Amigos do Fingidor

quinta-feira, 11 de junho de 2020

A poesia é necessária?



Meus avós
Carlos de Assumpção


Os meus avós foram fortes
Foram fortes os meus avós

Orgulho-me dos meus avós
Que outrora
Carregaram sobre as costas
A cruz da escravidão

Orgulho-me dos meus avós
Que outrora
Trabalharam sozinhos
Para que este país
Se tornasse tão grande
Tão grande como hoje é

Os meus avós foram fortes
Foram fortes os meus avós

Este país meus irmãos é fruto
Das sementes de sacrifício
Que os meus avós plantaram
No solo do passado

Há muitas histórias
Sobre os meus avós
Que a História não faz
Questão de contar

Os meus avós foram bravos
Foram bravos os meus avós

Embora ainda não conhecessem
A nova terra
A que tinham sido transportados
Acorrentados como se fossem feras
Nos sinistros navios-negreiros
Embora ainda não conhecessem
A nova terra
Os meus avós fugiam das fazendas
Cidades bandeiras e minas
E se embrenhavam nas florestas
Perseguidos por cães e capitães-do-mato

Há muitas histórias
Sobre os meus avós
Que a História não faz
Questão de contar

E a história
Dos que desesperados
Se atiravam dos navios
No abismo do oceano
E eram acalentados
Por Iemanjá

E a história
Dos que enlouquecidos
Gritavam em vão
Chamando a mãe África
Saudosos da África
Ansiosos por estreitar
De novo nos braços
A velha mãe África

E a história
Dos que morriam de banzo
Dos que se suicidavam
Dos que recusavam
Qualquer alimento
E embora ameaçados
Por troncos e chicotes
Não se alimentavam
E acabavam morrendo
Encontrando na morte afinal
A porta da liberdade

E as fugas em massa
Planejadas na noite das senzalas

E os feitores
Mortos nos eitos

E os senhores
Mortos nas casas grandes
E nas tocaias das estradas

Há muitas histórias
Sobre os meus avós
Que a História não faz
Questão de contar

Os meus avós foram bravos
Foram bravos os meus avós

Não me venham dizer
Que os meus avós se submeteram
Facilmente à escravidão

Não me venham dizer
Que os meus avós foram
Escravos submissos
Por favor não me venham dizer
Eu não aceito mentiras

Cortarei com a espada
Dos meus versos
A cabeça de todas as mentiras
Mal intencionadas
Com que pretendem humilhar-me
Destruir o meu orgulho
Falseando também
A história dos meus avós

Os meus avós foram bravos
Foram bravos os meus avós

Apesar dos “castigos
Públicos para exemplo”

Apesar de flagelados
Na carne e na alma

Apesar de divididos
E oprimidos
Pelo regime aviltante

Apesar de todas
As crueldades sofridas

Os meus avós nunca
Nunca se submeteram
À escravidão

Há muitas histórias
Sobre os meus avós
Que a História não faz
Questão de contar

Os meus avós foram fortes
Foram bravos
Foram bravos foram fortes
Os meus avós

A quem ainda duvide
Aponto entre outras epopeias
A epopeia dos Palmares
Cujos quilombolas chefiados
Pelo herói negro Zumbi
Acuados pelos inimigos
Muito mais bem armados
E muito mais numerosos
Esgotadas todas as forças
Apagadas as esperanças
Despenham-se da Serra da Barriga
Preferindo a morte gloriosa
À infame vida de escravos

Aponto as revoltas malês
Quanto os batacotôs
(Tambores guerreiros)
Puseram em pânico
A cidade da Bahia

Aponto o quilombo de Jabaquara
Outro exemplo de bravura
Dos meus avós

Aponto as sociedades negras secretas
Que angariavam fundos
Para comprar alforria
De irmãos escravizados

Há muitas histórias
Sobre os meus avós
Que a História não faz
Questão de contar

Meus avós foram fortes
Foram bravos
Foram bravos foram fortes
Os meus avós



quarta-feira, 10 de junho de 2020

Fantasy Art - Galeria


The Fight Club.
Tim Okamura.

terça-feira, 9 de junho de 2020

A primavera chinesa de Miss Manga



Pedro Lucas Lindoso


Conheci Miss Manga ainda garotinha. Desde a mais tenra idade desenhava. E muito bem. Gostava de fazer estampas e roupas para suas bonecas. Foi companheira de minha filha Marina. São amigas até hoje. Compravam e produziam roupas para bonecas Barbie. 
Miss Manga acertadamente fez universidade de Designer de Produtos e Gráfico. É pós-graduada. Tornou-se profissional estilista de uma grande empresa. A sua primeira empregadora custeou experiências e treinamentos em grandes centros como Los Angeles e Nova Iorque. Havia sido contratada como etilista do segmento masculino. Contudo, Miss Manga desejava novos desafios, principalmente atuar na área de moda feminina.
 De repente, por meio de contatos via internet, foi fisgada por uma “head hunter”, para trabalhar numa grande multinacional europeia de moda. A oferta consistia em bom salário, seguro saúde e moradia, bem como duas passagens para o Brasil por ano.
Era setembro de 2019 e o posto oferecido a Miss Manga foi em Pequim, na longínqua e misteriosa China. Está explicado o motivo de uma jovem profissional brasileira, filha de amazonense com carioca, estar nesse momento de pandemia, trabalhando na China, onde tudo começou.
Sabe-se que nos dias de hoje a comunicação é relativamente fácil, mesmo que a pessoa esteja nos polos, na Europa ou no Oriente. Mas a China tem suas peculiaridades. Lá não pega Google, nem gmail. Quanto ao conhecido e festejado WhatsApp, os chineses têm o seu exclusivo WE CHAT. Para ter acesso a esses aplicativos, os ocidentais devem baixar um tal de VPN, assim que adentram no espaço aéreo da China.
 Miss Manga estava de férias em Bangkok, na Tailândia, quando a epidemia começou. Os chineses comemoravam o Ano Novo quando o vírus se alastrou. É um feriadão tão importante quanto o nosso Natal e Ano Novo. O ano chinês é lunar. Portanto, com data móvel. Sempre em janeiro ou fevereiro.  Foi uma pena o vírus surgir nessa época.
Há semanas que Miss Manga retornou a Pequim e trabalha normalmente. Por lá, nem parece que morreu tanta gente. O isolamento está liberado. Miss Manga passeia de bicicleta, normalmente pela cidade. Mora num bom apartamento em bairro onde residem muitos ocidentais.  A língua de trabalho é o Inglês.  Miss Manga faz aulas regulares de mandarim, pagas pela empresa. Seu último WE CHAT (WhatsApp chinês) dizia:
– Estou bem. Estou na China! Pequim fica linda na primavera!

domingo, 7 de junho de 2020

sábado, 6 de junho de 2020

Fantasy Art - Galeria


Josephine Wall.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Pedro Carvalho desce aos infernos (mas volta)



Zemaria Pinto


No último final de semana, recebi um longo texto do meu amigo Pedro Carvalho, conhecido historiador acreano, médico aposentado, relatando sua experiência de infectado pelo coronavírus e traçando um paralelo histórico com a gripe espanhola, além de nos encantar com sua conhecida verve. Autorizado por PC, editei o texto e atenuei as partes, digamos, mais contundentes, que poderiam ser consideradas ofensivas à bandidagem federal bem como às estaduais e municipais, tudo saco da mesma farinha. Pedro diz que não tem papas nem bispos e nem mesmo vigários na língua, mas tem um milhão de Fradinhos. É um autêntico ING – indivíduo não governamental. Crítico das políticas de saúde pública no Brasil há mais de 50 anos, Pedro Carvalho cunhou a sentença definitiva sobre o assunto: não se faz política de saúde pública só com gaze, esparadrapo e mercurocromo! Com a palavra, Dom Pedro Carvalho de Granada e Sena Madureira. 

Cheguei no hospital com as minhas próprias patas. Não te ofendas, mas, como plantígrados, nós humanos estamos na mesma categoria de outros animais, como os ursos, por exemplo – tu sabes o que é o abraço de um amigo urso, não? Ora, se os animais dessa categoria têm patas, por que nós teríamos pés? Isso é só mais uma evidência da soberbia humana. O engraçado é que para a morte não há separação: morrem os humanos como morrem os animais, incluindo aí os digitígrados e os ungulados, para ficar nos terrestres. A diferença é que só os humanos acreditam no paraíso.
Mas, então, cheguei no hospital com as minhas próprias e gastas patas, levado por um Uber, que, aliás, estava morrendo de medo que eu morresse antes mesmo de chegar, mas cheguei. E quando, já no balcão, baixei a cabeça para pegar a carteirinha do plano de saúde, um redemoinho me atirou ao chão e no instante seguinte tudo escureceu.
Acordei não sei quantas horas depois, em uma enfermaria que mais parecia uma feira aos sábados, tamanho o movimento. Meu primeiro pensamento foi “se não há leito para todos, por que eu?” Às vésperas de completar 80, eu não teria prioridade, mas, já que estou aqui, vou ficando... Aos poucos, fui entendendo que o meu desconforto respiratório não era grave, por isso o uso de ventilação não invasiva. Livrei-me da intubação, que é meio caminho andado para pegar uma carona com Caronte. Meus filhos devem ter informado sobre a hipertensão, pois fiquei sabendo que candesartana cilexetila e a hidroclorotiazida faziam parte do cardápio diário, personalizado. Mas vou te poupar dos detalhes técnicos maçantes. E o inferno que vivi ao longo de sete dias não foi diferente das dezenas de depoimentos diários na televisão e no rádio. Como velho médico, prefiro falar de história.


A título de exercício, para mostrar a mim mesmo que continuava são, repassei mentalmente, várias vezes, o capítulo sobre a gripe espanhola, do meu livro Medicina na Amazônia: crônica de uma tragédia, que se não servir para coisa nenhuma, vale pelo teu prefácio, lúcido e veemente, que escreveste para a segunda edição, e agora, já na quarta, é parte indissociável do livro. As semelhanças com a atualidade são espantosas e as lembranças, terríveis. Entre setembro de 1918 e março do ano seguinte, mais de duas mil pessoas morreram só no Centro de Manaus. A tua Cachoeirinha, por exemplo, era subúrbio, não entrava nas estatísticas. Os relatos da época dizem que foi despovoada, com famílias inteiras dizimadas. Os caminhões militares passavam diariamente pela periferia da cidade, recolhendo os cadáveres, para depositá-los em valas comuns. Não havia caixões para todos, muito menos para os pobres. E em vez de flores, cal, para apressar a decomposição. Eu registrei que, tomando por base números de outros centros, cerca de 6 mil pessoas devem ter morrido em Manaus: 10% da população. E hoje, que o número de mortos por insuficiência respiratória aumentou milhares de pontos percentuais, os números da pandemia, a verdadeira causa mortis, continuam sendo falseados. Naquela época, a culpa era da comunicação precária e infraestrutura tendendo a zero. Hoje, com todos os avanços da tecnologia e da ciência, nós dois sabemos porque a saúde pública do Amazonas, do Acre e do Brasil está de tal jeito que um mandeta, a personificação da mediocridade e da canastrice, faz falta.
Pois, pois, amigo, moronguetá!, como diria meu querido irmão de loja e de boemia, Nunes Pereira. Meu aniversário está chegando, agora em junho, e com certeza ainda não vamos poder nos encontrar. Mesmo que eu tenha adquirido anticorpos, nem penso em submeter os meus ao risco de infecção. Aliás, não te falei como fui contaminado. Me confinei desde o princípio de março, antes mesmo do primeiro caso de Rio Branco, porque tinha certeza, conhecendo a história da espanhola, que o efeito do coronavírus seria devastador. A minha caminhada diária era feita na esteira mesmo, como nos dias de chuva, ouvindo meu amado Bach. Filhos e netos foram mantidos afastados. A Sebastiana vinha em casa diariamente, de ônibus, e nunca apresentou nenhum sintoma. Mas eu fiz compras de restaurante e farmácia por delivery, além de ter saído para tomar a vacina da influenza no modo drive thru. Notaste a importância do inglês na nossa comunicação?  Enfim: não sei, jamais saberei. Mas, voltando ao aniversário: em vez de ganhar presentes, enviei uma garrafa de vinho a cada amigo que viria a uma improvável festa, para que possamos brindar on-line. Não chegam nem a quinze, que a maioria já se foi. Recebeste a tua? 
Repetindo um dito familiar, um Carvalho seca, mas não verga. A quem perguntar por mim, diz que estou fazendo o de sempre: trabalhando. Ah, te autorizo a publicar este entre as crônicas da pandemia, para que mais gente saiba que estou bem, ainda que nunca tenham ouvido falar deste velho casmurro. Como Mário de Andrade, desci aos infernos. Mas voltei.
Que o G.A.U. pavimente com folhas de acácia a tua estrada.


quinta-feira, 4 de junho de 2020

A poesia é necessária?



Razões
Éle Semog


Não me oferecem doces,
pois de onde vim
as crianças foram criadas
com pimenta.

A poesia é o meu recanto
a minha fuga.

Mesmo assim, escrevo poemas
como quem joga pedras.

Não tenho nenhum motivo
para reler os búzios,
não quero pensar na sorte
desse 13, muito menos
nos dois artigos da lei.

Não tenho razões
para sorrir a nenhuma princesa,
por isso quando escrevo,
mesmo sobre o mel e as flores
não pretendo ser doce ou lírico.

Em cada verso, sou as marcas
dessa História.

Do mel, sei apenas
as ferroadas das abelhas
das flores, o perfume
que acorda na memória
multidões de defuntos
do meu povo.



quarta-feira, 3 de junho de 2020

terça-feira, 2 de junho de 2020

Os sudestinos



Pedro Lucas Lindoso


Eu particularmente adoro a cidade maravilhosa do Rio de Janeiro. Mas há alguns cariocas imbuídos de um bairrismo exagerado. Acham que o Brasil é o Rio. Ou então que se restringe ao sudeste. Referem-se ao eixo Rio-São Paulo como o coração pulsante do país. O dicionário nos ensina que eixo é uma linha imaginária ou concreta capaz de atravessar o centro de um corpo, possibilitando que algo gire ao seu redor. Só que Rio e São Paulo não ficam no centro do Brasil. Tudo bem, eixo também pode ser uma união imaginária que vai de um ponto a outro: eixo Rio-São Paulo. Mas o Brasil não gira somente ao redor desse eixo.
Desde o Tratado de Tordesilhas, passando pelas capitanias hereditárias, o Brasil foi “dividido” administrativamente de diversas maneiras. Aqui, fomos a colônia do Maranhão e Grão-Pará, apartada do Brasil.
 No meu curso primário estudei que o Brasil tinha as regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Leste e Sul. Quando já cursava o ginásio, foi criada a região Sudeste, composta pelos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, sendo agrupados a Minas Gerais e Espírito Santo. O Nordeste recebeu Bahia e Sergipe. Todo o território de Goiás, ainda não dividido, pertencia ao Centro-Oeste. Criou-se o Tocantins, agrupando-o na região Norte. Mato Grosso também foi dividido, dando origem ao estado de Mato Grosso do Sul.
Os baianos, mineiros, capixabas e cariocas habitavam o leste do Brasil. Os baianos viraram nordestinos. Os outros juntaram-se a São Paulo e tornaram-se sudestinos? Fui ao dicionário e fiquei sem resultados para “sudestinos”.
Mas e o professor Google? Fui lá. Descobri que existe o Wikcionário. E lá estava o que procurava. Sudestino. Significa natural de região conhecida por sudeste ou natural da Região Sudeste do Brasil. Fiquei feliz em ver que o mesmo Wikcionário contempla a palavra centro-oestino. E claro, a fortiori, nortista, nordestino e sulista.
Nós, os nortistas, preferimos ser amazônidas. Mesmo porque os sudestinos e sulistas costumam confundir e chamar os nossos irmãos nordestinos de nortistas. Ou então usar de metonímia. Tomam um estado do Nordeste pelo todo. O carioca chama os nordestinos em geral de paraíbas, enquanto os paulistas os chamam de baianos. De forma pejorativa. Ou então se referem ao norte e nordeste do Brasil como o fim do mundo. Com governadores e prefeitos do fim do mundo.
O coronavírus se espalhou por todo o Brasil. Não poupou nenhuma região. Espera-se que nossos irmãos sudestinos possam nos conhecer melhor. E que o Brasil comemore em 2022, sem tanta divisão e ufanismo barato, o bicentenário de nossa independência.

domingo, 31 de maio de 2020

Manaus, amor e memória CDLXV

Em primeiro plano, os armazéns do Roadway.
Ao centro, à esquerda, a Matriz.

sábado, 30 de maio de 2020

Fantasy Art - Galeria


Rincon para soñar.
Alex Alemany.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

A última mensagem de Zeca



Zemaria Pinto


As duas devoções de Zeca eram cerveja e santa Rita de Cássia. O sábado, que começava na sexta, era para a cerveja. O domingo, para a missa na igreja da padroeira, logo cedo, acompanhando D. Joca. E depois, cerveja, que nem só de fé se alimenta o ser humano. Os apelidos masculinos derivavam dos prenomes: Maria José e Maria João. Filha e mãe. Conheci Zeca quando ainda era sargento do Exército e cursava Letras, na UFAM. Aluna acima da média, destacava-se pelas ideias originais e polêmicas. Tinha o seu cânone particular, onde não cabiam escritores com preocupações sociais. Amava o mundo sórdido e refinado de Rubem Fonseca, os conflitos sexo-religiosos da classe média de Nelson Rodrigues e o intimismo corrosivo de Clarice Lispector – e tinha uma inexplicável paixão por Euclides da Cunha, o cadete rebelde que atirou o sabre aos pés do ministro da Guerra, o jornalista-poeta que denunciou o genocídio de Canudos e a escravização do seringueiro amazônico. Mas escrevia pra caralho, ela justificava com seu habitual poder de síntese. Aliás, Zeca falava mais palavrões que um presidente da república, só que com mais classe e graça.      
Quando começou a pandemia, Zeca e D. Joca recolheram-se, como mandava o figurino e o bom senso. Elas e o vira-lata Mandrake. Contatos externos, só o essencial. A casa de bairro, com quintal, varanda e churrasqueira, árvores frutíferas e flores, que vivia cheia de amigos, quedou deserta e silenciosa. Grupo de risco, mano, conversa fiada só no uatizápi. Pois foi pelo aplicativo que eu testemunhei uma transformação inimaginável em Zeca. Sua aversão às posições de esquerda terminara em apoio incondicional ao fascismo emergente – só esse doido pra detonar a petralhada, ela dizia. Andamos meio afastados, depois das eleições. À minha incompreensão – como uma professora pobre, preta e homossexual pode apoiar alguém que odeia professores, pobres, pretos e homossexuais? – respondia com meia dúzia de impropérios. Foi o coronavírus que mostrou a ela, afinal, quem eram os fascistas genocidas: em duas semanas de pandemia, a confiança se transformou em aversão. Tu é doido, mano, esse filho da puta quer matar a gente! Não caio nessa, não!
Zeca foi enterrada no dia 6 de maio, aos 63 anos, às 5 e pouco da tarde. Choviam finos cristais de luz à beira da cova coletiva, onde meia dúzia de amigos choravam sem discrição. Sua última mensagem, datada de quatro madrugadas antes, era um resumo do país pedindo socorro: mano, eu tô fudida!    


quinta-feira, 28 de maio de 2020

A poesia é necessária?



Com licença poética
Adélia Prado


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


quarta-feira, 27 de maio de 2020

Fantasy Art - Galeria


Bird of pray.
Shane Braithwaite.

terça-feira, 26 de maio de 2020

A naninha de Maria Luísa



Pedro Lucas Lindoso


Nunca pensei que ficaria feliz em fazer aniversário na quarentena. Longe de todos os familiares. Sem possibilidade de receber abraços. Os presentes perdem muito sua importância quando atingimos certa idade. Claro que é gostoso recebê-los. Mas quando se anda (ou andava) pelos shoppings e se vê tanta coisa de que não necessitamos...
O fato é que acordei cedo no dia do meu aniversário. Percebi que a cantoria dos passarinhos e outros bichos que voam, bem como de galos que fazem barulho nas alvoradas, aumentou. Moro às margens do Igarapé do Mindu. Apesar de ser área bem urbana, há árvores que dão guarida a esses seres que mencionei.  Fazem algazarra ao amanhecer. E como disse, o barulho aumentou consideravelmente. Seria o silêncio imposto pela pandemia e o isolamento social? Ou será que a fauna e a flora, menos agredida ultimamente, se apresenta com mais efervescência? Esse é um dos lados bons da pandemia.
Minha família me presenteou com uma simpática e farta cesta delivery de café da manhã. Aliás, com um toque especial de queijos e vinhos a ser degustado pela noite. Gostei do presente.
Mas o melhor estava por vir. Temos visto nossa netinha através de sistema drive thru. Vamos vê-la de carro e mantemos a distância recomendada. Todos com as indefectíveis máscaras.
Minha netinha Maria Luísa adora aniversários. Tem sido convidada a participar de aniversários dos amiguinhos por vídeo.
 Minha nora relata que se emociona. As crianças trocam presentes virtuais. Buscam coisinhas delas mesmas e ofertam de faz de conta aos amiguinhos.
O meu aniversário, obedecendo às regras de distanciamento social, foi comemorado ao ar livre. E foi um sucesso. Teve bolo, brigadeiro e balão. Foi a festa da família Shark.  Tudo para deixar a Maria Luísa feliz.  E aí veio a emoção maior.
Maria Luísa achou importante dar presente para o vovô Shark. E me “emprestou” um dos seus bens mais valiosos. O que os psicólogos chamam de “objeto de transição”. O mais famoso é o do personagem Linus, da Turma do Charlie Brown. O da Maria Luísa é uma fraldinha, uma naninha. Requisitado quase sempre na hora do sono. O objeto de transição é bem comum na primeira infância e importante para o desenvolvimento emocional da criança.
Foi o que ela achou para me presentear. “Emprestado”, é claro. Assim, fiquei como fiel depositário do objeto mais precioso e infungível do mundo: a naninha da Maria Luísa.

domingo, 24 de maio de 2020

Manaus, amor e memória CDLXIV


Deste lado do rio, o bairro de Aparecida.
Do outro lado, São Raimundo.

sábado, 23 de maio de 2020

Fantasy Art - Galeria


Charlie Terrell.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

É primavera no inferno ou O último pesadelo de António Pinto



Zemaria Pinto


António Pinto viu a luz quando a espanhola, que matara seu pai e um irmão, começava a entrar em declínio. Sua mãe morreu no dia seguinte, de complicações do parto. Ele dizia que não nasceu, apenas sobreviveu, a vida inteira. Cem anos depois, seu rude coração de camponês teima em continuar batendo, mesmo depois de rejeitado em vários centros de atendimento médico de Manaus, sempre sob a alegação de falta de leito, quando o grande empecilho era a data de nascimento: uma escolha natural. Em casa, respirando como um bugio, António Pinto sonha.

Meu corpo flutua sobre as ladeiras e vielas de Lisboa. Ao longe, uma voz cansada entoa um melancólico solau. Não há vivalma nas ruas, mas há flores. As vias colorem-se às margens de florezinhas silvestres anis e amarelas, cagadas pela passarinhada, que nada sabe dos problemas humanos. Há cravos vermelhos, também, lembrando que é abril. Quem os plantou, senão as delicadas mãos de uma rapariga saudosa? Nos campos de Andaluzia, um deserto de homens e bichos, mas em Málaga as ruas sem gente explodem em cores violentas: violetas violáceas, dálias vermelhaças, plurissoleados girassóis e até ruborizadas rubiáceas. No Porto, a ponte de D. Luiz está deserta e os teleféricos de Gaia, parados. Na contracorrente do Tejo, me vou até Santarém, mas nada vislumbro além do sol ofuscante, que me põe de chofre em Catalunha, sob uma chuva fina, como uns dedos feminis que um dia me afagaram a tez adolescente. A Resistência, entre Espanha e Portugal: os fascistas não voltarão, jamais. Na Casa de Alienados, onde fui forçado dois anos, meu corpo abalroa-se às paredes, em penoso desequilíbrio. Mas as flores estão lá, no minúsculo jardim central, que cultivávamos com um símbolo da vida que nos lesavam. Em Barcelona, as constelações cintilam sobre o plenilúnio prenhe de primavera. Será assim o paraíso, meu filho?

A voz de António Pinto saía a custo, entre a oração e o lamento. Nem pensei em anotar nada. Agora, de chegada do cemitério, onde ele foi enterrado em uma cova coletiva, com mais dezessete, entre os quais dois anjinhos em claro azul, anoto sua fala descompassada, temendo embelezar sua crueza ou defraudar sua poesia. António Pinto poeta. Propus-lhe uma feita escrever suas falas, repletas de uma poesia indefinível. Sua resposta foi uma gargalhada rouca, entrecortada por um forte acesso de tosse: a poesia que me comove não cabe nos livros, miúdo, só na vida.    


quinta-feira, 21 de maio de 2020

A poesia é necessária?



Nome
Olga Savary (21/5/1933 – 15/5/2020)


Dar às coisas outro nome
que não o vosso, amor, não pude.
Nem pude ser mais doce e sim mais rude
por conta das lamentações mais ásperas,

por causa do agravo que pensei ser vosso.
Amor era o nome de tudo, estava em tudo,
era o nome do macho cheirando a esterco,
a frutos passados e as raízes raras.

De posse da intimidade da água
e da intimidade da terra,
a animais vorazes é a que sabíamos.

Amor é com quem me deito e deixo montar
minhas coxas em forma de forquilha e onde
amor abre caminho pelas minhas águas.



quarta-feira, 20 de maio de 2020

Fantasy Art - Galeria


Santa Adela.
Raul Cruz.


terça-feira, 19 de maio de 2020

Fiquem em casa. E ponto final.



Pedro Lucas Lindoso


Andava preocupado como tia Idalina estaria administrando sua vida em tempos de isolamento social completo. Ela é do grupo de risco. Fiquei satisfeito. Disse-me que se impôs uma rotina e está se saindo bem, dentro do possível. Explicou-me que começa o dia fazendo ginástica. Disse-me que adora aeróbica. E faz ginástica do método da Jane Fonda. Adquiriu os tapes na década de 1980 e os transformou recentemente em DVD.
– Sou vidrada na Jane Fonda. Ela e eu temos 70 anos, mas parecemos cinquentonas.
Tia Idalina insiste nisso de diminuir a idade. Uma pessoa que ouviu pelo rádio o fim da II Guerra Mundial, não pode ter menos do que 80 anos. Ela mesma conta:
– O conflito terminou na Europa com a invasão de Berlim por tropas soviéticas e a rendição dos alemães em 8 de maio de 1945. Mas só foi completamente encerrado em 15 de agosto, após a capitulação japonesa. Acompanhei tudo pelo rádio que transmitia a BBC diretamente de Londres. Era uma garotinha de 10 anos. Mas me lembro bem.
Pronto. Finalmente sabemos a idade de tia Idalina. No último 8 de maio, a Europa, em plena pandemia, comemorou os 75 anos do final da guerra. Deduz-se que titia está com 85 anos. Mas pratica aeróbica no método da Jane Fonda. Te mete com ela!
Além da aeróbica da Jane, titia matriculou-se em um curso de Inglês on-line. Fez opção por estudar francês quando estudante, mas sucumbiu a necessidade de falar Inglês, imediatamente.
 – Levei um tempo para saber que “password” era senha e que “chat” era bate-papo. Passei a maior vergonha esses dias. Achava que “lockdown” era nome de uma banda de rock Inglês. Quando soube que era fechamento geral das lojas, não tive outro jeito. Matriculei-me no Inglês virtual. Um curso especial para terceira idade. O professor é uma gracinha. Tenho aprendido muitas palavras. O inglês invadiu o Português. God save the Queen! Vou pedir para o professor me ensinar “The Star-Spangled Banner", "A Bandeira Estrelada”, que é o hino nacional dos Estados Unidos.
Finalmente perguntei se ela sabia o que era “hashtag”. Não sabia. Disse-lhe que era o sinal de jogo da velha que se vê na televisão, antes da expressão #FIQUE.EM.CASA.
– Conheço esse sinal em música. Em francês se chama “dièse’’. Mas quando quero ser enfática, não uso “dièse” ou “hashtag”. Digo logo:
– FIQUEM EM CASA. E PONTO FINAL.



domingo, 17 de maio de 2020

sábado, 16 de maio de 2020

Fantasy Art - Galeria


Escape on Venus.
Frank Frazetta.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

A poesia é necessária?



Estudo VI
Alcides Werk (1934-2003)


O amargo deste sal que me alimenta
agora, eu mesmo o consegui catando
abismos nesse mar desconhecido
que o tempo me mostrou depois de mim.

Este sabor estranho de distância
que vivo a cada hora e que me envolve,
vem da vida que vi nessa voragem.
Sei, agora, que após a ronda inútil

por além dos limites do meu nada,
voltamos mais vazios, eu e o barco
que construí para guardar tesouros.

No regresso noturno, cumpro o gesto
de buscar o local, em cada porto
onde possa esconder um sonho morto.



quarta-feira, 13 de maio de 2020

Fantasy Art - Galeria


Maxine Gadd.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Saudade federal



Pedro Lucas Lindoso


Esta crônica é uma homenagem póstuma a ILZA GARCIA. As pessoas que tiveram a alegria e o privilégio de conviver com Ilza Garcia sabem o motivo do título desta crônica. Ela gostava de usar essa expressão: Federal! Todos conhecem o sentido de federal como relativo à federação. Mas há um outro sentido: algo intenso, fora do comum.  Ilza Garcia era assim: intensa e fora do comum. Ela era federal! Mãe da Gina. Ilza não foi só uma grande mãe. Foi esposa, irmã, amiga, companheira rotariana, madrinha, tia, administradora, trabalhadora, e muito mais! Uma pessoa de uma grandeza de alma e de uma personalidade intensa. Ou seja, federal!
Ilza Garcia era amiga de minha mãe, Amine Daou Lindoso, desde a adolescência. Desde novinho me ensinaram a chamá-la de tia. Ultimamente ela era o elo mais tangível que me ligava à memória de minha mãe. Cada abraço, cada expressão de carinho, era como se minha mãe nos observasse de onde quer que esteja no plano espiritual.
O nosso último contato pessoalmente foi dias antes dessa terrível pandemia. Missa de celebração pelo centenário de nascimento do tio Agobar Garcia. Seu amado esposo. Cuidou do tio Agobar com desvelo e fidelidade até o dia em que Deus o chamou. Agora, devem estar namorando pelos jardins maravilhosos do Éden.
Aos 98 anos de idade, tia Ilza estava lúcida e caminhando com higidez e a elegância de sempre. Dois dias antes de ser hospitalizada, eu e minha esposa Vera falamos com ela por telefone. Ela estava bem. Vera tinha um respeito e um carinho especial por ela e também a chamava de tia.
  Tia Ilza foi ex-aluna salesiana. Falo com autoridade de filho, irmão e afilhado de mulheres que estudaram com as Irmãs Salesianas. São pessoas especiais. Tornam-se esposas, mães e profissionais diferenciadas. Neste mês de maio em que celebramos as mães, também celebramos a nossa Mãe do Céu. Nossa Senhora Auxiliadora receberá tia Ilza com todas as honras de filha. Ela que soube tão bem amá-la e cultuá-la como nossa mãe e Mãe do Cristo e Salvador do Mundo.
Ilza Garcia foi funcionária da Nestlé, presidente da APAE e participava ativamente da Casa da Amizade de senhoras rotarianas. Foi membro do Conselho da Mulher Executiva dentre as várias atividades na sociedade de nossa Manaus.   
Há alguns meses, disse a ela que havia me lembrado de um comercial da cerveja Skol que dizia: “Entrei no bar com uma sede federal".
Hoje nós que a conhecemos estamos todos com saudade. Uma saudade federal!



Sra. Ilza Garcia.

domingo, 10 de maio de 2020

sábado, 9 de maio de 2020

Little Richard (5/12/1932 – 9/5/2020)


Little Richard, por Tom Richmond.

Fantasy Art - Galeria


Andrius Kovelinas.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

A poesia é necessária?



Carta Lunar – Adágio
XX
Luiz Bacellar (1928-2012)


O meu verso é um fragor: desmoronar-
me sinto quando escrevo. E o ruído é tanto
que vou com passo incerto no meu canto
como se caminhasse à beira-mar
num dia de ressaca sob um luar
como o de agora (a Via Láctea é um manto
salpicado de sal, de prata e pranto)
em que as horas se esquecem de passar.
Meu verso é um natural correr de pena
que rasga, que destrói, mutila e mata
minhalma que é de espuma e de verbena:
é um vestido deixado sobre a cama,
vazio de um corpo amado. E me arrebata
no vácuo intenso do meu próprio drama.



quarta-feira, 6 de maio de 2020

Fantasy Art - Galeria


Laura Sava.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Festa adiada para 2022



Pedro Lucas Lindoso


O whatzapp e outras mídias fervilham nos nossos celulares com notícias, desabafos, comunicados e, infelizmente, muita “fake news”. Há tristes notícias de conhecidos e amigos infectados e dos falecimentos. Há outras notícias não tão tristes, mas que nos deixam também consternados.
Recebo mensagem de Brasília cancelando a festa de bodas de ouro de dona Maria Teresa e seu Jorge.  A festa seria no dia 30 de maio próximo. Um sábado. Dona Maria Teresa e seu Jorge se casaram dia 30 de maio de 1970. Coincidentemente era um sábado também. Véspera do início da Copa do Mundo de 1970. A copa em que o Brasil foi tricampeão.
Dona Teresa sempre conta que seu Jorge tirou férias de um mês por dois motivos: ia se casar e porque adora futebol. E conta em detalhes:
– Graças a Deus o Brasil só estrearia na quarta-feira, dia 3 de junho, contra a Tchecoslováquia. Ainda bem que o Brasil começou ganhando. Fez uma goleada de 4X1. Assim, minha lua de mel continuou bem animada.
Seu Jorge e dona Maria Teresa passaram a lua de mel em Águas de Lindóia. Eles retornaram a Brasília para o final da Copa. O Brasil ganhou da Itália fazendo outra goleada de 4x1. A final foi no dia 21 de junho de 1970, no famoso Estádio Azteca, na Cidade do México.
Todos os filhos, netos, amigos e conhecidos sabem desses detalhes. Seu Jorge e dona Teresa sempre fazem festa nas copas do mundo desde que se casaram. E ela sempre faz questão de relembrar a sua estória com esses simpáticos detalhes. Lá se vão 13 copas.
 A primeira vez que fomos a casa de seu Jorge e dona Teresa foi na copa de 1994. Essa eu me lembro bem. O Brasil ganhou da Itália na final. Foi em Pasadena nos Estados Unidos. O casal deu uma festança. Já era 17 de julho.
Neste 2020, mesmo porque não tem copa, a festa seria pela primeira vez, no dia certo em que eles se casaram. Até o dia da semana seria o mesmo.  30 de maio, sábado.  Sempre se comemorou no final das copas do mundo, que acontecem geralmente em junho e julho. Triste pandemia. Dona Maria Teresa e seu Jorge adiaram a festa para o final da copa de 2022, no Qatar. Todos devem vir vestidos de árabe. Espera-se que o Brasil seja campeão. E até lá a pandemia seja uma triste experiência já esquecida de todos. Dona Maria Teresa manda um recado:
– Cuidem-se. Fiquem em casa. Quero todos na minha festa em novembro e dezembro de 2022.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

domingo, 3 de maio de 2020

Manaus, amor e memória CDLXI


Construção da ponte de Educandos.
Acervo: Frank Lima.

sábado, 2 de maio de 2020