Amigos do Fingidor

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

A poesia é necessária?

 

Poema Cíclico

Anibal Beça (1946-2009)

 

A trave dos meus olhos

é pólen de crisântemos:

farpas cronológicas.

Metro a metro a seta ideográfica

abre aspas ao vento:

mandala vertical.

 

Quem me confere

estas asas nubladas

de arcanjo do limbo?

 

Ah tempo adiposo

a marca do teu risco

esferográfico

abre mais uma estrada

(sem acostamentos)

paralela às estrias do sono.

 

Eis que a pálpebra de palha

se apresenta:

dos meus olhos saltam

pássaros ariscos

prontos a deflorar begônias

em setembro

e 38 ponteiros

(rubis ciclotímicos do silêncio)

acupunturam poros fóbicos.

 

Calendas

a fala do espelho

(espectador anônimo)

mostra-me por inteiro:

vital conselho

entre o sudário que

me hospeda

e a angústia que

me habita.

 

A miração flutua narcisicamente

o rasto da sílaba

e

o grão onomástico sussurra:

Anibal.

 

Quão particular este silêncio

(viés oculto)

que me sabe desnudo

despudoramente nu

encalhado num atol:

leito circunscrito

às algas do meu avesso.

 

Sem embargo

trago sempre no alforje

um fardo de estrelas:

sei-me estivador

desse cais agônico:

atarefado Sísifo.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Vendedor de livros

 Pedro Lucas Lindoso

 

O Jornal do Comércio sempre publica a primeira página de edições antigas. Na edição de janeiro de 1964, republicada recentemente, me chamou a atenção a manchete informando a chegada de “CONCEITUADO VENDEDOR DE LIVROS EM MANAUS”. Uma manchete assim, nos nossos dias, seria totalmente anacrônica. A reportagem dizia ter chegado em Manaus, pela Varig, vindo do Rio de Janeiro, o Sr. Geraldo Pereira dos Santos. O ilustre visitante há mais de quinze anos visita a cidade como “vendedor especializado das mais conceituadas editoras do sul do país”.

     A reportagem informa ainda que Sr. Geraldo Pereira dos Santos, cavalheiro de fino trato, conseguiu através de longos anos de labor, granjear grande número de amizades em Manaus.

Fico imaginando o Sr. Geraldo sendo recebido por magistrados, intelectuais, professores, membros da Academia Amazonense de Letras e do IGHA – Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Imagino ainda o senhor Geraldo na velha Jaqueira, nossa Faculdade de Direito. Para os advogados e juristas da cidade, o conceituado vendedor trouxe como novidade o Ementário Forense, tido como uma “verdadeira enciclopédia do Direito”.

Naturalmente foi visitar as já extintas antigas e famosas livrarias da cidade. Com certeza esteve com o Sr. Barata, da inesquecível Livraria Acadêmica. Por certo foi também nas outras congêneres na Henrique Martins, como a Livraria Brito e a Livraria Escolar.

Além de vendedor de livros de sucesso, o sr. Geraldo Pereira dos Santos foi possivelmente o primeiro “coach” palestrante de autoajuda que esteve por aqui. Convidava os amazonenses, em especial a juventude e a todos que desejassem triunfar na vida, para um “Curso de Eficiência Pessoal”. O curso baseava-se no livro de Edward Earle Purinton, escritor americano famoso nos anos de 1960. Os livros de Purinton preconizam que a realização pessoal chega através do desenvolvimento do caráter e da força de vontade. Uma de suas principais obras é A Vitória do Homem de Ação.

O Sr. Geraldo informava que estava trocando a sua atividade de vendedor de livros por uma “mais tranquila”, a de palestrante. Que homem de visão! Mal sabia ele que a profissão de vendedor de livros estaria com os dias contados. Ou, pelo menos, com os anos contados. Praticamente não existem mais vendedores de livros. Até o formato dos livros mudou. Parece que vai mesmo predominar a leitura virtual, em tablets, e smartphones. E os livros físicos chegam pelos correios, como uma mercadoria qualquer.

Aconteceu há exatos 58 anos atrás. Há mais de meio século. Chegava por aqui possivelmente um dos últimos vendedores de livros, rico e bem-sucedido. E o primeiro coach e conferencista de autoajuda.

 

domingo, 30 de janeiro de 2022

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Por que estudamos literatura? (vídeo e PDF)



Trata-se da aula de abertura do ano letivo para os alunos de Letras, turma de 2022.

Para obter acesso ao vídeo, clique sobre a imagem acima.

Para obter o texto em PDF, clique aqui.

 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

A poesia é necessária?

 

Prelúdio

Jorge Barbosa (1902–1971)

                                               

 (Para António Aurélio Gonçalves)

 

 

Quando o descobridor chegou à primeira ilha

nem homens nus

nem mulheres nuas

espreitando

inocentes e medrosos

detrás da vegetação.

 

Nem setas venenosas vindas no ar

nem gritos de alarme e de guerra

ecoando pelos montes.

 

Havia somente

as aves de rapina

de garras afiadas

as aves marítimas

de voo largo

as aves canoras

assobiando inéditas melodias.

 

E a vegetação

cujas sementes vieram presas

nas asas dos pássaros

ao serem arrastadas para cá

pelas fúrias dos temporais.

 

Quando o descobridor chegou

e saltou da proa do escaler varado na praia

enterrando

o pé direito na areia molhada

e se persignou

receoso ainda e surpreso

pensando n’El-Rei

nessa hora então

nessa hora inicial

começou a cumprir-se

este destino ainda de todos nós.

 

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Lenda do guaraná. Te acalma, Jurupari!

 Pedro Lucas Lindoso

 

Uma das lembranças gostosas de minha infância aqui em Manaus é o gosto de nosso guaraná, o verdadeiro guaraná, de casco escuro. Vinha envasado naquelas garrafas de vidro que eram também utilizadas para cervejas. E os rótulos eram de papel. As principais marcas eram Tuchaua, Baré e Magistral.

Nos dias de festa, compravam-se dúzias de garrafas armazenadas em gradeados de madeira. Colocavam-se as garrafas para gelar em bacias de alumínio ou tonéis. O gelo era adquirido em barras. O gelo era partido em pedaços menores e as garrafas de guaraná eram colocadas para gelar bem cedo. Havia poucas geladeiras. A de nossa casa era a gás. Não existiam freezers.

No final da festa, lembro-me que os rótulos de papel se desgrudavam das garrafas e ficavam boiando nas bacias e tonéis.  Às vezes eu os retirava da água fria e os punha para secar.

Quando nos mudamos para Brasília não havia do nosso guaraná por lá. Havia o tal de guaraná “champanhe”. Esse, clarinho e sem graça, que fabricam até os dias de hoje. Até provamos da novidade. Mas era outra bebida. Não era o nosso guaraná, escurinho e docinho. Era preciso esperar as férias em Manaus para tomar do nosso verdadeiro guaraná.

Há alguns anos fiquei feliz em encontrar, nas gôndolas dos supermercados de Brasília, o nosso guaraná escurinho. Exportamos nossos refrigerantes para Brasília e outras lugares do Brasil.

Mas a produção de concentrados do nosso PIM – Polo Industrial de Manaus está sob ameaça. A produção de refrigerantes, em especial do nosso guaraná, é um dos principais setores da Zona Franca. Querem reduzir a alíquota de isenção dos concentrados. Vai prejudicar os produtores de cana de Presidente Figueiredo e de guaraná de Maués. Vai gerar desemprego.

Desculpem o baixo calão. Mas é mais uma safadeza conosco. Quando fizeram o CEP – Código de Endereçamento Postal, criado pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, em maio de 1971, nenhuma unidade da federação queria ter a dezena 69000. Diziam que o número remetia à “safadeza”. Para não dizer outra coisa. E resolveram destinar ao Amazonas.

O primeiro guaranazeiro nasceu dos olhos de uma jovem Maué, que se apaixonou por um índio de uma tribo inimiga. Jurupari, o deus da escuridão, resolveu matar o indiozinho, filho deles. As lágrimas dos pais regaram um broto do qual nasceu um fruto vermelho. O guaraná.

Agora, o Jurupari quer acabar com a produção dessa bebida sagrada para o povo Maué. Te acalma Jurupari! Deixa de safadeza!

 

domingo, 23 de janeiro de 2022

Manaus, amor e memória DLI

 

Eduardo Ribeiro, esquina com 7 de Setembro.
As mesas nas calçadas são um (mau) hábito antigo.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Elza Soares (23/6/1930 – 20/1/2022)


Elza Soares, por William.

 

A poesia é necessária?

 

A caranguejeira feliz

Thiago de Mello (1926-2022)

 

Estão afáveis os ferrões da aranha

pousada na madeira da manhã.

Caçadora noturna, ela está imóvel,

as pernas cabeludas estendidas.

Chego mais perto: dorme fatigada

sob o possante resplendor do dia.

Cada pêlo é um olho, e em cada olho

um brilho denso de felicidade.

 

Sobre a parede de maçaranduba,

na luz da antemanhã, antes a vira:

tinha o dorso coberto por um corpo

em tudo igual ao seu, só que mais negro.

Maravilhado vi: eram lentíssimos

os movimentos, sombra sobre sombra,

suavidades. No abraço vertical,

o amante delicado lhe agradava

os flancos com as patas eriçadas.

Deixei os dois na paz feita de fúria

no sonoro silêncio da floresta.

 

Ferrões afáveis, pernas distendidas,

indiferente à claridão, a aranha

amazônica dorme, e talvez sonhe

com quem feliz a fez antes da aurora.



quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Big Brother. Cuidado com ele!

 Pedro Lucas Lindoso

 

Não. Não vou falar do programa de televisão. Anuncia-se mais uma edição. Todo ano tem sido assim. A expressão “big brother”, o Grande Irmão, é na verdade a figura principal do livro chamado 1984. Escrito pelo romancista britânico George Orwell, foi publicado em 1949. A história tem como cenário a fictícia Oceania. Tudo gira em torno do Grande Irmão. “Quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis”, assim se apresenta o Big Brother, o líder máximo. Assumiu o poder depois de uma guerra de escala mundial.

Cartazes espalhados pelas ruas mostram a figura bisonha da autoridade suprema e o slogan: “O Grande Irmão está de olho em você”. E está mesmo, literalmente, graças às “teletelas”. Espalhadas nos lugares mais diversos.

Pois bem, o Grande Irmão está aí na sua mão. É o objeto mais usado nos dias de hoje. É o seu relógio, o seu despertador, seu banco, sua agenda, sua loja, seu dicionário, sua bússola, seu táxi, seu restaurante, seu correio, sua companhia aérea, seu álbum de fotos, seu arquivo pessoal. Nada mais nada menos que seu celular. O seu “big brother”.

Ele sabe tudo de você. Ele tem tudo seu. Sua vida está na palma de sua mão. Um casal de amigos de Brasília perguntou-me se há bons restaurantes vegetarianos e veganos em Manaus. Após rápida consulta nos sites de busca comecei a receber enorme quantidade de propaganda de restaurantes, livros e produtos veganos e vegetarianos. O “big brother” achou que eu havia me tornado um vegano.

A internet, acoplada ao celular, apesar de sua grande utilidade e benefícios, tornou-se um mundo incontrolável. As informações sobre as pessoas, empresas e instituições em geral estão disponíveis a toda sorte de uso.

Há vantagens. Eu recuperei contatos com amigos e ex-colegas. A internet é fonte de divulgação de conhecimento, mas, infelizmente, de fake news, também. A exposição sem limites da vida privada, em especial das pessoas mais jovens, é perigosa. A juventude é ainda mais vulnerável. Todos temos que ter o máximo cuidado com o que vamos acessar, o que será compartilhado. Temos que conversar com nossos filhos e netos sobre o perigo de superexposição. A privacidade é um bem que deve ser preservado. O direito a essa privacidade não pode ser negligenciado pelo poder público, nem pelos pais, nem tampouco pelos educadores.

Atenção pessoal. O grande “big brother” encontra-se não só nesse programa de televisão tão odiado e adorado. O “big brother” está na sua mão. É o seu celular! Cuidado com ele!


domingo, 16 de janeiro de 2022

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Thiago de Mello (30/3/1926 – 14/1/2022)

 

Amadeu (meu nome de menino, ele dizia) Thiago de Mello. 
Quadro de autor desconhecido.

Ontem sonhei com três rinocerontes

Thiago de Mello (1926-2022)

 

Ontem sonhei com três rinocerontes

que me chamavam, rosas no unicórnio,

pelo nome que tive de menino.

Mordidos pelos pássaros noturnos,

pupilas assombradas, me chamavam

a com eles partir, antes da aurora,

para o lugar onde as estrelas nascem,

enquanto se afundavam numa lama

coberta de ametistas e de garças.

Quero ficar. Mas antes que se afundem,

a pele, peço, a pele que me deixem,

em carne viva sigam pelos pântanos,

mas a pele me deixem, que proteja

o que no peito meu finda de infância.

 

Mais de Thiago de Mello: clique aqui.


quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

A poesia é necessária?

 

Herança de morte

Amélia Dalomba

 


Lírios em mãos de carrascos

Pombal à porta de ladrões

Filho de mulher à boca do lixo

Feridas gangrenadas sobre pontes quebradas

Assim construímos África nos cursos de herança e morte

Quando a crosta romper os beiços da terra

O vento ditará a sentença aos deserdados

Um feixe de luz constante na paginação da história

Cada ser um dever e um direito

 

Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança



quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Amazonidades - Gesta das Águas: lançamento


Link para acesso: https://youtu.be/wvBqBo6V-5E
(é preciso estar inscrito no canal Banzeiro Conexões)

 

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Cuidado, frágil!

Pedro Lucas Lindoso

 

Eu sempre tive a impressão de que nosso planetinha Terra fosse frágil. Essa noção se deu muito cedo. Eu era um garoto de doze anos de idade quando o mundo acompanhou a aterrissagem da Apollo 11 na Lua. 20 de julho de 1969. Morava em Brasília e vimos tudo pela TV. As revistas da época estampavam a foto de nosso planeta. A terra é azul, nos diziam os astronautas.

No Ginásio havia aprendido que a Terra fazia parte de um sistema solar, junto com Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. E o sol era uma mera estrela. Tão importante ou tão grande quanto as milhares que vimos no céu. Foi então que entendi que a Terra é insignificante perante o Universo. E por isso, frágil. Cuidado, Frágil! Handle with care! Não é assim que se coloca como alerta nos objetos que são frágeis? Deviam espalhar esse aviso pelo planeta. Não se deve tratar a Terra como se o planeta não fosse frágil.

Proponho que se possa colocar esse alerta, esse aviso, em lugares como na sede da ONU, Torre Eiffel, Coliseu, Parthenon, Grande Muralha da China, Monte Fuji, Uluru ou The Rock na Austrália, Taj Mahal, Pirâmides do Egito, Praça Vermelha, Big Ben, Portão de Brandemburgo e claro, no nosso Cristo Redentor.

Ainda jovem, fui apresentado a Antoine de Saint-Exupéry. Na Aliança Francesa de Brasília fui compelido a ler O Pequeno Príncipe. E dentre as várias interpretações que me foram colocadas sobre a obra, achei que Saint-Exupéry também tinha consciência dessa fragilidade de nosso planeta. Como todos sabem, O Pequeno Príncipe narra a história de um principezinho, que viaja pelo universo em busca de sabedoria. Na Terra ele encontra um aviador perdido no deserto. Que seria o próprio Exupéry.

O pequeno Príncipe é cheio de frases famosas e repetidas em várias situações. Mas há uma que guardo com especial atenção. “quando o mistério é impressionante demais, não ousamos desobedecer”. Provavelmente porque endossa essa minha opinião. A de que Exupéry se preocupava com o planeta e seus mistérios perante o Universo. E, portanto, com a fragilidade da Terra. “Attention fragile”, como se diz em Francês.

Particularmente não gosto de filmes de ficção científica. Podem ser muito assustadores. Mas comecei o ano novo assistindo a um filme que me remeteu a essa fragilidade da terra que tanto me assustou a vida toda. O polêmico filme Don’t look up! Não olhe para cima! Trata-se da história de dois cientistas que descobrem um corpo espacial sólido que está vindo em direção ao planeta. Obviamente, tentam alertar autoridades e imprensa para que providências sejam tomadas. Porém, há um jogo político de interesses em que a ciência não é levada a sério. Numa época de pandemia, com tantos conflitos e debates intensos sobre o que é ciência e o que não é, o filme assustadoramente parece que veio para criar ainda mais polêmica. Não quero entrar no debate político. O que sei é que nosso planeta precisa ser cuidado. O planetinha é frágil. Handle with care. Attention fragile!

 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

domingo, 9 de janeiro de 2022

Manaus, amor e memória DXLIX

Jardim Ajuricaba. À direita, a entrada do Roadway e o prédio da Alfândega.