológico humano, sendo bisbilhotado nas entrelinhas de seu corpo. A naturalidade do olhar é outro aspecto que mereceria outro artigo, que ainda devo escrever. Por enquanto lanço essas luzes de reflexão, não condenando ninguém, mas criando um espaço para que a segurança e a sinceridade das retinas dos naturistas não deixem margem a um olhar embaçado pela mente, que, por falar nisso, óculos embaçam a realidade facilmente.

Explicação necessária: Jorge Bandeira é naturista do Graúna; nas ruas têxteis usa óculos escuros por recomendação médica e para burlar a ação de maus intencionados. No Naturismo, não usa, jamais, óculos escuros.

sábado, 23 de outubro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Black cat.
Mark Brooks.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A miragem elaborada – 7

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço

VI



Esses registros de vida estão presentes desde os primeiros poemas de Da noite do rio até nos mais recentemente publicados. Mas é a partir da 1ª edição de Trilha dágua que Alcides Werk passa a mostrar-nos poemas onde a ocupação do espaço é plena e em constante movimento. O autor desapega-se da idealização pura e simples do espaço – onde os animais são apenas bichos e peixes – e passa a nomear seus ocupantes, como no já citado poema “Trilha dágua”. O poema “Tracajá”, por exemplo, descreve o movimento repleto de vitalidade de piranheiras, araçás, tracajás, onças, jacurarus, maracajás. É como se na sua poética construída ao sabor do tempo, Alcides Werk notasse, a partir de determinado momento, um movimento além das águas poderosas. É interessante observar, contudo, que a preocupação com a ecologia vai muito além do discurso fácil e emocionado de um modismo ocasional –redundante em si mesmo. O poema “Peixe-boi” fará qualquer ecologista de última hora torcer o nariz à crueldade com que é descrita a pesca àquele raro mamífero. Após expor com detalhes os preparativos indispensáveis, o “arremesso forte” e certeiro do arpão é seguido por um “navegar sem rumo” do animal arrastando o casco, enlouquecido pela dor.

                    Depois o cansaço nessa luta inútil
                    que eu sempre venci. Um pau molongó
                    em cada narina,
                    e tudo acabado.

A exclamação que o autor não explicita está clara. A alegria incontida, entretanto, não é pela vitória comum do homem. É uma outra alegria, quase infantil, primitiva:

                    Vou viver fartura,
                    vou guardar mixira,
                    vou ter peixe e boi.

Essa mesma motivação remete-nos a outro belo poema, “Facheação” , onde o objetivo da pesca é menos específico:

                    Há sempre pelas restingas
                    gerações de acaratingas
                    acomodados na areia,
                    acaris, bararuás
                    aracus, tucunarés
                    (por trás dos âmagos velhos,
                    guardando suas ninhadas)
                    e casais de apaiaris.

O espaço em movimento é enriquecido pela descrição dos objetos indispensáveis à faina:

                    E eu pego o rumo da beira,
                    com facho, poronga, arpão,
                    azagaia e jaticá.
                    No paneiro vai farinha,
                    vai sal, pimenta, limão,
                    língua de pirarucu,
                    cuia e pão de guaraná.

Não, os fonemas não têm cores como não as têm as vogais. Antes, traduzem alegria ou tristeza em acordo com o texto. Nas duas estrofes acima, o frio i e o sombrio u traduzem a mesma força telúrica dos fogosos o e a. Porque o objetivo desta facheação é mesmo a festa:

                    Depois, o rumo de casa:
                    preciso remar ligeiro,
                    que o povo tá me esperando
                    com a peixada pro ajuri.

O tema, aliás, repete-se, embora sem o mesmo brilho, no poema “Pescaria”, da antologia Poemas da água e da terra. A enumeração dos ocupantes do espaço prossegue na sua melodia inconfundível:

                    São piraíbas, jaús, dourados,
                    são pirararas de enormes panças,
                    são peixes-lenha e barbas-chatas,
                    piramutabas, capararis,

                    piracatingas e mandiis.

Da mesma forma, o poema “Jaraqui”, dado a público na 2ª edição de Trilha dágua, ensina a pesca àquele peixe, iguaria comum nas mesas da região:

                    jaraqui de piracema:
                    eis do pobre a mesa posta.

A técnica do distanciamento empregada por Alcides Werk nesses poemas visa afastar o envolvimento emocional do leitor com o fato em si: o poeta é o pescador. A recíproca dessa assertiva é falsa, entretanto, posto que o resultado – o pescador é o poeta – nos levaria perigosamente à catarse aristotélica e, consequentemente, ao discurso emocionado, dirigido ao leitor “pré-parado”. Aqui reside, aliás, o grande trunfo da poesia de Alcides Werk no que ela tem de mais regionalista: uma poesia feita de dentro para fora, viva, pulsante, vibrante. Não são meras lembranças do passado, saudades de um tempo perdido no tempo. Não. É a vida que flui, naturalmente, com a força arrebatadora das águas poderosas, destruindo o passado, preparando o futuro.

Mesmo nos poemas discursivos, como “O Ouro Rio Amana” (Trilha dágua, a partir da 3a edição), a catarse dá-se muito mais a partir da visão apaixonada do autor que do fato narrado: o poeta passa a sua indignação antes mesmo de provocá-la pela leitura mais atenta do poema.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Moacyr de todas as cores

O Pequeno Príncipe e o valor da simplicidade

Terra caída

Rogel Samuel*


Trágica lembrança essa do famoso poema de Álvaro Maia, “Terra caída”, no episódio recente do desbarranco ocorrido em Manaus:

Na outra margem, na enseada esbatida nas brumas,
rolam blocos de terra em dolente estertor
com frondes e sopés, flores e sumaúmas...
O rio estoura e ferve em torvelins de espumas,
e pranteia o infortúnio em regougos de dor...

O título também é do romance de José Potiguara e da obra de Eider Pestana.

Álvaro Maia era um excelente poeta, hoje esquecido, até recusado pela crítica amazonense. Ele marcou o que se pode chamar de neo-romantismo na poesia amazonense.

O poema é enorme e não vou transcrever aqui.

Ninguém como ele para conhecer o fenômeno das “terras caídas”.

No seu romance “Beiradão”, a isso se refere:

Seguindo essa perspectiva de restabelecimento, o sítio de Fábio também atinge uma prosperidade, atestando que “[...] havia tranqüilidade na pobreza, a fartura na relatividade, a comprovação da vida no interior verde, afastando o tabu da vida unicamente apegada ao extrativismo [...]”.(89) As ações de Fábio na administração de sua propriedade comprovam ainda um planejamento racional, à medida que não somente busca outras alternativas econômicas, além da monocultura, mas também se previne de surpresas que possam ser causadas pelos acidentes naturais próprios da estrutura geológica da região, plantando cacauais em restingas altas, longe, portanto, das margens afetadas pelo fenômeno das terras caídas.

Eu cito: Lucilene Gomes Lima. Ficções do ciclo da borracha no Amazonas: Estudo comparativo dos romances “A selva” (FERREIRA DE CASTRO), “Beiradão” (ÁLVARO MAIA) e “O amante das amazonas” (ROGEL SAMUEL). Manaus, Editora da Universidade do Amazonas, 2009. 240p.

(*) Publicado originalmente no blog de Rogel Samuel.