Amigos do Fingidor

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 7/11

João Bosco Botelho


Vida saudável


A relação da medicina-oficial com a natureza, que os gregos tão bem assimilaram ao atingir o social, em sistemas de valores e respostas claramente configurados, reforçava-se como paideia. Nesta perspectiva, foi evocada por Sólon ao descrever os elos entre as doenças pessoais e coletivas com a desorganização social. Baseado nessa relação, esse legislador fundamentou parte do seu pensamento político afirmando que as crises políticas interferiam na qualidade da saúde de uma população.

Platão (Górgias 464b, 465a, 501) utilizou parte da estrutura teórica da medicina-oficial grega como instrumento para compor algumas linhas mestras da sua concepção ético-filosófica. Nesse genial processo, estabeleceu valor significante à verdadeira tékhne, como forma de conhecimento na natureza do objeto destinado a servir ao homem.

Os conceitos platônicos confirmaram o médico como a pessoa que, baseada no que sabe sobre a natureza do homem sadio, conhece também o contrário, o homem doente, e competente para encontrar os meios para restituí-lo à saúde.

Com base neste modelo, Platão traçou a imagem do filósofo tendo a mesma função no trato da alma. Existiu, neste ponto do pensamento platônico, uma semelhança viva entre o médico e o filósofo, ao se completarem na busca da harmonia plena do homem com a natureza.

Os médicos gregos interpretaram um dos mais complexos problemas do diagnóstico: as múltiplas formas como uma mesma doença pode se manifestar. Para superar o estorvo, os teóricos das escolas de Knido e Cós viabilizaram classificações descrevendo essas manifestações, mas reconhecendo-as como uma doença (Thivel, Antoine. Cnide et Cós? Paris. Les belles Lettres. 1981). O genial dessa nova interpretação, nunca antes usada, é o fato de ter evitado o erro cometido nas medicinas-oficiais anteriores, praticadas nas primeiras Cidades, onde as muitas manifestações clínicas da mesma moléstia eram consideradas doenças diferentes. Esse método foi identificado por Platão como dissecação ou divisão dos conceitos universais nas suas diferentes classes (Cornford, F. M. Principium Sapientiae: as origens do pensamento filosófico grego. 2. ed. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian, 1981).

A Medicina como paideia também contribuiu para que Platão reconhecesse as três virtudes do corpo – saúde, beleza e força – que harmonizariam com as quatro virtudes da alma – piedade, valentia, moderação e justiça.

As atitudes educadoras da Medicina como paideia ultrapassaram os limites da terapêutica e incluíram a massagem, a prática dos esportes, a música, a dança, o teatro e os banhos coletivos no cotidiano da busca da saúde. No texto Das Epidemias (Darember. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855), da Escola de Cós, esta ideia está clara:

“A arte do médico consiste em eliminar o que causa dor e em sarar o homem, afastando o que o faz sofrer. A natureza pode por si própria conseguir isto. Se sofre for estar sentado, não é preciso mais que levantar-se; se sofre por se mover, basta descansar. E tal como neste caso, muitas coisas da arte do médico a natureza as possui em si própria”.

Também é possível sentir, ao longo do século 3 a.C., o vigor da ação médica ligada à noção global da natureza jônica. O livro Das Epidemias confirma os conceitos de harmonia e medida (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855): “ ... o esforço físico é o alimento para os membros e para os músculos, o sono o é para as entranhas. Pensar é para o homem o passeio da alma”.

Nesse sentido, o médico era chamado para recompor a saúde, por meio de técnicas desconhecidas dos não médicos. Para esse fim, utilizava os saberes como instrumento de leitura da natureza, como a justa medida da saúde. Hipócrates e os médicos da Escola de Cós, na obra Da Medicina Antiga, seguiram esse pressuposto ao afirmarem que o médico não pode saber de Medicina nem tratar os seus doentes sem conhecer a natureza do homem (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855: “... os argumentos deles apontam para a Filosofia tal como a de Empédocles e de outros que escreveram sobre a natureza e descreveram o que o homem é desde a origem, como primeiro surgiu e de que elementos é constituído”.

A concepção teórica de saúde dos gregos também envolveu a harmonia. Sendo de natureza harmônica em si mesma, isto é, preenchendo na medida e simetria exatas as vicissitudes individuais, a saúde deveria ser procurada neste contexto da compreensão do normal. Sob essa mesma perspectiva, Platão (Fédon, 93e; Leis 773a; Górgias 504c) entendeu a saúde como a ordem do corpo e Aristóteles (Aristote. Ética a Nicômaco. X 1180b) associou o multiplicidade do comportamento moral às múltiplas dietas prescritas pelos médicos para as febres, mas não para todas as febres.

A tendência classificatória do pensamento grego, especialmente o aristocrático, estimulou as tentativas de ordenar as doenças em grupos que apresentassem alguma semelhança no diagnóstico, no tratamento e no prognóstico.

Com a literatura médica contendo as recomendações específicas das normas que deveriam ser obedecidas para evitar a doença, a medicina-oficial grega inicia outra importante contribuição para consolidar-se como paideia a saúde não dependeria só dos médicos. A dieta, a higiene, o laser, a cultura, o esporte são partes do corpo são.

Os hospitais construídos nesse período eram grandes e possuíam divisões destinadas aos médicos e enfermos. O hospital da Escola Médica, na ilha de Cós, possuía salas de exames, alojamentos individuais para os doentes, salas de banhos coletivos, praça de esportes e anfiteatro para dez mil pessoas. É um dos muitos exemplos de como a arquitetura grega amparava o discurso teórico da harmonia com a natureza na busca da saúde.

O novo espaço da Medicina como Paideia junto aos conceitos jônicos com objetivos educadores, contribuíram para o surgimento das mais importantes obras médicas destinadas ao público não médico. Essas obras, Da Dieta, De um Regime de Vida Saudável e Da Natureza do Homem contêm fantásticas sugestões de como deve ser a vida das pessoas para evitar as doenças. Entre muitos aspectos, descrevem detalhes da caminhada após cada refeição dependendo da idade e das condições físicas de cada pessoa nas diferentes estações do ano.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Boris Vallejo.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Academia Amazonense de Letras marca data para ocupar mais duas vagas

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Em reunião realizada hoje pela manhã, a diretoria da Academia Amazonense de Letras homologou as inscrições dos candidatos às Cadeiras 28, de Aníbal Teófilo, e 26, de Rui Barbosa. A jornalista Mazé Mourão concorre à primeira, anteriormente ocupada pelo poeta Anibal Beça. O empresário Roberto Tadros e o jurista Isaac Sabbá Guimarães disputarão a segunda Cadeira, vaga com o falecimento do acadêmico Oyama Ituassú.

As eleições serão realizadas no dia 18 de novembro próximo.

Arnaldo Garcez na abertura da Sala Djanira, no Rio

Encontro das Águas no dia do poeta

O ensino das artes visuais através de releituras fotográficas

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Como promover o conhecimento das Artes Visuais de forma compreensível, prática, prazerosa, atualizado com técnicas e temas contemporâneos? Foi a partir destas questões que foi criado o projeto RELEITURAS em CLIQUES.

Este é um projeto de arte-educação que propõe utilizar a releitura como forma de promover o conhecimento sobre as artes visuais. Diferente do que muito se faz nas escolas, a releitura de imagens não é a cópia de uma obra, pois ela contém outros elementos que a tornam única e a diferenciam da obra original. E para tornar a releitura uma obra contemporânea, o projeto também utiliza a linguagem fotográfica como resultado final, por ser atual e muitas vezes questionado o seu valor artístico. Além disso, a releitura em fotografia também é um recurso muito utilizado por renomados artistas contemporâneos, como os brasileiros Vik Muniz e Thiago Costackz.

Sidney Silva, arte-educador e coordenador do projeto, realizou, com o apoio da FUNARTE, através da 7ª edição do programa Rede Nacional ARTES VISUAIS, durante o mês de setembro, na cidade de Manacapuru, uma oficina pedagógica para socializar os conhecimentos desenvolvidos no Centro de Educação SESC em Manaus. Os conteúdos curriculares de história da arte, fotografia e arte contemporânea, foram apresentados durante toda a oficina através de atividades teóricas e práticas. “Além destes tivemos também a participação da fotógrafa Ruth Jucá, que apresentou seus trabalhos e assim permitiu uma aproximação maior da obra e do artista com os arte-educadores.” Afirma o professor, que também criou um blog (www.releiturasemcliques.blogspot.com) para registrar todas as atividades realizadas. .

“O projeto RELEITURAS em CLIQUES foi um grande desafio, pois são muitos os obstáculos para realizar uma atividade de formação dentro da realidade amazônica, mas enfim conseguimos produzir resultados bastante qualitativos e assim alcançar os objetivos do projeto de ser um espaço de promoção do diálogo entre arte-educadores e suas práticas, entre a técnica e o olhar artístico, entre a obra original e a crítica da realidade”, considera Sidney Silva.


Após uma exposição itinerante pelas escolas públicas de Manacapuru o resultado final deste projeto poderá também ser apreciado pelo público em Manaus a partir desta terça-feira (19/10), às 19:00h, na Galeria Café do SESC (Rua Henrique Martins,426/Centro), através de uma exposição aberta ao público em geral, que não precisará ter conhecimento prévio de história da arte, pois as obras são acompanhadas de legendas que permitirão que o visitante conheça a obra original, o autor e técnica utilizada. Sidney acredita que a experiência desenvolvida em Manacapuru possibilitou mais que conhecimentos sobre história da arte, pois serviu também de motivação para que outros arte-educadores possam também realizar projetos que permitam cada vez mais o acesso democrático ao universo das artes visuais.

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Projeto: Exposição Fotográfica RELEITURAS em CLIQUES

Data: 19 a 30 de outubro/2010

Local: Galeria Café do SESC (Rua Henrique Martins, 426/Centro) Manaus-Amazonas

A fragmentação das torres – 3

Marco Adolfs


O advogado Ramyres em meio a processos


“Com é que ela pode ficar assim, desse jeito, olhando o Cristo o dia inteiro?... Sem reconhecer sequer a filha?”...


Pega esse processo e arquiva! Pilhas chatas de gente chata que faz muita besteira. Devia ter ficado no exército. Lá é que era o meu lugar. Agora estou aqui, sentado numa cadeira odiosa e enclausurado dentro desse paletó quente e desconfortável e ainda tendo que aturar esses boçais com seus crimes. Por isso que explodiram aquelas torres. Dormimos lado a lado e ela nem me dirige mais a palavra, de tão cansada que fica. Mas ela se acha parecida com a Catherine Deneuve. Eu também acho que ela tem um “q” da atriz. Bons tempos. Mas viver abrindo a boca das pessoas? Nunca entendi isso. Por que não fez Direito, como eu? Abandonou faltando pouco para seguir a Odontologia. Bom, é isso. Horas e horas sentado e ela em pé. Quando chego cansado eu é que tenho vontade de explodir tudo. E Miriam não colabora em nada. Só quer descansar os seus belos pezinhos. Cachorro idiota latindo, gata miando e a velha se esfacelando na cadeira de balanço. Ainda bem que o Juca faz a coisa certa e fica lá no quarto quieto. Juca é um bom menino. Estudioso e quieto. Que mais eu poderia esperar de um filho? Que não ficasse tão agarrado com a mãe. Sei não? Um amigo meu tem um filho gay. Coitado. Gay e viciado. Filhinho da mamãe dá nisso. Como estará ela? Ás vezes desconfio dela. Mulher muito bonita, sozinha, naquele consultório. Besteira minha. “Você nem liga pra mim; nem me dá um beijo mais”. Fico chateado quando ela diz isso. Ela é que não me dá beijo. Mulher é tudo igual, sempre esperando as atitudes do homem. E a gente o que recebe? O mundo não mudou nada. Talvez as Torres caiam na cabeça dessa gente para acordá-las de vez. Merda! Processos, processos e mais processos que só levam ao ódio de uns contra outros. Melhor é explodir logo tudo e acabar de vez com isso. Foi bonito. Achei bonito. Aqueles prédios do World Trade Center caindo; se esfacelando. Cinema americano da mais alta qualidade, disse alguém. Mas eu não posso pensar isso. E muito menos falar. Que me desculpem todas as vítimas. Me desculpem, está certo! Sei que foi cruel. Mas também... Bom, deixa pra lá. Mas o que percebo é a mãe se esfacelando naquela cadeira, olhando para o Cristo, esperando a morte chegar. Esperamos, todos, a sua morte, essa é que é a verdade. É um processo deferido. Concluído. Essa é a vida da gente. Trabalho, ilusão e morte.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Biblioteca Elson Farias inaugura amanhã

Um poema amazônico para eleitores de todo o Brasil

Zemaria Pinto

Não sei quando o velho amigo Alcides Werk (1934-2003) escreveu o poema abaixo transcrito, que estava em seu primeiro livro, Da noite do rio, de 1974. Mas o bom Alcides, coração de manteiga sob o sol amazônico, engasgava e chorava copiosamente sempre que o recitava, de cor (de coração).

Alcides escreveu esse poema para denunciar a canalhice da indústria da enchente e da indústria da vazante. Pois é, irmãos nordestinos, os coronéis de vocês só têm a indústria da seca...

Passado o tempo da escolha local onde optamos entre o 6 e a meia-dúzia –, é preciso convocar a Poesia para cantar contra a canalha que promete qualquer coisa  em troca de um mísero voto. E agora vou dar um tiro no meu próprio 42: a perenidade da Zona Franca, prometida pelo candidato tucano, é um absurdo político e econômico. Ele sempre soube disso, tanto que sempre se posicionou contra a existência da Zona Franca de Manaus. Agora diz que vai perenizá-la. O tiro: a Zona Franca, hoje, é nada mais nada menos que o direito do governo estadual de trabalhar com alíquotas reduzidas, para manter (as que já estão aí) e atrair (novas) indústrias. O conceito de Zona Franca dos anos 70/80 foi ferido de morte pelo Collor e recebeu o tiro de misericórdia do FHC. A Zona Franca já não existe mais, há muito tempo. Cala a boca, Serra!

O outro lado. A candidata Dilma, quando for presidente, precisa ficar de olho na estadualização dos programas federais. O Luz Para Todos não atingiu 100% do Amazonas, por dois motivos: incompetência técnica – o Amazonas é outro mundo, e assim precisa ser visto e tratado; canalhice eleitoreira: as áreas de oposição aos coronéis de barranco não têm prioridade. Outra: a maior parte do Bolsa Família ficou no bolso dos agentes dos governos estadual e municipais. Fica esperta, Dilma! 

O poema, não vou explicá-lo. O texto do Alcides é de uma limpidez – e de uma lucidez – que prescinde de qualquer explicação. Leiam o poema e tirem suas conclusões. 


DAS ÁGUAS GRANDES


                        Alcides Werk



O barco passando e a onda molhando
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
bebendo do sangue, roendo as raízes
de tudo o que fez.
Na estreita maromba,
os bichos chorando de fome e de frio,
com medo do rio
com medo do rio que cresce outra vez.

(Quando eu for Presidente,
de amplos e amorosíssimos poderes,
decretarei,
sem visto do congresso,
nem processo,
canonizando santos nacionais
os mártires da enchente.
Convocarei um exército de anjos
para domar o rio e o desvario
dos prováveis dilúvios anuais.

Mesmo assim, por razões de previdência,
visto que temos mártires demais
e precisamos de gente,
levarei meus irmãos pra terra firme,
onde casa não pode ser navio,
nem se esteja sujeito
às caprichosas emoções do rio.)

O barco passando, e meus olhos sofrendo
da mesma miséria da mesma miséria
que veem.

E, de repente,
me vem uma vontade provisória
de encher os bolsos de demagogia,
entrar em cada casa com uma estória,
qualquer que seja – que não seja séria,
falar de tudo – menos de miséria,
prometer coisas que não cumprirei,
como se faz em tempo de eleições,
para que sejam menos infelizes
(enquanto o rio esconde as roças podres),
mastigando ilusões.

domingo, 17 de outubro de 2010

Recordando LORD K em Manaus

Jorge Bandeira



Assisti no CECOMIZ, o mais antigo shopping Center de Manaus, em eras passadas, segunda metade da década de oitenta do século passado, ao show da banda LORD K. Essa trupe musical tinha uma particularidade, peculiar até hoje: todos tocavam e cantavam nus em pelo, e também eram bons músicos, o que afastava o chavão de que a nudez seria apenas um caça-níquel, muito em voga naquele período pelos palcos do Norte.

A vocalista Klaudia Moras cantava nua, de uma naturalidade total ao se apresentar, como se estivesse vestindo roupas invisíveis. Não lembro se eles, durante o show, que durou mais ou menos uma hora e meia, falaram sobre naturismo ou outro tema. O ano era 1987, portanto a retomada da tradição de naturismo organizado, ligado ao legado de Luz del Fuego, estava apenas em sua infância, via Celso Rossi e Praia do Pinho.

Músicos nus, guitarrista, baixista, baterista, e uma vocalista à vontade no palco. O público amazonense teve uma boa impressão disso tudo, e nem mesmo se escandalizou por este eco tardio do paraíso perdido de seus antepassados índios. Coisas da vida e do tempo. LORD K era pura energia e descontração, sem apelativos eróticos ou outros ismos em sua postura cênica. Era uma banda de rock que não precisava de roupa nem glamour, e só.

Quem assistiu a esse show lembrará também que a equipe do programa Big-bang, com Luis Armando Fartolino e Atila Rayol no comando, registrou o show na íntegra, inclusive foi transmitido, na TV Local, sem cortes, uma verdadeira façanha, mesmo sendo o programa às 23h00. Foi um marco em nossa TV, tenho certeza. Infelizmente aquelas imagens históricas foram apagadas por questões contratuais depois de seis meses, segundo me confidenciou (agora já era segredo!) o Fartolino, numa conversa animada que tivemos anos passados, num lanche aqui na esquina de casa. Que pena.

A nudez, é importante lembrar, não era tão perseguida naquele período do auge do rock brasileiro, nos anos 80. Basta lembrar do programa da Mara Maravilha, que volta e meia tinha aquelas coreografias com as crianças e até mesmo as pré-adolescentes com o despojamento do vestuário (usando somente a parte de baixo, por exemplo).

Isso demonstra uma coisa: regredimos, em meu ponto de vista, na tolerância para a nudez natural e avançamos para a nudez SENSUAL E EROTIZADA. Não me perguntem a causa, pois são várias, e este artigo é apenas de reminiscências, de recordações de um antigo show de uma antiga banda de rock, LORD K. Seguramente recordo da única entrevista da banda num jornal local, A Crítica, onde ele, LORD K (que era casado com a vocalista Klaudia!) respondeu sobre como era expor a própria esposa nua naqueles shows, geralmente lotados. O Sr. K disse que era muito natural, pois a exposição direta não existia, uma vez que Claúdia não havia posado nua para Playboy ou Ele&Ela. Resposta direta e inteligente do Sr. K, colocando a nudez natural de sua mulher no panteão das grandes causas do Naturismo, mesmo sem o ser ou não saber que era. Só eu, dizia ele, posso expor, verdadeiramente, a Klaudia, através de minha volúpia e concretização do ato da carnalidade, pelo menos enquanto estamos juntos nesta união concedida por ambos, este pacto entre os seres que se amam.

Disse tudo o Sr. K. Sinto saudades, confesso, de um show daquele naipe, daquela grandeza, mas acho que hoje a imoralidade musical abrandou a nudez de nossos palcos. Já falei, inclusive, sobre isso: é cada vez mais difícil termos esta dignidade da nudez de volta, e a arte, assim, vai perdendo sua historicidade. Alguém aí conhece um(a) modelo-vivo(a) que posa nu(a) hoje em dia?

Em 1991, portanto depois da febre inicial, a Playboy consegue fisgar Klaudia Moras, que posou nua em uma das edições daquele ano.














Klaudia Moras, vocalista da banda de rock LORD K, em pose para a Playboy.

sábado, 16 de outubro de 2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A miragem elaborada – 6

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço

V
 

Escrito muito tempo antes, “Das águas Grandes”, já incluído em Da noite do rio, prenunciava o delírio poético da mudança além da História:

                    Quando eu for Presidente,
                    de amplos e amorosíssimos poderes

                    Convocarei um exército de anjos
                    para domar o rio e o desvario
                    dos prováveis dilúvios anuais.

Neste poema, porém, a ironia contida no sonho cede lugar à revolta do cidadão que conhece os mecanismos que o levariam a realizar seu sonho. E, transmudando-se em político vulgar, o poeta – longe da poesia que ensina a política ao povo que não lê poesia – imagina sua campanha, no habitual estilo de nossos maiores próceres:

                    E, de repente
                    me vem uma vontade provisória
                    de encher os bolsos de demagogia
                    entrar em cada casa com uma estória,
                    qualquer que seja – que não seja séria,
                    falar de tudo – menos de miséria,
                    prometer coisas que não cumprirei,
                    como se faz em tempo de eleições,
                    para que sejam menos infelizes
                    (enquanto o rio esconde as roça podres),
                    mastigando ilusões.

Porque para o caboclo – o José a esperar, como seus pais – o futuro é ontem, o passado é hoje.

Em “Das águas grandes”, além de seu forte conteúdo enquanto texto, destaca-se ainda a belíssima construção fônica da primeira parte do poema: a repetição de palavras cria uma tensão inusitada, que torna mais perceptível ainda o sentimento transmitido:

                    Na estreita maromba,
                    os bichos chorando de fome e de frio,
                    com medo do rio
                    com medo do rio que cresce outra vez.


                    com os olhos cansados de espanto e de mágoa
                    de ver tanta água
                    de ver tanta água

Tzvetan Todorov, citado por Maria Luiza Ramos no livro Fenomenologia da obra literária, propôs a ilustração sonora como um dos grupos dos fenômenos sonoros na literatura, descrevendo-a como “o caso em que as palavras, sem serem onomatopéias, evocam em nós a impressão auditiva que teríamos do fenômeno descrito”. Alcides Werk ilustra a passagem de um barco no rio cheio através de alterações e assonâncias que nos remetem ao fato:

                    O barco passando e a onda molhando
                    o menino molhado, na porta da frente.
                    O homem doente
                    deitado no rede
                    com os olhos cansados de espanto e de mágoa
                    de ver tanta água
                    de ver tanta água
                    bebendo do sangue, roendo as raízes
                    de tudo que fez.
                    Na estreita maromba,
                    os bichos chorando de fome e de frio
                    com medo do rio
                    com medo do rio que cresce outra vez.

Este trecho do poema poderia ser lido todo como se fosse composto por versos de cinco silabas:

                    O barco passando
                    e a onda molhando o
                    menino molhado,
                    na porta da frente.


                    com os olhos cansados
                    de espanto e de mágoa


                    bebendo do sangue
                    roendo as raízes


                    os bichos chorando
                    de fome e de frio


                    com medo do rio
                    que cresce outra vez

Esse ritmo é quebrado, entretanto, na sequência citada no inicio deste capitulo, quando, abruptamente, a musicalidade da passagem do barco é substituída pela veemência do discurso. A interrupção intencional da eurritmia é um recurso usado pelo autor chamando a atenção do leitor para um fato que julga particularmente importante no contexto.

Se a criação poética, como afirma Otávio Paz, em O arco e a lira, consiste na utilização do ritmo como agente de sedução, Alcides Werk é um sedutor. Invariavelmente, seus versos são lapidados com mestria, havendo predominância, nos poemas metrificados – à exceção dos sonetos, decassilábicos – de versos curtos, tetrassilábicos e redondilhas, típicos das canções populares. A propósito, Werk teve vários de seus poemas musicados por compositores amazonenses. “Trilha dágua” tem pelo menos duas versões – Pedro Amorim e Armando de Paula – e ilustra bem o que se afirma:

                    Nas margens, a prata
                    da lua escorrendo
                    pelas sapucaias,
                    pelos cajuranas,
                    pelos tarumãs,
                    sobre as garças brancas,
                    sobre as piaçocas,
                    sobre os jaburus.

As anáforas tornam-se um recurso se síntese: o poeta passeia pelo seu espaço como uma câmera cinematográfica, registrando instantâneos da vida amazônica. Ele prossegue, na trilha do casco, registrando

                    jacaré com filhos

                    gafanhotos verdes


                             peixes notívagos


                    lamparina acesa


                    cachorro latindo
                   
                    minha roupa branca,
                    meu sapato novo


                                      a cunhantã

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 6/11

João Bosco Botelho

Escola de Cós


O corte separando o antes e o depois, nos saberes da Medicina como paideia, encontra-se no livro Das Doenças Sagradas, de autor desconhecido, do século 4 a.C.:

“Quanto à doença que nós chamamos de sagrada (epilepsia), eis o que ela significa: ela não me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que as demais doenças e se origina das mesmas causas que cada uma delas. Os homens atribuíram-lhe uma natureza e uma origem divinas por causa da ignorância e do assombro que ela lhes inspira, pois em nada se assemelha às outras.”

Pela primeira vez, uma enfermidade foi explicitamente assentada no domínio da tékhne, após ser retirada do domínio dos deuses e deusas curadoras. Não é demais repetir que também nessa época, na ilha de Cós, ocorreu o ápice da medicina-oficial grega. O genial Hipócrates, o principal representante da Escola de Medicina de Cós, foi reconhecido como o marco nos saberes médicos por Platão (Protágoras 313b-c e Fedro 270c) e, posteriormente, por Aristóteles (La Politique. Paris. J. Vrin. 1989. p. 484).

Os integrantes da Escola de Cós construíram o maior legado da Medicina como paideia: a teoria dos Quatro Humores, aqui considerada como primeiro corte epistemológico da Medicina. Na realidade, a proposta teórica uniu elementos reconhecidos da Filosofia e da Medicina. Para cada elemento de Empédocles foi associada uma categoria teórica, capaz de unir com coerência as qualidades da natureza com as do corpo.

A teoria dos Quatro Humores, atribuída a Políbio, está descrita no manuscrito Da Natureza do Homem (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855:

“O corpo humano contém sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra, que esses elementos constituem a natureza do corpo e são responsáveis pelas dores que se sente e pela saúde que se goza. A saúde atinge o seu máximo quando estas coisas estão na devida proporção em relação umas às outras, no que toca a sua composição, força e volume além de estarem devidamente misturadas. A dor surge quando há excesso ou falta de uma destas coisas, ou quando uma delas se isola no corpo em vez de estar misturada com as outras.”

A Medicina como paideia saltou do domínio casual e ametódico para o método construído em torno da busca da etiologia nos desequilíbrios dos humores. O diagnóstico acompanhava o prognóstico e a terapêutica para identificar o excesso ou a falta do humor desequilibrado. Como consequência, os tratamentos se voltaram para excretar as sobras por meio de vomitórios, sudoreses, diureses, diarreias e sangrias. O prognóstico se materializava na presença ou na ausência de resposta à terapêutica.

A aceitação da teoria dos Quatro Humores por alguns médicos da Escola de Cós não atenuou os embates com alguns filósofos, em certa medida, defensores da medicina-empírica e da medicina-divina, ambas livres das medidas de mensurações impostas pelo entendimento jônico da natureza.

Esses conflitos aparecem em dois textos:

– O filósofo Heráclito de Éfeso (540-470), de genialidade exclusiva, é contundente na antipatia aos médicos (Os Pré-Socráticos: fragmentos, doxografia e comentários. 2. ed. São Paulo. Abril Cultural. 1978. p. 297): “Os médicos, quando cortam, queimam, e de todo o modo torturam os pacientes, ainda reclamam um salário que não merecem, por efetuarem o mesmo que as doenças”;

– O autor desconhecido de Sobre a Medicina Antiga, do século 4 a.C., testemunha certo conflituoso entre alguns médicos e filósofos, no qual repudiaram de maneira enfática, a generalização de todas as doenças estarem estritamente ligadas somente aos quatro elementos de Empédocles: (DAREMBERG, 1855. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855: “1. Que no caso de um doente afetado por uma alimentação crua e curado por uma alimentação cozida, não é possível dizer o que foi eliminado da dieta, se o calor, se o frio, se a umidade ou a secura; 2. Que não existe um quente absoluto que possa ser misturado para curar o frio, uma pessoa tem de tomar água quente ou vinho quente ou leite quente e a água o vinho e o leite tem propriedades diferentes que serão mais eficazes do que o calor.”

Em alguns trechos da mesma obra, Hipócrates também sustenta que o corpo humano é composto por grande número de coisas de naturezas diversas: salinas, amargas, doces, ácidas, adstringentes, insípidas etc., e não só de quatro componentes. Essa posição hipocrática é intrigante porque, em última análise, pode ser entendida como resistência à teoria dos Quatro Humores do genro Políbio.

De certo modo, a contestação hipocrática traduz o conflito que alcançou outros filósofos para reduzir a saúde e a doença somente aos quatro determinantes da teoria dos Quatro Humores (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra). É possível que os médicos da Escola Médica de Cós tenham sofrido influência de Alcméon, filósofo e médico de Crotona, no Sul da Itália, que admitia um grande número de forças atuando nos corpos (Thivel, Antoine. Cnide et Cós? Paris. Les Belles Lettres. 1981. p. 289-383). No livro Da Natureza do Homem, atribuído a Políbio, na mesma época, ressalta as ideias de Alcméon (Jouanna, J. Hippocrate et l’École de Cnide. Paris. Les Belles Lettres. 1974 p. 137- 174), o defensor da ideia de a saúde ser dependente do equilíbrio de múltiplas forças dinâmicas e a doença seria o predomínio de umas sobre as outras.

Platão (República 407b-c-d-e) adotou o modelo médico dos tempos homéricos. É possível que essa leitura platônica tenha contribuído para ativar o conflito de competência entre a Medicina, voltada à interpretação da natureza por meio da tékhne, e a religião. Em aparente contraditório, Platão retoma a Medicina como téhkne ao distinguir as diferenças entre as práticas Medicinais entre pobres e ricos. O filósofo critica o modo como os médicos dos escravos correm de um paciente para outro e dão instruções rápidas sem falar com os doentes e os compara com os médicos dos homens livres (Leis 720a-b-c-d-e):

“Se um deles ouvisse falar um médico livre a pacientes livres, em termos muito aproximados das conferências científicas, explicando como concebe a origem da doença e elevando-se a natureza de todos os corpos, morreria de rir e diria no que a maioria das pessoas chamadas médicos replica prontamente em tais casos: – O que fazes, néscio, não é curar o teu paciente, mas ensiná-lo como se a tua missão não fosse devolver-lhe a saúde, mas fazer dele médico”.

Em certos aspectos, médicos e filósofos estavam de acordo. Tanto Platão (Platon. Oeuvres Complètes. Paris: Ed. Gallimard. Bibliothèque de la Pléiade. 1950. v.1, v.2. Banquete, 186-187) quanto Hipócrates (Darembrg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris: Labe Éditeur. 1855), reconheceram como insofismável a obrigação do médico em esclarecer o doente de todos os aspectos da enfermidade. Aristóteles (Aristote. La Politique. Paris: J.Vrin. 1989. I, 11, 1282) vai mais longe e distingue o médico do homem culto em Medicina, estabelecendo o espaço que cada um pode ocupar nas suas funções específicas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Jiansong Chen.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O risco da maioria silenciosa

Rogel Samuel*

Diz Luis Nassif que “em 1969, em virtude das manifestações contra a guerra do Vietnã, o então presidente americano Richard Nixon fez um discurso em que se dirigia à ‘grande maioria silenciosa’, formada pelas bases conservadoras do partido Republicano, que não havia ido às ruas, que apoiava a guerra, e pedia apoio para unir-se a ele em favor da vitória dos Estados Unidos. A estratégia funcionou e Nixon conseguiu reeleger-se em 1972”.

O termo me assaltou quando eu ontem estava num restaurante e ouvi o seguinte diálogo na mesa ao lado:

– A senhora viu o debate na tv ontem? – perguntou um rapaz.

– Eu não vou perder meu tempo... – respondeu uma senhora.

Por causa dessa imensa “maioria silenciosa” que se recusa a ver a realidade (que é política) é que houve a terrível guerra do Vietnã, quando mais de 400 mil soldados e civis morreram durante o conflito de nove anos, quando quase três milhões de jovens norte-americanos serviram durante os 15 anos de engajamento militar e 56 mil soldados americanos morreram e mais de 300 mil voltam para casa mutilados ou com deficiência e que bem poderiam ser filhos daquela senhora elegante que não quis “perder o seu tempo”.


(*) Publicado originalmente no blog do autor.

A fragmentação das torres – 2

Marco Adolfs

Ricardinho pensa em sua vida


“Vovó tem o olhar perdidinho no Cristo...Todo o dia é a mesma coisa...Deve ser essa coisa de Ozaimer?...”

Elza havia saído aí eu fechei a porta e disse para o cachorro subir na cama. Liguei a televisão. Passava o Jornal Nacional. Torres gêmeas em Nova Iorque se espatifando no chão. Parecia um filme, mas não era. Era o dia 11 de setembro e amanhã eu teria uma prova. Fumaça. Foi muito feio ver aquele homem se lançando no espaço e morrendo. Pitomba nem estava aí para aquilo. Pensava em suas pulgas e o mundo que se lixasse. Eu tinha que estudar para a prova. E também, pensando bem, não estava nem aí para isso. Saí do quarto e fui direto para a geladeira. Tirei de lá uma caixa de leite e bebi um copo. Eles estavam lá no quarto; também vendo televisão. Com certeza tinham visto aquelas torres caindo depois daquilo. Isso seria motivo para conversas e aulas. O professor Chaves com certeza iria falar de tudo aquilo com aquela sua cara de idiota e achando que sabia de tudo.

Culpa dos americanos existirem! Era a terceira Guerra Mundial começando! O mundo ocidental exigiria isso. Aula de História. Voltei para o quarto e o Pitomba estava lá olhando, olhando e olhando, aquelas torres caírem. Deu um latido e me olhou com seus olhos de cachorro. Fiz umas colas e resolvi dormir. E as torres continuavam a cair em todos os canais de jornalismo. Eram terroristas, fui levado a crer. O mundo estava assim quando me deitei. Logo me veio ao pensamento o silêncio da noite e as estrelas explodindo brilhando no ar. Elza era muito chata como gata. Que ronronasse pelos telhados em busca de ratos e machos. Pitomba e eu não estávamos nem aí.

Pitomba latia; papai abria a porta do quarto da vovó para ver se estava tudo bem e mamãe tirava um cochilo. Amanhã iria para o seu consultório para abrir a boca dos seus pacientes. Elza apareceu toda molhada e fugiu culpada por entre as minhas pernas. Os jornais só falavam naquilo. Papai até comentou. Claro que eu vi. Todo mundo viu. E ainda via. Os EUA retaliariam. Mas eu não estava nem aí para a porra das torres nem para a porra da prova. O Bush circulava pela boca de papai e chovia lá fora. E o mundo era uma fumaça só, pensei. Bush vai atacar! Pitomba devia estar dormindo todo enrolado e Elza se lambia culpada, embaixo da pia. Os dois animais se respeitavam mais do que essas pessoas. Os terroristas haviam derrubado duas torres dentro dos EUA. Que coisa aquele homem caindo no vazio do espaço. E as imagens eram repetidas, repetidas e repetidas. Acho que Pitomba começou a entender tudo e se escondeu embaixo da cama. Ele costuma fazer isso quando vê alguma coisa ruim na televisão

A prova não deveria ser lá muito difícil. Mas antes, todos comentariam sobre o acontecido. Eu procuraria os olhos de Carminha, a minha melhor amiga e colega. O professor Chaves nos olharia e pareceria querer nos comer com os olhos, enquanto distribuía as provas pedindo silêncio. Mas ele não fazia nenhum silêncio tagarelando sobre o acontecido. No escritório e no consultório, Jorge e Miriam, meus pais, também falariam sobre o acontecido. Ele com aqueles papéis de advogados; ela com aqueles dentes de desdentados. Falariam com os clientes sobre o acontecido com os EUA.

domingo, 10 de outubro de 2010

Uma visão colonizada do índio

Jorge Bandeira*


A um historiador e humanista cabe a tarefa, neste século XXI, de desmistificar conceitos enraizados ao longo do processo histórico. E reinserir uma visão menos romântica e precipitada sobre aspectos étnicos e antropológicos sobre uma determinada temática. Minha escolha recai, naturalmente, aos condicionantes impostos à civilização indígena, seja a localizada na Planície Amazônica ou em outras partes de nosso Brasil. Estudos de longa data já foram feitos para alertar sobre um retorno desnecessário ao conceito de BOM SELVAGEM, notadamente os difundidos por Jean-Jacques Rousseau no século das luzes, o século XVIII. Afonso Arinos de Mello Franco foi um dos pensadores que alertou para equívocos sérios que eram perpetrados no imaginário do povo, numa visão que considerou simplista para qualificar os índios como “herdeiros do paraíso”.

Este texto não visa minimizar os terríveis fatos do choque de culturas, responsável direto pelo aniquilamento de diversas tribos indígenas no decorrer do processo “civilizatório” oriundo da colonização de nosso território. O grande pensador das culturas demonstra que esse ideário romântico foi forjado após o triunfo da Revolução Francesa de 1789, salientando que a base do pensamento revolucionário francês foi erguido graças à divulgação de ideias iluministas, das quais Rousseau foi um dos grandes expoentes.

A visão do “bom selvagem de Rousseau” pode ser definida como “sociedades perfeitas que possuíam um vínculo total com a natureza, pacíficas e dotadas de governos que não funcionavam com os rigores da autoridade citadina”. Arinos lembra que desde os mais antigos registros as civilizações indígenas foram sempre vinculadas a processos de conquista de territórios, saques, mortes, sequestros, violências e outras ações que as afastam de uma visão de pacifismo. As tribos indígenas foram surgindo como um processo não natural, mais de guerras e embates. Até hoje temos estes resquícios, quiçá a visão romântica de estudiosos que buscam no índio uma espécie de Adão perdido no vácuo civilizatório.

Em relação ao contato pós-conquista, é claro, os índios foram os perdedores, as vítimas de toda uma crueldade dos europeus que não se preocuparam em nenhum momento em ter os índios como parceiros no avanço cultural e social, impondo uma cultura a fórceps, e nisso resultou o extermínio de tribos em números alarmantes. E aqui entra a noção e conceito de NATURISMO, que não deve ser enquadrado automaticamente como uma condição da civilização indígena, pelo menos a partir dos estudos de etno-história pioneiros, realizados no final do século XX. Ora, o índio, primeiramente, é um ser humano, condicionado pela situação social, ou então voltamos ao século XVIII e consideramos o índio uma entidade abstrata, transcendental, com nenhum vínculo com a natureza, essa sim, transformadora, e que se mantém por uma condição infinita de construção e destruição.

Nesta visão científica não há lugar para este índio Bom Selvagem, pois ele é fruto destes anseios de conquista, de usurpação, que está perfeitamente inserido no processo civilizatório. A pureza é um mito, já alertava o poeta Torquato Neto. Por isso a figura do índio é facilmente colocada como um estereótipo fácil, levada como propaganda panfletária, o que torna o índio cada vez mais ridicularizado, passivo. Não creio ser esta atitude uma contribuição para os índios que restaram, pois a base de criticidade de tal atitude, notadamente as mais exacerbadas, não dignifica o passado desses povos.

Um índio não é, necessariamente, um NATURISTA, nos termos em que entendemos hoje o Naturismo. A relutância com a nudez está presente em todas as civilizações, inclusive a indígena. Infelizmente, esta visão simplória do índio nu e em perfeita harmonia com os seus e com a natureza tem esmagado e reduzido às cinzas a capacidade de atuação dos que entendem que este índio utópico deve ser erguido ao patamar dos estudos pioneiros dos etno-historiadores, que quebram a visão maniqueísta de todas as civilizações e sociedades, e fazendo, desta forma, que as acomodações ideológicas das doutrinas do Ocidente cristão, sejam postas à prova, estabelecendo um novo pensar sobre os índios. Se nosso índio hoje está relutante em ficar NU, a culpa cabe a esta estrutura colonial que foi vitoriosa, com os auspícios do Cristianismo.

O tempo não volta atrás. Cabe ao Naturista pensar em estratégias de inserir seu discurso a um povo que já deixou de ser, há muito tempo, aquele bom selvagem de antes da Revolução Francesa. Se é que esse índio um dia existiu, verdadeiramente.

*Naturista, um dos fundadores do Graúna, Grupo Amazônico União Naturista.
Vice-presidente da FBrN. Historiador e especialista em História social da Amazônia(UFAM) e Africanidades(UNB).

sábado, 9 de outubro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Emile Noordeloos.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A miragem elaborada – 5

Zemaria Pinto


O homem ocupa o espaço

IV


 
No livro Da noite do rio, Alcides Werk registra, num poema intitulado “Transamazônica”, sua ilusão temporária:

                    Largo caminho avançado,
                    avançando.
                    Pontes.
                    Ramais aproximando cidades.
                    Lavouras,
                    pecuária,
                    minérios,
                    riquezas incontáveis,
                    escolas,
                    hospitais,
                    indústrias,
                    trabalho e pão para todos.

O poema foi sumariamente retirado das 1ª e 2ª edições de Trilha Dágua, reaparecendo na 3ª edição com o título “Do tempo entre duas águas”, mantendo apenas, praticamente inalterados, os 15 primeiros versos, para então mergulhar em profundo delírio, trocando o prosaísmo que caracterizava a versão anterior por um lirismo amargo e cortante.

A água, o rio, a enchente; a terra, a floresta, a várzea; o homem, a cidade, o mito. Como se relatasse uma visão onírica, o poeta nos conta da enchente e seus transtornos, mas sem deixar de vislumbrar no fenômeno a força telúrica de uma transformação a ocorrer no próprio homem.

Logo nos primeiros versos, a partir de um dado suprarreal – a mãe-do-rio, “ente responsável pelos fenômenos do rio e pelo destino dos seres que o habitam”, segundo o próprio autor –, aquele fenômeno é descrito de forma concisa e voluptuosa:

                    A mãe-do-rio virá com suas águas poderosas
                    e inundará a várzea,
                    e cobrirá os jutais e os tapiris,
                    e invadirá os domínios da mata.

Note-se que a mãe-do-rio é, também, para o ribeirinho, do ponto de vista geofísico, a calha principal do rio.

A desilusão do caboclo frente ao acontecimento cíclico reafirma a desilusão com a atividade extrativista, primária:

                    Minha gente conhecerá, ainda uma vez,
                    o espanto da enchente
                    e a ilusão dos jutais e das lamas humosas

Mas as águas poderosas, fortes, destruidoras, trazem também, em seu bojo, a fertilidade. No acasalamento com a terra da várzea, a água se masculiniza, e a vida se reinventa, se refazendo:

                    Os peixes se multiplicarão nos igapós,
                    e o rio doará à várzea a fertilidade das águas.

Mas é a partir de uma ideia milenar – o começar uma nova vida após a destruição/purificação pelas águas – que o poeta atinge o máximo de sua expressão:

                    e se refugiará nas marombas
                    com seus animais
                    e as sementes de novas esperanças

Estas sementes não são apenas a esperança no amanhã, na aurora, no novo dia, mas sim, e principalmente, a esperança em que o próprio homem – cada homem, ilhado em sua arca/maromba – reflita sobre a necessidade de mudar-se. É sobre essa ideia que se desenvolve a segunda parte do poema, quando o poeta vaticina a desobstrução dos “canais dos nossos sonhos” (dentro da ambiência amazônica do poema, alusão longínqua, também, à obstrução dos canais, furos e braços de rios, nas enchentes, com matupás e canaranas, impedindo a navegação dos pequenos barcos dos ribeirinhos) por uma “força benéfica”, trazida no rebojo das águas poderosas. Aqui, a realidade é invertida numa visão utópica pela atividade daquela força benéfica:

• Ao contrário do que vemos no espaço da capital amazonense – a “urbe com suas indústrias e seu comércio”, capital da Zona Franca e da maior taxa de crescimento demográfico do país, consequentemente, capital da miséria –, o caboclo ao migrar para cá sonha em não viver num

                    amontoado de seres revoltados

• Renegando, definitivamente, a estrada miraculosa que engendrara a primeira versão do poema, o autor vê em sua utopia, “caminhos da várzea” e “caminhos da terra firme”, construídos pelo bom senso do homem, onde o seu trabalho não será mais consumido pelas águas. E as “florestas indomadas”, inacessíveis, serão apaziguadas e o subsolo terá seu “segredo milenar” desvelado – longe dos delírios megalômanos dos
governantes

                    sem enveredarmos por transamazônicas impossíveis

• O “espírito da cidade” e o “senhor da mata”, regozijados com o encontro do homem consigo mesmo, serão seu guia lá ou cá, enquanto a mãe-do-rio continuará sua faina fértil

                    e apascentará os cardumes
                    que alimentarão nossos filhos.

Essa mudança de valor na ideia de grandeza (águas destruidoras, negativo/água férteis, positivo) ilustra bem a observação de José Veríssimo, no seu Estudos Amazônicos, de que o caboclo conserva dos tupi-guaranis “a crença geral de que tudo tem uma mãe, o ci do servagem”. Assim, Werk antepõe à mãe-do-rio e ao senhor da mata, entes conhecidos do caboclo, o espírito da cidade, atuando na urbe com a mesma função daqueles: presidir seus fenômenos e o destino de seus habitantes.

Finalmente, completando a espiral que encerra o poema, o autor –por força da ação daqueles entes poderosos – une, no espaço da composição – o rio, a floresta, a cidade –, o sonho do “paraíso amazônico”, tão caro a uma poesia já perdida no tempo. No caso de Werk, entretanto, esse recurso não é mera retórica, posto que o perpetuar

                                                   o gesto simples
                    do amanho e da partilha justa

é consequência de uma mudança que não é produto de milagre, mas sim de uma mutação de comportamento e atitudes que ensejarão ainda muitas e muitas idas às marombas.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mario Vargas Llosa é o Nobel de Literatura 2010

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, 74 anos  autor de Panteleão e as visitadoras, A guerra do fim do mundo, Os cadernos de Don Rigoberto, Conversa na catedral, A festa do bode, Travessuras da menina má, entre outros –, vencedor dos prêmios Príncipe das Astúrias e Cervantes, junta-se à seleta lista de latino-americanos que venceram o Nobel de Literatura: Gabriela Mistral (1945), Miguel Ángel Astúrias (1967), Pablo Neruda (1971),  Gabriel Garcia Marquez (1982) e Octavio Paz (1990).


A Academia sueca, sempre acusada de favorecer autores de esquerda, premia desta vez um liberal à moda antiga.


Mas um puta escritor!

Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 5/11

João Bosco Botelho


Corte epistemológico separando os ritos de cura da medicina


Em contraponto aos ritos de curas – na maior parte, usados como meio de catequese das crenças e ideias religiosas –, as práticas médicas constroem e reconstroem na busca da materialidade da doença, desde o século 4, na Escola Medica de Cós, sob a liderança de Hipócrates, quando a teoria dos Quatros Humores, idealizada por Políbio, iniciou o processo para retirar dos deuses e deusas a primazia da saúde e da doença, compondo o primeiro corte epistemológico na busca da materialidade da doença.

Sem dúvida, a genialidade grega, entre os séculos 4 e 3 a.C., possibilitou a mudança radical e sem volta na busca da materialidade da doença.

A associação entre as ideias da Escola Médica de Cós, sob a liderança de Hipócrates, com a filosofia jônica, sem dúvida, possibilitou um avanço de dimensões gigantescas – a Medicina como paideia – estabelecendo a ponte que ligaria, para sempre, a busca da etiologia das doenças ao diagnóstico, tratamento e prognóstico.

Desse modo, a Medicina como paideia abriu o caminho para a dominação da medicina-oficial sobre a medicina-divina e medicina-empírica. É possível que, com esse objetivo central, os conceitos jônicos da natureza tornaram-se as principais medidas da medicina-oficial. As normas alcançaram os significantes das enfermidades entendendo-as como desvios da natureza e, em maior amplitude, mudança na physis do homem.

É possível compor cinco alicerces fundamentais da physis embutidos na Medicina como paideia:

– Como universalidade e individualidade: todas as coisas têm a sua physis própria, os astros, os ventos, as águas, os medicamentos, o homem com as suas partes e as doenças (Das Epidemias, distingue: “...a physis comum de todas as coisas, da physis própria de cada coisa”);

– Como princípio: a physis é o princípio (arkhé) de tudo que existe (Sobre os Lugares e o Homem, lê-se: “A physis do corpo é o princípio da razão da Medicina”).

– Como harmonia: na sua aparência e na sua dinâmica a physis é harmoniosa; é a ordem que se realiza com beleza. A natureza é harmoniosa e produz harmonia;

– Como racionalidade: a natureza é racional em si mesma. Por esta razão existe uma fisiologia; a ciência na qual o logos do homem se harmoniza diretamente com os logos da natureza;

– Como divindade: a physis é em si mesma divina.

É possível que esse caráter divino da physis estivesse transparecendo a necessidade de o senso comum manter a medicina-oficial ligada à medicina-divina e à medicina-empírica ou, sob outra perspectiva, não ser possível a completa separação entre as três medicinas.

Esse é um dos aspectos mais interessantes na Medicina, na Grécia, do século 4 a.C.: mesmo sem ataques aos deuses protetores da saúde, em especial, o deus Asclépio, os médicos de Cós e os filósofos estabeleceram elos duradouros entre o binômio saúde-doença com a natureza circundante, como está presente na introdução do manuscrito Dos Ventos, Águas e Regiões, de autor desconhecido, escrito no século 4 (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855. p. 1050):

“Quem quiser aprender bem a arte de médico deve proceder assim: em primeiro lugar deve ter presentes as estações do ano e os seus efeitos, pois nem todas são iguais mas diferem radicalmente quanto a sua essência especificada e quanto às suas mudanças. Deve ainda observar os ventos quentes e frios, começando pelos que são comuns a todos os homens e continuando pelas características de cada região. Deve ter presente também os efeitos dos diversos gêneros de Águas. Estas distinguem-se não só pela densidade e pelo saber, mas ainda por suas virtudes. Quando um médico chegar a uma cidade desconhecida para ele, deve determinar, antes de mais nada, a posição que ela ocupa em relação as várias correntes de ar ao curso de sol (...) assim como anotar o que se refere as águas (...) e a qualidade do solo (...) Se conhecer o que diz respeito à mudança das estações e do clima, o nascimento e o ocaso dos astros, conhecerá antecipadamente a qualidade do ano. Pode ser que alguém considere isto demasiadamente orientado para a ciência, mas quem pensar assim pode convencer-se, se alguma coisa for capaz de aprender, que a astronomia pode contribuir essencialmente para a Medicina, pois a mudança nas doenças do homem, está relacionada com a mudança do clima”.

As doenças deixaram de ser compreendidas sem método e passaram a compor parte da busca da etiologia. Esse é um dos pontos fundamentais da medicina-oficial grega, do século 4, marcando a união entre a filosofia jônica e os conceitos de saúde e de doença. Entre as muitas consequências é possível identificar:

– Cada doente ficou compreendido como um doente, diferente de todos os outros;

– Desaparecimento gradual da receita médica que valia para todos, como uma receita de bolo.

O centro de confluência dessa nova estrutura aproximou-se da teoria dos Quatro Elementos, do filósofo e médico Empédocles (495-435 a.C.). Segundo o magistral filósofo de Agrigento, os corpos são formados por quatro elementos eternos que permanecem em constante movimento: fogo, terra, água e ar.

Estava em curso, pela primeira vez, uma proposta teórica para explicar a origem das doenças, divorciada dos deuses e deusas. Toda e qualquer enfermidade seria consequência do desequilíbrio entre um ou mais elementos.

Como toda mudança profunda nos saberes, a passagem da medicina-divina e da medicina-empírica, ambas ametódicas, mais ou menos mágicas, para a medicina-oficial metódica, unindo o diagnóstico, prognóstico e o tratamento valorizando a busca da etiologia, encontrou resistência em muitos setores da sociedade grega. Para contornar esses estorvos, os médicos expunham, como os sofistas, perante o público, os problemas determinados pelas doenças que poderiam causar a morte e a dor fora de controles.

Não é demais repetir que Platão, sistematizou o pensamento corrente da época ao descrever a nova postura do médico e do político. Ambos, baseados nos respectivos saberes, deveriam sempre que necessário, intervir na sociedade para promover melhorias. O diálogo platônico estabelece alguns parâmetros da nova posição social do médico atuando como agente da Medicina como paideia no magistral Político (Planton. Oeuvres Complètes. Paris. Gallimard. Bibliothèque de la Pléiade. 1950. v.1, v.2.):

“Estrangeiro: — É interessante. Dizem, com efeito, que se alguém conhece leis melhores que as existentes não tem o direito de dá-las à sua própria cidade, senão se for necessário para promover melhoras na sociedade.

Sócrates, o Jovem: — Muito bem! Não estarão eles certos?

Estrangeiro: — Talvez. Em todo o caso, se alguém dispensa esse consentimento e impõe a reforma pela força, que nome se dará a esse golpe? Mas, espera. Voltemos primeiro aos exemplos precedentes.

Sócrates, o Jovem: — Que queres dizer?

Estrangeiro: — Suponhamos um médico que não procura persuadir seu doente; senhor de sua arte, impõe a uma criança, a um homem ou uma mulher o que julga melhor, não importando os preceitos escritos. Que nome se dará a essa violência? Seria por acaso o de violação da arte e erro pernicioso? E a vítima dessa coerção não teria o direito de dizer tudo, menos que foi objeto de manobras perniciosas e ineptas por parte de médicos que as impuseram.

Sócrates, o Jovem: — Dizes a pura verdade.

Estrangeiro: — Ora, como chamaríamos aquele que peca contra a arte política? Não o qualificaríamos de odioso, mau e injusto?”

A autoridade de Platão não foi suficiente para estancar as resistências dos curadores da medicina-divina e da medicina-empírica, que, muito mais numerosos do que os médicos de Cós, promoveram manifestações públicas contra a nova força da Medicina como Paideia junto ao poder político.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Victoria Frances.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A fragmentação das torres – 1

Marco Adolfs


Vovó Lucinda vê o Cristo Redentor


“O Cristo está luminoso hoje... Lindo...”

– Abra a janela um pouco mais...Quero ver melhor o Cristo do Corcovado...

Enquanto a empregada se dirigia até a janela para fazer o que ela lhe havia pedido, em um esforço íntimo de todos os dias, esperava entender o que o tempo lhe havia feito. Pois não existia nem mais um espelho que lhe mostrasse o contrário. Sua cabeça – se é que existia ainda uma –, tentava aprisionar o vento. A mente tentando abrir caminho no nada. Na verdade não existia mais sequer um comando. Só sonhos esparsos. Um sonhar constante de fragmentos. Tudo era nebuloso. Pois ao mesmo tempo, nada existia. Em lampejos, relembrava o passado distante. Mas como falar direito com aquelas pessoas, se as articulações também não respondiam mais ao seu comando. Balbuciar, talvez. Então o jeito era ficar ali. Sentada. Na maior solidão que um ser humano pode experimentar em vida. Ficar sentada em uma cadeira de balanço esperando o tempo passar. O corpo tombando de lado. Os lábios, que antes haviam beijado, reclamado e apascentado, agora parados, tombados. Sem coordenação motora. E o olhar? O olhar de um cão perdido. De uma criança perdida, melhor dizendo. E esperando. Esperando por uma misericórdia fatal que acabasse de vez com aquela história cruel de se deixar manipular por estranhos como se fosse novamente uma criança. E sempre esperando os dias e as horas passarem em direção à solução final que não chegava.

E quem eram afinal aquelas pessoas que arrastavam a sua pele pela casa? Para o banheiro? A limparem suas partes íntimas sem mais nem menos? E que lhe vestiam, rindo às gargalhadas da sua patetice; de suas caras e bocas de idiota. E ela ria também de tudo aquilo. Como uma pateta. Era quando ela voltava ao passado. Lembrando dos namorados mortos; esquecidos; levados pelo tempo. Mas era preciso voltar ao passado para se proteger. De alguma forma eles ainda existiam ali por perto dela. O passado sempre voltava. Começava de novo. Sua mente recorrendo aos mortos como se eles fossem vivos. E esse batom que ela nunca ousou usar quando mocinha? Agora com os lábios pintados. Depois de tanto tempo. Quem pintou? Sentia-se uma adolescente pronta para namorar de novo. Uma criança, às vezes. E quem eram todas aquelas pessoas que haviam aparecido sabe-se lá de qual lugar e a tratavam como criança? E se pudesse ver o que aconteceu com ela. Veria o quanto era espalhafatosa a sua vida agora. E ainda por cima fazendo aquilo que sempre teve vontade de fazer e reprimiu. Durante anos foi assim. Agora não. Voltara a ser adolescente A viver o passado que nunca vivera integralmente. Logo ela, que trabalhara para todos; como uma escrava; sem tempo para se divertir. Agora vivia de sonhos e devaneios de um tempo em que tudo e todos existiam. E o que eram aqueles dois edifícios tão altos que se desmantelavam naquela tela colorida por causa da batida daqueles dois aviões?

domingo, 3 de outubro de 2010

Eretz Amazônia - os judeus no teatro amazonense

Jorge Bandeira


O TESC apresenta mais uma produção teatral, num trabalho que praticamente emenda uma produção com outra, demonstrando fôlego na atualidade do Teatro Amazonense, elevando seu repertório, garantindo, desta forma, a continuação de sua jornada. Temos agora em Manaus a montagem de ERETZ AMAZÔNIA, dramaturgia de Márcio Souza, elaborada a partir de obra do importante pensador da economia amazônica, o saudoso professor Samuel Benchimol.

“Eretz” é um termo hebraico que remete, historicamente, aos caminhos e descaminhos do povo judeu à Terra de Israel, e não seria necessário lembrar neste pequeno artigo de crítica teatral que as andanças judaicas foram responsáveis pela formação de vários povos, entre eles, o brasileiro, e ERETZ insere esta importância aos rincões da Amazônia: de Belém a Manaus, a influência decisiva da cultura hebraica fincou raízes sólidas nestas ensolaradas paragens.

A incorporação dos elementos ritualísticos, de aspectos econômicos, do prosaico e de um certo humor judaico fazem de ERETZ uma peça didática e objetiva sobre os percalços desse povo na densidade calórica amazônica, e a densidade aqui refere-se não só ao clima tórrido, mas às atribulações dos judeus amazônidas, nas mais diversas categorias de inserção (ou não!) social. Márcio Souza soube tirar proveito do cabedal de reminiscências de Benchimol e colocou em palco um texto aprazível, com atores e atrizes percorrendo de forma eficaz este “túnel do tempo” que levou, leva e continuará transportando uma história feita de intensas lutas para fugir do preconceito e do racismo, o que infelizmente não acabou, visto que até hoje pensamentos antissemitas transitam feito um câncer que se espalha a partir do ódio e do rancor.

São sete sessões ou quadros, divididos em Celebração do Shabat, Na Solidão Amazônica, Vítimas da Migdal, A Vida de Regatão, Que Venga Los Otros, O Encontro dos Irmãos, Judeus Perdidos na Selva. Estes quadros, feito esquetes que se interligam pela narradora/cantora, soprano Carol Martins e sua bela voz, com o acompanhamento sempre eficiente da Banda do TESC, que preenche o espaço sonoro a partir de um praticável suspenso (mezzanino), o que dá um tom plástico muito bonito ao “teatrinho do SESC”, local que funciona de forma ininterrupta, com várias peças ao longo do ano. A música é charmosa e bem executada, o espanhol é escutado em sua dramaticidade, na língua falada pelos primeiros judeus que aqui aportaram, oriundos do Marrocos espanhol. Lembro aqui, aos fazedores teatrais, que Fernando Arrabal nasceu em Melilla, no Marrocos espanhol.

O processo histórico-religioso percorre ao longo da peça os anos de 1880, em pleno auge do extrativismo da borracha amazônica, até 2010, com um evento recente e de grande repercussão na imprensa local, quando membros de uma tradicional família judaica perdeu-se numa excursão, numa mata fechada e de difícil acesso, sendo resgatados depois de algum tempo em meio aos perigos da Floresta Amazônica, entre feras selvagens e mosquitos.

A maquiagem pesquisada por Franck Padilha é feita na medida exata para rompantes de sofrimentos, como na cena tocante do regatão judeu e sua querida esposa. O figurino de Denise Vasconcelos consegue projetar aos espectadores todo um conceito de vestimentas que são dinâmicas, como a passagem do tempo histórico, e não exagera ou amplifica nenhum adereço ou roupa de personagem, o que torna a encenação de Márcio Souza vívida nos aspectos do Teatro Realista.

O trabalho do elenco, de forma geral, é de uma limpeza cênica que somente se intensifica nos momentos de euforia ou confusão, ou mesmo nos silêncios de um sentimento de perda ou dúvida quanto ao papel de um determinado personagem. Aliás, esta angústia existencial, é outro mote esclarecedor do texto que se coloca em cena com muita precisão, lembrando a trajetória de um ilustre judeu, Franz Kafka. E os atores e atrizes desempenham suas funções sem apelos dramáticos desnecessários, e Márcio, mais uma vez, foge do lugar comum e não transforma seu ERETZ num panfleto feito de choro por um passado recente devastador aos judeus. Seu Teatro, perspicaz, foge deste viés e coloca os judeus em um plano de grande importância, e, o que é melhor, fragmenta os protagonistas em pequenas células histórico-teatrais, onde todo o povo judeu é contemplado dentro de sua diversidade.

É uma visão não fundamentalista do judaísmo, o que, em matéria de arte, muito nos enobrece, muito nos enriquece. A mensagem é SHALOM, a paz necessária, seja em qualquer religião deste planeta, em qualquer agnosticismo, inclusive. Lembro que nos anos 80, na ZONARTE do SESC, assisti deslumbrado ao trabalho da ISKON (Associação Internacional para a Consciência de Krishna) numa destas importantes mostras de Teatro, e assim como ERETZ, a centelha da diversidade religiosa tocou a muitos que assistiram ao ritual Hindu que tratava de uma de suas inúmeras deidades.

Por isso, ERETZ tem tanta importância em nossa cena atual, que nos aspectos da religião está contaminada de sectarismos, seja por um “teatro cristão de circunstância estética duvidosa ou mesmo por sandices e crenças absolutamente ultrapassadas e retrógadas, onde um Teatro vira um pastiche fútil na mão desses artistas que tem uma viseira de cavalo nos olhos, indo sempre numa direção maniqueísta de eliminar o diferente, e isso sim, creio que seria um nazismo teatral!”.

ERETZ faz a redenção do povo judeu sem precisar de um caçador de nazistas, um Simon Rosenthal; a força de sua encenação já é um tiro certeiro; é lírico, uma forma bem mais eficaz de levar a história do povo de Israel, o velho e bom Teatro feito com apuro, dedicação e pesquisa. E só, basta.

A cena final em que os perdidos na selva encontram ao “Rabino Santo” é um dos pontos altos de ERETZ, um momento onde o humor judaico transborda no palco, levando ao riso os espectadores, numa cena antológica que finaliza com uma piscadela, no fechar do olho esquerdo de um ator talentoso, o “Rabino-Santo Muyal, Emerson Nascimento”. Só faltou uma coisa em ERETZ, de quem senti falta: daquele baixinho de óculos, iluminando mais um vez a cena amazonense. Obrigado, Lázaro! Pronto, terminei este texto chorando...

sábado, 2 de outubro de 2010

Fantasy Art – Galeria

David Delamare.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A miragem elaborada – 4

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço


III



Mas como é difícil para esse Homem o retemperar-se: a leitura atenta do poema Amazônica mostra-nos a saga de um caboclo típico:

                    sem novidade
                    nasceu José
                    no tapiri.

Um bordado circular, em curtos versos de quatro sílabas – onde o antagonismo círculo X quadrado revela-se na formação daquele pela superposição infinita deste –, Amazônica é um tenso e cruel relato do cotidiano da região, ao longo de toda uma vida:

                     filho casado
                    morando ao lado
                    cheio de filhos
                    no mesmo estado
                    recomeçando.

A circularidade colocada de forma tão incisiva leva-nos a imaginar espelhos refletindo-se mutuamente, multiplicando uma única imagem ao infinito:

                    José espera
                    na beira dágua
                    no tapiri.
                    Como seus pais.

Como seu filho e os filhos de seu filho esperarão:

                    e a mãe-do-rio
                    de vez em quando
                    trazendo a enchente
                    que leva tudo.

“A vida é provavelmente redonda”, escrevera Van Gogh. Bachelard, ao citá-lo em A poética do espaço, inicia uma inebriante viagem rumo à certeza de que “o mundo é redondo em torno do ser redondo”. Para o
homem amazonense, sob a ótica de Alcides Werk, a vida é certamente redonda. José está velho, aposentado

                    doou seu sangue
                    para o futuro.

E o futuro era a estrada Transamazônica, sonho de redenção de tão curta existência que não passou mesmo de sonho, subproduto do “milagre brasileiro”, acalentado pela ditadura. José sonha que a estrada virá

                    com muita gente
                    nos caminhões
                    nos aviões
                    para rendê-lo
                    no antigo posto
                    que recebeu
                    dos ancestrais.

O posto de trabalhador que

                    cortou pau-rosa
                     juntou castanha
                    sangrou seringa
                    de sol a sol.

                    plantou mandioca
                    tratou da juta
                    todo molhado
                    por muitos anos.

                   Mas nada soube
                   de agricultura.

A monocultura extrativista, de caráter historicamente cíclico, do pau-rosa, da castanha, da borracha, da mandioca e da juta, tem mantido a economia amazonense no elo extremo da corrente de progresso que o país experimenta. Piscicultura é uma palavra que nunca fez parte da fala regional. Da mesma forma, as técnicas de agricultura e pecuária foram sempre mantidas distantes do caboclo, que nunca passou de mão de obra desqualificada, a serviço de coronéis que, sediados em Manaus, sonham com Paris. Ao homem resta crer que seu sofrimento é da “vontade de Deus”. Nesse sentido, a Zona Franca é um atalho para o paraíso.