Amigos do Fingidor

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Prosa & Panela – 8


Tainá Vieira


Graças a Dionísio ou Baco – deus do vinho e também das festas, e, por que não?, da comida, pois onde já se viu festa e vinho sem comida? – eu não tenho, nunca tive e jamais terei Cibofobia: medo ou aversão a alimento.  O que eu tenho é receio ao modo como os alimentos são preparados; para mim, basta apenas o lugar ser limpo, a pessoa que prepara a comida tem de estar com os cabelos presos e as unhas limpas. E também, na minha comida não pode ter sangue e nem alho cru, de resto está tudo certo e bom apetite! 
Na época da faculdade, que foi um dos momentos mais felizes da minha vida, praticamente todas as noites, no intervalo, eu e meus amigos íamos comer churrasquinho. Era o famoso churrasquinho de gato – que atire a primeira pedra quem nunca comeu um churrasquinho de gato – que ficava a uns metros da faculdade; era um lugar limpo, arrumadinho, a carne era boa, bem macia, custava três reais o espetinho com a farofa que era divina, e a tia do churrasco – que tinha os cabelos bem curtinhos – sempre guardava uma mesa para nós. Éramos mais de cinco pessoas e sempre comíamos mais de um churrasco, por isso a tia do churrasco gostava da gente. Há tempos que não como um churrasquinho de gato, eu acho que desde que saí da faculdade.
Épocas de nossas vidas sempre nos deixam lembranças, seja de lugares, pessoas, músicas, livros e comidas.  Lembro-me da minha infância que foi regada a chá de canela, de uma árvore de canela no quintal da casa dos meus pais-avós. Hoje em dia não gosto nem de sentir o cheiro da canela, a lembrança que tenho da mesma me dói na alma.  Meus pais-avós já fizeram a passagem deste mundo. É assim também com o milho, não o suporto, pelo mesmo motivo da canela.  Nem toda lembrança é boa ou vale a pena lembrar. E por mais que não queiramos lembrar-nos, essas lembranças sempre virão nos perturbar. Tem gente que gosta de voltar ao passado, regredir, somente para sentir tudo novamente, se fosse possível reconstruir a historia, talvez eu também quisesse regredir.
Deixemos a infância guardada na caixinha do tempo e vamos para a vida adulta, onde não temos avó e nem mãe por perto para controlar nossa comida e por isso comemos tudo o que encontramos pela frente.  Não existe coisa melhor do que se deliciar com algumas comidinhas que encontramos pelas ruas.  Além do churrasquinho, tinha o kikão, que era uma delicia e até peguei a receita da senhora que vendia – que vivia com uma touca na cabeça – fiz algumas adaptações e ficou tudo certo: a maioria das pessoas prefere a salsicha inteira no pão junto ao molho, eu prefiro-a toda cortadinha em rodelas, fica algo bem delicado. Para o molho apenas extrato de tomate, cebola, pimentão e creme de leite, nada de milho e ervilha e nem batata palha para enfeitar, e, para o toque final, basta o ketchup, e pronto, temos aí um delicioso lanche para oferecer aos amigos e às crianças. Às vezes quando não tínhamos dinheiro suficiente para comer churrasquinho ou kikão, comíamos apenas pipoca que era mais barato e deliciosa também. E quando nem pipoca dava para comprar, comíamos bombom, tudo é comida mesmo.
Na faculdade fiz grandes amizades, até hoje tenho o contato com algumas pessoas. Quando fui para o terceiro período, mais precisamente na disciplina de Teoria da Literatura, eu conheci uma das pessoas mais extraordinárias deste mundo, uma professora, que eu a denominei como Ada, por ela ser tão especial.  Sempre antes da aula, eu e a Ada sentávamos para tomar café (não, eu não ia para a faculdade só para comer, a comida era apenas uma consequência de tudo o que acontecia por lá). As Universidades sempre têm praça de alimentação, algo similar às cantinas das escolas. E na cantina, digo, na praça de alimentação de onde eu estudava tinha um café muito bom.  O café é bom para deixar o individuo acordado, os alunos assim como os professores precisavam, antes de entrar em sala de aula, de uma boa xícara de café.
Meu Deus, aqueles finais de tardes, a hora do café, eram mais que sagrados para mim, para nós, porque era reciproco o afeto. Ela, a Ada, teve que sair da instituição e eu fiquei ainda dois anos lá, eu chorei sim de saudade e de revolta, perdi algo que fazia parte de mim, não era só uma professora, muito menos só um café, eram muitas vidas em duas vidas, inúmeras histórias, infinitos sorrisos e gargalhadas. Muitos ensinamentos, eu aprendi coisas que levarei por toda a vida. Fomos felizes naquela época, sei que fomos. Hoje os encontros são escassos por conta dessa vida louca, mas a amizade permanece junto às lembranças, boas, daquelas tardes no café da faculdade, assim como permanecem as lembranças, boas, das comilanças com as comidinhas que fazia com os meus companheiros de sala. Conforte-me com café ou comida, tudo isso me traz recordações, até mesmo as que prefiro esquecer.