Amigos do Fingidor

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

A selva: a verdade da ficção e a ficção da verdade – 6/14

Zemaria Pinto

 

Criador e criatura: paralelos

Sem enveredar por sendas psicanalíticas, é evidente, a partir da leitura do romance, que o fictício Alberto e o real José Maria Ferreira de Castro pouco têm em comum, além da distância de casa e da lancinante solidão decorrente.

Ao chegar no Brasil, Alberto, 26 anos, é um estudante de direito que lutara pela causa monarquista, na frustrada Revolta de Monsanto, em janeiro de 1919, e se autoexilara, fugindo de uma possível condenação por sedição.[1]

José Maria chega ao Brasil em 1911, tangido pela miséria de sua aldeia natal e a ilusão de ganhar dinheiro fácil no Brasil. Aos 12 anos de idade, certamente não pensava em política.

Ambos são enganados pelos patrícios que os receberam, indo para o seringal sob falsas promessas de enriquecimento fácil.

No seringal, enquanto Alberto vai aprender a cortar seringa, em uma área crítica, José Maria fica trabalhando no armazém – e escrevendo, pois desde cedo sentira o chamado da literatura. Alberto, após reler os livros que levara, limita-se ao exercício do “charadismo”, um passatempo tolo, pretensamente intelectual.

Graças a Nunes Pereira, que teve acesso ao borderô de José Maria, referente aos anos de 1913 e 1914, ficamos sabendo que “seus patrões lhe perdoaram o débito, ao fecharem-lhe a conta” (PEREIRA, p. 103). O mesmo aconteceria também com Alberto, num inverossímil acesso de ternura e gentileza por parte do asqueroso e truculento Juca Tristão.

Por não termos maiores detalhes da estada de José Maria no seringal, os paralelos terminam por aqui. Como se vê, tirando o embuste dos compatriotas, o episódio do comendador e a “bondade” dos patrões de ambos, nada mais os aproxima, além da distância de Portugal.

O mais absurdo de tudo isso é que há quem acredite piamente que o monarquista Alberto é o próprio Ferreira de Castro, mas no contexto português: em um sítio monárquico,[2] encontrei, numa postagem de 2008, uma relação de participantes da Revolta de Monsanto, onde se pode ler:

 

– José Maria Ferreira de Castro (civil – escritor)

 

Esse sítio de mensagens entre apoiadores da causa monarquista portuguesa, que ainda os há, se estende às comemorações do centenário da revolta, em 2019, sem que ninguém questione o nome intruso.

 

Sem dúvida, a vivência de Ferreira de Castro na selva forneceu-lhe material para a construção da história de Alberto. Mas, sob o provocativo prisma do distanciamento e do estranhamento e invertendo os paradigmas de criador e criatura, seria profícuo dizer que Ferreira de Castro também foi bastante construído pela história de Alberto. (LEÃO, p. 97)

 

É certo que Ferreira de Castro teve mais vantagem em ser confundido com Alberto, que o inverso. Alberto, a ficção, tende a ser esquecido, enquanto a ficção em torno de Ferreira de Castro ganha mais e mais adeptos, graças às sucessivas publicações de escandalosos equívocos editoriais.

 

Os 14 capítulos de A selva: a verdade da ficção e a ficção da verdade serão publicados sempre às segundas-feiras. 

Mas você pode obter o livro completo clicando nesta linha.



[1] A Revolta de Monsanto, em Lisboa, aconteceu de 22 a 24 de janeiro de 1919, em apoio ao movimento que se iniciara no dia 19, na cidade do Porto. Este conseguiu se manter até 13 de fevereiro, quando foi sufocado pelas forças legalistas republicanas. Os efêmeros 25 dias de restauração do regime monárquico entraram para a história, pela via da ironia, como Monarquia do Norte ou Reino da Traulitânia (COIMBRA, p. 118-135).  

 [2] https://geneall.net/pt/forum/148192/revolta-monarquica-monsanto/#a178335 consultado em 7 de abril de 2020.