Zemaria Pinto
Vivi
A imagem de Vivi que
se colou na memória das minhas retinas é de uma mulher em formação, pernas e
ombros sempre nus, mãos graciosas como colibris, os olhos ligeiramente
estrábicos, o que lhe dava um ar de estar sempre nas nuvens, e um cheiro forte
de suor – que muito tempo depois descobri que era o mesmo cheiro da maresia.
Como Vivi, morando em plena floresta amazônica, cheirava a mar, isso eu nunca soube.
Nos encontrávamos sempre no calor das tardes de verão, quando o seu cheiro de
sal se tornava mais intenso. Passava a língua suavemente pelo seu pescoço e,
aos poucos, descia até os pequeninos seios rijos, mas logo retornava ao ponto
de origem, onde o gosto e o cheiro eram mais fortes. Vivi tinha os cabelos
crespos castanhos e a pele dourada, como o céu do sol se pondo sobre o rio. Não
faz muito, encontrei Vivi numa calçada da Eduardo Ribeiro. Ela me olhou com
firmeza, eu me esquivei. A visão era medonha. Achei que ela me reconheceu, mas
não. Apenas balbuciou, quase com doçura, algo como “senhor, dá um trocado pro
almoço?”.