Amigos do Fingidor

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Novas tecnologias na medicina


                                                                                                            João Bosco Botelho


 

            Os últimos cinquenta anos marcaram a Medicina pelos extraordinários avanços nas tecnologias com o objetivo de melhor compreender a micro e a macroestrutura dos corpos vivos.

A maior parte desse instrumental tecnológico está voltada ao aperfeiçoamento das imagens:

1. Das formas e funções dos segmentos corporais obtidas na macroscopia, isto é, vísivel aos olhos desarmados:

− Congeladas num tempo-espaço definido, como as produzidas pelos RX, ultrassom, tomografia computadorizada, pet scan, ressonância magnética, isótopos e isóbaros;

− Obtidas na dinâmica viva dos tecidos, em tempo real, por meio das endoscopias.

2. Das formas e das funções dos organismos microscópicos, das células e moléculas, na microestrutura, respectivamente, por meio dos microscopios óticos e microscópios eletrônicos.

Os conjuntos que interligam as imagens à microestrutura e macroestrutura dos corpos produziram as âncoras tecnológicas que mudaram as concepções do diagnóstico, da terapêutica e do prognóstico, por meio de:

- Terapêutica genética;

- Órgãos artificiais;

- Neuropróteses;

- Inteligência artificial.

A medicina ainda está longe do maior objetivo: alcançar as dimensões da confluência entre a massa e a energia, na estrutura atômica, provavelmente, onde superaremos o paradoxo que atormenta os pesquisadores: em qual dimensão da matéria o normal se transforma em doença (se é que existe o normal e a doença como os concebemos hoje).

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Fantasy Art - Galeria

The confessional.
Dorian Cleavenger.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O sonho


Inácio Oliveira


O que eu vou contar é coisa que nem a mais prodigiosa das imaginações humanas poderia conceber, o que por si só já prova a veracidade desta história. Cheguei a Manaus no dia quinze de julho de 2010, como muitos que vieram para esta cidade eu também viera para trabalhar no Distrito Industrial. Havia me formado em engenharia da produção dois anos antes em São Paulo, mas não conseguia emprego. Em São Paulo o mercado é por demais competitivo e a crise financeira dificultava as contratações. Agora que a crise arrefecera eu tentava a sorte em Manaus, aqui faltavam engenheiros, eu podia conseguir um bom emprego, ganhar dinheiro e construir uma carreira. No início muitas coisas me intrigaram nesta cidade: suas ruas labirínticas e seus igarapés soterrados, sua gente e sua miséria em contraste com indústria ininterrupta, sua arquitetura irregular e a nostalgia de um passado glorioso do qual restaram apenas vestígios, a ideia de uma grande cidade incrustada na floresta me parecia fascinante, mesmo assim eu ainda não tivera tempo de conhecê-la melhor, o que eu sabia fazia parte do trajeto do aeroporto até o hotel, mas tudo começou na primeira noite em que estive aqui. Esta história inicia-se com um sonho.

Estou sozinho entre várias ruas estreitas que se bifurcam, algumas parecem feitas de pedra. Prédios antigos estão erguidos por todos os lados, alguns em ruínas. Ninguém passa pelas ruas, nem parece haver alguém morando nos prédios, ou então todos dormem, o silêncio é completo, é possível ouvir o som dos meus próprios passos pisando nas pedras. Curioso que todas as ruas e prédios estão em preto e branco como num filme antigo, até as lâmpadas nos portes são brancas contra o fundo escuro da noite, no entanto tudo parece nítido e absurdamente real, os prédios são identificáveis com seus detalhes em art nouveau, as placas podem ser lidas facilmente: vendem-se eletrodomésticos, eletroeletrônicos, ar condicionados, DVD, TV de LED, promoção, 12 vezes sem juros no cartão de crédito. Apesar de nunca ter estado em lugar semelhante tenho a certeza que isto é Manaus. Caminho lentamente pelas ruas, não há um único movimento, nenhum barulho, até que surge uma mulher a poucos metros de mim, como estamos sós na rua ela parece muito distante, mas eu posso perceber que ela está descalça e usa um vestido vermelho pouco acima do joelho, levemente decotado deixando ver o início dos seus seios. Esta mulher com seu vestido vermelho é a única coisa colorida na paisagem monocromática, do seu vestido parece emanar uma ínfima luz que ilumina ao seu redor como a última centelha de uma fogueira. Ela possui uma beleza incomum, sua pele é de um moreno indefinível e seus olhos são negros, mais negros que noite que nos rodeia, ela me estende a mão e vai dizer alguma coisa, neste instante eu acordo.

Geralmente nunca lembro direito dos sonhos depois que acordo, mas este me deixa a estranha sensação de ter vivido uma experiência real. Chego a me aborrecer por ter acordado antes daquela mulher dizer alguma coisa. O que ela me diria? Este sonho me dá uma leve satisfação em consolo ao incomodo de se estar sozinho numa cidade estranha e distante, longe de tudo, neste clima abafado e insuportavelmente quente; este sonho me permite pensar que Manaus talvez possa ser a cidade de grandes aventuras das quais precisa minha vida. Grandes expectativas tomam forma no meu pensamento, no fim tudo se condensa numa mulher descalça usando um vestido vermelho.

Travei contato com uma empresa japonesa e há uma grande chance deles me contratarem. Mais um dia em Manaus e eu posso perceber que a cidade não é tão exótica quanto eu imaginara. É noite e eu não tenho para onde ir, me resta apenas conhecer algum restaurante por perto e voltar para o hotel. Tento dormir e não consigo, aqui tenho sempre a sensação de estar submerso. Penso no sonho que tive noite passada, na verdade pensei neste sonho várias vezes durante o dia, ao dormir sonho com ela novamente.

Estamos no mesmo lugar da última vez. Ela caminha na minha frente e eu a sigo, percebo novos detalhes do local: prédios com portas estreitas e compridas, grandes fechaduras as mantêm fechadas, vasos sem nenhuma planta se precipitam nas sacadas, paralelepípedos formam as ruas, anúncios de novos produtos: celulares, vídeo games e computadores, encravado no chão o velho trilho de um inexistente bondinho; cada vez mais a paisagem se tinge de um anacronismo impossível. Agora já é possível distingui algumas cores, alguns tons de verde e cinza como se estivesse prestes a amanhecer. Ela para sob a luz mais forte da rua, estamos tão perto que no negro dos seus olhos posso ver espelhado o meu rosto, ela me olha e diz alguma coisa que não entendo, eu digo.

– Amanhã quando eu acordar vou te procurar pelas ruas desta cidade.

Acordo e me surpreendo com minhas próprias palavras neste sonho, como se isto fosse uma promessa e agora eu tivesse que cumprir uma promessa feita num sonho. Isto é absurdo, eu sei, mas esta mulher ganha existência e corpo palpável no meu pensamento, agora eu sei a exata expressão dos seus olhos e até posso sentir seu hálito quente na madrugada de Manaus.

Pela manhã procuro reconhecer a mulher do sonho no rosto das mulheres que encontro no café do hotel, nas ruas, olhando pela janela dos táxis, no restaurante. Procuro alguma semelhança da mulher de vestido vermelho nas mulheres com as quais converso, talvez elas se pareçam, mas eu sei que nenhuma delas é ela. Sei que se o seu rosto aparecer por um segundo que seja no meio desta multidão eu a reconhecerei imediatamente, mas esta mulher não existe, ela é apenas um sonho. Certa vez li alguma coisa sobre de que são feitos os sonhos, mas não lembro agora o que o autor queria dizer. Estou de frente para o Teatro Amazonas, pessoas de todas as partes do Brasil, algumas de outros lugares do mundo passam pelo largo, a noite cai, sento-me em um dos bancos e espero a mulher de vestido vermelho pisar com seus pés descalços nas pedras-sabão do largo, mas ela não vem.

Cansado, volto ao hotel e durmo quase imediatamente, sonho mais uma vez com esta mulher. Agora eu posso ouvir sua voz e entender o ela diz.

– Não demore que o tempo é curto e eu estou te esperando.

Eu vou tocar o seu corpo e neste momento ela desaparece numa rua escura e sem saída, eu fico sozinho na rua abandonada e o meu sonho se enche de tristeza.

Já não consigo pensar em outra coisa a não ser nestes sonhos. Penso que devo estar ficando louco quando imagino que a mulher possa estar do outro lado da porta, devo abrir a porta e pedir que ela entre, mas sei que ela não está lá fora, ela não está em lugar nenhum. Agora é tarde, o desejo irracional e absurdo de encontrar uma mulher que não existe se apossa da minha vida.

É domingo, caminho por todas as ruas tentando encontrar a mulher, na Avenida Eduardo Ribeiro há um aglomerado de pessoas, alguém me diz que é uma feira que acontece todos os domingos. Barracas de café regional e de artesanato estão espalhadas por todos os lados. Milhares de mulheres, nenhuma está descalça usando vestido vermelho.

Entardece em Manaus, as ruas do centro pouco a pouco se acalmam. Perdi a direção para onde fica o hotel, de repente me vejo vagando sozinho por uma rua deserta, ratos surgem por um esgoto entreaberto. Sei que se eu continuar andando vou encontrar o caminho de volta para o hotel, mas imagino que a mulher possa surgir em uma dessas ruas como num sonho. Prédios antigos estão erguidos por todos os lados, alguns em ruínas. Ninguém passa pelas ruas, nem parece haver alguém morando nos prédios, silêncio, é possível ouvir um barulho de música ao longe. Todas as lojas estão fechadas, mas as placas e os letreiros continuam nas ruas. Caminho lentamente, não há um único movimento, nenhum barulho, até que surge uma mulher a poucos metros de mim, como estamos sós na rua ela parece muito distante, mas eu posso perceber que ela está descalça e usa um vestido vermelho pouco acima do joelho, levemente decotado deixando ver o início dos seus seios. É ela, eu sei, sei que ela existe. Ela me estende a mão e diz – vem. Meus passos vacilam e meu coração se perturba, mas eu sei que a melhor maneira de se livrar de uma obsessão é se entregando a ela, completamente.

Estamos numa sala abandonada que um dia parece ter sido um escritório ou uma loja, paredes brancas desbotadas, ramos de ervas crescem pelas infiltrações. A mulher faz um movimento com o corpo e o seu vestido escorrega até o chão, ela sai de dentro dele como se saísse de dentro de um casulo ou de uma concha. A luz quase apagada do teto reflete sobre seu corpo nu, ela se aproxima pega a minha mão e a coloca sobre o seu ventre, palpitações são transmitidas neste contato e o meu corpo estremece. Minhas mãos se precipitam pelo suave relevo do seu púbis, sinto o seu sexo úmido como orvalho, ela entreabre os lábios num murmúrio e eu sou tomado de uma força desconhecida.

Sem saber direito como tudo aconteceu acordo pela manhã no meu quarto de hotel, esta é a quarta noite que passei nesta cidade e a primeira que não sonhei com ela. Agora o cheiro do seu corpo está impregnado no meu, embora eu não saiba seu nome e não conheça sua história me sinto ligado de alguma forma misteriosa a essa mulher. Preciso vê-la mais uma vez, não entendo o que tudo isso significa. Tudo parece tão surreal, mas é como se eu começasse a viver verdadeiramente naquele encontro, como se tudo que aconteceu antes na minha vida fosse apenas um ensaio, uma longa preparação para aquele momento, alguma coisa vital e terrível me fora transmitido por esta mulher.

Volto ao local do encontro, as lojas já abriram e uma pequena multidão se forma na entrada da sala onde a encontrei. Peritos do IML recolhem num caixa vazada o corpo de uma mulher, ela esta descalça e usa um vestido vermelho, meu sonho vira pesadelo. Num gesto inconsequente tento me aproximar e sou detido por um policial. – você conhecia esta mulher? Ele pergunta. – Sim, não. Eu digo atordoado. – Conhecia ou não conhecia? O meu desespero encoraja a sua arrogância, ele me pega pelo braço e faz outras perguntas. Digo a ele que estive com essa mulher ontem à noite, mas eu não sei o seu nome. – Eu não sou daqui, ontem foi a primeira vez que vi essa mulher, eu sonhava com ela. O que eu digo não faz sentido, mas ele me olha e vê alguma coisa na minha cara que faz com que acredite em mim, pega meu contato e diz que serei chamado para depor. Volto para o hotel achando que o mundo é um lugar hostil, perigoso e sem sentido.

No dia seguinte recebo uma intimação para depor. Não sei como a mulher morreu, ela pode ter sido assassinada, talvez eles desconfiem de mim. O que eu vou dizer a eles? Penso no meu pai me ameaçando e dizendo que eu não sei me defender. Estou confuso, penso em fugir. Na delegacia, um delegado gordo com ar de enfado pede que eu sente numa cadeira em frente a sua mesa. Ele examina alguns papéis, parece não dar nenhuma importância ao caso. Estou nervoso, mas ele nem percebe. – Você disse que esteve com a mulher uma noite antes de encontrarmos o corpo, como foi?

– Era domingo, as ruas estavam vazias, eu perdi o rumo do hotel. Encontrei a mulher na entrada daquela sala. (Pensei em dizer que sonhei com ela três noites seguidas antes de encontrá-la, mas não falei nada. Ninguém acreditaria nesta história.)

O delegado tirou de um envelope pardo duas fotografias, pôs sobre a mesa e empurrou para mim. – Tem certeza que foi essa a mulher que você encontrou domingo à noite? Olhei para as fotografias, em uma delas aparecia o rosto de uma mulher, um rosto desbotado como de um retrato antigo, mas vi no canto esquerdo da foto a data impressa automaticamente, 18-07-2010; noutra aparecia o corpo inteiro, o vestido vermelho em contraste com o cadáver parecia ainda mais vermelho. – eu jamais esqueceria este rosto, encontrei esta mulher noite passada quando caminhava por aquela rua, depois não lembro o que aconteceu. Eu ia acrescentar mais alguma coisa, pois eu estava me comprometendo, mas ele me interrompeu. – Olha aqui, meu rapaz, nós não gostamos de brincadeiras aqui. Você deve estar confuso, eu entendo, mas é impossível que você tenha se encontrado com esta mulher ontem à noite, pois esta mulher já estava morta a mais de três dias. Os dados do legista confirmam a data da morte e pelo estado do corpo podemos facilmente perceber que ela morreu já faz algumas dias, aliás aquela é uma sala abandonada, só foi possível encontrar o corpo pelo mal cheiro que os camelôs sentiram. Agora volte para seu hotel e pare de se aventurar sozinho à noite por ruas escuras.

O delegado não disse o nome da mulher. Continuo sem saber o seu nome e sem conhecer a sua história. Talvez ela tivesse uma família, um filho ou um amante, eu nunca saberei. Alguma coisa profunda se fez em mim, não compreendo o que aconteceu, nem procuro compreender. Apenas fecho os olhos e vejo a mulher sair de dentro do vestido, seu corpo feito de sonho e desejo se confunde com o meu e eu sinto aquilo que deve sentir um homem confrontado em seus limites.

 

 

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic
 

 

ra       terra       ter
rat       erra       ter
rate       rra       ter
rater       ra       ter
raterr       a       ter
raterra             terr
araterra            ter
raraterra           te
rraraterra           t
erraraterra
terraraterra
 

perguntamos: seria contraditório se o Leitor - convencionalmente grafado com L maiúsculo quando nos referimos à Poesia Concreta - permanecesse no campo da evidência, da constatação pura de que se trata de um arranjo matemático de letras e/ou Espaços em Branco (EB), de tal forma que se tem a impressão de ‘campo lavrado’, ‘cavado’, ‘aterrado’ - um cemitério -, onde a visualização do t lembraria um grande número de cruzes? (Não nos esqueçamos de que os túmulos, no cemitério, não obedecem a um alinhamento rígido). (“Na poesia interessa o que não é poesia”, Hygia Therezinha Calmon Ferreira, início de análise do poema de Décio Pignatári, com duração de mais quatro páginas e meia, Instituto de Biociências, letras e Ciências Exatas, uni. Est. Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São José do Rio Preto, 1980).

o ho
        m
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                                                                         ço

                                                                                       (jorge tufic)

 

análise: poema figurativo, concreto, que sugere ou procura mostrar o homem no espaço, livre da gravidade e, possivelmente, guarnecido por algum equipamento especial de proteção contra a radioatividade. Figurativo porque se desenha, com as próprias letras que lhe serviriam de título. E concreto porque limitado referencialmente ao seu próprio objeto e objetivo. Os poetas concretos ortodoxos poderão considerá-lo, no entanto, pré ou pós concreto, senão apenas um poema figurativo. Contudo, há nele bastante plástica e conteúdo para várias outras colocações. 

                   Como objeto de análise, qualquer poema ou estrutura poemática vai da mais simples a mais complexa (como em tudo).

 

BIBLIOGRAFIA


1. Accioly, Marcus, “Poética”, manifesto, 1982, Recife-Pe.

2. Brasil, Assis, “Vocabulário Técnico de Literatura”, Ed. De Ouro, 1979.

3. Coelho, Nelly Novaes, “Literatura & Linguagem”, Ed. Quíron, 1986, SP.

4. Campos, Geir, “Pequeno Dicionário de Arte Poética”, Ed. Conquista, 1960.

5. Cegalla, Domingos Paschoal, “Novíssima Gramática de Língua Portuguesa”.

6. Enciclopédia Mirador Internacional”, 1981, Brasil.

7. Pound, Ezra, “ABC da Literatura”, Ed. Cultrix, 3ª ed., 1982.

8. Ricardo, Cassiano, “Algumas Reflexões sobre Poética de vanguarda”, Liv. José Olímpio Editora, 1964.

9. Silva, Alencar, “Poesia Reunida”, ed. Puxirum, 1986, Manaus-Am.

10. Tufic, Jorge, “Da Inquietação Lógico-Discursiva ao Poema-Visual”, Rev.
Do Conselho Estadual de Cultura, Ano 2, nº 2, Manaus-Am. 

11. Xavier, Raul, “Vocabulário de Poesia”, Imago-MEC, 1978.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Fantasy Art - Galeria

Michael Parkes.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Sopros do oboé, inusitado e precioso


Zemaria Pinto
  

Enquanto a maioria dos autointitulados “poetas” amazonenses continua derramando sua insuportável dor de cotovelo em livros que vão ao chão à mais leve brisa de uma análise isenta de compadrio, o carioca-manauara Sérgio Luiz Pereira vai construindo uma reputação que o coloca entre os grandes Poetas (faço questão da maiúscula, como antes, das aspas) que circulam e vivem e sofrem e, principalmente, se divertem, nesta terra de Ajuricaba.

Se divertem (atenção, revisão: quero o pronome aí mesmo! Viva a eufonia! Viva a música da poesia!), se divertem, sim. E aqui contrario os adeptos do sofrimento mesquinho como fonte de inspiração. Bobagem. Poesia é trabalho, é transpiração. E como todo trabalho, quando bem realizado, é fonte de felicidade para o seu autor. Budista, Sérgio conhece a equação que une humildade e dedicação ao trabalho à felicidade:
 

O galo sabe que a manhã não tarda
E vem cobrir de cantos o caminho.
Hei de sorver o verbo que me aguarda
Bebendo-o, gole a gole, com meu vinho.  

Se As cordas da lira não constituíram nenhuma surpresa aos (raros) que já conheciam a poesia de Sérgio Luiz Pereira, estes Sopros do oboé vêm revelar um poeta plenamente amadurecido. Senhor de seu ofício, eu diria, não fosse este surrado chavão pouco para dizer da mestria com que Sérgio trata a palavra. Desde os sonetos ingleses encadeados de Lágrimas e rios aos sonetos Shakespearianos e Petrarquianos, Sérgio mostra total domínio sobre sua forma preferida. Mas, não satisfeito, adentra às sendas de Bashô e às coleções modeladas nos grandes mestres do soneto, junta as Bashonianas, coletânea de haicais. Mas o requinte supremo está na pequena jóia dedicada ao grande Mauri Marques, onde o haicai se incrusta no soneto, promovendo um inusitado encontro entre as duas formas:
 

E dele (O haicai) se envolve sem recatos
E não Trabalha em ocioso plano.
Instante Alento a rajada de vento: é do ano
Branco Leque precioso. De ornatos. 

Na poesia de Sérgio Luiz Pereira, o adjetivo precioso tem um sentido positivo – e não aquele a que nos acostumamos, para classificar o formalismo afetado e de mau-gosto, típico de uma poesia que, tendo morrido com o parnasianismo, teima em não deitar. Em Sopros do oboé, pelo contrário, a forma é submissa ao conteúdo e, sobretudo, é parte dele. Observe, leitor, no exemplo abaixo, como a sonoridade das aliterações sombrias reflete o texto do poema:
 

Terra infeliz onde assassinam pobres
Todos os dias com assinaturas
Onde tu, ó grã corrupção, encobres
Com ouro bocas fétidas e impuras.
 
Eu, que combato cotidianamente os moinhos de vento da obviedade e da mesmice, não poderia ser mais óbvio: a literatura amazonense está mais rica, mais pujante e mais bela com estes Sopros do oboé. Só não vê quem não qué!!!


Orelha do livro Sopros do Oboé (Manaus: Uirapuru, 2004), de Sérgio Luiz Pereira.

A medicina e o mecanicismo


João Bosco Botelho

 

          A principal diferença entre a Medicina-oficial – reconhecida pelo poder dominador, desde os primeiros registros – das outras práticas de curas reside no fato de estar assentada em torno de processos teóricos para desvendar a materialidade da doença, em dimensões cada vez menores da matéria viva, apoiando a terapêutica e o prognóstico.

          Um desses processos teóricos – o mecanicismo – teve profunda influência na Medicina-oficial, a partir do século 16, que pode ser sentida nas palavras de Galileu Galilei (1564-1642): “Aquilo que acontece no concreto, acontece do mesmo modo no abstrato; os cálculos e raciocínios feitos com números abstratos devem corresponder aos cálculos feitos com moedas de ouro e prata. Os erros não estão no concreto ou no abstrato, na geometria ou na física, mas no calculador, que não sabe calcular”.

A forte afirmação de Galileu retratou o pensamento dominante renascentista: o progresso da ciência estava nas mãos dos homens. As novas estruturas conceituais do homem-máquina substituíram as de homem-fábrica, oriundas dos tempos greco-romano, hipocrático-galênico. Como consequência, os homens começaram a medir a máquina humana em níveis nunca antes imagináveis.

O médico Santório (1561-1636), um dos primeiros a aplicar a Medicina às novas concepções de medir o visível nos corpos: ritmo da respiração, temperatura e quantidade de urina e fezes. Comparando o peso do alimento ingerido com o excretado, concluiu que o corpo deveria eliminar por outras vias parte do que era ingerido. Denominou essa perda de respiração invisível, construindo o pioneirismo na ideia do que depois seria reconhecido como metabolismo nasal (conjunto de reações químicas endógenas para a produção de energia indispensável ao ser humano).

Grande parte da produção de Santório foi publicada, em 1614, no livro Distatica Medicina, descrevendo o homem-fábrica, onde os fenômenos biológicos foram reduzidos a simples fenômenos físico-químicos.

Contudo, a maior dificuldade dos mecanicistas era entender a interligação do conjunto. Não houve empecilho comparar pulmão ao fole, dente à tesoura, estômago à garrafa, porém não estabeleceram relação coerente entre as partes.

Um aluno de Santório, Marcelo Malpighi (1626-1696), foi o maior expoente desse período de construção dos saberes da Medicina. As ideias dele introduziram o pensamento micrológico, que sob o pensamento de Gastón Bachelar (1884-1962), considero o segundo corte epistemológico da Medicina: o estudo da microestrutura.

É possível afirmar, sem risco de errar na imprudência do exagero, que após as publicações de Malpighi, a Medicina começou a desvendar a arqueologia da saúde e da doença. A histologia, o estudo das microscopias dos tecidos, consequências das indagações de Malpighi, trouxe a doença da macroestrutura (corpo) para a microestrutura (célula).

Esse fato abriu a porta da Medicina da atualidade em torno do diagnóstico microscópico: a identificação da bactéria e do tumor. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Fantasy Art - Galeria

The Phoenix.
Jeff Neugebauer.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Crônicas de um tempo


Marco Adolfs


Nas minhas andanças pela Amazônia, realizando alguns documentários, sempre me deparei com o inusitado e o estranho em cada esquina da “mata”. Lembro de estar em um flutuante-alojamento de pesquisadores da Reserva de Mamirauá, localizado no município de Tefé, a 575 quilômetros de Manaus, onde os pesquisadores assoviavam para que o “cachorrinho” Fred se apresentasse na hora da comida (almoço). Só que o cachorrinho em questão era um enorme jacaré de três metros de comprimento. Verdade! O bicho atendia pelo nome de Fred, e vivia no lago que circundava o nosso flutuante-alojamento. Esperando a hora do lanche para “abanar” o rabinho... e comer. Nesse mesmo lugar, eu e o cinegrafista Bosco (Índio), resolvemos então que no dia seguinte, ainda no escuro da madrugada, sairíamos para fazer algumas tomadas do amanhecer no lago do Mamirauá. Nem dormimos direito e logo estávamos entrando em uma “voadeira” (pequeno barco de alumínio movido a motor) para pegarmos algumas cenas do nascer do Sol em meio a nuvens de um vermelho tinto-sangue. Mas, mal andamos alguns metros e o pequeno barco começou a ser sacudido pelo que parecia ser um improvável terremoto (Mas como? Na água?). Para nossa surpresa estávamos passando bem no meio de um enorme cardume de peixes que, de tão acelerados e afoitos, começaram também a voar, saindo da água em pulos aloucados, diretamente para dentro do nosso barco, atingindo a mim e ao cinegrafista. Posso dizer que naquela manhã não só fizemos belas tomadas da região, rica em uma fauna exuberante, mas também voltamos para o alojamento com alguns peixes de 30 cm para o almoço daquele dia. Nosso almoço e do Fred.
Outro fato interessante aconteceu quando eu estava, sozinho e com uma câmera na mão, seguindo um bando de índios da etnia Miranha, indo para aldeia do Miratu, enquanto filmava um documentário  sobre a farinha do Uarini, no distante município do mesmo nome.  Para quem não sabe, o povo Miranha foi considerado, na história indígena, como uma espécie de “bárbaros” e “antropófagos”. Seus chefes ficaram conhecidos por vender aos brancos prisioneiros inimigos, membros de hordas rivais, ou mesmo seus próprios filhos. Esse termo “Miranha” foi empregado na sociedade colonial como um classificador genérico, que englobaria tribos inimigas. O fato é que lá estava eu, no meio de uma fila de índios Miranha, caminhando com a minha câmera, pelo leito do seco de um rio. Uma caminhada que duraria horas. Eu fora atraído pela história de uma índia, que me dissera que, lá, na aldeia do Miratu, estavam aparecendo, nos quintais de suas casas, peças arqueológicas estranhíssimas. Deixei o documentário sobre a farinha do Uarini de lado e fui atrás de tal achado.
Lá pelas tantas, depois de muito caminhar, apareceu um índio vindo no sentido contrário ao nosso. Vinha correndo e com um enorme facão luzidio, de tão afiado e brilhando ao sol. Se aproximou do branco da história (eu!) e começou a esfregar o facão pelo meu pescoço, enquanto falava alguma coisa em seu dialeto. Fazia cara de brabo e parecia prestes a me degolar ali mesmo. Mas não demorou muito a seriedade geral, e os outros não contiveram o riso e caíram na gargalhada generalizada. Riam aos borbotões; de caírem ao chão. Foi quando o índio antropófago também riu e se apresentou.
– Prazer, meu nome é Jozildo e sou professor de História em uma escola em Uarini...Também sou o tuchaua (cacique ou chefe) da tribo...Seja bem-vindo.
Dali para frente a gaiatice era geral entre todos. Mas, naquela caminhada, além de afundar, com câmera e tudo, em uma areia movediça que existia no caminho, tive ainda que beber uma bebida vermelha, fermentada, que eles haviam preparado para uma festa improvisada. Preciso dizer que tive alucinações?... 

Curso de Arte Poética


Jorge Tufic
 
EXEMPLOS DE ANÁLISE

              A análise de texto atomiza o texto poético, fragmenta-o em seus vários elementos constitutivos. Destrói de início a beleza e a emoção do poema, para que, numa síntese final, com suas partes outra vez reintegradas no todo, o poema surja aos nossos olhos muito mais rico em suas significações e muito mais belo em sua dimensão criadora. Exemplifiquemos com um poema-minuto de Cassiano Ricardo realizando uma das várias análises possíveis de serem feitas com “Serenata Sintética”:
 

Lua 

 morta 

      Rua 

     torta 

                                                         Tua 

                                                        porta

 

 

                   O título já nos abre caminho para a compreensão do chamado núcleo ideativo (também conhecido por fulcro temático ou simplesmente tema) do poema, de onde fluem os três pequeninos blocos poéticos (“lua morta”, “rua torta” e “tua porta”), isto é, uma situação amorosa ou um encontro de amor. Concretista “avant la lettre”, Cassiano Ricardo realiza neste poema-minuto a síntese concretizadora de uma situação, onde a rima, o ritmo e a estrutura gráfica exercem cada uma por si – uma nítida função constitutiva no todo. Senão vejamos. O poema flui de uma situação amorosa. O poeta vive uma experiência que envolve simultaneamente uma madrugada, momento em que a lua já desapareceu (“lua morta”); uma rua em curva (“rua torta”) e uma atração amorosa (“tua porta”). Utilizando a arte da alusão (= o recurso de utilizar apenas índices de determinada situação), Cassiano Ricardo fala desse encontro de amor, trazendo ao nível do poema apenas três elementos do espaço que o cercava: “lua”, “rua”, “porta”. A essencialidade das rimas resulta não apenas da perfeita identificação dos sons, “lua/rua/tua” e “morta/torta/porta”, mas principalmente da íntima relação existente dentro da situação criada entre as realidades expressas pelas palavras rimadas. A ausência do luar, a quietude da rua e a porta da amada são as realidades participantes do seu estado amoroso. Note-se ainda que esse estado torna-se uma presença muito mais objetiva, nítida e significativa no poema, pelo fato de vir expresso apenas por nomes (= três substantivos e três adjetivos), o que evidentemente intensifica de tal maneira o valor das realidades em si que a ação ou o estado que as liga (e que seriam expressas pelo verbo) não se faz necessária, está implícita. O ritmo unitário (células rítmicas de uma célula poética) marca os passos lentos e solitários ecoando na rua deserta. A estrutura gráfica, com a disposição pictórica das linhas se deslocando da esquerda para a direita e voltando à esquerda, reforçam visualmente a inscrição do poema num contexto de situação (= poema que registra um fato, uma ação, uma ênfase, enfim). O poeta desvenda – com um mínimo de palavras – um episódio amoroso de maneira mais eloquente, sem dúvida, e incisiva, do que se todo um processo tivesse sido descrito com minúcias (NNC, ob. cit.).

domingo, 27 de janeiro de 2013

Manaus, amor e memória XCIII

A Praça da Matriz já foi chamada, muito apropriadamente, de Praça do Comércio.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Fantasy Art - Galeria

Sined.
Tony Kew.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Moto-contínuo


Zemaria Pinto
 


 

Tudo muda, tudo passa,
tudo está em movimento
sobre a terra e sob o céu,
inclusive o pensamento 

Lentamente a História muda,
lentamente muda o Homem,
tão lentamente que às vezes
pensamos que estagnou. 

As longas noites da História
passam-se tão lentamente
que nem nos apercebemos
quando o dia, enfim, chegou. 

Tudo muda, tudo passa,
tudo está em movimento
sobre a terra e sob o céu,
inclusive o pensamento 

Tudo está em movimento
sobre a terra e sob o céu:
os corpos e os vegetais,
a e a necessidade,
a volúpia e a vontade,
o desejo e o desalento. 

Tudo o que é vivo apodrece,
o que é líquido evapora,
o sólido se deforma,
o fogo que queima apaga
e o ar, puro ou cinzento,
a cada instante renova-se,
e mesmo o se transporta
sob o trabalho dos ventos. 

Tudo muda, tudo passa,
tudo está em movimento
sobre a terra e sob o céu,
inclusive o pensamento.
 
 
Obs: publicado na revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, n° 34.

Craniotomia pré-histórica


João Bosco Botelho


Permanecem como marco nas atitudes do homem na busca dos mistérios do corpo, os crânios trepanados na pré-história, há 10.000 anos.

Outros estudos paleopatológicos confirmam a solidariedade entre os nossos ancestrais distantes. Um deles, é representado pelos ossos achados na caverna La Lave, na França, de um homem pré-histórico, que sofreu ferimento perfurante de artefato com ponta de pedra, pela frente, no osso sacro, no final da coluna. Esse hominídeo sobreviveu muito tempo após a ajuda de alguém que arrancou parte externa do objeto perfurante, e, sem outra opção, deixou a haste pontiaguda de pedra encravada no sacro. O tempo que a vítima viveu, depois do ferimento, pode ser calculado a partir da regeneração óssea em torno do ferimento no osso.

Porém, os crânios que foram abertos, em diferentes lugares, na Europa neolítica, continuam intrigando os especialistas em história da Medicina. Muitos indivíduos submetidos às trepanações sobreviveram vários anos, o suficiente para que as bordas do osso cortado se regenerassem parcialmente.

O local escolhido do acesso para cortar os espessos ossos cranianos parece ter tido uma significação específica. Alguns povos faziam a craniotomia do osso temporal, outros do parietal, retirando pedaços com formas geométricas diferentes, de poucos centímetros, até grandes aberturas, como a do crânio achado em Collombey-Muraz, na Suíça, feito através da órbita direita, da qual o doente não sobreviveu à cirurgia.

A diversidade de como as craniotomias foram realizadas contribuiu para supor que eram muito difundidas e fizeram parte de um conjunto maior de intervenções do homem no homem, assinalando um momento específico na luta contra a dor e o sofrimento dos entes queridos. O “médico”, naquele momento, deixou de ser mero espectador para tentar mudar, com a sua ação, o curso de um acontecimento na saúde.

Pouco importa qual tenha sido a motivação para que houvesse a concordância do “médico” e do “doente”, respectivamente, para fazer e aceitar a intervenção como necessária. O fato é que foram realizadas e é pouco provável que tenham sido praticadas sob violência.

A frequência dessa cirurgia, nos esqueletos estudados, surpreende ainda mais. No sítio neolítico de Saint-Martin-la-Rivière, na Áustria, foram desenterrados sessenta crânios pré-históricos, dos quais cinco (8%) foram trepanados. Essas cirurgias, feitas em grande número, há mais de 10 mil anos, encontraram a força necessária para a reprodução a partir do momento em que o homem desejou mudar o curso da vida, depois de reconhecer a importância das funções vitais abrigadas na intimidade do cérebro.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Fantasy Art - Galeria

The Magician.
Michael Fishel.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic
 
 
OS TRÊS MOVIMENTOS DE

 

VANGUARDA


 

POESIA CONCRETA


                   Ela teve o mérito de indicar caminhos e soluções à poesia brasileira, metida, na época, numa espécie de beco-sem-saída. 

                   Para Décio Pignatari, o poeta é um designer da linguagem, configurador de mensagens.
 

                   ODE 

                   CAMPO 

                   BODE 

(Jorge Tufic, 1956, SD do “Jornal do Brasil”)

 

                   Poesia concreta: produto de uma evolução de formas. Implica uma dinâmica, não uma estática. Teoria e prática se retificam e se renovam mutuamente, num circuito reversível. Certo: compreender a obra em progresso como uma dialética. Errado: paralisar para compreender (Haroldo de Campos).


POESIA PRAXIS
 

                   Trata-se mais de um estilo e de uma técnica criada pelo poeta Mário Chamie, do que propriamente de uma escola. Um modo pessoal, cuja teoria pode conduzir a outros modos pessoais de escrever ou construir o poema, sem, contudo, levar à imitação pura e simples de um modelo.
 

agiotagem
 

 Um

 dois

 três

 
 o juro: o prazo

 
 o pôr/ o cento / o mês  / o ágio


 p  o  r  c  e  n  t  á  g  i  o

 (Mário Chamie)


O POEMA/PROCESSO

 
                   Seu idealizador: Wladimir Dias Pino.

                   A linguagem adotada nos seus manifestos e a técnica de seus poemas são quase os mesmos da poesia concreta, só que os do processo procuram sair do código linguístico para outros códigos visuais, além da linguagem como a entendemos: 

UBI TROIA FUIT - P. J. RIBEIRO