Amigos do Fingidor

domingo, 3 de janeiro de 2010

Lirismo, sensualidade e humor na poesia de Cândida Alves

Zemaria Pinto*


A poesia lírica tem três mil anos, e em que pesem as mudanças de forma, nem tantas, mantém-se rigorosamente fiel ao seu conteúdo: reflexo(e)s do ego do poeta. Talvez isso explique a dificuldade de se vendê-la: é uma arte essencialmente solitária, resultante de um trabalho de (auto)contemplação do mundo, o que implica, na relação escritor x leitor, na existência de uma predisposição cúmplice, por parte deste.

A poesia lírica não objetiva divertir ou educar. Como se trata da exposição de uma postura particular, única, diante da realidade, só será plenamente apreciada se o leitor-receptor estiver em perfeita sintonia com o poeta. Daí que o momento mágico do poeta só se revela integralmente ao leitor-poeta, aquele que, desarmado das defesas do óbvio, vê o poema por dentro, muito além da palavra impressa.

Seria pedante e ocioso desfilar aqui as razões que filósofos, críticos literários e até mesmo alguns tímidos poetas, enumeram para explicar o intimismo e a solidão do lírico, que, poetizando para si, tem como história as próprias lembranças recontadas e como geografia, o limite que se lhe impõem os olhos, reinventando-a.

A poeta Cândida Alves é herdeira legítima dessa tradição milenar. Sua poesia é simples sem ser banal e sensual sem ser vulgar. O humor de Cândida é amargo – afinal, dói rir de si mesma. Feminina, sua poesia é uma delícia de incorreção política. Por outro lado, a linguagem de Cândida é viva, pulsante, mas econômica, essencial:

               Bate à porta
               come, dorme, sai e
               bate a porta

Este poema ilustra quase todas as qualidades acima listadas. Releia-o. Repare na sutil diferença entre o primeiro e o terceiro versos. O segundo verso, por sua vez, em três palavras, realiza uma interação precisa entre tempo e circunstância, ao mesmo tempo em que registra, na sequência de movimentos entre as imagens congeladas da porta, a entediante rotina da mulher solitária.

Aliás, é fundamental frisar essa dicção feminina na poesia de Cândida Alves. Não há meio termo. O eu lírico que fala para si mesmo os poemas de Todo corpo é feminino – às vezes mulherzinha, como em “Ele sempre me fode”:

               acorda cansado, azedo
               mas ainda me fode
               acabando se manda
               e não diz nem se volta
               e definitivamente
               me fode

Às vezes revoltada, como em “É quase de manhã”, onde depois de lamentar-se da velha rotina de cama e mesa, ela proclama:

               de agora em diante
               eu que vou te comer

Às vezes apaixonada e feliz, mas nunca fútil, com recursos técnicos complexos inseridos na musicalidade do poema, tirando de letra o fio de navalha que separa a grande poesia da simples pieguice, como neste “Eu te amo”:

               Teu beijo
               me escorre na cara
               escancaras na boca
               um bocejo (...)


               Vou à geladeira
               encontro uma pera
               e como
               sentada na pia


               Um gato que mia lá fora
               me lembra na hora
               meu gato sozinho na cama

O humor e o amor são fichinhas marcadas do lirismo. E, na poesia de Cândida, eles se realizam por inteiro, mesmo quando o eu lírico ultrapassou o estágio da revolta, chegando à resignação. O sofrimento provoca um sorriso cruel, sem dentes, sem lábios, que explode no peito da poeta, como em “Alívio final”:

                Acho que estou morta
                sinto-me toda torta
                nessa carcaça de pele (...)


                devo estar mesmo morta
                toda torta nessa farofa
                em que se tornou a vida
                pra onde olho não vejo saída
                sem ter que voltar atrás

Penso que é bobagem a distinção entre poesia masculina e feminina. Há que ser de qualidade para ficar. Se for ruim o tempo será seu coveiro. Mas quando se chama a atenção para o fato é para notar a reduzida participação feminina na literatura amazonense de qualidade. Há mais de dez anos publicou-se uma Antologia poética da mulher amazonense. Candoca, menina, não está lá. Pontificavam, então – a linguagem de apresentação é rebuscada e vazia, eivada de adjetivos vãos –, as poetas Violeta Branca e Astrid Cabral. Duas gerações que se encontravam para determinar o fazer poético da mulher amazonense. Cândida, vórtice voraz da feminil paixão, é o vértice que faltava para completar a figura perfeita – e encerrar o século. Que assim seja.


(*) Apresentaqção do livro Todo Corpo, de Cândida Alves, Edições Governo do Amazonas, 2000.

sábado, 2 de janeiro de 2010

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

(in)nesperado

acordou na hora de costume. após o café, demorou um pouco mais na leitura dos jornais, vestiu o paletó e, como sempre fazia, despediu-se com um beijo no rosto da mulher.

mas, desta vez, não voltaria para o almoço. nem sequer telefonaria. era quase noite quando foram encontrá-lo sentado no banco da praça próxima ao porto. o corpo inerte, já frio como o da estátua em bronze poucos metros adiante. os olhos sem brilho permaneciam fixos na folha de papel, que comunica a aposentadoria compulsória.


(Adriano Aragão)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O bug do milênio

Roberto Mendonça



Os autógrafos no postal.


Há dez anos, aconteceu a virada do século e, simultaneamente, do milênio. Encerrava-se o século XX, datado por seus novecentos, e o mundo encarava nova era, nova contagem do tempo. Esse fato corriqueiro, naquele dezembro de 1999 prestou-se para diversos debates, fossem os de cunho científico, fossem os de botequim. Em todos, porém, havia o consenso: um desastre rondava nossas vidas pelo possível mau funcionamento do computador, a máquina que já exercia amplo domínio sobre nossas ações. Tanto os especialistas quanto os “brameiros” concordavam: na passagem do milênio, o computador haveria de “travar”, causando sérios desastres. Desse modo, a apreensão amplamente disseminada pelo planeta moveu os governantes à aplicação de medidas preventivas.

Pouco entendo de computação; mas, recordo-me da proclamação de que os dados até então armazenados sofreriam grave descontrole. Argumentava-se que, nos computadores, a modificação de 99 para 00 não se encontrava devidamente programada, poderia não funcionar. Seria melhor prevenir. E assim, em diversas atividades, houve concretização de medidas. Uma das providências drásticas aplicou-se na aviação: nada de avião entre o céu e a terra na virada do ano.

Mas, para tripudiar sobre os especialistas e palpiteiros, uma empresa de aviação nacional desafiou a zebra, encarou o enigma, realizando no território nacional e, nesse horário, o único voo. Falo da extinta Viação Aérea São Paulo (Vasp) que, na noite de São Silvestre, efetuou o VP 234, saindo de São Paulo para Manaus, com escala em Brasília, onde eu embarquei.

Na ocasião, encontrando-me em Curitiba, decidi passar o reveillon em Manaus. Ao buscar passagem, fui surpreendido com essa viagem aérea. Não vacilei. Decidi arriscar e, óbvio, me dei bem. Apesar de programado, não acreditava na realização do voo, pois as autoridades a qualquer momento poderiam suspendê-lo.

Encontrei o aeroporto de Brasília às moscas. Afinal, somente um passageiro “maluco” iria embarcar. E, de fato, apenas eu embarquei naquele momento. A bordo da aeronave encontrei poucos passageiros, quase todos parentes dos tripulantes (soube depois). Como é de praxe no país, na oportunidade, cumpria-se o horário de verão, por isso, decolando pouco antes da meia-noite, logo brindamos a virada de ano. E repetimos o brinde e mais abraços quando, em voo panorâmico, sobrevoamos Manaus, naquele instante, colorida e enfeitada pelos fogos de artifícios estourados ao longo da cidade.

Para ilustrar a aventura, gravei os dados essenciais em um cartão postal. Nele, captei o registro venturoso da tripulação, sob a responsabilidade do comandante Ibrahin. Trata-se de um registro vitorioso, tanto da empresa que se dispôs a enfrentar o desafio do bug (segundo restou crismado), quanto de minha parte, que contribuí ao menos com o registro. Enfim, da apreensão estabelecida ao longo do ano, nada aconteceu de extraordinário. O computador comportou-se com dignidade, transformando toda aquela angústia em grande fiasco (ainda bem!). Lembrou-me em parte o temor espalhado no mundo pelo trânsito no espaço do cometa Halley.

O resultado mais visível do bug do milênio, passado o primeiro decênio: eu perdi os meus cabelos, e a aviação perdeu a Vasp.


 O lado A do postal.

Medicina romana: Galeno e Sorano

João Bosco Botelho


Após a terceira guerra púnica, os romanos consolidaram o vasto império no Mediterrâneo. Com o desenvolvimento obtido pelas conquistas militares e anexação de territórios, a sociedade romana absorveu grande parte das virtudes gregas, especialmente, as prá-ticas médicas voltadas para a tríade: diagnóstico, tratamento e prognóstico, como elementos mais distanciados da vontade das deusas e dos deuses.

Entre as primeiras providências para mudar a Medicina, em Roma e nas colônias, a legislação sacramentou os médicos como uma categoria profissional definida, tanto entre os homens livres como entre os escravos. As obrigações do médico passaram a ser organizadas pelo senado romano, que também definia os pagamentos pelos serviços profissionais.

Sob o Império de Adriano, no século II da era cristã, os médicos eram dispensados do serviço militar e quase todas as cidades romanas dispunham de médico remunerado pelo Estado romano.

Em torno do século IV, as frequentes queixas dos usuários impôs severa fiscalização da profissão médica por parte da administração e instituíram-se rigorosos exames de seleção, organizados pelos mais importantes médicos de Roma, para todos que quisessem exer-cer a profissão.

Os rigores nas seleções provocaram forte diminuição de curadores, que determinaram outro tipo de reclamação coletiva: poucos médicos para atender a demanda, tanto em Roma quanto nas colônias. Sob esse novo tipo de questionamento, o império romano subvencionou os estudantes de Medicina, mas em troca eram obrigados a prestar assistência aos pobres.

Sob forte influência dos textos gregos da Escola de Cós, especialmente, os que tratavam das complicações da interrupção voluntária da gravidez, tanto na mãe quanto no feto, os médicos foram proibidos de praticar o aborto. O extraordinário viés legislador romano norteou outras mudanças de grande importância, que são respeitadas até os dias atuais: o médico recusar o atendimento de qualquer doente seja quais fossem as circunstâncias.

Nessa mesma época, sob o império de Diocleciano, no ano de 300, um édito imperial impunha como condição para que o candidato fosse aceito numa escola de medicina, a apresentação de certificado de boa conduta fornecido pelo comando militar da cidade.

Com o crescimento do número de escolas de medicina, avolumaram-se os conflitos nascidos em torno da má prática. Um dos mais significativos está inserido nas disputas entre clínicos e cirurgiões. Essa diferença entre clínicos e cirurgiões, respectivamente, os que tratavam os enfermos por meio de métodos não invasivos e os que sempre cortavam ou amputavam partes do corpo, está clara em Cícero ao escrever sobre os médicos verdadeiros, que corresponderia aos clínicos gerais de hoje. Esse magnífico orador romano registrou algumas especialidades médicas:
              Cascelio extirpa ou cura os doentes; tu Igino, queimas os cílios que irritam os o-lhos, Eros elimina as tristes cicatrizes dos servos e Hermes goza de fama de ser o Podalírio das hérnias.

A maior ponte entre as Medicinas grega e romana é atribuída ao médico Cláudio Galeno, considerado o sucessor de Hipócrates, e que influenciou de modo marcante a Medicina medieval. Galeno nasceu em Pérgamo, na Ásia Menor, no ano de 130.

Galeno erigiu a teoria dos Quatro Temperamentos acoplando outras variáveis, sem dúvidas, mais visíveis, à teoria dos Quatro Humores, descrita por Políbio, o genro de Hipócrates. Para cada “humor” existiria um “temperamento” que melhor explicaria a etiologia das doenças:

HUMOR - TEMPERAMENTO

Fleuma – Fleumático: doenças úmidas (p. ex. respiratórias, como a asma)
Sanguíneo – Sanguíneo: doenças quentes (p. ex. cardíacas, como o infarto)
Bilioso amarelo – Colérico: doenças secas (p. ex. hepáticas, com a hepatite)
Bilioso preto – Melancólico: doenças frias (p. ex. psiquiátricas, como a depressão)

Desse modo, cada temperamento era mais ou menos suscetível a determinada doença. Sob essa leitura, se fosse possível mudar o temperamento de uma ou de um grupo de pessoas, as doenças poderiam ser evitadas.

As suas obras abordavam a anatomia, a fisiologia, a patologia, a sintomatologia e a terapêutica. Uma parte dos livros foi publicada em Veneza, em 1538, formando um núcleo de consultas dos médicos medievais e do Renascimento europeu.

O outro médico romano que se destacou nos séculos seguintes foi Sorano, nascido em Éfeso. Os escritos de Sorano demonstram extrema lucidez e bom senso. Entre as obras dele destaca-se o Manual de Ginecologia, que serviu de orientação aos médicos durante quase quinze séculos, praticamente, sem qualquer contestação. Nessa obra genial, descreveu com absoluta precisão as posições anormais dos fetos durante o nascimento.

Esses médicos extraordinários viveram no Império Romano, na época em que foi instalado um dos mais competentes sistemas públicos de atenção à saúde. A preocupação dos legisladores com a saúde pública era inquestionável. A Lei das Doze Tábuas, que remonta aos primórdios da República, estabelecia normas para o sepultamento e queima dos cadáveres fora dos muros da cidade, e a construção dos esgotos. As autoridades públicas fiscalizavam o cumprimento das normas que regulamentavam a higiene pública.

As novas idéias da medicina alcançaram a arquitetura. Os grandes arquitetos romanos, como Vitrúvio, recomendavam a escolha de lugares ensolarados para a construção das casas.


A teoria dos Quatro Temperamentos, de Galeno.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Fantasy Art – Galeria

Goh' Cephal.
Henning Ludvigsen.

drops de pimenta 43

.
─ Camarão, caranguejo?...

─ Batata frita!

─ É... nem pra tira-gosto você tem classe!


(Zemaria Pinto)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

AAL – José Braga é reeleito



O acadêmico José Braga foi reeleito, por unanimidade, nesta tarde, para a presidência da Academia Amazonense de Letras, biênio 2010-2011. A eleição, presidida pelo acadêmico e arcebispo de Manaus Dom Luiz Soares Vieira, transcorreu em clima de fraternal cordialidade.

Poemas no mar mineiro

Cristina Duarte-Simões*


Decididamente, a poetisa brasileira Tânia Diniz tem jeito para semear... Há mais de vinte anos, através do movimento Mulheres Emergentes, ela espalha pela cidade de Belo Horizonte – sob a forma de cartaz – um número impressionante de poemas escritos por mulheres, não somente nos lugares mais propícios (escolas, bibliotecas), como também nos mais inesperados (estações, centros de eventos e convenções). Um trabalho que exigiu muita tenacidade, pois apesar de no início não ter contado com nenhum apoio financeiro, a autora mineira soube persistir no seu projeto e aperfeiçoá-lo com o passar dos anos. Para comemorar o décimo oitavo aniversário desses cartazes poéticos, foi lançada em 2007 a coletânea Antologia ME 18, apresentando uma compilação de poemas escritos por quarenta e três mulheres.

Recentemente, procurando destacar o aspecto masculino desse trabalho original, Tânia Diniz decidiu prestar homenagem a todos os homens que, às vezes nos bastidores, apoiaram o projeto desde 1989. E eis que poetas, escritores, desenhistas, radialistas, jornalistas, colaboradores, amigos e leitores aceitaram o convite. Todos esses textos poéticos foram então publicados na Antologia Meninos, que acaba de ser lançada no Brasil.

O pequeno livro de 63 páginas surpreende pela grandeza do propósito e do conteúdo. "A poesia emerge desses meninos para nos tornar ainda mais humanos", anuncia pertinentemente o escritor Caio Junqueira Maciel, no texto inaugural. Com efeito, um prazer imenso conduz o leitor nesse percurso tecido pelos 25 poetas da coletânea. Há uma grande diversidade: jovens e menos jovens; poetas premiados e desconhecidos do público em geral; alguns preferem poemas curtos, outros mais longos; uns adotam formas poéticas contemporâneas, outros permanecem fiéis às formas clássicas. São poemas-poemas, poemas em prosa e até mesmo visuais. Ainspiração dos autores é também bastante variada. Num momento, um poeta presta homenagem ao animal de companhia que acabou de perder (“Lá vai o poeta fazer a cova…”, Antônio Dayrell); em outro, são versos curtos que descrevem o instante mágico de uma pausa musical (“Dança nordestina”, Osvaldo André); um pouco depois, certos cômodos de uma casa são revisitados com nostalgia (“A casa perscrutada: escrivaninha / biblioteca / quarto das meninas”, Zemaria Pinto). Às vezes, prefere-se a forma clássica para louvar a mulher amada (“Soneto para iluminar você”, J.B. Donadon-Leal); outras vezes, a concisão de seis versinhos é suficiente para falar do desejo (“Aportar”, Cláudio Márcio Barbosa). Um poeta presta homenagem ao piano de uma mãe: toda tecla / plena de história (“Poema pro piano da mãe de Rogério Salgado”, Kiko Ferreira); enquanto outros confessam a admiração que têm por Michel Foucault (“Foucaltidianamente”, Lucas Guimaraens) ou por Julia Kristeva (“Efeito Kristeva”). Se Sérgio Bernardo prefere encenar a fuga de um homem de um campo de concentração para homossexuais (“Atrasa o trem na estação de Bergen”), J.S. Ferreira lembra, em versos incisivos, o drama da Faixa de Gaza, em que o eterno estopim do ódio se acende (“Na faixa de Gaza”).
Como no livro anterior (Antologia ME 18), pinceladas vigorosas fazem reviver o poeta Carlos Drummond de Andrade, mineiro, como aliás os dois livros citados. É o caso do poema “Passagem” de Lucas Guimaraens, que não deixa de relembrar dois grandes monumentos poéticos do grande autor: “José” e “A flor e a náusea”: No rumo da casa José colheu a rosa no asfalto. A inspiração do poeta de Itabira pode também ser encontrada na leitura do poema “Esperança”, do mesmo Lucas Guimaraens, que parece fazer referência ao “Poema de sete faces” (Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo…), como ao “Soneto da perdida esperança”. Por seu lado, Luiz Zanotti também homenageia Drummond no belíssimo poema “Luiza”, iluminado com muita sensibilidade pelo texto em prosa que o acompanha. A menina Luiza acabou de nascer, é a filha do autor; enquanto que no texto de Drummond trata-se de uma moça desaparecida e de uma mãe completamente desesperada (“Desaparecimento de Luísa Porto”). Entretanto, pensamos que são nos poemas de Di Moreira (“Mineiro uai”) que se encontra a melhor transmissão do espírito do inevitável poeta, por exemplo nos versos: carrego com muito amor / o meu jeito do interior. De uma forma mais geral, pode-se perguntar se a referência ao grande Drummond — forçosamente intertextual — não seria passagem obrigatória para qualquer poesia originária de Minas Gerais; como se os poetas, a um momento do percurso, se sentissem na obrigação de pagar um tributo à essa obra monumental…

O Modernismo paulistano de 1922 também recebe uma homenagem através da pluma de um Lucas Guimaraens, bisneto do conhecido poeta do Simbolismo brasileiro, Alphonsus de Guimaraens. No poema “São Paulo”, o autor interpela os grandes nomes da Semana de Arte Moderna: Mário, Oswald, / de onde veio esta força em piadas / se trânsito não permite atropelar realidade? Por outro lado, se o livro anterior, organizado pela mesma Tânia Diniz, tinha nos acostumado à delicadeza dos textos das mulheres-poetas, esta nova obra surpreende pela exatidão dos sentimentos masculinos : Eu não tenho consciência da minha / fragilidade e do futuro / e me perco nas palavras (“Depoimento”, Sandro Starting); ou então: São os vales do meu sertão que me fazem assim… / jacumã das embarcações aladas… / colibri do mato, horizonte aberto… (“Jacumã”, Ronaldo Zenha); e o que dizer da tão bem sucedida aliteração : errar / a rota rota e surrada / entre / arrotos / matinais do poema, “Cohen et Joplin no Celsea Hotel”, de Kiko Ferreira?

Mesmo que a grande maioria dos poetas da Antologia Meninos seja originária do Estado de Minas Gerais, outras regiões do Brasil também estão representadas por autores que, de uma forma geral, adotaram a terra mineira. O carioca Paulinho Andrade compõe, numa linguagem fresca e coloquial, um dos poemas mais emocionantes da coletânea (“Honra e glória”). O amazonense Simão Pessoa interessa-se pelo próprio mecanismo da construção poética, não sem uma boa dose de humor (“Para fazer um poema concreto”). O artista plástico pernambucano Severino Iabá faz brotar poesia dos objetos de cerâmica fotografados (sem título, p. 50). Único poeta de origem estrangeira, o português Fernando Aguiar não deixa de fazer referência ao mar, inserindo-se numa forte tradição lusitana: e se de noite te acendo e na penumbra te beijo / é no teu mar de desejo que me quero afogar (“E se o riso”).

A dificuldade desta coletânea, hoje em dia, vem do simples fato de ser poesia, gênero um pouco menosprezado pelo público em geral. No entanto, para aquele ou aquela que tiver a delicadeza e a curiosidade de se aproximar e de ouvi-los, os versos desses meninos deixará, sem dúvida alguma, uma marca indelével. E a melhor imagem para definir esse aspecto frágil e fugidio, talvez seja a que foi proposta por Affonso Romano de Sant'Anna, na apresentação da obra: os diversos poemas vogam ao acaso no mar impalpável de Minas Gerais, um dos raros estados brasileiros a não dispor de acesso ao oceano.


(*) Professora na Université de Toulouse-le Mirail, França.

domingo, 27 de dezembro de 2009

malditas criaturas infernais 3

ou a ponte de Pandora*



O governador da província de Zhejiang, na China, reúne seu secretariado e, dedo em riste, liga o ventilador giratório**:

– Bando de incompetentes! Nós constluímos a maiol ponte do mundo – 35 quilômetlos soble o mal! – e pagamos somente 82 milhões de dólales por quilômetlo? Lá em Pandola estão fazendo uma pontezinha de meloda, soble um liozinho chinflin, de apenas 4 quilômetlos, e já pagalam, pol quilômetlo, mais de 215 milhões! Eles é que sabem adminstlar o dinheilo público! Vocês vão fazer um estágio em Pandola, seus bulos, pla aplender com quantos milhões de dólales se faz uma ponte!


(João Sebastião)

(*) Esta Pandora é muito parecida com a do filme. A diferença é que aqui os invasores ganharam a guerra.

(**) Tradução simultânea, com sotaque da 25 de março.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Fantasy Art – Galeria

The Divining Heart.
Michael Whelan.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Mudamos de ciclo! Pois sejam felizes!

.
Cansei-me de ti, Natal,

mas nunca do Senhor Cristo:

não me convence o banal

que fazem de tudo isto.

Ainda assim, Feliz Natal

e um Ano Novo bem longe

desse triste carnaval.


(Jorge Tufic)

véspera de ano novo

.
raspou o pó de café que restava no fundo da lata: deu graças, tinha o suficiente para aquele dia. os bolinhos de farinha fritos na banha substituiriam o pão. e o açúcar? haveria de conseguir um pouco com a vizinha, uma xícara daria para uns dois dias. enquanto fervia a água, estendeu sobre a mesa a toalha branca, comprada pelo marido dias antes de falecer. não esqueceu o pé de arruda no centro da mesa: desejava entrar no ano novo com o pé direito, e a arruda era um santo remédio para mau-olhado e outros malefícios. pitava o cachimbo quando ouviu alguém chamar à porta da casa. uniu as mãos em forma de prece, “deus seja louvado!”, exclamou, reconhecendo a voz da bondosa dona coló.

(Adrino Aragão)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Entrevista com o Menino

L. Ruas*


Quando me contaram pela primeira vez, não acreditei. Graças a Deus, não sou muito crédulo. É verdade que levo em conta certas verdades que, para muitos, é sinal de estagnação mental. Foi por causa dessas verdades que uns amigos meus, não faz muitos dias, me chamaram de ingênuo. Em outras palavras, eles me quiseram chamar de retrogrado ou coisa que o valha. Não faz mal. Eu continuo acreditando nessas verdades. Não são muitas. No máximo umas doze. Isso mesmo. São somente doze. Em quantas coisas você acredita, leitor? É engraçado. Há muitos como você, leitor, que ainda não sabem em quantas coisas acreditam. Não. Não me diga que não acredita em coisa alguma, porque senão você vai ficar incluído entre os que acreditam em mais de doze verdades. Você, talvez, não acredite nas doze verdades nas quais acredito, mas vai ver que acredita em outras. No final das contas, todos nós somos uns grandes crédulos.

Mas, voltemos ao assunto. O que me disseram foi o seguinte: que todos os anos o menino nasce. Você acredita nisso? Nem eu acreditei quando me contaram. Nem eu nem o diretor do jornal. Quando telefonei dizendo-lhe que ia dar um furo sensacional (quando telefonei já estava acreditando... bem, não era bem isso. Eu estava muito curioso) ele deu uma gargalhada do outro lado:

– Ora, vá às favas com o seu furo! Você vem me incomodar com uma tolice destas! Tenho mais o que fazer. Um menino que nasce todos os anos... Isso é bom para cinema.

Mas agora eu estava curioso demais para desistir. Queria ver. Queria saber. Não era possível que tanta gente estivesse tão enganada ou quisesse simplesmente blefar.

À noite, telefonei para uns fotógrafos meus amigos para ver se podiam ir fazer um serviço comigo. Desta vez fui mais prudente não revelando minha intenção e a minha história. Disseram-me que não podiam, era noite de Natal, você sabe, numa noite assim a gente deve ficar em casa com a mulher e os garotos... Alguns me convidaram para ir cear. Muito obrigado, não posso. Eu tenho que fazer este trabalho... Não, não é com ninguém importante, não. Eu é que estou vendo se consigo tirar rendimento novo de assunto muito velho. Me desculpe, não posso sair de casa numa noite de Natal, você compreende, né?...

Sair de casa numa noite de Natal para ir entrevistar um menino era mesmo coisa de gente que não tinha a cabeça no lugar. Quando ia andando pelas ruas escuras e úmidas e passava pelas casas cheias de luz, árvores de natal coloridas, crianças brincando, mesas cobertas de doces e comidas ou pelas igrejas cheias de gente que aguardavam a Missa do Galo, muitas vezes me deu vontade de voltar para casa. Mas não voltei. Eu estaria sendo um ingênuo mais uma vez, mas não fazia mal. As ruas estavam em péssimas condições. Muito escuras e, como chovera bastante, por várias vezes me atolei em buracos cheios de lama. E o lugar era horrível.

Bati palmas. Tudo muito quieto. Não havia choro de criança nem as costumeiras visitas. Um fugidio cheiro de alfazema se perdia no ar. Misturado com cheiro de samambaia. Deve ser aqui. Cheiro de alfazema é criança nova. Depois de alguns segundos um homem apareceu à porta. Com uma lamparina. Vi que era um homem simples e bom. Uns quarenta anos, no máximo.

– Pode entrar, por favor. Ele está lhe esperando.

Está lhe esperando ou o está esperando? Perguntei a mim mesmo. Mas não tive tempo de resolver a dúvida gramatical porque o homem já me havia conduzido para dentro.

A mãe era uma jovem de seus dezenove ou vinte anos. Alguns me disseram que ela era uma vigarista. Não foi essa a minha impressão. Estendeu-me a mão, cumprimentou-me com certa graça cheia de simplicidade e voltou para o seu lugar. Não vi nada de extraordinário nela. Era tão comum que, no mínimo, seu nome era Maria. Não, não era uma vigarista. Se havia isso de vigarismo naquela história toda, era da parte de alguém que andava explorando aqueles pobres miseráveis. Mas, antes que eu me decidisse a favor ou contra o vigarismo da história, o menino me falou:

– Sente-se, por favor.

Sentei-me numa pedra que estava mais perto dele. Queria ver o menino bem de perto. Não havia muita luz. A lamparina era, apenas, um ouro avermelhado dentro de um círculo azulado. Mal deixava divisar a fisionomia do menino.

– Fique à vontade. O Sr. é jornalista, não é? Eu gosto de vocês, os jornalistas. Já tive bons amigos entre os jornalistas. E ainda os tenho. Outros me são desafetos, mas o são gratuitamente. Não sei se você vai conseguir escrever alguma coisa com esta luz tão fraca. Meu pai, todos os anos, pensa festejar o Natal de um modo mais alegre. Mas ainda não pôde mandar ligar a luz. (E riu). Aliás, muitos, como meu pai, não podem fazer isso. Seria bom que todos tivessem ao menos luz em suas casas na noite de Natal. Mas eu ainda não vi luz elétrica desde que nasci pela primeira vez. Posso dizer que nunca vim à luz, mas, somente às trevas. (Riu de novo). Estou brincando novamente e você está perdendo seu tempo. Com certeza você não veio até aqui para brincadeiras, mas para tratar de assuntos sérios. Logo na noite de Natal. Vamos. Que é que você quer saber de mim?

Fiquei desnorteado quando ele me fez esta pergunta. Eu já estava desejando que ele continuasse a falar, de tal maneira que não me desse tempo para fazer qualquer pergunta. O que era mesmo que podia perguntar? Arrisquei:

– O mundo está melhor ou pior do que...

– Claro que está muito melhor. Será que você não vê isso? Basta que você pense no esforço de união que está havendo no mundo. Já sei. Você vai falar da bomba atômica, da de hidrogênio, da guerra, dos foguetes. Tudo isso é medo. Os homens têm muito medo. Eles querem se unir, mas têm medo. Não condene os homens por isso. O medo é uma coisa pavorosa. Quem diz isso muito bem é o Ariano Suassuna, no Auto da Compadecida. Eu também já tive muito medo. Todos os homens o sentem. É terrível! O que falta nos homens é um pouquinho mais de boa vontade. No dia em que eles tiverem mais boa vontade, terão a paz.

Aproveitei a deixa:

– Você é entreguista ou comunista?

O menino sorriu e eu senti que fizera uma pergunta muito tola. Na verdade, eu já estava sem saber o que perguntar. Olhei de soslaio para a mãe. Ela continuava sentada ao lado do menino, no chão. Remendava uma roupa de trabalho do marido.

– Ainda há muita miséria no mundo. (Disse isso e suspirou um tanto tristemente). Imagino que há quem diga que eu sou culpado disso. Mas como é que sou culpado se eu mesmo sou vítima? Estou sempre nascendo nestas condições. Você já deve ter reparado como é nossa casa... Se é que isso pode se chamar casa... Meu pai é uma vítima da injustiça social. O que ele ganha não dá para nada. Aliás, por aqui pela redondeza há muitos na mesma situação. Já reparou como nós estamos conversando só sobre política? Dizem que isso é política... Mas o culpado foi você que me perguntou sobre o mundo. Os homens pensam que basta trocar o regime político ou econômico para serem felizes...

Eu ia perguntando o que seria necessário fazer para que os homens sejam mais felizes. Mas o menino olhou para mim com tanta bondade e tão fixamente que eu pigarreei e baixei a vista para não encontrar de novo os seus olhos fortes e bons.

– Está vendo? Dizem que eu não falo. Mas até agora só quem falou fui eu. E me sinto mais tagarela do que nunca. Eu sempre falo. Nem sempre, porém, tenho quem me ouça. Quando encontro alguém que tenha paciência de me ouvir (eu quase disse um “não apoiado”, mas me lembrei que eu não estava nem em academia literária, nem em assembleia legislativa, nem em almoço de homenagem) não paro mais de falar. É que eu gosto muito de conversar com os homens. A gente trocando ideias sempre se distrai e os homens andam muito preocupados. Geralmente, todos os que me vêm visitar estão estafados como se estivessem carregando pesadíssimos fardos. Não pense que consigo sempre desfazer, aliviar este cansaço. Há muitos que saem daqui mais preocupados do que estavam antes. Mas sei que estes voltarão.

Olhei o relógio. Duas e meia da manhã. Não era possível! Eu já estava ali há mais de duas horas? Sentado naquela pedra dura? Quase não consegui me levantar. As pernas estavam dormentes e os rins doloridos. Não teria sido só a posição, mas, também, a umidade. A água quase minava da parede. Num canto havia um resto de fogueira. Brasa e cinza. Foi olhando para a fogueira que percebi dois vultos. Apertei bem os olhos discretamente e vi um burro e um boi. Fiz uma pergunta já de pé:

– Dizem que sempre há anjos quando você nasce?

– Anjos? Há, sim.

– E por que sempre que você nasce há, também, um burro e um boi?

Ele me olhou como da vez que eu ia perguntando o que era preciso fazer para que os homens fossem felizes. Pensei que não ia responder, mas respondeu:

– São poucos os que entendem os símbolos. Muito menos os que acreditam neles.

Vi que ele já estava com sono. Eu também. Despedi-me. Não me preocupei mais em descobrir, no pai e na mãe, sinais de vigarismo. Saí. O céu estava cheio de estrelas, mas a noite estava muito úmida. Fora, senti novamente o cheiro de alfazema e de samambaia. Um galo cantou numa árvore do quintal vizinho. Resolvi, de vez, voltar para casa. Quando dei o primeiro passo, me fiz a seguinte pergunta:

– Será que adianta eu escrever isso? Quem terá boa vontade para acreditar nestas coisas?...


(*) Publicado originalmente em O Jornal, Manaus, 27 de novembro de 1966. Garimpagem: Roberto Mendonça.
L. Ruas ou Luiz Ruas (1931-2000) foi poeta, ensaísta, cronista, professor universitário, ativista político e sacerdote católico.

Solstício do inverno e natal: imagens metafóricas de bem-aventurança e saúde

João Bosco Botelho


Só muito recente se tornou possível compreender melhor os ritmos que movem a natureza circundante: a noite e o dia, as flores da primavera após o degelo invernal, as fases da lua e o movimento das estrelas no céu.

De maneira precoce, o saber historicamente acumulado dos nossos ancestrais distantes assimilou o insubstituível significado do Sol à sobrevivência de todos. Após o inverno, a chegada do calor solar derretendo a neve e aquecendo os corpos representou a renovação da vida.

Existe na cidade de Newgrange, na Irlanda, um túmulo que serve de orientação climática aos agricultores da região. Na década de sessenta, os astrofísicos da Universidade de Dublin, comprovaram que a tumba, construída havia mais de cinco mil anos, é o mais antigo ¬ali¬nhamento astronômico conhecido. Essa sepultura pré-histórica foi construída por um povo agrário desconhecido. A característica fundamental do bloco lítico está na abertura de vinte centímetros existente no teto, por onde, no solstício do inverno, a luz do sol penetra e chega exatamente onde deveria estar repousando o morto celebrado.

Mesmo com a tecnologia disponível, que inclui os satélites e as gigantescas estações meteorológicas, é impossível prever com segurança os terremotos, os maremotos e as tempestades que causam tanta desolação e mortes no planeta. Se hoje, esse fato desperta atenção e medo, é possível pressupor significado semelhante nos grupos sociais que viveram há milhares de anos, desde os primeiros núcleos urbanos, quando a imprevisibilidade do clima determinava destruição das construções e colheitas, seguida de morte de pessoas e animais, obrigando à penosa reconstrução ou à migração forçada.

É possível que essa história de longa duração — medo da morte anunciada nos flagelos climáticos e júbilo na chegada do calor solar, na primavera, associado à saúde —, esteja presente na memória-sócio-genética coletiva e expressa no cotidiano por meio de muitas imagens metamórficas. Uma das mais significativas é a mãe-terra.

No processo ontológico de mudanças sociais e culturais, contíguo à luta pela sobrevivência, o instrumento das primeiras relações entre o Homem com outros animais — o sangue — foi substituído pela nova intimidade com a terra cultivada. O sangue, simbolizando a essência da vida, cedeu o lugar ao alimento vindo da terra cultivada.

Ainda hoje, em algumas culturas, na África central, ainda é possível encontrar arados com a forma de falo. Os significantes metafóricos da terra penetrada pelo arado e da vagina pelo pênis são semelhantes: ambos germinam vida nova para manter a sobrevivência do grupo. As colheitas vindas da mãe-terra continuam motivando celebrações semelhantes às dedicadas aos nascimentos de filhos e filhas da mãe-mulher.

As estruturas teóricas das religiões monoteístas e politeístas mantiveram as comemorações ao solstício do inverno. O vedismo (Bahagavad Gita 15,6) contém ensinamentos equivalentes aos da tradição judaico cristã (Is 40,10 11 e Jo 21,15 17). As celebrações religiosas, como a missa cristã, mantêm lugar de destaque à refeição, onde o pão e o vinho, filhos da mãe terra, estão presentes.

É particularmente expressiva a festa do nascimento do Sol Invicto (Dies Solis Invicti Natalis), próximo ao dia 25 de dezembro, comemorada na Roma antiga, junto com a saturnália. No dia em que o sol parecia se dirigir ao Norte, os trabalhos eram interrompidos, as casas recebiam enfeites com árvores e flores, os parentes trocavam presentes junto ao culto do deus Mitra (Natalis Solis).

O cordeiro e o Sol são descritos nos livros sagrados com a clara interdependência das duas fases da humanização: o primeiro, oriundo da primitiva relação do homem com os outros animais, representada pelo sangue, e o segundo, herança do sedentarismo, como condição insubstituível da sobrevivência.

Os incas do altiplano boliviano, sobreviventes de um dos mais brutais genocídios que o mundo conheceu, depois de quase quinhentos anos de humilhações, continuam rendendo graças à bondade da Pachamama, a imemorial mãe terra da cultura andina.

Essa concepção metafísica da ontogenia, no sentido aristotélico, é expressa nas imagens simbólicas dos mitos e ritos interligados ao complexo e coerente sistema de valores sociais sacralizados. Pode ter sido sobre esse antecedente, marcados nas memórias-sócio-genéticas, que os homens e as mulheres apreenderam e continuam reproduzindo, geração após geração, muitos valores atados aos ritmos cíclicos da natureza. Esse sistema de valores parece ter interferido no processo de divinização de coisas.

Nesse sentido, o alimento significa muito mais do que a coisa para engolir, representa a comunhão das pessoas com a mãe-terra, produtora do pão e do vinho, que acaba com a fome e gera saúde. Por esse motivo, nas celebrações terapêuticas, estão presentes o pão e o vinho, filhos da mãe-terra, pressupondo a reprodução a partir do arquétipo divino. De modo geral, os ritos, mitos e símbolos religiosos divinizam imagens metafóricas dos alimentos.

Durante centenas de anos, o dia 25 de dezembro representou a comemoração do solstício do inverno, consagrado ao Sol, cuja luz e calor — sinônimo da saúde e da manutenção de vida — começavam a prevalecer sobre a insegurança determinada pelo frio, modificando a mãe-terra, preparando-a para a semeadura.

Essa forte herança pré-cristã, identificando o Sol como fonte de vida e evitando a morte, contribuiu para que entre os primeiros escritos, no cristianismo primitivo, ocorresse certa comparação entre Jesus Cristo e o Sol.

As idéias e crenças religiosas em torno de origens heliostáticas mantêm certas repetições nas estruturas dogmáticas. Uma das mais interessantes é a importância do número doze. Os romanos adoravam doze grandes deuses e cada um deles presidia um mês; os gregos e os egípcios, doze divindades; e os cristãos, doze apóstolos.

Por outro lado, alguns grupos cristãos, e teólogos dos primeiros tempos, entenderam o cristianismo aderido ao culto solar: os maniqueus Cirilo e Teodoro sustentaram que o Sol era o próprio Jesus. São Leão explicou que os mesmos maniqueus aceitavam a alma com a substância calórica do Sol e que, depois da morte, retornaria à origem.

Os primeiros teóricos da cristandade procuravam estabelecer o dia do nascimento de Jesus Cristo. No ano 194 d.C., Clemente de Alexandria propôs o 19 de novembro do ano 3 a.C.; outros pretenderam que o nascimento ocorrera em 30 de maio ou 19 de abril. Enfim, logo perceberam ser impossível assegurar que Jesus nascera nessa ou naquela data.

Por não haver nos Evangelhos referência à data do nascimento de Jesus Cristo, a discussão dos exegetas perdurou mais de três séculos. Somente em 525, Dionísio, o Pequeno, fixou o nascimento de Jesus, no dia 25 de dezembro do ano 754, Aburbe condita (depois da fundação de Roma).

Os cristãos armênios permaneceram resistentes a essa ordem e acusaram de idólatras os teóricos da Igreja, por estarem adorando o solstício do inverno. Na mesma esteira, o parlamento inglês, quase dez séculos depois, em 1644, sob forte influência puritana, proibiu as comemorações do Natal.

Na tradição francesa, é o Bonhomme Noel, o Papai Noel, quem desce do céu trazendo presentes para as crianças boas, enquanto o Père Fouettard deixa os açoites para as más. Em certas culturas, é o próprio menino Jesus quem distribui os presentes; em outras, São Nicolau ou Santa Claus.

A presença da árvore de Natal é mais recente. É possível que tenha aparecido, primeiramente, na Alemanha, no século 19, em alusão à festa do pinheiro de maio, uma variante da do solstício de inverno.

Sem duvidar do valor da análise histórica da comemoração do Natal, interligando a chegada do solstício de inverno às ideias e crenças religiosas, para a maioria esmagadora dos homens, mulheres e crianças, pouco importa se existe algum fato histórico no dia 25 de dezembro: a extraordinária fé em Jesus Cristo continua unindo com júbilo as pessoas em torno de imagens metafóricas da saúde, como mensagem de bem-aventurança.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Fantasy Art – Galeria

The Messengers.
Griesbach e Martucci.
drops de pimenta 42


─ Pra ganhar tempo, a gente divide. Eu pego a lataria e os frios. Você, o material de limpeza.

─ Não é possível! Nem no supermercado a gente fica junto?


(Zemaria Pinto)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Um carnaval gigantesco
Jorge Bandeira*


Assisti e me refestelei com a apresentação de Carnaval Rabelais, do grupo TESC, com a direção segura de Márcio Souza e assistência de direção de Márcio Braz. Trata-se de uma ousada e anárquica dramaturgia que contempla o que há de melhor em François Rabelais, este autor “maldito” do Renascimento.

A crueza dos diálogos, a interpretação exagerada e precisa dos intérpretes torna este carnaval um atraente e estimulante jogo de cena do atual Teatro amazonense. Rabelais/TESC não perdoa nem mesmo o dramaturgo, que é inserido nas falas jocosas e corajosas, pois são poucos nesta vertente do Equinócio que dão a cara a bater em assuntos tão delicados como a corrupção nos meios políticos (com nome dado aos bois graúdos) e a oficialidade imposta pela “cultura bovina”, como diz um dos notórios personagens saídos de Rabelais/Márcio Souza.

É um Teatro feito para alegrar, para pensar, para refletir nossa situação aqui e alhures. No palco, tornado “transregional”, eis que aparecem as vicissitudes desta humanidade repleta de aberrações que se tornam ponto comum, onde o gigante Gargantua nasce de forma a recordar uma outra transgressão, desta feita cinematográfica: o momento caótico e absurdo do nascimento de outro anti-herói nas telas brasílicas – Macunaíma, na antológica cena do filme de Joaquim Pedro de Andrade. Porém, trata-se de Teatro, e de um bom e pertinente Teatro, que é elaborado com uma minúcia e técnica, mas que não o deixa “carregado” ou com maneirismos.

O elenco demonstra estar cioso de sua capacidade, de sua responsabilidade para com o espectador, o tempo de respostas, com ínfimos erros de “deixas” teatrais, torna esta trupe teatral de uma envergadura maciça, e entramos pra valer no jogo proposto pela encenação.

A música, com letras de Aldisio Filgueiras, é uma outra delícia, tal qual a glutonaria dos gigantes, da família que em livros posteriores de Rabelais tornar-se-á “pantagruélica.” Das “toadas escrachadas” aos rompantes de um metal jazzístico, das marchinhas insinuantes e calculadamente delinquentes, politicamente incorretas (que bom escrever isso!) tem-se a impressão que o carnaval engoliu o rock, ou blues, seja lá o que os nossos ouvidos escutam.

Tudo dentro de um caos construtivo e anárquico, onde os palavrões proliferam nas bocas das personagens e curiosamente vão adentrando naturalmente no espetáculo, como se aquelas criaturas cênicas imprimissem um selo, um estigma, no confortável ouvido do espectador. Não é um insulto, é uma necessidade objetiva, e os intérpretes o fazem tão bem que se torna uma língua “rabelaisiana”, condição básica para o entendimento desta estética transgressora do autor e do adaptador.

Grandes cenas são apresentadas, o Bar Renascentista acomoda os músicos no andar superior, feito um “deus ex machina” que abusa da sonoridade para tornar a vida mais palatável, a comilança e o sexo um prazer epicurista, enfim, estamos defronte a uma obra de arte verdadeira, protagonizada por atores, atrizes e músicos que se materializam em seres convergentes para que a obra apareça em toda a sua grandiosa estética e linguagem teatral.

Os figurinos lembram contos de fadas grotescos e bufões medievais, fazendo ecos ao teor inovador da escrita de François Rabelais, e de quanto foi inovadora sua contribuição ao mundo da literatura. O teatro feito pelo TESC atinge neste espetáculo uma segurança inquestionável, de elenco e dramaturgia que “regurgita” de forma precisa as contradições deste universo amazônico, inclusive suas neuroses culturais.

O personagem Rabelais costura as cenas com suas engraçadas e absurdas histórias, num jorro de situações que estimulam nossos sentidos, e aqui se inclui o paladar, com as extravagantes culinárias dos gigantes, sempre ávidos em tudo comerem, incluindo a si mesmos! A costura cênica de Márcio Souza é precisa, criteriosa e não força a barra ao fazer o gigante anárquico Gargantua chegar, da França, nesta “Paris dos Trópicos”, a história ganha seu túnel do tempo inserida num contexto histórico que abraça e envolve a França e o Brasil, dentro da ótica do “delírio do látex”, aliás, o tempo é uma convenção desrespeitada criteriosamente dentro desta dramaturgia e encenação exemplar, moderna.

Das grandes “sacadas” da adaptação, temos os saborosos recortes cênicos dos hippies, e aqui destaco que a citação de Theleme nos remete, por tabela, aos esotéricos da estirpe de um Aleister Crowley, personagem tão importante para a contracultura que está retratado em capa de disco dos The Beatles (Sgt. Pepper, de 1967, auge do movimento hippie e da psicodelia), e que emenda as referências dentro deste caos ordenado, ao de Bruxo que parodia um certo “Mago” da Academia Brasileira de Letras, que também transitou por esta literatura hermética nos anos 70, quando era parceiro de um certo Raul Seixas (aquele é imortal e continua fazendo vento, ahahahahah) e a sequência impagável da guerra perpetrada pelo Rei Picrochole, onde a imagem fálica da arma diz tudo: agora estamos fudidos! Ahahahahah.

Grande ator este Robson Ney Costa, de uma entrega total ao seu personagem insano, demente, cruel e fanático. Vale recordar também que estes gigantes da cena não amenizam em nenhum momento, eles não querem um consentimento, a eles interessa a transgressão e a reflexão da cena, do texto, da palavra. A eles importa o seu riso franco e verdadeiro. O aplauso justo e sincero. A vaia é bem-vinda, desde que verdadeira.

A verdade deste espetáculo, o rigor com que foi conduzido, é um momento que não poder ser perdido aos que transitam pelo Teatro feito na terra de Ajuricaba, aos que se interessam por um Teatro que usa a crítica e a existência humana na dose exata da perpetuação dos sentidos, da memória. Sem ser redundante, um espetáculo memorável. Uma boa cagada a todos vocês. Já ia esquecendo, obrigado ao Lázaro. Fui.


(*) Jorge Bandeira é historiador de formação e tradutor por compulsão.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Márcio Souza e a Amazônia
Tenório Telles


A história é um espelho em que se refletem os dramas, as lutas e as esperanças dos seres humanos e civilizações. Contemplá-lo permanentemente é condição imperativa para não cairmos nas repetições e armadilhas que o destino nos impõe. Fruto desse entendimento, o filósofo italiano Benedetto Croce concebia o fenômeno histórico como elemento vivificador da consciência: “A cultura histórica tem o objetivo de manter viva a consciência que a sociedade humana tem do próprio passado, ou melhor, do seu presente, ou melhor, de si mesma”.

O escritor Márcio Souza, cioso da importância da memória histórica no processo de construção da nacionalidade e de formação da subjetividade dos indivíduos, elabora uma obra que tem como um de seus fundamentos a consciência histórica. Sua produção ficcional, ensaística e dramática reflete essa preocupação e, sobretudo, sua profunda identificação com a resistência dos homens e mulheres da Amazônia – em luta permanente contra as investidas dos projetos colonialistas e interesses alienígenas que ameaçam a região.

Comprometido com a História da Amazônia, Márcio lançou este ano um de seus trabalhos mais importantes: História da Amazônia – testemunho contundente sobre o passado do subcontinente amazônico, em que faz a denúncia do processo de destribalização e massacre perpetrado historicamente contra suas populações. Considera que o “processo histórico da Amazônia... tem sido como o instinto animal livre que defende o seu território, que delimita o seu domicílio e repele as investidas da desinformação e do preconceito. Cada momento da história, ao correr o risco de cair no esquecimento ou sofrer uma explicação mistificadora, deve ser como uma prova do ato coletivo de existir, como um marco da presença afirmada ao longo do tempo. Por isso, há livros de História com o mesmo prestígio de uma vitória bélica. E são essas obras que acompanham a construção da personalidade de um povo, como um testemunho de potência, de seu desejo afirmativo”.

História da Amazônia possui esses atributos. É um livro escrito para dizer não ao esquecimento, lançar luzes sobre o passado, denunciar os criminosos e resgatar do limbo os oprimidos e massacrados. É um livro escrito para dialogar com o presente, com os jovens, com os professores, com os homens e mulheres que se preocupam com o futuro da Amazônia. É um chamamento à consciência – libelo contra a perda da memória, para que tenhamos sempre a memória de nossos erros e, assim, possamos trabalhar pela construção de um futuro histórico que não seja a expressão de nossa derrota, mas da vitória do ser humano sobre a opressão e a destruição de nossos rios, florestas, bichos, valores culturais, saberes milenares e dos seres encantados das matas. De nossa identidade, que, como nos alerta o autor, é “um corpo formado pelos rios enormes, pelas selvas brutalmente dilaceradas, pelos povos indígenas dizimados, pela saga de homens na conquista da natureza. Mas ao mesmo tempo não deixa de estar perenemente voltada para Meca, que é a própria Amazônia, um espaço tão vasto quanto a crença, capaz de fazer a geografia confluir para a pedra negra que dentro de nós indica que somos da Amazônia, filhos da mata, filhos das águas”.

O objeto do livro não é apenas a Amazônia brasileira, “mas também aquelas que falam espanhol, inglês e holandês”, e especialmente a que é berço das populações nativas que forjaram sua identidade e história antes da chegada dos conquistadores. A obra foi escrita para ser um farol e lançar luzes sobre as sombras que pairam sobre o tempo e a memória desse vasto e imenso mundo verde e aquoso – e quem sabe ajudar a “superar os erros e até sarar as feridas”.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Sobre a matemática de Borboleta
.
(conto infantil)

Allison Leão

II


Antônio não tinha ficado amigo do Felipe de Oliveira Borboleta por causa da genialidade que este demonstrava ter na tabuada. Havia sido por pena de sua triste figura. Isso não tornava Antônio muito nobre, é claro, mas ele já havia se esquecido dos motivos que o levaram a se aproximar de Felipe de Oliveira Borboleta, porque agora o que importava era que tinha dado muita sorte em ser amigo daquele menino desengonçado. Os demais colegas já tinham percebido o valor de ser amigo de Felipe de Oliveira Borboleta, mas a esta altura ele não se deixava entregar a outra amizade senão à de Antônio. Às vezes aceitava um ou outro pastel de alguém, mas, na hora da tabuada, só aliviava a barra do amigo. Eram antes dois enjeitados ou, na melhor das hipóteses, dois pedaços de nada que faziam companhia um ao outro – um, por não ter nada que chamasse atenção, outro, pela aparência deprimente –, mas agora eram distintos. Na verdade, Antônio não havia feito grandes coisas, permanecia com sua mentalidade mediana: às vezes acertava uma ou outra pergunta na tabuada; muitas vezes errava. Mas eram as mesmas que todos – exceto o Felipe de Oliveira Borboleta – erravam. À sombra de seu amigo Antônio se apontava: o amigo do garoto mais inteligente da 5a série.

De vez em quando, alguém vinha pedir a Antônio que intercedesse junto ao Felipe de Oliveira Borboleta para que ele maneirasse nesta ou naquela mão. Antônio dizia que estudaria o caso, faria lá seu tráfico de influência. Mas nunca chegava a pedir por ninguém. Que se danassem! Qualquer coisa, depois da sabatina, dizia para o suplicante que não se aborrecesse com o Felipe de Oliveira Borboleta, pois ele era muito aplicado na tarefa de dar bolos. Aqueles foram os melhores dias da vida escolar de Antônio Douglas.

Certa semana, a professora, querendo variar, passou a casa de 2. A maldita casa de 2! A turma respirou aliviada porque seria uma semana sem esquentar as mãos com os bolos de Felipe de Oliveira Borboleta, pois todos consideravam moleza a casa de 2. Mas Antônio Douglas tinha seus problemas. Como de costume, Felipe de Oliveira Borboleta estava sentado atrás do amigo, e justo para este calhou: 2+2? Cinco, disse, como sempre hipnotizado por aqueles números tão fáceis de se resolverem. Incrédula, ela repetiu a pergunta, e ela nunca repetia, 2+2? Cinco, ele reafirmou. Antônio Douglas sabia que não devia dizer isso, mas não conseguia evitar. A questão passou ao amigo. O alívio, depois do vexame de errar essa simples pergunta, foi saber que era Felipe de Oliveira Borboleta quem o “castigaria”. Por isso, deixou a mão mole, à mercê da displicência, como sempre.

Talvez por estar tão entregue e desprevenido o choque lhe tenha sido tão grande. Antônio Douglas chorou pela dor na mão, porém muito mais pelo susto e pela confusão na sua cabeça. Não era para ser de brincadeira? Ele costumava ouvir aquele tremendo estalo vindo de mãos alheias – não sabia o que era ouvi-lo e sentir dor ao mesmo tempo. A professora continuou a sabatina e Antônio Douglas permaneceu olhando para o efeito do bolo: a mão inchando lentamente, avermelhado-se e conservando pequenas pintas claras, talvez dos furinhos que havia na palmatória. Requinte didático.

Antônio Douglas não olhou para trás. Estava confuso. Mas também estava furioso com o Felipe de Oliveira Borboleta. Quando acabou a aula, deixou-se retardar. Voltou sozinho para casa, segurando com uma das mãos a outra machucada, como se carregasse um passarinho morto.

Nas semanas seguintes não se falaram. Antônio Douglas andava pelos cantos. Sua imagem havia desmoronado, sua influência estava irremediavelmente perdida na turma. Agora ele era só aquele que um dia foi. Mas o Felipe de Oliveira Borboleta estava bem. Havia se enturmado com os garotos populares. Andava de afagos com o William, o Jackson, o Jean e o Kevin. E, pelo visto, esquecera-se daquela grande amizade.

Nos dias de tabuada Antônio Douglas passou a faltar aula. Saía de casa, mas embromava pelas ruas até a hora de voltar. Nos outros dias era aquele Antônio, menininho de 9 anos, do primeiro dia de aula, pois o Felipe de Oliveira Borboleta tinha contado a todos o seu segredo. Certa vez, não agüentando mais tanta rejeição, Antônio foi procurar o japonês. Perguntou-lhe se podia socar sua barriga. Shito Kano ficou feliz, porque ninguém nunca mais havia feito isso, os colegas tinham se cansado, e agora Antônio, que nunca havia se interessado por aquela prática, o solicitava. Antônio bateu muito naquela couraça e, aliviado, agradeceu. O japonês, em nada alterado, disse que não fora nada, estava mesmo sem treino. Shito aproveitou para fazer um reparo: não era japonês, era neto de índios. Seu nome derivava da conjunção do analfabetismo dos pais com a desatenção ou a surdez de algum tabelião. Shito Kano deveria ter sido Chico Tucano – assim mesmo, e não Francisco. Mas sua infelicidade onomástica não interessava a Antônio, que apenas quis saber se poderia socar-lhe a barriga mais vezes. Chico disse que não tinha problema, Antônio batia muito fraco.

Num dos dias em que se ausentava da escola, quando já voltava para casa, Antônio cruzou, numa rua pouco movimentada, com seu antigo amigo, que vinha acompanhado de novas amizades. Enquanto o William, o Jackson, o Jean e o Kevin cercavam Antônio, na forma de um quadrado hostil, Felipe de Oliveira Borboleta pôs-se no centro dessa formação, perante o ex-amigo. Já que Antônio não havia ido pra aula, Felipe de Oliveira Borboleta faria sabatina ali mesmo. Perguntou quanto eram 2+2. Cinco, Antônio respondeu em cima. Nisto, Felipe de Oliveira Borboleta pediu a um dos garotos que lhe fizesse a mesma pergunta, ao que obviamente respondeu 4. Os outros então seguraram Antônio e o antigo amigo passou a lhe socar a barriga, que infelizmente não era tão preparada quanto a de Chico Tucano. Felipe de Oliveira Borboleta repetia a pergunta, 2+2? 2+2? 2+2? 2+2? E Antônio, sempre absorto pelos fascinantes números, cinco! cinco! cinco! cinco! E cada vez que falava era um soco na barriga. Felipe de Oliveira Borboleta disse para Antônio fazer-lhe a mesma pergunta. Ele fez. E o outro, como era de se esperar, sempre dava a resposta correta, desesperadoramente correta. Como podem ser cinco? – Felipe de Oliveira Borboleta perguntou a Antônio – é impossível! Diz que são 4! diz!, berrou. Os garotos que seguravam Antônio passaram a achar aquilo muito estranho e o soltaram devagar, indo depois embora. Felipe de Oliveira Borboleta estava no chão, de cara no asfalto. Implorava para que Antônio lhe ensinasse a pensar como 2+2 podem ser cinco.

Ficou lá chorando e suplicando. Não chegou a ver o antigo amigo se afastando – devagar e ainda com a barriga dolorida – da sua triste presença.