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| The Oceans Daughter. Randy Asplund. |
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
Manaus, amor e memória XL
sábado, 7 de janeiro de 2012
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Uma análise do Eu – 8/13
Zemaria Pinto
Estilo de época: As cismas do destino – Assim como fizemos com o tema e os motivos, vamos procurar definir o estilo de época predominante nos poemas escritos entre 1906 e 1912, essência do Eu, a partir da análise de um dos poemas mais marcantes de Augusto dos Anjos: As cismas do destino. Dividido em quatro partes, composto de 420 decassílabos, foi publicado pela primeira vez em 1908. Leia-o. Melhor: releia-o. Note que esse poema iria ecoar em Monólogo de uma sombra e em Os doentes, escritos bem depois. Para facilitar o acompanhamento da análise, numere as 105 estrofes.
O “eu lírico” anda pela noite do Recife, rumo a uma casa funerária, a “casa do Agra”, a um velório, talvez. Ele pensa no destino, sobre o qual alguns crêem estar traçado desde antes de nascermos. Mas este destino deve ser entendido como o futuro. Para onde vou?, ele se pergunta, mas sua reflexão acaba por estender-se por sobre toda a humanidade. As imagens são simples e claras, porém a descrição parece exagerar a realidade: “assombrado com a minha sombra magra”; parece mesmo procurar deformá-la: “O calçamento... copiava a polidez de um crânio calvo”. Leia a terceira estrofe:
Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!
Observe o desenvolvimento das imagens: a sombra, que na primeira estrofe era magra, torna-se enorme, enchendo toda a ponte. E o “eu lírico” a vê como uma “pele de rinoceronte”, algo tão estranho, tão distante, estendida por sobre sua vida/ponte. A ponte, apesar de comprida, é finita. Assim como a vida.
Da quarta até a sétima estrofes, o “eu lírico” segue sua caminhada, envolto em seus pensamentos. Observe os elementos que se revelam nessas estrofes, a partir das expressões utilizadas: “ovo dos vícios animais”, “carvão da treva imensa”, “ar danado de doença”, “horda feroz de cães famintos”, “alma da cidade, profundamente lúbrica e revolta”, “berro da animalidade”. Essas combinações de palavras não se coadunam com a noite da capital pernambucana, mesmo há 90 anos atrás. Como o “eu lírico” percebe isso, então, senão através da deformação da realidade? E por que ele a deforma, senão para ver melhor o que não vê na superfície?
Da oitava estrofe até o fim da primeira parte, estrofe 28, temos uma sucessão de imagens que poderiam ser frutos de alucinações, mas que são apenas manifestações do estado de alma do “eu lírico”, feitas a partir da contemplação da paisagem noturna da cidade, mas não sem antes refletir sobre a função do escarro:
Porque, se no orbe oval que os meus pés tocam
Eu não deixasse o meu cuspo carrasco,
Jamais exprimiria o acérrimo asco
Que os canalhas do mundo me provocam!
Na segunda parte, o “eu lírico” continua a perseguir explicações para aquilo que a ciência não explica - o incognoscível. Mas o que lhe alimenta a reflexão é a visão da cidade noturna, e do que seus olhos e sua mente captam: “esqueletos desarticulados”, “divindades malfazejas”, “a camisa vermelha dos incestos”, “o apetite necrófago da mosca”, “almas pigmeias”, ladrões, bêbados, prostitutas. Mas tudo, enfim, acaba com a morte, seja na cidade, seja no “Engenho”:
Morte, ponto final da última cena,
Forma difusa da matéria imbele,
Minha filosofia te repele,
Meu raciocínio enorme te condena!
Repelindo a ideia de morte e desejando “fazer da parte abstrata do Universo” sua “morada equilibrada e firme”, o “eu lírico” é interrompido por uma “impressionadora voz interna”: o seu próprio destino.
Até aqui, leitor, podemos rejeitar qualquer aproximação do estilo de Augusto dos Anjos com qualquer daqueles estilos que o antecederam historicamente. Alguns historiadores ainda o situam como um simbolista tardio. Mas onde está o simbolismo nos poemas que analisamos? As cismas do destino, que é o nosso paradigma, não tem nada de simbolista. Recapitulemos: o “eu lírico” caminha pela cidade do Recife; inicia uma reflexão sobre o destino (ou o futuro), a partir do que ele observa na paisagem noturna; mas o que ele nos passa parece deformado, absurdo, grotesco; é assim que ele percebe a realidade; o único caminho vislumbrado é a morte; mas esta ele não aceita.
Na terceira parte do poema, o autor abre aspas para a expressão do Destino, da mesma forma como no Monólogo... as abrirá para a Sombra. São, por assim dizer, personagens dramáticos, que interferem com um nível de consciência bem superior ao do “eu lírico”. Observe que esse processo não tem nada de simbolista: num poema atrelado a essa estética, esses personagens seriam citados, mas não teriam ação, tampouco expressão verbal.
O Destino então lhe tira toda e qualquer esperança de entender o mundo, nem os “fenômenos alegres”, nem as “lágrimas hediondas”. Somente a dor é eterna. Para compreendê-la, ele, um mísero humano, teria que trazer em si toda a humanidade:
Porque, para que a dor perscrutes, fora
Mister que, não como és, em síntese, antes
Fosses, a refletir teus semelhantes,
A própria humanidade sofredora!
De certa forma, esse é o papel do poeta, melhor, é o papel do artista. Mas o Destino zomba do artista e enumera os fatos cotidianos que tornam impossível entender o mundo: leia, releia e leia mais uma vez, leitor, as estrofes 70 a 83. É um dos pontos mais altos da poesia brasileira. Lembremos algumas estrofes:
A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua
Que da ígnea flama bruta, estriada, espirra;
A formação molecular da mirra,
O cordeiro simbólico da Páscoa;
(...)
As pálpebras inchadas da vigília,
As aves moças que perderam a asa,
O fogão apagado de uma casa,
Onde morreu o chefe da família;
(...)
Os terremotos que, abalando os solos,
Lembram paióis de pólvora explodindo,
A rotação dos fluidos produzindo
A depressão geológica dos pólos;
(...)
E, (conquanto contra isso ódios regougues)
A utilidade fúnebre da corda
Que arrasta a rês, depois que a rês engorda,
À morte desgraçada dos açougues...
Na sequência da enumeração, o Destino ultraja o “eu lírico”: “poeta, feto malsão”, “última das criaturas inferiores”; para concluir, com desdém:
Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo
A apodrecer!... És poeira, e embalde vibras!
O corvo que comer as tuas fibras
Há de achar nelas um sabor amargo!
Na última parte, o “eu lírico”, ainda sob o influxo das cismas do seu destino, reflete. O retorno à realidade cotidiana após aquela experiência é avassalador: “o mundo resignava-se invertido”. Então, de que valem as ciências se há tanto por compreender? Ao chegarmos ao fim da nossa ponte/vida, o que teremos avançado no entendimento do universo?
O Estado, a Associação, os Municípios
Eram mortos. De todo aquele mundo
Restava um mecanismo moribundo
E uma teleologia sem princípios.
Eu queria correr, ir para o inferno,
Para que, da psiquê no oculto jogo,
Morressem sufocadas pelo fogo
Todas as impressões do mundo externo!
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
domingo, 1 de janeiro de 2012
sábado, 31 de dezembro de 2011
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Uma análise do Eu – 7/13
Zemaria Pinto
3) Estilo
Definir o estilo de época no qual Augusto dos Anjos se enquadra é assunto controverso. A maioria dos historiadores prefere colocá-lo naquele vácuo chamado Pré-Modernismo, que vai de 1902 a 1922. A data inicial marca a publicação de dois livros que não se enquadravam dentro do Realismo-Naturalismo, que já dava sinais de esgotamento: Os Sertões, de Euclides da Cunha, e Canaã, de Graça Aranha. Na poesia, entretanto, o Parnasianismo continuava fazendo sucesso, embora o melhor dessa escola tenha sido escrito nos últimos vinte anos do século XIX. Da mesma forma, O Simbolismo, embora mais timidamente, continuava a arrebanhar adeptos por todo o país, mas seu principal autor, Cruz e Sousa, falecera, aos 36 anos, em 1898.
Tendo produzido sua obra num período de transição, é natural que encontremos elementos herdados das escolas anteriores, mas, como veremos, é como antecipador do Modernismo que Augusto dos Anjos merece um lugar de destaque na história da literatura brasileira.
Ao datar a produção poética de Augusto dos Anjos, o professor Zenir Campos Reis tomou como base a época da publicação dos trabalhos em periódicos, ficando estabelecido que o que conhecemos do autor foi escrito entre 1900 e 1914. Assim, fica relativamente simples dividir a obra de Augusto dos Anjos em três fases: a primeira, de 1900 a 1905; a segunda, de 1906 a 1912; a terceira de 1913 a 1914.
Essa divisão leva em conta dois fatores: a temática dos poemas e a publicação do Eu. Os poemas da terceira fase foram produzidos após a publicação do Eu; logo, estão fora do escopo do nosso trabalho. Dos poemas da primeira fase, apenas 13 foram publicados na primeira edição: Vencedor, Vandalismo, Eterna Mágoa, A ilha de Cipango, Soneto I - A meu pai doente, Soneto II - A meu pai morto, Vozes de um túmulo, Barcarola, A árvore da serra, Mater, Insônia, Uma noite no Cairo, Solitário.
O que temos nessa lista, leitor? De tudo um pouco. Romantismo em A árvore da serra. Parnasianismo em Vencedor. Simbolismo em Vandalismo. O poeta procura caminhos. A estética da dor já se mostra afiada na melancolia com que ele se expressa e a degradação da humanidade mostra-se pela recorrência do motivo morte e pelos ambientes sombrios que ele retrata. Mas está longe ainda do poeta de Os doentes ou de Monólogo de uma sombra. Leia cada um dos poemas e constate o que dissemos. Como exercício, procure enquadrar os outros dez poemas dessa fase em um dos estilos citados, a partir do levantamento de suas características mais marcantes.
Na segunda fase, temos a produção dos outros 45 poemas do livro. Cronologicamente, o primeiro poema dessa fase é Queixas noturnas:
Quem foi que viu a minha Dor chorando?!
Saio. Minh’alma sai agoniada.
Andam monstros sombrios pela estrada
E pela estrada, entre estes monstros, ando!
A dicção mudou completamente. A estética da dor encontrou o seu tom:
Sobre histórias de amor o interrogar-me
É vão, é inútil, é improfícuo, em suma;
Não sou capaz de amar mulher alguma
Nem há mulher talvez capaz de amar-me.
O amor tem favos e tem caldos quentes
E ao mesmo tempo que faz bem, faz mal;
O coração do Poeta é um hospital
Onde morreram todos os doentes.
A escolha é clara. Não ao Romantismo, ao negar a possibilidade do amor. Não ao Parnasianismo, ao optar pelo sujo e pelo podre. Não também ao Simbolismo, ao optar por uma linguagem direta e objetiva, que parece criar imagens simbólicas, mas cuja apreensão é imediata.
O segundo trabalho dessa nova fase é o Poema negro, do qual transcrevemos a estrofe final:
Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos.
Com certeza, ele não faria mais versos como os que fizera até então. Por isso, antes de entrarmos nas considerações sobre qual o estilo predominante nesta segunda fase, transcreveremos o poema que seria, do ponto de vista cronológico de publicação, o terceiro, e que é, sem dúvida, o mais popular entre os poemas de Augusto dos Anjos, Versos Íntimos:
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Milênios de pessimismo estão diluídos nesse soneto, sobre o qual se criou a mística de ter sido escrito em 1901, quando o autor tinha apenas 17 anos de idade. Esse erro vem desde a primeira edição, mas é preciso que se diga que, pela temática, pelo tom e pelo domínio técnico, o mais provável é que seja mesmo de 1906, ano em que foi publicado pela primeira vez. Ou você acredita, leitor, que o poeta guardaria essa preciosidade na gaveta, por cinco longos anos?... Com ele, o poeta encontrava, definitivamente, o caminho para mostrar a degradação humana, pela estética da dor. A forma também se definia: nos poemas longos, como Queixas noturnas e o Poema negro, temos narrativas que misturam visões cotidianas com visões oníricas, prestando-se, de certa forma, à representação dramática; nos sonetos, o poeta concentraria reflexões mais imediatas, embora nem por isso menos contundentes.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Estelionato editorial
Zemaria Pinto
Precisando dar mais consistência a um texto, socorri-me do meu velho exemplar de A origem da tragédia (Lisboa: Guimarães, 1988), tradução de Álvaro Ribeiro. Mas assim como fiz há pouco tempo com o Zaratustra, resolvi que estava na hora de pegar uma edição mais nova, numa tradução mais “próxima” do original. Encontrei um volume numa velha livraria ali da 24 de maio. Uma edição brasileira, da Centauro, 2004. Olhei rapidamente o nome do tradutor na própria ficha bibliográfica, e, constatando que era outro, levei o livro.
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| A edição pirata, da Centauro. |
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| A 5a. edição, de 1988, original. |
Somente em casa percebi a fraude: os textos eram rigorosamente iguais. Um fenômeno borgeano, coisa de Pierre Menard.
Olhando com mais calma, vi que o livro novo tinha dois tradutores, um na ficha (Joaquim José de Faria) e outro logo acima (Peter Klaus Ivanov). O Faria aparece também como preparador de originais. E se na Ficha aparece como 5a. edição, mais acima registra-se 12a. edição.
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| A trapaça. Clique sobre a figura, para ampliá-la. |
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| O original. |
Pra não dizer que os textos eram iguais, algumas tônicas, que valiam para 2004, foram abrasileiradas e eventuais erros da tradução original (que remonta à década de 1950) foram corrigidos.
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| O capítulo 17: a palavra "absolvidos" não cabe no contexto |
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| O pirata corrigiu o erro original. |
Fala-se tanto em pirataria, mas o que rola no mundo das editoras é de estarrecer. O exemplo acima, depois soube, é um caso muito antigo. Tanto quanto as traduções da Martin Claret.
Quem quiser conhecer mais sobre os meandros escabrosos do mercado editorial brasileiro, leia o blog Não gosto de plágio da Denise Bottmann, tradutora e profunda conhecedora do assunto.
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Zemaria Pinto
domingo, 25 de dezembro de 2011
Manaus, amor e memória XXXVIII
sábado, 24 de dezembro de 2011
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Uma análise do Eu – 6/13
Zemaria Pinto
O sexto quadro mostra-nos os distantes “bairros da luxúria”, numa alusão à prostituição, explorada, então, com a discrição possível, na periferia das cidades. A visão que se tem é cruel: mulheres doentes, física e moralmente, degradadas ao extremo. Mas elas são vítimas também, e isso não escapa à percepção do “eu lírico”:
Talvez tivésseis fome, e as mãos, embalde,
Estendestes ao mundo, até que, à-toa,
Fostes vender a virginal coroa
Ao primeiro bandido do arrabalde.
O tempo passa, mas os problemas sociais, as feridas sociais, para usarmos a linguagem do nosso autor, continuam as mesmas. Às prostitutas, ele só vê redenção na morte, aqui simbolizada pelos ciprestes:
Prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes
Longe da mancebia dos alcouces,
Nas quietudes nirvânicas mais doces,
O noivado que em vida não tivestes!
No sétimo quadro, o “eu lírico” vaga “atabalhoadamente pelos becos”, onde tudo lhe lembra morte, luto, ruína. Interrompe seus pensamentos o barulho produzido pelos bêbados da cidade, que, falando línguas estranhas, a língua enrolada dos bêbados, reúnem-se na “promiscuidade das adegas”:
E a ébria turba que escaras sujas masca,
À falta idiossincrásica de escrúpulo,
Absorvia com gáudio absinto, lúpulo
E outras substâncias tóxicas da tasca.
Contrastando com a falsa alegria produzida pelos bêbados, surge, no ambiente fechado da taberna, um leproso, um morfético, que a norma culta recomenda, hoje, denominar hanseniano. Novamente, a ferida social aqui exposta é atualíssima: uma doença bíblica, erradicada por completo nos países desenvolvidos, é, ainda hoje, um dos tormentos da saúde pública brasileira. Aliás, o Amazonas, não nos esqueçamos disso, tem o maior índice de incidência de hanseníase do Brasil.
Naquele corpo deformado pela doença, o “eu lírico” vê o reflexo de toda a humanidade. A imagem, terrivelmente bela, tangencia a blasfêmia; mas, observe o adjetivo “negra”, leitor, qualificando a eucaristia; ele inverte, ou melhor, subverte o sentido original da palavra sagrada. É, na verdade, se pensarmos nesses termos, uma manifestação demoníaca, para sensibilizar “aquele povo de demônios”, os bêbados.
O fácies do morfético assombrava!
- Aquilo era uma negra eucaristia,
Onde minh'alma inteira surpreendia
A Humanidade que se lamentava.
O sonho do “eu lírico” personificava-se na figura daquele doente: um sonho “inchado, / já podre”, “palpável, / como se fosse um corpo organizado”. Para ele, o sonho acabara.
O cemitério descrito no oitavo quadro é um pesadelo de imagens bizarras, dignas de um contemporâneo filme B:
Os defuntos então me ofereciam
Com as articulações das mãos inermes,
Num prato de hospital, cheio de vermes,
Todos os animais que apodreciam!
No seu delírio, “afundado nos sonhos mais nefastos”, o “eu lírico” não perde a consciência social, apontando a opressão à raça negra:
Eu maldizia o deus de mãos nefandas
Que, transgredindo a igualitária regra
Da Natureza, atira a raça negra
Ao contubérnio diário das quitandas!
A referência comercial, o leitor deve estar atento, não é mais à escravidão, capítulo vergonhoso, já ultrapassado, mas sim à opressão sexual que as mulheres negras pobres sofrem. Leia com atenção as duas estrofes que antecedem a estrofe citada acima.
Essa consciência social, leitor, é pouco apontada em Augusto dos Anjos, reconhecidamente um conservador, do ponto de vista ideológico. Mas observe que, assim como em relação aos índios, o que poderia ser considerado um resquício romântico, também com relação às prostitutas e aos negros sua posição é muito clara. Infelizmente, e é preciso repetir isso diariamente, os versos de Augusto dos Anjos continuam cruelmente atuais, inclusive nas alusões à tuberculose e à hanseníase.
Ainda no oitavo quadro, na sequência da visão dos “corpos nus das moças hotentotes”, amanhece o dia, trazendo o “eu lírico” de volta à realidade objetiva. Mas, após aquela experiência, a realidade jamais seria a mesma.
O último quadro reafirma o que já fora dito pela Sombra no poema analisado anteriormente. Lembre-se que ela representa o desconhecido, o inexplicado. Pois bem, Os doentes começa com uma afirmação do “eu lírico” de que “tentava compreender... as substâncias vivas” que a ciência não compreendia. Depois daquela experiência alucinante, ele reconhece-se vencido:
O inventário do que eu já tinha sido
Espantava. Restavam só de Augusto
A forma de um mamífero vetusto
E a cerebralidade de um vencido.
Observe como o “eu lírico” se nomeia como o próprio poeta. Mas não se engane: as experiências do poema foram “vividas” por um personagem, que nós, insistentemente, chamamos de “eu lírico”, e não de Augusto dos Anjos. Na sequência, ele entende que tudo aquilo que fora vivido com tanta intensidade à noite, como um sonho macabro, à luz do dia apresenta-se, sem quaisquer subterfúgios fantásticos, como a desagregação da humanidade como ele a via para o surgimento de uma outra, inteiramente renovada e sem vícios:
A ruína vinha horrenda e deletéria
Do subsolo infeliz, vinha de dentro
Da matéria em fusão que ainda há no centro,
Para alcançar depois a periféria!
(...)
A doença era geral, tudo a extenuar-se
Estava. O Espaço abstrato que não morre
Cansara... O ar que, em colônias fluidas, corre,
Parecia também desagregar-se!
“O gênio procriador da espécie eterna” falhara e falira. Mas o “eu lírico”, “uma sobrevivência de Sidarta”, o Buda, na “filogênese moderna”, isto é, na história da evolução das espécies, sente nascer-lhe n’alma, “o começo magnífico de um sonho”: uma “outra Humanidade”, composta pelos descendentes dos que não se deixam adoecer, dos que acreditam que “contra a Arte, oh! Morte, em vão teu ódio exerces!”
Entre as formas decrépitas do povo,
Já batiam por cima dos estragos
A sensação e os movimentos vagos
Da célula inicial de um Cosmos novo!
O letargo larvário da cidade
Crescia. Igual a um parto, numa furna,
Vinha da original treva noturna,
O vagido de uma outra Humanidade!
A conclusão a se tirar deste magnífico poema, depois que identificamos o tema principal a partir da leitura do Monólogo de uma Sombra (e constatamos que ele está aqui, por inteiro), beira a simplicidade: a evolução não tem limites e aplica-se a todos os campos da experiência humana, por isso os vencidos serão sempre substituídos pelos mais fortes. E essa força não é física: antes, é moral. São os que se deixam vencer pelos vícios e pelas próprias fraquezas, são os incapazes de lutar que fazem parte dessa humanidade doente. Mesmos os humilhados, os derrotados fisicamente (como os índios e os negros, na concepção de Augusto dos Anjos), podem redimir-se pela luta, mostrando que são, moralmente, eticamente, superiores aos seus algozes - estes, sim, doentes.
A partir da leitura de Os doentes, ilustramos o uso dos principais motivos ou recorrências da poesia de Augusto dos Anjos: vencidos, cidades, doenças, morte, cadáveres, cemitérios, vermes e micróbios. A leitura dos demais poemas poderá comprovar o que afirmamos. Para começar, são indispensáveis Psicologia de um vencido, Idealização da humanidade futura e O deus-verme.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
TENÓRIO TELLES – VIDA, LIVROS E LEITURA
A vida se faz de momentos – e cada etapa da caminhada cumpre o seu ciclo. O que importa em tudo é desempenhar com entusiasmo e verdade as tarefas e responsabilidades que nos cabem na existência.
Cioso do papel que cumpri, nos últimos 15 anos, na coordenação editorial da Valer Editora, ajudando a promover a cultura do livro e o prazer da leitura no Amazonas, venho a público comunicar meu afastamento da função de editor responsável dessa importante casa de livros.
Motivado pelo desejo de contribuir com o processo de construção do conhecimento, dediquei-me ao desafio de popularizar o livro e sensibilizar a sociedade para a importância da leitura na formação das crianças e dos jovens. O resultado desse trabalho foi a publicação de mais de 700 títulos de autores principalmente regionais, além de várias iniciativas concebidas com o mesmo objetivo, como exemplo a Quarta Literária, o Flifloresta, Encontros de Escritores, a criação do Clube Literário do Amazonas – Clam e a idealização de várias coleções de livros publicadas pela Editora Valer.
Neste momento de despedida, não poderia deixar de agradecer à imprensa pelo apoio dado a essas iniciativas, aos escritores que confiaram seus trabalhos à Editora, à equipe de jovens do corpo editorial que tornou possível a realização desse sonho, aos amigos que nos apoiaram nos momentos difíceis e, muito especialmente, aos leitores – objetivo de nosso esforço e os grandes responsáveis por termos chegado até aqui.
Assim me despeço – com gratidão e o sentimento de que fiz a minha parte na luta pela construção de uma sociedade de seres humanos esclarecidos e de um mundo mais tolerante e civilizado.
| Tenório Telles, uma revolução no mercado editorial do Amazonas. |
A vida se faz de momentos – e cada etapa da caminhada cumpre o seu ciclo. O que importa em tudo é desempenhar com entusiasmo e verdade as tarefas e responsabilidades que nos cabem na existência.
Cioso do papel que cumpri, nos últimos 15 anos, na coordenação editorial da Valer Editora, ajudando a promover a cultura do livro e o prazer da leitura no Amazonas, venho a público comunicar meu afastamento da função de editor responsável dessa importante casa de livros.
Motivado pelo desejo de contribuir com o processo de construção do conhecimento, dediquei-me ao desafio de popularizar o livro e sensibilizar a sociedade para a importância da leitura na formação das crianças e dos jovens. O resultado desse trabalho foi a publicação de mais de 700 títulos de autores principalmente regionais, além de várias iniciativas concebidas com o mesmo objetivo, como exemplo a Quarta Literária, o Flifloresta, Encontros de Escritores, a criação do Clube Literário do Amazonas – Clam e a idealização de várias coleções de livros publicadas pela Editora Valer.
Neste momento de despedida, não poderia deixar de agradecer à imprensa pelo apoio dado a essas iniciativas, aos escritores que confiaram seus trabalhos à Editora, à equipe de jovens do corpo editorial que tornou possível a realização desse sonho, aos amigos que nos apoiaram nos momentos difíceis e, muito especialmente, aos leitores – objetivo de nosso esforço e os grandes responsáveis por termos chegado até aqui.
Assim me despeço – com gratidão e o sentimento de que fiz a minha parte na luta pela construção de uma sociedade de seres humanos esclarecidos e de um mundo mais tolerante e civilizado.
Manaus, 22 de dezembro de 2011
Tenório Telles
A beleza é para ser roubada
Deus pôs a beleza no mundo para que fosse roubada. Afinal de contas, o roubo é um ato de admiração pelo objeto furtado e anda mais próximo do heroísmo que a civil e tranquila fruição ao amparo das leis.
(Ortega y Gasset, a propósito do roubo da Mona Lisa, em 1911.)
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| José Ortega y Gasset (1883-1955), por Ignacio Zuloaga. |
(Ortega y Gasset, a propósito do roubo da Mona Lisa, em 1911.)
Artistas e lideranças indígenas promovem marcha pela vida
Hoje, 22 de dezembro, será a vez do Estado do Amazonas fazer ecoar seu grito de guerra contra Belo Monte. Um grupo formado por artistas, professores, estudantes, intelectuais e lideranças indígenas estará realizando, a partir das 17 horas, a Marcha pela Vida, saindo do centro histórico de Manaus e percorrendo algumas ruas da cidade. A intenção é chamar a atenção da população sobre a construção da hidrelétrica no rio Xingu, nas proximidades da cidade de Altamira, no Pará.
“A hidrelétrica nos incomoda em tamanho, falta de transparência dos recursos empregados e perda da biodiversidade”, revela a jornalista e escritora Regina Melo, que considera a obra um acinte ao bom senso. “Não é apenas a questão de Belo Monte que nos incomoda, mas as medidas que vêm sendo tomadas com riscos ambientais irreversíveis. O Brasil está dando passos para trás”, disse a jornalista, que encampa o movimento.
Fazem coro a essa inquietação e insatisfação contra Belo Monte, o diretor Nonato Tavares e a atriz Koia Refkalefski, ambos da Companhia Vitória Régia. Eles enfatizam a importância de assumir uma postura de luta em defesa da vida, contra os que agridem a natureza. O artista plástico Zeca Nazaré também é um dos que se juntaram ao grupo para realizar o movimento em defesa da vida, pois considera importante apoiar esse tipo de manifestação.
“Não podemos aceitar passivos que decidam por nós os nossos destinos”, argumentou o ator e representante indígena, Fidélis Baniwa, que se posicionou contrário a essa forma de se conduzir o desenvolvimento do país. Sônia Guajajara, líder indígena e vice-coordenadora da COIAB, disse que “defender a floresta é defender os direitos da humanidade”. Para João Machado, Daniel Pìra-Tapuia e André Tukano, “todos serão afetados com a hidrelétrica, não apenas índios e caboclos”.
A concentração da marcha será no Paço Municipal (antiga prefeitura), de onde partirá em passeata em direção à Sete de Setembro, até o final da Eduardo Ribeiro, onde ocorrerá um show com a presença de vários artistas. Durante a passeata, diversas lideranças locais estarão se posicionando a respeito das situações que hoje movimentam o debate ambiental em Manaus e em todo o país.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Lançada a candidatura de Alfredo Nascimento à AAL
Em solenidade realizada no último sábado, o presidente da Academia Amazonense de Letras, desembargador José Braga, referiu-se aos três ex-ministros de estado e acadêmicos presentes – Almino Affonso, Bernardo Cabral e Arthur Virgílio – como o “orgulho da nossa Academia”. Para esse orgulho ser completo, digo eu, está faltando alguém: o inopinável, o inoxidável, o inchicanável, o inclassificável Alfredo Nascimento!
Está lançada a candidatura de Alfredo Nascimento à AAL. Ministro por ministro, ele ficou mais tempo no cargo: quase 7 anos, nos governos Lula e Dilma, contra os efêmeros 5 meses de Affonso (governo João Goulart), 7 meses de Cabral (governo Collor) e 6 meses de Virgílio (governo FHC).
Outro ponto a favor de Nascimento é no quesito oratória. Se Affonso, Cabral e Virgílio são capazes de sustentar um discurso por horas a fio, só no improviso, Nascimento faz o gênero vaptvupt: uma oração de mais de 10 palavras perde totalmente o sentido na sua fala cheia de objetividades subjetivas. Citações cultas – típicas do barroco Affonso – não são com ele: orador popular, diz 3 palavrões, dá um soco na mesa, e transmite o seu recado de forma clara e contundente. Escreveunumleu...
Aviso à praça: é o meu candidato para a próxima vaga a ser aberta na AAL (desde que não seja a minha, claro).
domingo, 18 de dezembro de 2011
Manaus, amor e memória XXXVII
sábado, 17 de dezembro de 2011
Academia Amazonense de Letras tem novo presidente
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Arlindo Porto, 82, venceu com ampla vantagem a eleição para o biênio 2012-2013. Representante do grupo que domina a AAL desde 1996 – excetuando-se o intervalo 2004-2007, quando foi presidente Elson Farias –, Arlindo Porto deve manter a Academia voltada para si mesma, sem contato real com o público externo, que tende a vê-la como uma espaçonave oriunda de outra galáxia.
Resultado esperado, a surpresa ficou com o discurso contundente do Escritor (com maiúscula, um dos poucos entre os 38 membros atuais) Aldisio Filgueiras, fazendo ver ao grupo que se pretende hegemônico que há, sim, insatisfação entre os acadêmicos. Aldisio não titubeou em classificar como fascista essa hegemonia forçada.
Lembro o sábio Nelson Rodrigues: “toda unanimidade é burra!”
A posse ocorrerá nos primeiros dias de janeiro.
A posse ocorrerá nos primeiros dias de janeiro.
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