Amigos do Fingidor

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Sob a concha da panacarica – estudo 2/8


Zemaria Pinto

 

 

O delito da bondade – Como de rotina, Zeca senta-se sob a velha mangueira e recorda os tempos em que era moço, quando tinha  seu pai, Santos, por perto. As recordações do velho servem para contar a sua história. Os filhos mudam-se para a cidade, a mulher morre.  Zeca encontra-se solitário na fazenda, e os filhos resolvem fazer a partilha dos bens, colocando o patriarca em um abrigo de idosos. Zeca foge do asilo e volta para sua antiga fazenda, pede abrigo com o atual proprietário e, contando com a solidariedade deste, volta a morar em sua antiga propriedade, numa casinha humilde. Os filhos não tomam conhecimento do ocorrido. Retorno ao presente, para presenciarmos a morte de Zeca, entre passarinhos:

 

E, de repente, o velho Zeca se sentiu entre eles. E voou, como seu pai, o velho Santos o fizera, anos antes, para os confins da eternidade.

 

Se levarmos em consideração que o conto social tem como característica a denúncia  das falhas e problemas da sociedade,  podemos enquadrar O delito da bondade como tal, uma vez que aponta para o abandono do idoso e para o fato de que, em nossa sociedade, o homem só tem valor enquanto é produtivo.

Ingenuidade – Corina olha o infinito, tentando visualizar alguém. As recordações servem como resumo dos fatos que decidiram sua atual sorte: o feliz casamento com Bruno; seu convencimento pelas amigas adúlteras em trair o marido; a traição e a descoberta do ato; a consequente decisão do marido traído em abandoná-la.

O olhar o infinito constitui-se, sabe-se então, na vida presente de Corina: o eterno esperar, consumida pela certeza de ter sido a única responsável por seu sofrimento.

 

E desde então, todos os dias, quando a manhã chegava, ela ia estender o seu olhar de culpa e de arrependimento pela extensão indiferente da estrada, à procura de um vulto que o tempo escondera no livro do nunca mais.

 

O boto – Através das recordações de Manduca, tomamos conhecimento de que sua mulher, Chica, casara grávida, vítima da sedução do boto. Sabemos também que o velhaco continua a persegui-la, e que Manduca quase consegue matá-lo, alvejando-o. No retorno ao presente, vemos Manduca descobrindo a verdade: sempre fora traído pela mulher com o amigo Adriano, que é o pai de sua filha Martinha. Resolve abandonar o lar, levando consigo, como vingança, a “desgraça” de Adriano, que,  alvejado no órgão sexual, de nada mais serve para a fogosa Chica.

E é assim, com humor, que aparece a crendice do homem interiorano na figura do boto, sedutor de mocinhas, e pai de todas as crianças sem paternidade reconhecida. Podemos classificá-lo como conto regionalista.

No igarapé – Judite retorna a sua terra, após longo exílio, e caminha à beira de um igarapé poluído. Em lembranças, resume os fatos que direcionaram o seu melancólico presente: em um tempo distante, às margens do mesmo igarapé, fora estuprada por Vítor.  Assim como ela, também o algoz fez seu exílio, tornou-se um solitário, expiando a culpa por ter maculado seu amor. Retornando ao presente, testemunhamos o reencontro entre os dois:

 

Por algum tempo deixou-se ficar, fingindo que dormia. Depois sobreveio-lhe um choro convulsivo. E confirmou o perdão que já concedera ao moço.

 

O sonho – Sandra está deitada na rede, na sala da fazenda. Relembra uma cena que presenciara outrora: o amor entre Roseno e Marta, esta traindo o marido – um ato animalesco. Embriagada pelas recordações, no presente, tem uma espécie de sonho, sentindo-se Marta, seduzida pelo peão. Descobrimos que e o amante é o próprio marido, havendo, assim, um final feliz.

O “voyeur” – Ricardo, o marido de Magda, é um “voyeur”, isto é, uma pessoa que se excita sexualmente olhando, sem participar diretamente das ações. O termo é francês, mas vulgarmente pode ser substituído por “brechar”. O casamento acalma os instintos de Ricardo, todavia, a gravidez da mulher acorda seus sentimentos. Há um retorno ao passado, para mostrar-nos como começou a hábito do indivíduo. No retorno ao presente, Ricardo, aproveitando que a mulher e a criança não estavam em casa,  observa o quintal vizinho, onde um sujeito excêntrico e viril é visitado por uma mulher mascarada, para o ato sexual. Quando sua esposa chega em casa, exausta, repudia o marido que, por acaso, descobre entre as coisas da mulher a máscara e as roupas usadas pela visitante do vizinho.

Nas asas do folclore – Marcolino é o velho pai de Pedro Mateus, que está fazendo uma grande festa para o padroeiro, São Pedro.

Marcolino deixa-se ficar distante da festança, apenas observando os brincantes. Relembra o porquê de preferir não participar das coisas, de não dar palpites: vira Edson, um sujeito truculento, mantendo relações sexuais com Julinha, mulher casada. Fora ameaçado pelo sedutor e resolvera nada falar. Julinha procurou-o e pagou, com seu corpo, o silêncio do velho.

De seu posto de observação, Marcolino vê duas jovens fazendo adivinhações juninas: Florinha vê a letra “E” representando o nome do futuro marido. Em seguida, vê Edson fazendo também uma adivinhação sobre a terra molhada pela urina de Florinha. Diverte-se em saber que o truculento também crê em adivinhações. Vê, também, Betinho, comprometido com Tonha, ser seduzido por Florinha.

Nas outras noites, acompanhou, sem ser visto, os encontros entre ambos, bem como ficou sabendo que a jovem estava grávida e a solução encontrada para o problema pelos amantes: Florinha cederia aos caprichos de Edson, que desejava casar-se com ela.

No final, com sabor de vingança, Marcolino é o único, além do casal de amantes, a saber que o filho de Edson era, na verdade, de Betinho. Além disso, Edson deixa de perseguir o velho, pois estava empolgado com a esposa e o filho.  

O folclore, aqui, representado pelos folguedos juninos, aparece em tom de humor, mostrando as crendices do povo.

Max Carphentier lança novo livro, no sábado

 
 

Medicina nas primeiras cidades



João Bosco Botelho

 

Com a consolidação do sedentarismo, no Neolítico, entre 10.000 e 5.000 anos a.C., importantes modificações foram se processando nos grupos sociais que habitavam a Mesopotâmia e o Egito. Essas sociedades iriam absorver parte da experiência acumulada em 500.000 anos de História, desde o aparecimento do Homo Sapiens.

Nessa fase, teve início a modificação da economia produtiva em nível de subsistência coletiva para uma concreta divisão de trabalho, como aparecimento de excedente de produção e das trocas comerciais.

As sociedades mostravam-se francamente hierarquizadas. Apareceu a propriedade privada, possibilitando o processo de assentamento duradouro, que evoluiu para a organização das primeiras aldeias. Este aldeamento estratificado é encontrado em torno de 5.000 anos a.C.

As cidades formaram-se como produto da transformação e fortalecimento dos grupos humanos, ao mesmo tempo que as sociedades arcaicas se estruturavam social e politicamente, processando-se assim as modificações que dariam início ao aparecimento das civilizações regionais.

Entre elas, destacaram-se pela ocupação territorial e poder de guerra: a suméria, egípcia, cretense, fenícia , arcádica, babilônica e assíria, que iriam decididamente influenciar, direta e indiretamente, o pensamento ocidental.

Estas civilizações regionais formaram e assimilaram ao longo das suas consolidações, diferentes formas de governos, predominando o teocrático e mercantil-escravista, que teriam, de diferentes formas, moldado a ação médica às conveniências do poder.

As guerras foram frequentes e contínuas, oferecendo como produto final dos saques novos escravos e territórios, fortalecendo a propriedade privada e a escravidão. Certamente, durante os conflitos, houve participação ativa dos médicos e progressos na Medicina, principalmente no manuseio das grandes feridas traumáticas e amputações cirúrgicas dos membros dilacerados.

Os metais fundidos, o cobre, a mecanização da agricultura, o barco a vela e o uso comum do ferro são fatos que contribuíram para aumentar as trocas do excedente da produção, fortalecendo a maior especialização da sociedade.

O corpo humano começa a ser manuseado nos rituais de sacrifício religioso e na conservação do corpo após a morte. É neste contexto que já existe a distinção entre médico e cirurgião.

A atividade médica deveria ser intensa e diferenciada nos vários extratos sociais para dar origem a querelas e atritos frequentes. Sabe-se que o Rei Hammurabi (1728-1688 a.C.), da Babilônia, dedicou vários parágrafos do seu famoso código para disciplinar o exercício da Medicina, onde se lê:

. 218 – Se um médico fez em um awilum (homem livre em posse de todos os direitos de cidadão) uma incisão difícil com uma faca de bronze e causou a morte do awilum ou abriu o nakkaptum (arco acima da sobrancelha) de um awilum com uma faca de bronze e destruiu o olho do awilum: eles cortarão a sua mão;

. 219 – Se um médico fez uma incisão difícil com uma faca de bronze no escravo de muskenum (intermediário entre o awilum e o escravo) e causou a sua morte: ele deverá restituir um escravo como o escravo morto.

. 220 – Se ele abriu a nakkaptum de um escravo com uma faca de bronze e destruiu o seu olho: ele pagará a metade do seu preço.

Com isto, o Código de Hammurabi formou jurisprudência com dois pontos cruciais da ordem médica: as sanções que devem receber os médicos pela imprudência, imperícia e negligência e os honorários médicos diferenciados pelo atendimento de diversos grupos sociais.

Entre as substâncias utilizadas pelos médicos assírios-babilônicos estão relacionadas: a beladona, o óleo de rícino, o gengibre, a hortelã, a romã e a papoula. Muitas delas continuam sendo utilizadas até hoje.

Nesta fase do desenvolvimento das cidades-reinos, foram introduzidas importantes medidas sanitárias nas cidades, como a construção das redes de esgotos e abastecimento de água potável, de fazer inveja às periferias urbanas do nosso Brasil.    

 

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Fantasy Art - Galeria

The key.
Michael Mobius.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013




A tragédia da velhice consiste não no fato de sermos velhos, mas sim no fato de ainda nos sentirmos jovens.

(Oscar Wilde)

domingo, 18 de agosto de 2013

Manaus, amor e memória CXXI


Um reclame. De um agiota? Muita caradura...

sábado, 17 de agosto de 2013

Fantasy Art - Galeria


Do not whisper into the Wind.
Linda Bergkvist.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Sob a concha da panacarica – estudo 1/8



Zemaria Pinto*

 

Informação biográfica


 

Almir Diniz de Carvalho nasceu no Cambixe, município do Careiro, Amazonas, a 06 de novembro de 1929. É bacharel em Direito e jornalista, tendo iniciado carreira na imprensa  em 1947.  

Entre outros prêmios como jornalista, venceu, em 1956, o Prêmio Esso de Reportagem Norte-Nordeste, com a matéria “Borracha: dinheiro, sangue e miséria”.

Exerceu diversos cargos públicos, dentre eles o de Prefeito do Careiro.

Dedicado aos afazeres cotidianos, especialmente do jornalismo, somente aos 67 anos Almir Diniz resolveu abrir sua gaveta de guardados.

 


Obras publicadas


 

. Encontros com a natureza (poesia - 1996)

. Caminhos da alma (poesia - 1996)

. Corpo de mulher (poesia - 1996)     

. Andanças poéticas (poesia - 1997)

. O pitoresco e o hilariante na imprensa (crônica - 1997)

. Os deuses (poesia - 1998)

. Sob a concha da panacarica (contos - 1999)

 

Análise da Obra

 

Considerações iniciais


 

Sob a concha da panacarica é um livro de contos, de histórias curtas que, obedecendo à estrutura do gênero, têm como objetivo a solução de um só conflito, que é a sua célula dramática.

Assim, lembremos as características essenciais do conto:

.  uma única ação principal;

.  número mínimo de personagens;

.  unidade de tempo;

.  unidade de espaço;

.  foco narrativo em  1ª ou 3ª pessoa, sobressaindo-se o diálogo.

Além disso, podemos classificá-lo, de acordo com a ação desenvolvida ou o espaço onde transcorre, em urbano, regionalista, psicológico, social, dentre outros.

 


Estrutura narrativa - Resumos


 

Sob a concha da panacarica é um livro constituído por dezenove contos, diversos entre si, havendo algumas poucas semelhanças, mas que nos permitem separá-los em blocos. Assim, de acordo com a estrutura narrativa que apresentam, os contos foram divididos em quatro blocos: ao primeiro bloco foram agrupadas as narrativas que possuem um tom rememorativo; ao segundo, as histórias cujas cenas apresentam-se numa sequência simples, linear, em frente ao leitor; ao terceiro, os contos que possuem uma declaração inicial, uma explicação; e ao quarto, um conjunto unitário, uma narrativa cujo foco apresenta-se em 1ª pessoa.

 

1 – Contos em tom rememorativo

 

Os nove contos relacionados neste primeiro bloco, apresentam alguns pontos em comum: um resumo de acontecimentos anteriores à ação principal; diálogos, por vezes, em forma de monólogo interior; foco narrativo em 3ª pessoa.

Sob a concha da panacarica - Rosinha é a jovem esposa do endinheirado Maurício. Entediada, em uma viagem no reboque da lancha Ituí, lembra um sedutor que conhecera há dois anos, Roberto. A lembrança apresenta-se como uma preparação para o presente: Roberto aparece novamente, consuma-se a traição  “sob a concha da panacarica”; Maurício, que preparara a cilada, mata o sedutor; Rosinha sente-se liberta, pela consumação do ato sexual, do desejo que a sufocara por dois anos, e, sem saber que o marido é o responsável pelo desaparecimento do atravessador,  terá um casamento feliz, pois:

 

De repente sentiu que se livrara da obsessão que se intercalava entre eles. E descobriu que amava seu dedicado companheiro.

 

O ambiente, ilustrado pelo meio de transporte fluvial, deixa margem para classificarmos o conto como regionalista, uma vez que aborda aspectos típicos, ou seja, usos e costumes de uma região.

A última pesca – Armando sua pescaria, Eugênio, em plena crise conjugal,  relembra o início do amor pela mulher, Regina. Revigorado pelas lembranças, que servem como introdução para a ação principal do conto, deixa a pescaria e volta correndo para casa, na esperança de poder ainda salvar seu casamento. Perde a razão ao encontrar a mulher com outro, na cama. A morte dos amantes é anunciada apenas pela referência à faca de cozinha. De resto é omisso, apenas com uma sutil referência:

 

Decidiu sair pela porta da frente. Ao passar pelo quarto percebeu que a porta estava entreaberta. Olhou com indiferença. Viu um monte de lençóis brancos. Engraçado, não se lembrava de possuir lençóis brancos com aqueles florões vermelhos, grandes como manchas... 

 

Em seguida, lembra-se da pescaria armada, volta ao local e, ensandecido, atira-se no rio, encantado por uma mãe-d’água com o rosto da esposa morta.

O conto pode ser classificado como regionalista, pois a descrição da pesca, os peixes citados e a moradia caracterizam costumes do interior amazônico.
 
(*) Publicado no livro Análise Literária das Obras do Vestibular 2001 (Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 2000, p. 1-20)

Medicina na mitologia grega

 
 

João Bosco Botelho

 

As relações da Medicina com a compreensão mítica da realidade se perderam no tempo. É impossível separar as ideias míticas do entendimento do homem sobre a saúde e a doença. Esse fato se deve ao apoio oferecido pelo mito como forma de conhecimento nas sociedades que ainda não conseguem explicar as contradições da saúde e da doença de outra forma. Contudo, a mitologia nasce da relação com o mundo da natureza empírica, mas acima do meramente empírico.

Das primitivas relações do homem com o animal, posteriormente substituídas pelas relações com a terra, surgiu empiricamente o uso das plantas na busca da saúde. A utilização do vegetal, indispensável para a sobrevivência do homem, se processou em complexa compreensão mítica, que foi marcada pelas explicações que se sucederam nos milênios sobre a origem primeira e o destino final do ser humano. Elas evoluíram da Epopeia de Gilgamesh, dos babilônios, à Teoria do Big Bang, dos modernos astrofísicos, passando pela gênese judaico-cristã e pela Yebá beló da lenda desana da criação do Sol.

Apesar da melhor compreensão que temos hoje da transformação do pensamento mítico, a dificuldade da interpretação aumenta na proporção que recuamos no tempo. Entretanto, parece ser a partir do século VI a.C. e da Grécia que chegou a nós material historiográfico suficiente para traçar, com alguma segurança, um perfil da Medicina na mitologia.

Os registros históricos que se ocupam da Medicina na mitologia grega são, provavelmente, o produto das complexas relações do homem que antecedeu a formação do pensamento grego. É possível estabelecer certo paralelismo entre muitos aspectos das relações médico-míticas das civilizações babilônica, egípcia e indiana com as da Grécia antiga.

De acordo com a mitologia grega, a Medicina começou com Apolo, filho da união de Zeus com Leto. Inicialmente, Apolo era considerado como o deus protetor dos guerreiros. Posteriormente, foi identificado como Aplous, aquele que fala a verdade. Ele agia purificando a alma através das lavagens e aspersões e do corpo com remédios curativos. Era considerado o deus que lavava e libertava do mal.

Um dos seus filhos, Asclépio, recebeu educação do centauro Quíron para ser médico. A escolha do centauro foi feita porque ele dominava o completo conhecimento da música, magia, adivinhações, astronomia e da Medicina. Além dessas habilidades, Quíron possuía incomparável destreza. Manejava com a mesma habilidade o bisturi e a lira.

Para os gregos daquela época, Asclépio divinizou a Medicina na mitologia. Ele era celebrado em grandes festas públicas no dia 18 de outubro, data em que até hoje se comemora o dia do médico no Ocidente. Asclépio conquistou uma fama inimaginável, tinha a delicadeza do tocador de harpa e a habilidade agressiva do cirurgião. Todos os doentes que não obtinham cura em outros lugares, procuravam as curas milagrosas desse deus taumaturgo. Mais cirurgião do que médico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Chegou a ressuscitar os mortos e por ordem de Zeus, temendo que a ordem do mundo fosse transtornada, foi morto com os raios das Ciclopes.

Asclépio deixou duas filhas, Hígia e Panaceia, a primeira foi celebrada como a deusa da Medicina e a segunda curava todos os doentes com os segredos das plantas medicinais. Além delas, teve dois filhos, Machaon e Podalírio, médicos guerreiros que se destacaram na guerra de Tróia. Panaceia continuou a linhagem de médicos que começou com Apolo, fazendo do seu filho Hipocoonte um médico famoso e ancestral de Hipócrates.

Existem muitas comprovações arqueológicas das dádivas de agradecimentos dos doentes para Asclépio. No hospital de Epidauro, na Grécia, foram encontradas várias esculturas com o nome do doente a descrição da doença e da cura obtida. Quase todas as representações simbólicas de Asclépio, produzidas, entre os séculos VI e VII a.C., contêm uma serpente enrolada num bastão.

O simbolismo da serpente com a Medicina já estava presente na civilização babilônica, dez séculos antes da formação da polis grega. Existe no Museu do Louvre, em Paris, um vaso de cerâmica encontrado na região de Lagash, representando o deus da cura babilônico – Ningishida –, duas serpentes entrelaçadas.

O simbolismo da serpente é frequentemente ligado à transcendência da morte. Existem várias explicações para a relação da Medicina com a serpente. As mais conhecidas são: a serpente pode viver em cima e embaixo da terra, atuando como mediador entre os dois mundos e a capacidade da serpente de mudar a sua pele de tempos em tempos, encenando o renascimento. Esta última interpretação está relatada no Rig Veda (1.79,1), no qual os Adityas são descritos como os descendentes das serpentes e ao perderem a pele velha, eles venceram a morte e adquiriram a imortalidade.

Seja qual tenha sido a razão que levou o homem, no passado, a estabelecer um elo da serpente com a Medicina, provavelmente estava relacionada com a luta pela sobrevivência.

 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Fantasy Art - Galeria


Magic Kingdom.
Michael Fishel.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

As acontecências da malfadada Ponta Negra



David Almeida

 

“Em rio que tem piranha jacaré nada de costas”. “Em praia que tem jacaré, ninguém mergulha ou frequenta”. Não rimou, mas essa é a realidade vivenciada pela nossa mais famosa área de lazer: a malfadada praia da Ponta Negra.

Cartão postal da Cidade, ultimamente, a Ponta ficou mais Negra ainda, depois das tragédias de que foi palco, muitos personagens terminaram por ali. A praia continua vazia e vai continuar por muito tempo, enquanto os jacarés povoarem as águas do rio Negro e as cabeças dos banhistas. Os donos das barracas estão insatisfeitos, suas vendas caíram quase 100% por causa da estória dos jacarés, eles chegam ao ponto de dizer que alguém inventou tudo isso pra preservar a Praia, porque nunca viram nada.

Ninguém se arrisca em dar um mergulho e boiar de cara com um jacaré açu. Essa espécie de anfíbio pode chegar até a cinco metros de tamanho, e, como um liquidificador pré-histórico, tem um giro mortal rasgando, estraçalhando a sua presa. Ele não mastiga, mas morde, gira e engole. Alguém se habilita em dar um mergulhozinho nessa praia?

Tanto dinheiro público gasto em sua reforma, a ver navios, digo: a ver jacarés famintos, moribundos e solitários, querendo se aquecer na areia, ao sol da sua solidão. Mas, me pergunta o jornalista Mário Dantas: – a solidão não é fria? Eu respondo: – depende em qual estação ela aparece, como praia está ligada a sol, a gente pensa logo no verão, e os jacarés, “tadinhos dos bichinhos”, têm sangue frio, só aparecem para aquecerem-se ao sol, sem intenção nenhuma, então, nesse caso, a solidão da malfadada Ponta Negra é quente. Como quentes são as noticias sobre ela.

“Ponta Negra cinza quase azul”, diz a letra da musica do meu amigo compositor, poeta e artista plástico Arnaldo Garcez. Ah, meu amigo Arnaldo, na atual conjuntura em que esse espaço se encontra, entre buracos dissimulados, jacarés, e, ao preço de um real para as necessidades fisiológicas de seus frequentadores em seu banheiro, a sua Ponta Negra cinza quase azul, está mais cinza do que nunca.

O que eu não entendo é como um espaço feito com dinheiro público, para o público, pode cobrar para ir ao banheiro? Está escrito na porta do banheiro da malfadada Ponta Negra com catraca, borboleta e tudo, a seguinte frase: “banheiro terceirizado, um real”. Aí, o sujeito, que precisa ir ao lugar várias vezes, por estar com problemas intestinais, vai ter que levar no bolso muita grana, ou então vai fazer suas necessidades nas águas do Rio Negro, o que é pior. E se a onda pega? Já pensou se começarem a terceirizar os banheiros das instituições públicas? Com certeza, as ruas, os postes, as esquinas, qualquer espaço que servir para tirar a água do joelho vai pagar o pato, e a nossa querida Manaus vai ter seu cheiro característico. Ó, eu acho que o povo já paga muita coisa, ganhando pouca coisa.

E, ainda mais agora, com esses jacarés azarando a vida dos que buscam a tranquilidade, lazer, a renovação das energias, naquela praia, para começar a semana com todo o gás.

O que diria, se estivesse vivo, o Professor Gilberto Mestrinho, sobre esses jacarés?

Gente, precisamos de um super-herói, para “desterceirizar” todos os banheiros públicos, tirar os jacarés das praias, acabar com a malfadada Ponta Negra, e trazer de volta a Ponta Negra cinza quase azul. Talvez, quem sabe... nas próximas eleições surja esse super-herói, advindo de um desses programas de televisão, que ajudam pobre a ficar mais pobre ainda, “né”?       
 
 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013



Não sei como meus leitores conseguem entender o que escrevo. Depois de algum tempo, nem eu mesma sei o que queria dizer!

(Gertrude Stein)

domingo, 11 de agosto de 2013

Manaus, amor e memória CXX


Cidade Flutuante, uma favela flutuante.
O Inferno era aqui.

sábado, 10 de agosto de 2013

Fantasy Art - Galeria

Hugo Urlacher.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Platônica XI




                                                                             Jane Cony

 

         Por volta de dez horas chegava nosso companheiro de chá, e mesmo estando ocupados com as lidas de montar uma exposição, parávamos para conversar e aprender com Luiz Bacellar. Escolhíamos o tipo de chá, às vezes pela sua exoticidade e daí fluía uma conversa sobre fitoterápicos, ou sobre uma matéria de alguma revista ou livro que estava lendo.  Às vezes discutíamos alguns clássicos da literatura que hoje poucos leem e que muitos perdem. Com Luiz, voltei a falar e reler meus amados russos. 

        Há onze meses, o Velho Poeta não nos fala das peculiaridades de ervas e chás, das histórias da aristocracia vitoriana ou das mudanças em algum dos quartéis de armas no escudo de sua família. Mas em mim ainda está muito presente nosso último encontro na Fundação. Cheguei como sempre por volta de nove horas com as revistas e guloseimas.  Respirando fundo antes de entrar para que meus olhos, como sempre, não mostrassem nada além de amor, respeito e otimismo. 

         Ele estava dormindo quase em posição fetal, com o telefone no ouvido. O arrumei no travesseiro, coloquei o telefone ao seu lado e fiquei sentada rezando ao Deus que conheço que não queria ver o Luiz altivo e orgulhoso, como alguns dos velhinhos ao nosso redor. Implorei a Deus que o levasse antes que ele perdesse o que mais prezava: sua sanidade, o pensamento ágil. Ele acordou, falamos um pouco e voltou a dormir. Fiquei mais um pouco. Foi à única vez que chorei por Luiz Bacellar. 

        Ele partiu, mas está sempre presente quando alguém fala no meio da manhã: Vamos tomar um chá?  E a cadeira onde ele costumava sentar geralmente fica vazia nesses momentos. E entre um assunto e outro sobre a cidade, sempre se ouve: O que Bacellar diria?  Cá entre meus botões, penso: responderia com uma ironia mordaz, que poucos entenderiam.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Medicina na Índia antiga


 

João Bosco Botelho

 

É provável que a Medicina na Índia antiga já estivesse sistematizada séculos antes da invasão pelos arianos vedas, em torno do ano 2000 a.C. A suposição é baseada nos estudo arqueológicos feitos na cidade Mohenjo-Daro, no noroeste da Índia, nas margens do rio Indo. Nessa cidade foram encontradas ruas bem traçadas, com rede de esgotos, canalização para água e banhos públicos. Os achados colaboram na confirmação de que essa civilização tinha ideia bem precisa da importância dos cuidados de saúde pública na profilaxia da doenças.

A primeira sistematização da Medicina na Índia antiga está contida no Ayurveda, escritos originalmente em sânscrito e plenos de religiosidade. O Ayurveda significa o Veda da Longevidade e constitui a base teórica da Medicina tradicional da Índia. O texto original tem no seu conjunto mil capítulos divididos em cem mil versículos ou Shlokas, divididos em Ashtânga, palavra que até hoje é utilizada na Índia como sinônimo de Medicina.

O Ayurveda tem oito capítulos bem definidos, e que tratam de diferentes assuntos médicos:

1-      Shalya – cirurgia para retirada de corpo estranho, feto morto retido intrauterino, drenagem de ferida com pus e a utilização de instrumental cirúrgico para efetuar estes e outros procedimentos.

2-      Shalakya – cirurgia dos olhos, nariz, orelhas e garganta, considerada nos tempos atuais como verdadeiro tratado de oftalmologia e otorrinolaringologia.

3-      Kayacikitsã –  trata da terapêutica em geral com mais de oitocentos diferentes tipos de plantas com propriedades medicinais.

4-      Bhutavidya – ensinamentos que permitem tratar com os espíritos dos mortos, com os demônios e com os doentes que foram possuídos pelos deuses que causam as doenças.

5-      Kaumarabhritya – cuidados dos recém-nascidos e das mulheres grávidas.

6-      Agadatantra – toxicologia, aos venenos e antídotos.

7-      Rasayana ou Jarâ  – ervas do rejuvenescimento e os afrodisíacos que contribuem para a manutenção da saúde.

8-      Vajikarana ou Vrisha – descreve as propriedades dos afrodisíacos.

 

Os tratamentos encontrados no Ayurveda distinguem os remédios que fortaleciam o organismo e os que curavam. Os primeiros eram os afrodisíacos e os segundos eram os vegetais com propriedades terapêuticas que deveriam ser tomados segundo as normas rituais contidas nos Vedas. Neste tratado de terapêutica estão descritas mais de setentas diferentes espécies de vegetais que foram usadas na Índia durante mais de três mil anos.

Ainda segundo os ensinamentos contidos no Ayurveda, as doenças se dividem em três tipos: as curáveis ou Sadhya, as que podem melhorar ou Yapya e as incuráveis ou Pratyakhyeya. Admite claramente que as doenças são consequentes de culpas das vidas anteriores ou Karmaja e que para curá-las totalmente é indispensável a penitência ou Prayashcitta.

Os deuses e os demônios védidos representam um parte importante do conjunto médico contidos nos textos védicos. Os deuses curadores mais importantes são os gêmeos Ashvin, que no Rigveda (X, 39, 3b) aparecem como médicos dos cegos, dos desnutridos e dos que sofreram fraturas. Outro deus curador veda é Rudra, de duplo caráter, maléfico e caridoso, e que se transformou em Shiva, o grande deus moderno do hinduismo. O Shiva moderno mantém a duplicidade do primitivo Rudra, sendo o deus caridoso e colérico. O deus Rudra é adorado como o primeiro médico divino nos versos do Yajurveda.

Varuna é o terceiro mais importante deus médico da mitologia indiana. Ele é considerado o ordenador da ordem cósmica. A doença também é entendida como o castigo pelo pecado cometido contra a ordem estabelecida por Varuna.

Ainda nos Veda, os demônios como Nirrit, que encarna a perdição, Grahi o endemoninhado e os Rakshas especializados nos abortos são os principais causadores das doenças incuráveis.

A relação entre a doença e o castigo divino é constante. Todas as causas das doenças físicas pertencem ao domínio das transgressões das normas de conduta social. Alguns desses conceitos sobreviveram no tempo e continuam vivos na atualidade.

 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Fantasy Art - Galeria


Jim Warren.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Deu no JC

 
Publicado no Jornal do Commercio, de 4-5 de agosto de 2013.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Manaus 20 autores já tem capa




Capa do livro.

Em torno do tema “Manaus”, este livro reúne o trabalho de 20 contistas, três deles selecionados em concurso literário promovido pelo Livro de Graça na Praça. A obra Manaus 20 autores será distribuída gratuitamente no Largo de São Sebastião, na manhã do dia 29 de setembro, com a presença dos escritores e da população de Manaus.
 
 
Os autores
Adrino Aragão
Aldisio Filgueiras
Allison Leão
Almir Diniz
Antonio Felipe
Astrid Cabral
Edweine Loureiro
Elson Farias
Francisco Vasconcelos
Inácio Oliveira
João Pinto
Márcio Souza
Maria Elisa Souto Bessa
Neuton Correa
Pedro Lindoso
Priscila Lira
Tenório Telles
Thiago de Mello
Vera do Val
Zemaria Pinto
 

domingo, 4 de agosto de 2013

Manaus, amor e memória CXIX


Frequentadores do Chá do Armando, vistos, engalanados, por Noleto.
Falecidos alguns, sobreviventes outros, e um muito vivo: nunca foi ao Chá, mas, como é onisciente, sabe tudo o que ali falam (mal) dele...
Ironia do artista, claro.
Uma mandioca roxa para quem identificá-lo.

sábado, 3 de agosto de 2013

Fantasy Art - Galeria


Victoria Frances.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Homem precisa de Arte



O Homem precisa de Arte como precisa de ar, como precisa de água, como precisa de pão. Sem Arte o Homem perde a humanidade.

(João Sebastião – poeta nefelibata, filósofo de boteco, profeta do caos –, em discurso arrebatador, sem tradução simultânea, para alunos surdos.)

Medicina hipocrática


 
João Bosco Botelho

 

A consolidação da civilização grega ligada à polis com a sua estrutura político-jurídica definida e o homem sendo visto como a medida de todas as coisas, constituem o esplendor da nova visão das relações do homem com ele mesmo e com o meio.

A figura de Hipócrates, considerado o pai da Medicina, terá nascido no ano 460 a.C., na ilha de Cos, nessa Grécia caracterizada pela busca da racionalidade. Ele foi contemporâneo de Sócrates, do sofista Górgias e de Demócrito, com quem teria tido relações pessoais e profissionais em Abdera.

Sem qualquer dúvida, foi Hipócrates o fundador das bases da atual ordem médica e ele representa para a Medicina o mesmo que Platão para a filosofia.

A produção literária atribuída a Hipócrates é enorme. Hoje, sabe-se que muitos dos livros são apócrifos, porém, parece não haver dúvidas da participação de Hipócrates, direta ou indiretamente, na elaboração dos seguintes: Epidemia, O Prognóstico, Tratado Cirúrgico, Tratado Dietético, Tratado Nosológico, Tratado Ginecológico e Tratado Ético, sendo este último o responsável pelo suporte teórico da Medicina no Ocidente.

Na mesma época em que Demócrito lançava as bases do atomismo – tudo é formado por átomos que são partículas indivisíveis e invisíveis, eternas e imutáveis – dando pela primeira vez a explicação do odor, da cor e do sabor, Hipócrates lançava sua teoria dos quatro humores para explicar o aparecimento de doenças.

Na ilha de Cos, foi fundada a Escola de Medicina, dirigida por Hipócrates, que conseguiu reunir dezenas de colaboradores, dando início verdadeiramente a esboço de separação da Medicina da religião.

Entre as dezenas de ensinamentos hipocráticos, destacam-se como ainda atuais e pertinentes os conceitos de diagnósticos, prognósticos e tratamento, distinção entre sintoma e doença, os três aforismos – o médico e a sua arte, o doente e a sua natureza individual e a doença. Estes conceitos, apesar de terem sofrido aperfeiçoamento ao longo dos séculos, continuam válidos e utilizados, mesmo com toda a tecnologia da moderna Medicina.

Os instrumentos cirúrgicos que foram utilizados pelos médicos gregos são absolutamente semelhantes aos de hoje: as sondas, os bisturis, os trépanos, as pinças e os afastadores. As observações do corpo humano foram responsáveis pelas descrições minuciosas e maravilhosas da anatomia, como as feitas por Herófilo, contemporâneo de Hipócrates, que distinguiu o cérebro do cerebelo, identificou as membranas meníngeas e o líquido cérebro-raquidiano, as funções motoras e sensitivas dos nervos periféricos.

Quando a Escola de Cós estava no seu apogeu e Hipócrates era reconhecido como a maior autoridade médica do seu tempo, havia harmoniosa convivência entre a nova Medicina e as práticas médico-míticas exercidas pelos sacerdotes-médicos dos templos de Esculápio. Foram recuperadas várias tábuas de argila no templo-hospital de Epidauro com agradecimento ao deus Asclépio pela cura obtida.

A própria aparência do médico foi prevista pelos ensinamentos hipocráticos. No capítulo Do Médico, no Tratado Ético, lê-se: A norma do médico deverá ter boa cor e bom aspecto (...) Pois será de grande utilidade para colocar-se elegantemente e perfumado agradavelmente (...) e tudo isto agradará ao doente.