Amigos do Fingidor

terça-feira, 21 de maio de 2024

Focinho de porco não é tomada

 Pedro Lucas Lindoso 


Em Inglês a palavra “understand” significa entender, compreender. O prefixo “mis” pode mudar completamente o significado de uma palavra e dizer o oposto! No caso de “understand”, por exemplo, temos “misunderstand”. O que vem a significar o oposto de entender, que é compreender mal, não necessariamente um desentendimento.

Martinho Lutero, como sabemos, foi o famoso monge alemão do século XVI. Fundou a doutrina protestante luterana. A doutrina de Lutero tem como elemento central a crença na justificação pela fé, ou seja, que a salvação de uma pessoa é garantida exclusivamente pela fé. Os livros de História sempre se referem ao Martin Luther alemão como Martinho Lutero e nunca como Martin Luther.  Já o líder negro americano que lutou pelos direitos civis dos negros sempre foi conhecido no Brasil como Martin Luther King Jr. E nunca como Martinho Lutero King.

Frei Donald foi pároco da Igreja de Santo Antônio em Brasília. É falante do inglês. Sempre se esforçando em falar o português corretamente. Mas dava suas derrapadas. Certa vez fez um sermão em que falava sobre o líder negro americano. Chamou-o de Martinho Lutero King.  Ninguém entendeu nada. As pessoas achavam que ele se referia ao monge alemão fundador da Igreja Luterana.  Frei Donald é meu amigo. No final da missa fui falar com ele e esclareci a confusão. O sermão foi um grande “misunderstanding”.

Quando jovem, fiz um curso de Inglês em Londres. Em nossa turma havia estudantes de diversos países. Uma jovem brasileira do interior de Minas nunca havia conversado com um mulçumano. Ao ser informada pelo rapaz que ele fazia suas orações virado para Meca, a moça caiu na gargalhada. O jovem árabe não gostou. Ficou ofendidíssimo.

A garota pediu desculpas que não foram aceitas. Tentei argumentar dizendo que ela desconhecia a cultura dele e não quis ofender. Não adiantou. E o pior. Ficou chateado comigo. Achou que eu estava dando razão à moça. Ninguém quis, em momento algum, desrespeitar a religião e a cultura do jovem rapaz. Pelo contrário.

Expliquei a ele que nós, católicos, durante a missa, comungávamos com um pão simbolizando o corpo de Cristo. E que cada religião tinha seus dogmas e mistérios. E que em nenhum momento houve desrespeito à religião dele. Por fim, o rapaz concordou que estava tudo bem. Mas não poderia perdoar a garota mineira. É uma pena que mal-entendidos não possam ser perdoados. Em época de divisões políticas, ódios injustificáveis, fake news e ressentimentos fica ainda mais difícil esclarecer os mal-entendidos.

Lembra-se da tomada e do focinho de porco? Ambos têm dois buracos. Confundi-los acarreta problemas. Melhor estar atento às diferenças. Nunca foi tão difícil explicar que focinho de porco não é tomada.

 

domingo, 19 de maio de 2024

quinta-feira, 16 de maio de 2024

A poesia é necessária?

 

Radiografia social

Henrique Duarte Neto

 

Jamais tantos néscios

passaram por sábios...

Ou, ao menos, gritaram,

ergueram a voz,

discursaram – tais quais

brilhantes oradores.

 

Tempos de imbecilidade

coletiva,

em que se dá voz

aos insensatos!

Quiçá, o último estágio

antes da ruína final!

 

terça-feira, 14 de maio de 2024

Filhos, sempre prioridade

 Pedro Lucas Lindoso

 

Há uma quantidade enorme de crônicas, depoimentos, poemas, canções e textos em geral homenageando as nossas mães. Mês de maio, mês das mães. Um domingo só delas e para elas. Homenageá-las por meio da escrita é fácil. O difícil é ser original, sem ser piegas e ainda emocioná-las. Nossas queridas mães e leitoras. Uma tarefa bem difícil. Mas é preciso sempre expressar amor por elas. Sempre.

Vou começar as loas pela minha saudosa mãe. Ela começava a mimar e amar seus filhos assim que se descobria gestante. Fazia sapatinhos, luvas e casaquinhos de tricô como ninguém. Teve sete filhos. Todos amamentados e cuidados como se fossem únicos. Sem jamais deixar de ser parceira e apoiadora incondicional de meu pai em tudo e por tudo.

Minha esposa Vera é uma mãe e avó devotadíssima. Quando nossos filhos eram pequenos, Vera organizava, com meses de antecedência, as festas de aniversário. Decoração esmerada, personagens infantis, além de muito brigadeiros e quitutes diversos. Sempre um sucesso.

Marina, nossa filha, esperou bastante pela chegada da Catarina. Nossa Senhora ouviu suas preces e nossa princesinha chegou linda e perfeitinha. E pasmem, Catarina era uma bebezinha de três meses. Surpresa! Isadora resolveu que chegaria também para a família. Hoje Marina toma conta de não só uma, mas duas bebezinhas. Mamãe em dose dupla. De amor e de trabalho.

Dona Nice foi minha secretária na EMBRATUR em Brasília. Teve seu filho Rafael acidentado brincando com álcool. O garoto ficou com o corpo bastante queimado. Com nossa ajuda, levou o rapazinho para um hospital especializado em Goiânia. Dona Nice foi uma heroína. Ela moveu céus e a terra para que seu filho tivesse o melhor tratamento e se recuperasse. O diagnóstico inicial não era dos melhores. Mas ela lutou e conseguiu recuperar a saúde do filho.  O garoto hoje é um brilhante jovem advogado.

A Princesa de Gales, Katherine, será a futura Rainha da Inglaterra. A jovem mãe escondeu da Imprensa mundial e de todo o Reino Unido que estava com um grave problema de saúde. O objetivo era preservar seus filhos. São bem crianças os jovens principezinhos. A princesa necessitava de tempo para prepará-los para a grave notícia. Katherine é muito querida em toda a Inglaterra. A notícia seria impactante e pegaria as crianças despreparadas. Era preciso poupá-las. E conseguiu.

É conhecida a história da mãe do soldado displicente. Ao ver seu filho marchando fora do passo, acreditou que todo o batalhão marchava errado. Seu filho era o único no passo certo.

Elas podem ser psicólogas, primeiras damas, secretárias, trabalhadoras ou rainhas. Filhos são prioridades. Filhos estão sempre nos pensamentos das mamães. Em momentos de amor ou na dor. FELIZ DIA DAS MÃES.

 

domingo, 12 de maio de 2024

Manaus, amor e memória DCLXX

 

Praça Heliodoro Balbi (ou Praça da Polícia),
com Colégio Pedro II (ou Colégio Estadual) ao fundo. 

quinta-feira, 9 de maio de 2024

A poesia é necessária?

 

Psicologia da composição

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

 

I

 

Saio de meu poema
como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa
vazia, que despi.

II

 

Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me incita ao verso
nítido e preciso.

Eu me refugio
nesta praia pura
onde nada existe
em que a noite pouse.

Como não há noite
cessa toda fonte;
como não há fonte
cessa toda fuga;

como não há fuga
nada lembra o fluir
de meu tempo, ao vento
que nele sopra o tempo.

III


Neste papel
pode teu sal
virar cinza;

pode o limão
virar pedra;
o sol da pele,
o trigo do corpo
virar cinza.

(Teme, por isso,
a jovem manhã
sobre as flores
da véspera.)

Neste papel
logo fenecem
as roxas, mornas
flores morais;
todas as fluidas
flores da pressa;
todas as úmidas
flores do sonho.

(Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera.)

IV


O poema, com seus cavalos,
quer explodir
teu tempo claro; rompendo
seu branco fio, seu cimento
mudo e fresco.

(O descuido ficara aberto
de par em par;
um sonho passou, deixando
fiapos, logo árvores instantâneas
coagulando a preguiça.)

V


Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.

Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu
também como flor)

que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louro
sabor, e ácido
contra o açúcar do podre.

VI


Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;

não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;

mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola,

aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.

VII


É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.

É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza

da palavra escrita.

VIII


Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.

(A árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
caiu, fruto!

Enquanto na ordem
de outro pomar
a atenção destila
palavras maduras.)

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:

então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;

onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.

 

terça-feira, 7 de maio de 2024

Das penteadeiras ao camarim


Pedro Lucas Lindoso

 

Escrevi uma crônica sobre o petisqueiro de minha avó. Muitas pessoas amigas sugerem temas ao cronista. Depois da crônica do petisqueiro algumas garotas de minha geração sugeriram que eu fizesse uma crônica sobre penteadeiras.

Eu então resolvi pedir a algumas conhecidas que falassem sobre suas penteadeiras. As respostas foram bem interessantes.  Uma delas me disse que herdou uma penteadeira antiga, linda, com espelho que balançava. Depois confessou que a tinha vendido para um antiquário. O motivo: não coube no seu novo apartamento.

Outra me contou que sua penteadeira saiu de moda. O móvel atualmente se encontra num sítio da família. Alguns relatos foram coincidentes. Os espelhos sempre aparecem como objeto de destaque nos depoimentos. Muitas descreveram os espelhos assim:

“As penteadeiras tinham um espelho central e dois laterais que eram presos ao central. De modo que se podia movê-los para perto do rosto. Assim, era possível se ver os cabelos e os respectivos penteados da parte posterior da cabeça. Tanto de um lado, como do outro.” 

Nas gavetas se colocavam grampos, laços, presilhas e fitas. Nessas gavetas também eram guardados os produtos para maquiagem. Geralmente, um batom claro e um pouco de “rouge”. Depois o tal “rouge” passou a ser chamado de “blush”. Nos olhos, somente uma leve sombra, que hoje se chama “eye shadow”.  Tudo muito discreto, como cabia a uma moça de família.

Em cima das penteadeiras, bem em frente ao espelho central, ficavam o talco e o perfume da época. Uma delas confessou que usava um chamado de “Alma de Flores”, até hoje presente nas farmácias.

Para a grande maioria, o importante sempre foi o espelho, repita-se. Sem esquecer a banqueta, que dava conforto, não só para se pentear, como para se maquiar – “sempre sentadas”, explicou-me uma delas.  O espelho deveria ser bisotado ou “bisotê”. São espelhos que não deformam a imagem, ainda que se mire de longe.

Muitas penteadeiras foram transformadas ou desmembradas. Ou mudaram de função. Como a de uma ilustre advogada cuja antiga penteadeira adorna a sua sala, onde coloca porta-retratos com fotos das pessoas que lhe são queridas. As que foram desmembradas, em sua   maioria, ficam sem os espelhos, realocados em outro ponto da casa.

Aliás, as penteadeiras, contudo, sempre existiram e não acabarão jamais. No quarto de moças e senhoras privilegiadas de nossos dias existe um móvel modulado com espelho e gavetas que se chama camarim. Elas não vivem sem espelhos. Ainda bem.

 

domingo, 5 de maio de 2024

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Usina Literária, com Zemaria Pinto




Usina Literária, podcast apresentado por Luiz Eduardo de Carvalho.

Acesse pelo Spotfy, clicando sobre a figura ou aqui: 

Usina Literária 

quinta-feira, 2 de maio de 2024

A poesia é necessária?

 

Meu pranto

José Seráfico

 

É para você o meu pranto

e...

para mim também

para e por Marielle

também choro

mal entrara na luta

que tanta vida

tem ceifado

tanta amargura

multiplicado

tanto ódio cultivado

meu lamento se faz

diante da música

que já não tem

som

algum perdido tiro

dos oitenta disparados

calou de vez o instrumento

e a vida que ali

jaz

 

É também por Vlado

que meus olhos

vertem água

por sua falsa gravata

guilhotina adequada aos tempos

de terror

porque amar dói

códigos malditos

ódios desatados

porões infectados

das piores (des)humanas

moléstias

merece minhas lágrimas

não tenho como negá-las

como retê-las

muito menos

as chamas que deram

fim a Ney Lopes

os fuzis

de Carandiru e os

fuzilados camponeses

em busca do Eldorado

cujas caras e tudo

mais jazem

no buraco mais alto

foi tudo quanto restou

 

Que Frei Tito

ouça meu langor

esteja onde (onde?)

estiver o que de

Rubens restou

saibam quanto deploro

a partida de Dorothy Stang

o jogo perdido por

Chico Mendes

por eles

(e quantos mais)

é que choro

saudoso mais que

triste

sem ódio

nenhum rancor

as lágrimas rolam

pela impossibilidade

do amor.

terça-feira, 30 de abril de 2024

Questão de fé

 Pedro Lucas Lindoso


Recebo um telefonema de minha querida tia Idalina. Pergunta-me como vou passando. Disse a ela que ando muito cansado. Estou passando por um longo período de convalescença. Não tem sido fácil superar um sério problema de hérnia cervical o qual me levou a operar a coluna.

Disse a titia que o problema de saúde que enfrento me abalou muito fisicamente. E também me abalou espiritualmente. Tenho questionado minha fé em Deus. Foi então que lhe perguntei. A senhora nessa idade ainda acredita em Deus?

Ela sorriu e me deu uma grande lição. Disse-me que acredita num Deus que se faz presente em Jesus. O Jesus que perdoa e liberta. O Jesus que vai à casa do fariseu Simão. Lá, uma mulher pecadora sorrateiramente perfuma os pés de Jesus. Trata Jesus com todo carinho. Jesus acolhia os pecadores. O Papa Francisco pediu aos padres para não deixar de abençoar casais divorciados, homoafetivos ou em situação irregular perante os cânones da Igreja.

Esse é o Deus em que acredito. O Deus que acolhe e não discrimina.  Me disse ela. O Deus que se manifesta no Jesus que gosta de vinho. Que fez o milagre nas bodas de Caná. Um Deus que gosta de perfume, vinho e festas.

Um Deus que se apresenta feliz. Um Deus que louva o amor. Um Deus que providenciou o melhor vinho para o final naquela festa de casamento, em Betânia. Festa de casamento tem sempre dança.  Um Deus que dança. Um Deus que esbanja contentamento. Enfim, um Deus que liberta. Um Deus verdadeiramente de amor. Não um Deus que mete medo. Que apavora.

Vejo Deus como uma força procriadora. Ao mesmo tempo Pai e Mãe de todo o universo. Não o concebo, portanto, como um velhinho de barba branca. Meu Deus está sempre mirando sua divina luz sobre nós. Sempre nos abençoando. Dando a nós o que necessitamos. O pão e o entendimento. Nos livrando de coisas superficiais e ilusórias.

Pedi à Tia Idalina para me emprestar ou me ceder esse Deus tão bom e sublime. E ela me respondeu:

– Está a sua disposição. Primeiro, você deve procurar ver e conhecer esse Deus com clareza. Depois, é importante segui-lo e finalmente amá-lo. Em retorno ele irá abençoar você. E mais! Sob a direção divina o caminho é sempre do amor, da sabedoria e da serenidade. E uma questão de fé. Só isso.

 

domingo, 28 de abril de 2024

quinta-feira, 25 de abril de 2024

A poesia é necessária?

 

Tristeza

Astrid Cabral

 

Quis lavar a tristeza

no manancial da vida.

Então enxuguei os cílios

em panos de cambraia.

Sobre o sorriso amarelo

acrescentei no rosto

o realce do carmim.

Coloquei minha tristeza

numa cadeira de rodas

e empurrei-a rua afora.

Porém a tristeza tem

cabeça de medusa

e fundo aparafusa.

Não há como pentear-

lhe o emaranhado mar.

 

 

terça-feira, 23 de abril de 2024

O petisqueiro

Pedro Lucas Lindoso

 

Um dos mais icônicos móveis que havia na casa de minha avó era o petisqueiro. Não confundir petisqueiro com petisqueira. Petisqueiras são bandejas próprias para servir petiscos. Normalmente, são grandes pratos com divisórias. Em cada divisória se serve um petisco diferente tais como azeitonas, amendoins ou castanhas, salgadinhos e que tais.

O petisqueiro não é isso! O petisqueiro é um móvel. Um armário onde se guardavam viandas, quitutes, guloseimas, biscoitos, frutas e quitandas em geral. Em Minas Gerais e em Brasília usa-se muito a palavra quitandas.  Quitandas no sentido de pastelaria e salgados caseiros.

Para nós, amazonenses, quitanda é o local ou estabelecimento onde se vendem legumes, verduras, ovos, galinhas, carvão etc.  Minha mãe era freguesa de uma quitanda bem sortida na avenida Joaquim Nabuco. Isso nos anos de 1960 do século passado.

Mas voltemos ao petisqueiro. Em alguns locais é conhecido como guarda-comida. Os petisqueiros saíram de moda ou perderam sua utilidade, acredito eu, com a chegada das geladeiras. Sem querer ser saudosista. Uma pena!

Os petisqueiros eram móveis repletos de magia para muitos meninos e meninas. Pelo menos foi para mim. Em especial o petisqueiro que tinha na casa de minha avó. Magia esta que a geladeira não tem. E nunca terá.

O petisqueiro de minha avó tinha um delicioso cheiro de abricot. Ou abricó. Possivelmente a fruta favorita de minha vozinha. Abricó da Amazônia, também conhecido como abricó-selvagem, é uma árvore que atinge mais ou menos seus vinte metros de altura. Seu tronco é curto e bastante grosso. O fruto, o gostoso abricó, é uma baga, como dizem os botânicos. Carnoso e sumarento.

Além de abricós, guardavam-se mangas e jambos. Todos do grande quintal da chácara da então Vila Municipal. Havia ainda um pequeno estojo de porcelana azul. Vovó guardava ali seu dinheirinho proveniente da venda de frutas, principalmente de mangas. Ela as vendia escondido. Não precisava daquilo. Mas não abria mão. No petisqueiro também escondia cigarros. Outra coisa que ela fazia escondido era fumar. Eu era seu cúmplice.

No petisqueiro também se guardavam velas e uma caixa de fósforos. Usados para quando faltava energia. E também um baralho. Uma das distrações de vovó era jogar paciência. Um certo jogo de cartas também conhecido como solitário. Encontrado frequentemente nos computadores. Aprendi a usar o mouse jogando paciência no computador. Só lembrava de minha avó.

Oura coisa que tinha no petisqueiro era incenso. Desses, do tipo indiano, com cheiro de sândalo. Conclui-se que o petisqueiro de minha avó já tinha extrapolado mesmo a sua antiga função de guarda-comida. Mas, além das frutas, o petisqueiro ainda era lugar de se guardar bolos e sucrilhos.

 A casa de minha avó não existe mais. O petisqueiro desapareceu. Mas o cheiro do abricó continua vivo na memória daquele menino.

 

 

domingo, 21 de abril de 2024

Manaus, amor e memória DCLXVII


Tenente Ribeiro Júnior (1889-1938), líder dos revoltosos que fundaram a Comuna de Manaus 
(23/07 a 28/08/1924). 

 

quinta-feira, 18 de abril de 2024

A poesia é necessária?

 

distopias

Marta Cortezão

 

Pueden dispararle a mi cuerpo,

pero no pueden disparales a mis sueños.

(Malala Yousafzai)

 

já não me serve

a desmedida do olhar

 

não me serve a crueza

que dilacera verdades

e mentiras tão óbvias

em minhas trêmulas carnes

 

não me serve a mão

manchada de sangue

que mutila sonhos imensos

 

não me serve a demagogia

que devora humanidades

 

o que me serve

é o que me sente

 

a dor que me (des)veste

é este elo benévolo

perdido no tempo

este coração humano

raquítico e doente

gritando no peito

a dor insana

de ser gente

 


terça-feira, 16 de abril de 2024

Eclipses

 Pedro Lucas Lindoso

 

Um colega de Brasília, oficial militar, está servindo em São Gabriel da Cachoeira. O distrito de Cucuí fica a cerca de 200km de São Gabriel. O Exército tem presença importante por lá. Cucuí é uma grande pedra. Fica na margem esquerda do Rio Negro, na tríplice fronteira Brasil-Venezuela-Colômbia.

Meu amigo brasiliense está encantado com a região. Eventualmente, me manda e-mails relatando a sua experiência no local. São Gabriel é um município predominantemente indígena. A comunicação só não é mais precária devido à presença do Exército. O local fica acima da linha do Equador. Portanto, está obviamente localizado no Hemisfério Norte.

No último dia oito de abril houve um eclipse solar total visto somente no Hemisfério Norte. Mais precisamente nos Estados Unidos e parte da Europa. Por uma pitoresca falha de comunicação alguém espalhou que o fenômeno seria visto também pelas bandas de São Gabriel da Cachoeira e adjacências. Mais precisamente do alto da Pedra de Cucuí.

Mesmo com as explicações e desmentidos, parte da pequena população acreditou que o sol iria desaparecer pela manhã daquela segunda-feira. O que, obviamente, não aconteceu.

O povo do interior fica muito impressionado com esses fenômenos. O luar é de grande importância para os habitantes de seringais. O seringueiro vai para a mata pela noite cortar a seringueira e colher o látex. Um eclipse total da lua pode assustar aqueles que, por falta de instrução, desconhecem o fenômeno. A lua não pode “dormir”. E o sol também não pode sumir durante o dia.

No seringal Vencedor, que foi propriedade de meu avô, tanto um certo eclipse lunar quanto um solar deram o que falar durante muitos anos. Estórias e relatos perpassaram gerações.

No eclipse lunar, a lua desapareceu na hora em que os seringueiros entravam pela mata. Foi uma gritaria só. As mulheres batiam panelas e de joelhos clamavam aos céus para a lua não morrer.

No eclipse solar total, ocorrido há muitos anos, o furdunço foi ainda maior. As galinhas ficaram alvoroçadas e se recolheram para dormir. As araras e tucanos interromperam seus voos majestosos e os passarinhos em geral silenciaram. Aliás, a mata ficou em total silêncio. Os grilos se manifestaram. E, de repente, as sombras das árvores obedeceram novamente às determinações da luz do sol. E voltaram com seu frescor quando o fenômeno terminou e o sol voltou a brilhar novamente.

Segundo o Google, o próximo eclipse total solar visível no Brasil ocorrerá em agosto de 2026. Cucuí pode esperar!


domingo, 14 de abril de 2024

Manaus, amor e memória DCLXVI


Teatro Amazonas e igreja de São Sebastião.

 

quinta-feira, 11 de abril de 2024

A poesia é necessária?

 

A pantera

Jorge Luis Borges (1899-1986)

 

Atrás das fortes grades a pantera

Repetirá o enfadonho itinerário,

Que é (mas não sabe) seu fadário

De negra joia, aziaga e prisioneira.

Vão e vem aos milhares, em desfiles

Infindáveis, mas é só uma e eterna

A pantera fatal em sua caverna

Traça a reta que um eterno Aquiles

Traça no sonho que sonhou o grego.

Não sabe que há prados e montanhas

De cervos cujos trêmulas entranhas

Deleitariam seu apetite cego.

Em vão é vário o orbe. A jornada

Que cumpre cada qual já foi fixada.

 

Tradução: Josely Vianna Baptista