Amigos do Fingidor

quinta-feira, 4 de abril de 2019

A poesia é necessária?



Corpo de delito
Armando Freitas Filho


I
Escuta o rumor nas margens plácidas
feitas de lama, sangue e memória.
Escuta o brado retumbante
na garganta do túnel.
Por entre as grades do grito
o céu da liberdade viaja
e o sol, sem Pátria, se espalha
nesse instante, no cimento.

Aqui, Senhor, tememos
o braço forte que sobre os seios
se abate, sem remorso.
Aqui, no peito, os sussurros do coração
o muro de murros desabado
os urros na boca do corpo de entulho
e os erros da minha mão
que apalpa a própria morte.

Nesta cela que sonho nenhum
se escreve nas paredes
nesta sala de azulejos lívidos
um raio de dor sempre aceso
e vívido à terra desce.
O céu é o sol desta luz
em cada nervo
e em cada um de nós
um límpido incêndio resplandece.

Daqui escuto os passos dos gigantes
pisando, impávidos, a paisagem.
Escuto a marcha dos colossos
por cima dos ossos
por cima dos mapas de mar e grama
escuto as botas dos passos
nas poças do corredor
cada vez mais próximos
dos calcanhares nus do meu futuro.

II
Sentado na cadeira do dragão
largado no berço profundo do chão
sobre o som do mar o céu fulgura
com o seu sol elétrico
que não cessa
o curto, o choque, o surto
em chamas do dia iluminado
nos porões iniciais de um Novo Mundo.

As flores que aqui gorjeiam
garridas, em suas jaulas
se agarram na beira da vida
que cisma e insiste
e continua avançando
por entre vadias várzeas e charcos
e exclama e se espanta
como a primeira palmeira brusca
que busca o espaço
no bosque de fumaça do horizonte.

Onde está você, amor eterno
que não drapeja no vento
sua flâmula trêmula de estrelas?
Onde o verde-louro, o céu de anil e mel
o lábaro, a labareda de pano
que o látego rasga e marca?
Onde a glória do passado
se o presente é este furo
de bala na pele do futuro?

Mas se ergues, ainda sim
a clava forte do seu corpo
e não foge à luta
nem teme a própria morte
que avança armada até os dentes
verás os raios fúlgidos
do sol da liberdade no céu
e neste chão de terra que se ama!


quarta-feira, 3 de abril de 2019

Fantasy Art - Galeria


Dark Warrior.
James Ryman.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Esse tal de equinócio



Pedro Lucas Lindoso


Termina o mês de março. Antônio Carlos Jobim, em sua magistral canção, avisa que: “são as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no teu coração”.
Houve muita chuva neste ano, como sempre. O sertanejo nem precisou esperar o dia de São José, celebrado dia 19 de março, para ter chuva abundante. A festa do santo, pai do Menino Deus, é sempre às vésperas do equinócio de outono no Brasil.
O equinócio ocorre duas vezes no ano, em março e em setembro. No equinócio, ambos os hemisférios da Terra encontram-se igualmente iluminados pelo Sol. Ou seja, o dia e a noite têm 12 horas. São dias aequus que significa igual em Latim. Nox significa noite. Temos o aequus nox. Noites iguais.
Observo que nem todos têm noções básicas de Geografia. Confundem as estações do ano com conceitos de clima. Nós, amazonenses, temos conhecimento do que é fuso horário, por uma questão de sobrevivência. Muitos brasileiros do sudeste não sabem que no verão nosso horário difere em duas horas. Há “call centers” que nos perturbam a partir das 6 da manhã.
A geografia sempre foi valorizada pelos amazonenses. Precisamos conhecer as estrelas e os pontos cardeais. É fundamental saber localizar-se nas florestas e nos rios. O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas – IGHA dá precedência à Geografia em sua denominação. Diferente de outros similares, inclusive do pioneiro e balizador IHGB – Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, fundado em 1838, onde a História precede a Geografia. Prestigiado por Pedro II, o IHGB foi inspirado no Institut Historique, de Paris.
Criado por maçons em 1917, o nosso centenário IGHA certamente recebeu a influência marcante de seus fundadores, “experts” em Geografia e Geometria, posto que eram originariamente os construtores dos templos medievais.
Mas a falta de escolaridade formal parece ser epidêmica no nosso país. Somos vergonhosamente desprovidos de políticas educacionais efetivas.
Perguntaram-me quem era esse tal de equinócio. Lembrei-me de Sonia Campos, grande amiga e professora de Geografia. Um aluno perguntou-lhe quem havia tocado fogo no vulcão.
Deve ter sido esse tal de equinócio.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

domingo, 31 de março de 2019

Manaus, amor e memória CDXIV


Av. Eduardo Ribeiro.
Ao fundo, o rio Negro. À direita, o futuro jardim da Matriz.

sábado, 30 de março de 2019

Fantasy Art - Galeria

The Predator.
Marta Dahlig.

sexta-feira, 29 de março de 2019

quinta-feira, 28 de março de 2019

A poesia é necessária?



O Poder
Ivan Junqueira (1934-2014)


Eis o poder: seus palácios
hospedam reis e vassalos,
messalinas, pajens glabros,
eunucos, aias, lacaios,
e até artistas e ratos.

Uma só migalha basta
à sordícia que se alastra,
e pronto surge uma talha
onde o cenário é lavado
para o próximo espetáculo.

O poder é assim: devasta,
corrompe, avilta, enxovalha,
do reles pároco ao papa,
e não há um só que escape
ao seu melífluo contágio.

Se alguém o nega ou o afasta,
compram-no logo, à socapa,
a peso de ouro ou de prata.
E se acaso não o fazem,
mais simples ainda: matam-no.

Tem o poder muitas faces:
a que se crispa, indignada,
a que te olha de soslaio,
a que purga e chega às lágrimas,
a que se oculta, enigmática.

Mas são apenas disfarces,
formas várias que se esgarçam,
por entre véus e grinaldas,
porque assim vertem mais fácil
o vitríolo em tua taça.

E tu, rei de Tule, aos lábios
leva sempre, ávido, o cálice,
não por amor nem saudade
de quem se foi, entre as vagas,
de um castelo à orla do mar,

mas só porque, embriagado,
são de engodo as tuas asas
e de cobiça os teus passos,
que vão aquém das sandálias
e se arrastam rumo ao nada.

O poder é aquele pássaro
que te aguarda sob os galhos.
Tudo ele dá, perdulário.
De ti quer apenas a alma,
por inteiro. Ou a retalho.



terça-feira, 26 de março de 2019

Tacacazeira profissional



Pedro Lucas Lindoso


O tacacá era o alimento de preferência dos manauaras que trabalhavam durante o dia e estudavam à noite. Servido com bastante goma de tapioca, muito jambu e com todos os camarões que o freguês tem direito. Hoje, há esses abomináveis “fast-foods” ou então o salgadão com refrigerante. O que também é altamente condenável por qualquer nutricionista de plantão. O tacacá, sem dúvida, é muito mais saudável.
Francisco Gomes, nosso confrade no IGHA-Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, contesta Câmara Cascudo quanto à origem do tacacá como produto dos indígenas paraenses. Para o ilustre historiador, a origem é possivelmente na região da antiga Serpa, hoje Itacoatiara. Diz Gomes que Avé-Lallemant, viajante alemão pela Amazônia, lá pelos anos de 1859, provou o tacacá na velha Serpa, qualificando-o como “a bebida nacional dos Mura”.
Domingo passado conversava com a tacacazeira dona Elsa. A simpática senhora regateava camarões no mercadão Adolpho Lisboa. Disse-me que antigamente seu marido produzia a goma de tapioca e o próprio tucupi.  As únicas coisas que comprava era o camarão e o alho, como estava fazendo agora.
– O jambu, a pimenta e a chicória vêm do meu quintal. O tucupi e a goma de tapioca são fornecidos por um compadre que mora na Cidade Nova. Aqui no mercado é caríssimo, me disse.
Perguntei-lhe qual a dica para se fazer um tacacá bem gostoso. Ela explicou-me rapidamente que deveria levar ao fogo o tucupi em uma panela com o alho bem amassado, o sal, a chicória e a pimenta-de-cheiro. Abaixar o fogo quando começar a ferver. Em outra panela cozinhe o jambu. Muitos sulistas ficam intrigados com o jambu. Provoca sensação de formigamento na boca. Pavulagem, comenta sorrindo.
– Agora vou te contar um segredo: é preciso lavar bem os camarões e ferver por uns cinco minutos. A goma deve ser feita com a água dos camarões. Muita gente não sabe disso.
A senhora não deveria contar esse segredo por aí, argumentei. Ela me disse que não tinha medo de concorrência.
– E não se esqueça de que é preciso retirar a cabeça e a casca do camarão. E fazer tudo com muito amor para ficar gostoso. Outra coisa que é importantíssimo: devemos servir o tacacá em cuia limpa e bem lavada.
Agradeci à dona Elsa e lhe dei os parabéns. Ela, muito vaidosa, despediu-se.
– Sou tacacazeira profissional.

segunda-feira, 25 de março de 2019

domingo, 24 de março de 2019

Manaus, amor e memória CDXIII


Praça da Matriz.
Ao fundo, à direita, o Teatro Amazonas e a igreja de São Sebastião.

sábado, 23 de março de 2019

Fantasy Art - Galeria

Women as Musical Instruments Muse.
Adrian Bordan.

quinta-feira, 21 de março de 2019

A poesia é necessária?



Romance XIX ou Dos maus presságios
Cecília Meireles (1901-1964)


Acabou-se aquele tempo
do Contratador Fernandes.
Onde estais, Chica da Silva,
cravejada de brilhantes?
Não tinha, Santa Ifigênia,
pedras tão bem lapidadas,
por lapidários de Flandres…

Sobre o tempo vem mais tempo.
Mandam sempre os que são grandes:
e é grandeza de ministros
roubar hoje como dantes.
Vão-se as minas nos navios…
Pela terra despojada,
ficam lágrimas e sangue.

Ai, quem se opusera ao tempo,
se houvesse força bastante
para impedir a desgraça
que aumenta de instante a instante!
Tristes donzelas sem dote
choram noivos impossíveis,
em sonhos fora do alcance.

Mas é direção do tempo…
E a vida, em severos lances,
empobrece a quem trabalha
e enriquece os arrogantes
fidalgos e flibusteiros
que reinam mais que a Rainha
por estas minas distantes!

(Do Romanceiro da Inconfidência)


quarta-feira, 20 de março de 2019

Fantasy Art - Galeria


Maxine Gadd.

terça-feira, 19 de março de 2019

Ao lado de um grande homem



Pedro Lucas Lindoso


Neste mês dedicado às mulheres muito se tem dito a elas. Flores e presentes em abundância jamais serão suficientes para que nós, homens, possamos quitar o quanto devemos às mulheres. Não só como esposas, mas também como mães, irmãs, filhas, sobrinhas e primas.
A dívida dos homens para com as mulheres é exponencial. A influência que elas exercem na nossa formação fica geralmente no anonimato. Mesmo porque elas nos moldam na intimidade. No aconchego do lar. Elas nos influenciam da maneira mais discreta e do modo mais tranquilo e por isso tão eficaz.
Quando os homens são homenageados e biografados raramente se ressalta o papel que suas mães e esposas desempenharam na formação de sua personalidade. Na construção de seu patrimônio não só monetário, mas também o patrimônio moral e intelectual.
Muitos homens em seus escritos e depoimentos falam de suas mulheres, incluindo mães, avós e filhas, com um amor imensurável. Falam delas com respeito profundo e imensa ternura. Humildemente me incluo nessa categoria.
Outro assunto do momento é a questão da isonomia entre homens e mulheres. Principalmente no que concerne a salários, condições e oportunidades de trabalho. Inclusive ascensão funcional e exercício de cargos de poder e gestão. O outro lado dessa moeda está no fato de que nós homens precisamos ser também responsáveis pelas tarefas domésticas.
Ora, a sociedade do século 21 proclama que homens e mulheres podem e devem exercer funções em todas as áreas. E isso é ótimo. Mas também os homens têm que ter consciência na busca do necessário equilíbrio. Assim, a colaboração entre os casais é fundamental. Só através do esforço conjunto, ambos poderão se aperfeiçoar sem descuidar de fortalecer a família e bem educar os filhos.
Quero terminar essa homenagem às mulheres, fazendo uma confissão: as grandes lições de vida que recebi foram de minha mãe e de minha esposa. Não sei se foram perfeitas em suas influências. Mas uma coisa é certa. Se me afastei ou quando me afasto do que elas me disseram e me ensinaram a culpa é toda minha.
São as mães, muito mais que os pais, que influenciam os filhos e suas condutas. A sorte de ter uma boa mãe e esposa dedicada é tudo para um homem. Ao lado de um grande homem, há sempre uma grande mulher.

segunda-feira, 18 de março de 2019

domingo, 17 de março de 2019

Manaus, amor e memória CDXII


Parque Amazonense.

sábado, 16 de março de 2019

Fantasy Art - Galeria


Kirsi Salonen.